A EDUCAÇÃO AMBIENTAL E A NOVA SOCIEDADE, OU DA VOZ SOLITÁRIA QUE CLAMAVA NO DESERTO ATÉ A REDE SOCIAL

O ser humano é o resultado de uma longa jornada, tanto de indivíduos quanto de grupos.

A nossa espécie, chamada de homo sapiens ou “homem inteligente” surgiu em algum lugar no nordeste da África entre 160 e 200 mil anos atrás, conforme a fonte consultada. Supõe-se que entre 60 mil e 80 mil anos atrás começou o processo de saída de grupos desses humanos da África em direção da Ásia e da Europa. Calcula-se que há aproximadamente 50 mil anos os seres humanos atingiram o ápice da evolução física e mental da nossa espécie – passamos a ser classificados então como homo sapiens sapiens, vulgarmente conhecido como o homem moderno.

Ao longo de todos esses milênios, membros de nossa espécie estiveram reunidos em pequenos agrupamentos familiares ou clãs. Espalhados em extensas áreas do globo terrestre, nossos ancestrais lutaram dia após dia pela sobrevivência, hora perseguindo e caçando animais, hora pescando e coletando frutos do mar, ou ainda coletando frutos, sementes e raízes; de quando em vez era necessário lutar contra clãs rivais pelo domínio do meio. De vida essencialmente nômade, nossos “antigos” vagavam sem um rumo certo, seguindo as rotas migratórias de animais, buscando os terrenos menos acidentados, acompanhando matas mais promissoras para o fornecimento de víveres ou simplesmente buscando zonas de clima mais ameno. Muitas foram as linhagens humanas que simplesmente desapareceram ao longo dessas caminhadas, varridas para algum obscuro substrato da história, abatidas pela fome, por tragédias naturais, por guerras ou pela incapacidade de inovar e buscar alternativas de sobrevivência.

“A mais antiga de todas as sociedades, e a única natural é a família. (…) É a família, portanto, o primeiro modelo das sociedades políticas.”

Jean-Jacques Rousseau – O Contrato Social

A dureza desta longa caminhada é comprovada por estudos de linhagem genética, os quais demonstram que todos os europeus modernos descendem de um reduzido grupo de sete mulheres – as sete mães ancestrais. Isto significa que em algum momento num passado distante o homo sapiens esteve muito próximo da extinção. O Homem de Neanderthal, nosso primo-irmão, não teve a mesma sorte e, com uma boa ajuda do homo sapiens, desapareceu da face da Terra há aproximadamente 30 mil anos.

Nessa fase arcaica da humanidade eram as habilidades e os conhecimentos de um ou de poucos indivíduos líderes o que impulsionava a vida do seu grupo: a força e a mira para arremessar uma lança contra uma presa, a habilidade de lascar pedras para construir ferramentas, utensílios e armas, o domínio do fogo, a coragem para confrontar os inimigos e para conduzir com mão forte o seu clã familiar. A morte do líder poderia virtualmente levar a extinção de todo o grupo.

O rumo da humanidade só viria mudar há aproximadamente 10 mil anos atrás com o advento da agricultura. O escritor contemporâneo Alvin Tofller cunhou essa revolução como A Primeira Onda, tamanho foi o impacto das mudanças nos destinos da humanidade. Produziu-se uma profunda modificação na forma de vida das populações humanas e o rumo da história seguiu por caminhos totalmente novos. A produção agrícola possibilitou a formação dos primeiros agrupamentos humanos fixos – a caverna aos poucos foi sendo substituída pela aldeia junto aos campos agricultáveis e planícies pastoris; o clã familiar cedeu lugar ao grupo multifamiliar. Os humanos pouco a pouco descobriram que, vivendo em grupo, maiores eram as possibilidades de sobrevivência do indivíduo e a qualidade de vida era muito superior. O trabalho coletivo de muitas mãos dava mais frutos no campo, permitia a empunhadura de mais armas para a defesa da aldeia e garantia a sobrevivência de um número cada vez maior de indivíduos, especialmente as crianças e os mais fracos. As aldeias prosperavam e cresciam cada vez mais.

O viver em grupo revolucionou a história da humanidade – produziu mudanças nas áreas da técnica, da cultura e das artes, nos saberes, nas leis e regras de convivência entre tantas outras mudanças que aceleraram o progresso da humanidade. Em poucos milênios surgiriam as primeiras grandes civilizações da história e se consolidaria a espécie humana como a “dominante” em todos os recantos do planeta. O homem “coletivo” se mostrou muito superior ao homem como indivíduo.

Tudo o que foi produzido ou criado pelos seres humanos nômades nos 150 ou 200 mil anos anteriores foi rapidamente superado por umas poucas gerações de agricultores sedentários. A segurança alimentar gerada pelas colheitas anuais permitiu que a humanidade dedicasse tempo para outras atividades: desenvolveram-se as técnicas construtivas, a metalurgia, a tecelagem, a arte da guerra, a música, o teatro, a literatura, as religiões entre outras criações. A pintura rupestre registrada nas paredes das cavernas foi em muito superada pelos azulejos vitrificados da Mesopotâmia e pelos afrescos multicoloridos do Egito; a tosca lança de madeira usada na caça foi subjugada pelo arco e flecha disparado pelo cavaleiro das estepes; o medo da água do cavernícola foi suprimido pelo advento da navegação; o terror noturno cedeu lugar ao sono tranquilo da aldeia cercada; os rudimentares instrumentos de percussão foram ensurdecidos pelos afinados grupos de corda e sopro. O esforço coletivo fez a sociedade evoluir com assombrosa rapidez.

A humanidade continuou caminhando e evoluindo…

Relativamente recente em termos históricos, a Revolução Industrial do final do século XVIII, ou A Segunda Onda conforme Alvin Toffler, potencializou o fenômeno da urbanização iniciado ainda na alta Idade Média (a partir do século XII) e que só fez crescer até os dias atuais – nos países mais desenvolvidos 80% da população vive nas áreas urbanas; na Bélgica esse índice é de 97%; no Brasil 81% (Censo 2000).

As relações sociais mudaram com o advento da industrialização: o antigo agricultor ou pastor isolado no meio do campo deu lugar aos operários agrupados no galpão da fábrica. A necessidade de trabalhadores com um mínimo de conhecimento e especialização impulsionou a educação em massa – saber ler as horas de um relógio, preparar um relatório de produção e dominar as operações mais elementares da matemática eram vitais no novo mundo criado pelas fábricas. Como um efeito colateral dessa precária alfabetização, a grande massa passou a ter acesso a conhecimentos antes restritos a um pequeno número de letrados – os livros e os jornais abriram mentes e perspectivas. A voz rouca do camponês encontrou eco nessa nova sociedade e se transformou num estrondo coletivo de reivindicações por melhores condições de vida e de trabalho – surgem os primeiros sindicatos e na sua esteira as associações de profissionais, de alunos, de professores, de aposentados, de consumidores, de políticos, as ONGs e tantos outros entes coletivos de nosso dia a dia. As mulheres perceberam que era possível ter outros papéis além daquele de mãe e dona de casa imposto pela sociedade tradicional: o mundo se transforma cada vez mais rápido e se integra cada vez mais.

A crescente urbanização das últimas décadas aliada ao desenvolvimento das tecnologias da informação fortaleceu ainda mais a humanidade dos múltiplos coletivos – o mundo está interligado por uma imensa rede de comunicação: uma rede social planetária. A ideia de uma Aldeia Global proposta pelo filósofo canadense Herbert Marshall McLuhan (1911-1980) há mais de cinquenta anos no livro “A Galaxia de Gutenberg” (1962) virou uma realidade. Longe se vai o tempo em que a voz solitária de um João Batista clamava no deserto (Evangelho de João 1:23)…

Esta rede global de comunicação criou o conceito da comunicação instantânea – qualquer fato ou evento relevante (e muitas coisas absolutamente irrelevantes) cruza os quatro cantos da Terra em questão de segundos. Terminais portáteis de voz e dados, computadores e televisores mantém pessoas conectadas e informadas 24 horas por dia. Um exemplo do alcance dessa rede: mais de um bilhão de pessoas assistiram ou acompanharam ao vivo o jogo final da Copa do Mundo de Futebol em 2014, que consagrou a Alemanha como a grande campeã – 15% da população mundial. Não é por acaso que o futebol é o esporte coletivo mais popular do mundo. O alemão Johannes Gutenberg (1398-1468), que há mais de meio milênio assombrou o mundo e revolucionou a comunicação escrita com sua prensa de tipos móveis, nem nos seus mais profundos devaneios poderia imaginar sua pátria germânica conquistar tal glória diante de tão grande platéia!

Característica marcante das redes sociais é a democratização do acesso – pessoas de todas as classes sociais (considerando-se que pessoas de baixa renda tenham acesso gratuito ou de baixíssimo custo aos provedores de internet) podem se conectar a qualquer site de notícias, blog, grupo ou fórum de discussão e interagir digital e instantaneamente com qualquer outra pessoa ou grupo; essa capilarização das redes sociais permite que qualquer assunto, como a educação ambiental por exemplo, tenha um imenso potencial para exposição, discussão e circulação de ideias e projetos em escala cada vez mais global.

A informalidade da comunicação nas redes sociais também é um fator positivo para as discussões. Fotos, vídeos, textos, apresentações, músicas, poesias e qualquer outra forma de comunicação tem vez e voz garantida no hiperespaço da internet, permitindo a divulgação de conhecimentos em formatos dos mais informais aos mais sofisticados. O barateamento dos terminais de acesso, notadamente os smart phones e os tablets com máquina fotográfica e filmadora intregradas vem produzindo uma revolução nas comunicações – cada vez mais pessoas comuns utilizam as redes sociais para mostrar feitos e denunciar mal feitos de toda ordem – destaque para as agressões ao meio ambiente. Esse patrulhamento social vem contribuindo cada vez mais para a informação e análise crítica da sociedade; nos casos envolvendo as questões ambientais incentiva a conscientização da importância da preservação ambiental e auxilia as autoridades a punir e cobrar responsabilidades dos autores dos delitos.

Focando em ecologia, a rede global de comunicação firma-se como uma grande aliada – os problemas e os desastres ambientais são mostrados rapidamente para um número cada vez maior de pessoas. Uma simples busca na internet sobre o recente acidente com a barragem de resíduos de mineração na cidade de Mariana, Minas Gerais, encontrou aproximadamente 217 mil citações (busca feita em 05/03/2016), acessadas dezenas de milhões de vezes nos últimos três meses. A empresa (ir)responsável por este que é, de longe, o maior desastre ambiental já ocorrido no Brasil – a Samarco, até que tentou usar os mesmos meios de comunicação para se defender, porém sua campanha de mídia acabou rechaçada tanto pela opinião pública quanto pelos órgãos da justiça e do meio ambiente. Será cada vez mais difícil jogar o lixo através da cerca da aldeia global sem que alguém perceba – para o bem ou para o mal vivemos sob a égide do “Big Brother” proposto por George Orwell (1903-1950) em seu livro “1984” (publicado em 1949).

A organização coletiva dos seres humanos, portanto, vem sendo um dos principais fatores do desenvolvimento social, cultural, tecnológico e, mais recentemente, ambiental nos últimos 10 mil anos. Os recentes avanços da tecnologia de comunicação só fizeram acelerar esse desenvolvimento e vem produzindo profundas mudanças na organização da sociedade e nas formas de inter-relaciomento entre seus indivíduos. Logo faz todo o sentido utilizar de maneira positiva essa nova forma de integração e inter-relação da humanidade para divulgar, debater e implementar a educação ambiental em todas as suas formas. O meio ambiente, em amplo sentido, é coletivo – é formado por todos os elementos vivos e não vivos numa escala planetária; todos os seus elementos são interdependentes; uma ação de qualquer indivíduo ou grupo gerará, no mínimo, uma reação contrária ou complementar de outro indivíduo ou grupo. A aldeia global não é mais tão grande quanto já foi no passado – é preciso zelo e muito cuidado com a sua conservação.

As modernas ferramentas de comunicação estão à disposição da nossa sociedade (des)organizada (o conceito de sociedade organizada vem mudando muito rapidamente). Cabe a todos nós, atores e parceiros da imensa teia global da vida, reunir esforços para a construção de um mundo melhor. A educação ambiental tem muito a contribuir nesse esforço.

Mais do que em qualquer outra época, uma andorinha sozinha não fará o verão!

Então, veremos…

Bibliografia Consultada:

Materiais didáticos da Universidade Cruzeiro do Sul – UNICSUL.

O Contrato Social – Jean-Jacques Rousseau – Editora Cultrix – São Paulo

A Terceira Onda – Alvin Toffler – Editora Record – Rio de Janeiro

A Grande História da Evolução – Richard Dawkins – Companhia das Letras – São Paulo

O Maior Espetáculo da Terra – Richard Dawkins – Companhia das Letras – São Paulo

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