MUDANÇAS CLIMÁTICAS AMEAÇAM A PRODUÇÃO AGRÍCOLA DA ÁFRICA

No final de 2021, um relatório do FIDA – Fundo Internacional para o Desenvolvimento da Agricultura, uma agência da ONU – Organização das Nações Unidas, divulgou preocupantes perspectivas para a produção agrícola na África. O texto alertava que a produção de alimentos básicos em oito países africanos poderá cair até 80% em 2050, por conta das mudanças climáticas.

Segundo o relatório, países como Angola, Lesoto, Malawi, Moçambique, Ruanda, Uganda, Zâmbia e Zimbabwe sofrerão com o aumento das temperaturas e a redução da produção de alimentos básicos. Um exemplo citado no texto foi a província angolana de Namibe, onde a produção familiar do milhete poderá cair em 77%. 

Conforme tratamos em uma postagem anterior, o milhete é um dos alimentos básicos de grandes populações em regiões de clima semiárido da África. Esse cereal é originário da região do Sahel, uma faixa semiárida localizada ao Sul do Deserto do Saara, sendo uma cultura que se adapta bem ao clima seco e a baixa disponibilidade de água. 

Além de representar uma boa opção para a alimentação humana, o milhete produz uma excelente forragem para a alimentação de animais domésticos como bois e cabras. Uma das desvantagens do milhete é a sua baixa produtividade quando comparada a outros grãos importantes como o milho e o trigo. 

A exceção de Ruanda e Uganda, países localizados na região central do continente, todos os demais países mais fortemente ameados pelas mudanças climáticas ficam na África Austral. Conforme já tratamos em outras postagens, essa extensa região da África está sendo fortemente afetada por mudanças climáticas do Oceano Índico. 

De todos os oceanos do mundo, o Índico é o que vem apresentando as mudanças mais visíveis decorrentes do aquecimento global. De acordo com medições da temperatura das águas superficiais, procedimento que vem sendo feito de maneira ininterrupta desde o final do século XIX, essas águas estão ficando significativamente mais quentes, o que está afetando as correntes marítimas e os ventos. 

Um exemplo das consequências dessas mudanças já pode ser visto claramente em alterações nos padrões das chuvas no Sul da África e também no Sul e Sudeste da Ásia. Secas fortes e persistentes tem se abatido sobre a África Austral, afetando centenas de milhões de pessoas. Na Ásia, essas mudanças estão alterando o ciclo da Monção, importante temporada de chuvas em uma extensa área que vai do Subcontinente Indiano até as ilhas do Sudeste Asiático. 

Extensas regiões de clima semiárido na África Austral, onde a agricultura sempre foi problemática e de baixa produtividade, estão assistindo a um aumento gradual dos seus problemas por causa da redução das chuvas. Além disso, os especialistas preveem um aumento de cerca de 2° C nas temperaturas dessa região. 

Em terras localizadas ao Norte, a origem do problema tem outro nome – Saara, o maior deserto do mundo. Ocupando uma área de aproximadamente 9,5 milhões de km2, o poderoso deserto influencia o clima de grande parte da África, do Oriente Média e do Sul da Europa. 

Esse colosso, citando versos de nosso hino nacional, não está deitado em berço esplendido. Estudos recentes feitos por pesquisadores da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, concluíram que o Saara cresceu cerca de 7 mil km² a cada ano entre 1920 e 2013. Com isso, o Saara ficou cerca de 10% maior em apenas um século.   

As fortes ondas de calor e as secas que vem se tornando cada vez mais frequentes na Europa, tem parte significativa de sua origem nesse “crescimento” do Deserto do Saara. Também já citamos em postagem aqui do blog a preocupação de muitos cientistas em relação ao aumento dessa influência climática no Mar Mediterrâneo Oriental e no Oriente Médio. 

Na África, o Deserto do Saara vem espalhando suas areias na direção Sul, ocupando cada vez mais as terras semiáridas da faixa do Sahel. Essa é uma região de transição entre o clima desértico do Saara e as savanas e florestas da África Central. 

Com uma largura entre 500 e 700 km, o Sahel se estende do litoral do Oceano Atlântico, a Oeste, até o Mar Vermelho a Leste. Essa grande faixa de transição climática atravessa trechos da Gâmbia, Senegal, Mauritânia, Mali, Burkina Faso, Argélia, Níger, Nigéria, Camarões, Chade, Sudão, Sudão do Sul e Eritréia. 

Apesar do clima difícil e dos solos com fertilidade reduzida, as populações tradicionais que ali vivem há vários milênios vem conseguindo sobreviver com sua agricultura de subsistência e com a criação de seus rebanhos animais. Com o avanço do Deserto do Saara, entretanto, a sobrevivência dessas populações está ameaçada. 

Sob a coordenação da União Africana e com apoio da UNCCD – Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação, na sigla em inglês, está em andamento desde 2007, o Projeto da Grande Muralha Verde do Sahel. O principal objetivo da Muralha Verde é recuperar as grandes extensões da vegetação de estepe que foi perdida para os desmatamentos numa faixa com cerca de 8 mil km e conter o avanço das areias do Deserto do Saara. O projeto já consumiu US$ 8 bilhões.  

Entre as espécies de árvores que estão sendo plantadas destacam-se a acácia, o mogno, o nim e o baobá, todas adaptadas aos solos e ao clima do Sahel. O grande destaque dessa lista é o baobá, uma árvore que possui um tronco grosso e bulboso, que tem uma grande capacidade para armazenar água. Essa espécie pode viver até 2 mil anos. O baobá produz um fruto de casca marrom, de gosto cítrico e azedo, muito rico em vitamina C, cálcio, magnésio, potássio e ferro. 

Apesar dos inúmeros problemas, que vão da falta de coordenação entre os países ao desvio de verbas, algo muito conhecido por nós brasileiros, o Projeto está avançando e ajudando a recuperar ou minimizar os problemas de áreas agrícolas com solos degradados ao longo de todo o Sahel

Problemas de degradação de solos agrícolas acontecem em todo o mundo. Na África, entretanto, a questão ganha cores mais dramáticas graças a já precária produção agrícola na maioria dos países e ao grande crescimento das populações. O continente possui hoje cerca de 1,2 bilhão de habitantes e caminha a passos largos para bater na marca dos 2 bilhões no final deste século. 

Ou seja, os graves problemas atuais vão, no mínimo, dobrar dentro de poucas décadas. 

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