A CRISE HÍDRICA NA CIDADE DO CABO E A CHEGADA DA ÁGUA DESSALINIZADA

cidade do cabo

Há quase um ano atrás, publicamos uma postagem falando da gravíssima situação da Cidade do Cabo ou Cape Town, na África do Sul. Naquele momento, as barragens de abastecimento da cidade estavam com níveis próximos aos 20% em função de uma fortíssima seca iniciada em 2014. E para forçar a população a reduzir ainda mais o consumo, as autoridades estavam reduzindo a disponibilidade diária de água de 87 litros para apenas 50 litros por habitante. Felizmente, ao longo de 2018, a situação melhorou um pouco e algumas das barragens estão com níveis próximos dos 50% – a “luz amarela” ainda continua acesa e a população não pode abusar no consumo de água. 

A Cidade do Cabo é um dos destinos turísticos mais importantes da África do Sul, atividade que representa 10% do PIB do país. Com 4 milhões de habitantes, é a segunda cidade mais populosa do país, com forte participação na vida econômica e cultural da África do Sul. Mudanças climáticas no Oceano Índico ao largo da África e na Ásia, tem alterado o regime de chuvas em uma extensa região. Na África, essas mudanças se refletem em chuvas irregulares na faixa Leste e Sul do continente, o que vem provocando chuvas abaixo da média na África do Sul e secas em várias regiões, especialmente na Província do Cabo Ocidental, onde fica a Cidade do Cabo. 

Mesmo em situações de normalidade climática, a África do Sul é um país com recursos hídricos limitados: uma grande parte do território sul-africano é ocupada por áreas desérticas como o Kalahari, onde as temperaturas podem chegar aos 50° C, e por planaltos secos como o Karoo, além de áreas de savanas. Somente na faixa Leste do país, ao longo da divisa com Moçambique, onde predomina o clima subtropical com chuvas mais regulares, é que uma vegetação mais densa sobrevive. Comparando a grosso modo, o país teria a maior de sua superfície coberta pela Caatinga Nordestina e pelo Cerrado, com uma faixa semelhante à Zona da Mata no Leste. 

Durante os três anos de forte seca no país, surgiram diversas propostas e projetos para solucionar e/ou amenizar os efeitos da crise hídrica. Algumas dessas propostas eram bem curiosas. Uma dessas soluções, sugerida por um famoso especialista em navegação do país, propôs o envio de um navio cargueiro até as águas do Círculo Polar Antártico com a missão de capturar e rebocar um grande iceberg até o litoral da África do Sul. Segundo o cálculo desse “especialista”, o degelo controlado desse iceberg poderia produzir 150 milhões de litros de água doce por dia por até um ano. Felizmente, a proposta não foi levada a sério. 

O Governo sul-africano, já há vários anos, vinha trabalhando na implantação de três usina de dessalinização, criando assim fontes alternativas para o abastecimento das populações. A instabilidade política do país, com vários políticos de peso envolvidos em denúncias de corrupção, atrasou, e muito, o andamento desses projetos. No início de 2018, inclusive, o Presidente Jacob Zuma renunciou em meio a um processo de impeachment. Mesmo em meio a toda essa turbulência política, a primeira das três usinas de dessalinização foi inaugurada para testes em maio daquele ano. 

Localizada na região de Strandfontein, nas proximidades da Cidade do Cabo, essa usina iniciou suas operações com uma produção diária de 3 milhões de litros, água que passou a ser injetada diretamente no sistema de distribuição da rede pública. Em dezembro último, vencidas todas as etapas de teste e de controle de qualidade, a usina de dessalinização passou a operar com capacidade plena, produzindo 7 milhões de litros de água dessalinizada por dia. Quando as outras duas usinas de dessalinização previstas estiverem prontas e em operação, a contribuição total de água dessalinizada vai superar a marca dos 20 milhões de litros diários. Esse volume supre apenas parte da demanda diária da Cidade do Cabo, mas vai ajudar a poupar os volumes de água dos reservatórios, ajudando a prevenir futuras situações de colapso no abastecimento da população. 

Um outro projeto piloto bem interessante de uma usina de dessalinização está em andamento em Witsand, uma cidade costeira a cerca de 250 km da Cidade do Cabo. O projeto está sendo implantado por uma empresa francesa e vai utilizar a técnica de osmose reversa. A planta terá capacidade para dessalinizar um volume diário de 100 mil litros de água, o suficiente para atender metade das necessidades da pequena cidade. O diferencial dessa usina será o uso da energia de uma usina solar instalada nas redondezas, com uma potência instalada de 70 kW. Conforme apresentamos em outras postagens dessa série, o custo da energia elétrica responde, em média, por metade dos custos de operação de uma usina de dessalinização – o uso de energia de uma fonte renovável e limpa tende a reduzir esse custo, além de reduzir o impacto ambiental (quando comparado a outras fontes de energia). 

Em caso de necessidade, essa usina de dessalinização poderá ser conectada à rede elétrica local, passando a operar 24 horas por dia e elevando a produção diária para 300 mil litros de água dessalinizada. A planta também permite o tratamento de esgotos e de águas cinzas para uso em sistemas de irrigação agrícola. O custo desse projeto piloto é de US$ 700 mil e está prevista a construção de mais três unidades de teste em outras cidades costeiras.  

Essa proposta, de pequenas unidades de dessalinização alimentadas por energia fotovoltaica para uso em pequenas comunidades costeiras, merece a nossa atenção – elas podem ser uma solução para o abastecimento de água em dezenas de pequenas cidades do Nordeste brasileiro. 

Sol forte e praias existem de sobra na região. 

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