A IMPORTÂNCIA DA ÁGUA DESSALINIZADA EM FERNANDO DE NORONHA

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O arquipélago de Fernando de Noronha tem apenas 26 km² de superfície, mas é considerado por muitos como “o pedaço mais bonito do Brasil”. São 21 ilhas e ilhotas, distantes 545 km da costa do Estado de Pernambuco. Apenas a maior das ilhas, Fernando de Noronha, é habitada e conta com uma população residente de menos de 3 mil pessoas. Nos períodos de alta temporada, o arquipélago é invadido por turistas – são mais de 90 mil visitantes por ano. Toda essa gente se espreme em pequenos hotéis, pousadas e casas de moradores, não se importando muito com a falta de conforto e de maiores recursos na ilha. Isso pouco importa para a maioria – os encantos do lugar e a beleza das praias valem todo e qualquer esforço. 

Como todo ilha, Fernando de Noronha tem recursos naturais limitados, especialmente quando se fala em água. Como é comum em muitas ilhas oceânicas, o arquipélago não possui nenhuma fonte natural de água -as reservas de água potável do arquipélago dependem das fortes chuvas de inverno. Historicamente,os moradores locais sempre dependeram dessa água, que era armazenadas em cisternas e cacimbas, ou se abasteciam de carregamentos de água trazidos por navios em momentos de crise hídrica. A falta desse precioso recurso foi um dos principais obstáculos para o povoamento do arquipélago. 

Existem diversas hipóteses sobre a descoberta das ilhas, por diferentes expedições, entre os anos de 1500 e 1504. Fernando de Noronha (ou Fernão de Loronha no original) foi um rico comerciante, empreendedor e armador português, que figurou entre os financiadores das primeiras expedições exploratórias dos recursos naturais das recém descobertas terras brasileiras, especialmente do pau-brasil. Em 1504, Dom Manuel I, o Rei Venturoso, doou para Fernando de Noronha o arquipélago, chamado na época de Ilhas de São João da Quaresma, em agradecimento aos seus serviços. Ele nunca visitou as ilhas, que acabaram sendo rebatizadas com seu nome.  

Isolado do continente e sem fontes de água, o arquipélago ficou abandonado por muito tempo, tendo sido invadido sucessivamente por holandeses, franceses e ingleses, que também não se estabeleceram. Em 1700, o arquipélago foi integrado à Capitania de Pernambuco. Foi somente no final do século XVIII que o arquipélago ganhou uma função específica: foi transformado em um presídio, função que se manteve até o final da década de 1950. Durante a II Guerra Mundial, o aeroporto da ilha de Fernando de Noronha foi cedido aos Estados Unidos e utilizado como base de reabastecimento para os aviões americanos que se dirigiam para os campos de batalha na África.  

Em 1988, o Governo brasileiro transformou o arquipélago em Parque Nacional Marinho e 70% de sua superfície passou a ser considerada APP – Área de Preservação Permanente. Em 2001, a UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura, declarou o Arquipélago de Fernando de Noronha Patrimônio Natural da Humanidade. Como parte da estratégia de conservação ambiental, o Governo do Estado de Pernambuco limita o número de turistas que visitam Fernando de Noronha, cobrando, inclusive, uma Taxa de Preservação Ambiental. De acordo com informações do Site Oficial do Arquipélago de Fernando de Noronha, o valor da taxa em 2019 é R$ 73,52 por dia e deve ser pago no aeroporto no momento do desembarque ou pela internet.

O principal núcleo habitacional do arquipélago é a Vila dos Remédios, localizada na ilha de Fernando de Noronha. Essa ilha possui atualmente cerca de 40 poços e diversos açudes para abastecimento da população. No ano 2000, o Governo do Estado de Pernambuco instalou uma estação de dessalinização de água do mar com o objetivo de aumentar a oferta de água potável. Essa unidade passou  a fornecer cerca de 48 mil litros de água dessalinizada por hora, volume suficiente para abastecer 40% da população de Fernando de Noronha. A empresa responsável pelo abastecimento local de água está desenvolvendo um projeto para a ampliação da oferta de água dessalinizada

Entre as melhorias previstas destacam-se a instalação de novas tubulações, a construção de uma nova estação de bombeamento, a ampliação dos reservatórios, além da troca dos dessalinizadores por modelos mais modernos e eficientes. Com essas melhorias, a produção de água dessalinizada será ampliada em 50%, podendo chegar a 72 mil litros / hora. Existe ainda a expectativa de redução do consumo da energia elétrica utilizada no processo em 30%, algo fundamental para o arquipélago – a geração de energia elétrica em Fernando de Noronha é feita em unidades movidas a óleo diesel, um combustível caro que precisa ser “importado” do continente

A implantação da usina de dessalinização de água do mar em Fernando de Noronha foi um projeto pioneiro no Brasil, que ajudou a diminuir a dependência que a população tinha da água das chuvas. A temporada das chuvas no arquipélago é um evento natural que ocorre com razoável regularidade. Em alguns anos, porém, as chuvas tardavam a chegar, algo que sempre causava muita apreensão entre os moradores – viver isolado em uma ilha oceânica, sem acesso a água potável, é uma ideia bastante incômoda. Lendas e histórias reais de pessoas que morreram de sede em ilhas são bastante comuns no folclore local – uma dessas histórias ocorreu no Atol das Rocas, localizado a apenas 148 km de Fernando de Noronha. 

O Atol das Rocas é formado por pequenas ilhas de origem coralínea, que surgiram no topo de montanhas submarinas pertencentes à mesma formação geológica que originou as ilhas do arquipélago de Fernando de Noronha. Assim como acontece em Noronha, as ilhas do Atol das Rocas não dispõem de nenhuma fonte de água potável. Ao longo da história, ocorreram diversos naufrágios no local e muitos dos sobreviventes acabaram morrendo de sede enquanto aguardavam a chegada do socorro. O caso mais trágico aconteceu com a família do faroleiro da ilha em 1900. Um dos filhos desse homem deixou a torneira do reservatório de água aberta e todo o estoque de água das chuvas acabou se perdendo. Tempos depois, quando o navio da Marinha que levava os suprimentos chegou no Atol das Rocas, encontrou apenas o faroleiro vivo – a mulher e os filhos morreram de sede. 

O caso de Fernando de Noronha é um grande exemplo do uso da água dessalinizada para a complementação dos volumes de água necessários ao abastecimento de uma comunidade isolada. Acima de tudo, é uma garantia contra as eventuais mudanças climáticas globais e suas prováveis alterações nos ciclos de chuva. Ou seja, se as chuvas faltarem, a população tem segurança hídrica e a garantia de água para as necessidades mais básicas – enquanto a ajuda externa não chegar, de sede ninguém vai morrer!

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