OS REFUGIADOS DO CLIMA

BANGLADESH-CLIMATE

Eu acredito que a maioria dos leitores deva conhecer a história de Noé, um dos velhos patriarcas da Bíblia. Alertado pelo próprio Deus sobre um iminente dilúvio que desabaria sobre a Terra, Noé recebeu instruções detalhadas para a construção de uma grande embarcação, através da qual poderia salvar sua família, vizinhos e os animais de uma morte certa por afogamento. Chamado de louco pelos seus compatriotas, Noé não se intimidou e gastou muitos anos em sua empreitada. Segundo a narrativa, um casal de cada espécie animal veio voluntariamente se abrigar na arca – nenhum outro ser humano além de Noé e sua família buscou refúgio contra a tragédia. Chuvas torrenciais caíram durante vários dias, cobrindo toda a Terra e matando todos os “pecadores”.  

Evidências geológicas indicam que, por volta do VI milênio antes de Cristo, houve mesmo uma grande enchente em regiões da Ásia Central. Segundo uma das hipóteses dos geólogos, uma série de fortes terremotos pode ter fechado ou reduzido o Estreito de Bósforo, na Turquia, o que foi seguido de períodos de fortes chuvas na Ásia Central. Isso levou a uma forte elevação do nível do Mar Negro, que acabou invadindo grandes extensões de territórios de baixa altitude. Milhares de pessoas (talvez milhões) foram obrigadas a abandonar suas terras e fugir para terrenos mais altos. A história de Noé e de sua saga aparece em diferentes narrativas de diversos povos da região, sendo que a maioria desses relatos são bem anteriores à versão descrita pelos judeus em seu livro sagrado. 

A narrativa do dilúvio bíblico é apenas uma entre milhares de outras histórias e relatos históricos (muitos se aproximam mais do misticismo) de grandes tragédias climáticas vividas por diferentes povos, em diferentes locais e tempos ao longo da história. O rumo e os destinos de muitos povos antigos foram, literalmente, destruídos por eventos climáticos extremos como secas, enchentes e furacões. Nações inteiras acabaram por serem destruídas pela fúria do clima e grandes contingentes populacionais foram deslocados para outras regiões. 

Nas últimas décadas, as mudanças climáticas globais criaram uma nova categoria de refugiados, que passaram a ser chamados de refugiados climáticos ou ambientais. Essa nova “classe” de refugiados veio de somar a outros milhões de deslocados por guerras e por tragédias ambientais naturais. De acordo com estimativas da ONU – Organização das Nações Unidas, existem perto de 65,6 milhões de refugiados de guerras, conflitos internos, perseguições políticas e violações dos direitos humanos no mundo atual. Os refugiados climáticos são estimados em mais de 20 milhões de pessoas a cada ano. 

Entre as principais razões para a migração de populações por causas climáticas estão a desertificação, o aumento do nível do mar, as secas e a interrupção de fenômenos naturais como as monções, o período de fortes chuvas anuais do Subcontinente indiano e Sudeste Asiático. De acordo com o Relatório Mundial de Desastres de 2001, publicado pela Cruz Vermelha Internacional, os desastres ambientais estão superando as guerras como um fator do deslocamento de populações.  

O continente africano oferece diversos exemplos das tragédias que estão sendo criadas pelas mudanças do clima mundial. De acordo com informações recentes divulgadas pela ONU, perto de 45 milhões de pessoas estarão em grave situação de insegurança alimentar nos próximos seis meses por causa da forte seca que está assolando a África Austral, um tema que já tratamos em postagem anterior. Mudanças no padrão climático do Oceano Índico, com origem no aquecimento global, estão reduzindo as chuvas no Sul e no Leste da África, o que tem resultado em um forte período de seca em países como Angola, Lesoto, Madagascar, Malauí, Namíbia, Moçambique, Zâmbia, Zimbábue e África do Sul

Nos últimos cinco anos, as chuvas foram regulares em apenas um. Para piorar a situação, as temperaturas na África Austral aumentaram o dobro da média mundial. Com a falta de chuvas e com o aumento da temperatura, a produção agrícola entrou em colapso em muitas regiões, colocando a sobrevivência de milhões de pessoas em risco. Sem outras alternativas, essas populações passam a migrar em busca de melhores condições de vida em outras regiões. 

Parte dessa mesma região foi atingida em março deste ano pelo ciclone Idai, que causou forte destruição em Moçambique, Madagascar, Malauí, Zimbábue e África do Sul. Foram registradas mais de 700 mortes, especialmente em Moçambique, e centenas de milhares de pessoas ficaram desabrigadas. As estimativas oficiais afirmam que perto de 2,5 milhões de pessoas foram afetadas diretamente pela fúria do Idai

O aumento do nível do mar também está se transformando em uma outra forte razão para o deslocamento de populações. Em 2009, os habitantes das Ilhas Carteret, em Papua Nova Guiné, se transformaram nos primeiros refugiados climáticos oficiais por causa da elevação do nível do mar. Com uma altitude máxima de 1,7 metro acima do nível do mar, as terras dessas ilhas passaram a ser varridas pelas ondas, o que destruía casas e plantações. 

Sem outra alternativa, o Governo local iniciou um plano de evacuação total da população em março de 2009. Os cerca de 2.600 habitantes foram transferidos para ilhas próximas com maior altitude, como a Ilha de Bougainville localizada a cerca de 80 km de distância. Conforme comentamos na postagem anterior, as maiores vítimas das mudanças climáticas são as populações pobres dos países mais pobres. Os moradores das Ilhas Carteret nunca contaram com eletricidade ou com veículos com motores a combustão interna e, consequentemente, suas contribuições em termos de emissão de gases de efeito estufa ao longo da história foram desprezíveis. 

O aumento do nível do mar está entre as maiores ameaças climáticas dos próximos anos. Em um relatório recente do Banco Asiático de Desenvolvimento – Mudança Climática e Migração na Ásia e no Pacífico, há previsões bastante preocupantes dos impactos da elevação do nível dos oceanos na região. As estimativas falam de 37 milhões de deslocados na Índia, 22 milhões na China e 21 milhões na Indonésia até o ano de 2050. Em Bangladesh, país que tem atualmente 170 milhões habitantes, as estimativas falam de 30 milhões de refugiados climáticos até o ano de 2050

A Ilha de Bhola (vide foto), que fica na região da foz do rio Meghna na costa de Bangladesh, é um exemplo do que já está acontecendo na região. Desde a década de 1990, cerca de 500 mil pessoas dessa ilha já perderam as suas terras por causa da elevação do nível do mar e foram obrigadas a se mudar para outras regiões. 

Apesar de ser uma “criação” bastante recente da humanidade, os refugiados climáticos serão em breve um dos maiores desafios humanitários do nosso planeta, afetando populações em todo o mundo. 

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