OS “COCÔS” PRESIDENCIAIS

Jair Bolsonaro

Começo fazendo uma afirmação:

“- Meu trabalho é uma grande merda!”

Muitos de vocês, em algum momento de maior frustração, com certeza já se expressou desta maneira. No meu caso, como escrevi, isso é uma afirmação: sou gestor e educador ambiental, além de jornalista especializado em questões ambientais. Desde junho de 2016, publico diariamente artigos em meu blog falando dos recursos hídricos, dos resíduos sólidos, uso da água na irrigação e geração de energia elétrica, e, entre muitas outras coisas, falando dos problemas ligados aos esgotos. Inclusive, em 2012, publiquei um livro sobre esse assunto: Esgoto Sanitário: que trem é esse sô? Trabalhava na época numa grande construtora de Belo Horizonte e, por isso, o “sotaque” mineiro do título.

Além de conhecimentos formais obtidos em vários cursos universitários, inclusive na área de engenharia civil, tenho uma boa vivência prática com a questão: desde o ano de 2003, venho trabalhando em diversas obras públicas de infraestrutura na área de saneamento básico, onde incluo: o Programa Onda Limpa, que ampliou os sistemas de coleta e tratamento de esgotos no litoral paulista, e o Projeto Tietê, que vem fazendo um trabalho semelhante na Região Metropolitana de São Paulo. Destaco também dois anos de trabalho na cidade de Porto Velho, em Rondônia, onde tentamos implantar um grande sistema de coleta e tratamento de esgotos – brigas entre os diferentes grupos políticos do Estado impediram o avanço das obras.

Nesses último dias, venho observando que Sua Excelência, o Presidente Jair Bolsonaro, vem se mostrando um tanto quanto que obcecado pela questão do saneamento básico, especialmente em relação aos excrementos humanos, o popular “cocô”. Em uma das suas declarações, sua Excelência afirmou que uma das formas de reduzir o impacto ambiental dos excrementos humanos seria a redução do consumo dos alimentos, o que resultaria na necessidade de “fazer cocô” apenas a cada dois dias. Em outra afirmação, afirmou que vai eliminar o “cocô vermelho” dos comunistas do país, seja lá o que isso quer dizer. Mais recentemente, criticou um “cocô fossilizado” de um índio, que parece estar atrasando o licenciamento de uma obra no Paraná.

Com todo o respeito à Sua Excelência, o Sr. Presidente da República, e com base nos meus conhecimentos nessa área, gostaria de tecer alguns comentários:

De todos os problemas do saneamento básico, o várias vezes relembrado “cocô” é um dos menores. Em média, cada brasileiro que mora em áreas urbanas gera cerca de 150 litros de esgotos a cada dia. Esse número incluiu o gasto de água com banhos, lavagem de roupas, limpeza das casas, para cozinhar e lavar a louça, além dos gastos de água nos vasos sanitários, onde são usados entre 3 e 20 litros de água a cada acionamento, conforme o modelo da válvula de descarga. De todo esse volume, o “cocô” representa algo na casa de 3% do volume total de esgotos.

Além de pouco representativo em volume unitário por pessoa, o “cocô” é rapidamente degradado no meio ambiente: formada basicamente por matéria orgânica, a massa fecal, um nome mais técnico para o dito cujo, é consumida por bactérias que vivem na água – o “cocô” vira alimento de bactérias. Uma família ou uma pequena comunidade isolada irá criar impactos ambientais praticamente desprezíveis com seus esgotos domésticos. Os problemas começam com as grandes aglomerações humanas que vivem nas cidades, onde faltam bactérias para comer rapidamente quantidades grandes de massa fecal. Nesses casos, a solução são os sistemas de coleta e tratamento de esgotos, que infelizmente não existem em quantidade suficiente nas cidades de nosso país.

É aqui, Sr. Presidente, que a questão começa a ficar realmente séria e onde sua influência poderá ser decisiva – precisamos aumentar os investimentos públicos em sistemas de coleta e tratamento de esgotos na maioria esmagadora das cidades do país. E não é só isso – os esgotos domésticos são uma pequena parte do rol de problemas associados ao saneamento básico.

Diferente dos esgotos domésticos, onde há basicamente matéria orgânica, os esgotos industriais apresentam uma enorme gama de produtos químicos, óleos e metais pesados, substâncias altamente nocivas ao meio ambiente e que não são consumidas por bactérias. Esses efluentes precisam passar por unidade de tratamento de esgotos industriais específicas para cada um dos casos, com muita fiscalização das autoridades ambientais e órgãos dos Governos.

Outra questão séria do saneamento básico são os sistemas para controle de águas pluviais, algo muito esquecido pelas prefeituras de todo o país. Esses sistemas incluem desde as sarjetas do meio-fio das ruas e avenidas até as grandes tubulações de drenagem para as águas das chuvas, que têm como objetivo o controle dos alagamentos e enchentes. A cada novo período de chuvas, as tragédias das águas se repetem em cidades de todo o país por falta desses sistemas, Sr. Presidente.

Não menos importantes para o saneamento básico, são os serviços de limpeza urbana e destinação dos resíduos sólidos, questões que grande parte de nossas cidades ainda não conseguiram equacionar. Existem perto de 3 mil grandes lixões por todo o país, onde resíduos sólidos de todo os tipos, incluindo-se resíduos perigosos como os hospitalares, industriais e da construção civil, são simplesmente abandonados sem maiores preocupações. Batalhões de catadores de “recicláveis” se aventuram diariamente nesses locais, buscando materiais que possam ser revendidos e transformados no seu sustento diário. Resíduos sólidos descartados de forma irregular ou abandonados nas ruas e em terrenos baldios favorecem o crescimento das populações de vetores – insetos como mosquitos e baratas, ratos, escorpiões e aranhas, entre muitos outros, transmitindo toda uma série de doenças para as populações.

Na época das chuvas, os resíduos sólidos largados por todos os cantos das cidades entopem bueiros e tubulações de drenagem, amplificando, em muito, os alagamentos, as enchentes e os transtornos para parcelas grandes de nossas populações. As questões ambientais do saneamento básico, Sr. Presidente, são grandes e complexas, indo muito além dos problemas ligados ao “cocô”.

Finalizando e sem querer faltar com o respeito ao cargo que Vossa Excelência ocupa, e aos bons projetos e medidas em andamento no seu Governo, afirmo que o saneamento básico não é para amadores.

Um grande abraço Sr. Presidente!

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