OS EXTREMOS CLIMÁTICOS NA ÍNDIA 

Uma expressão que está sendo encontrada com frequência cada vez maior nos noticiários e reportagens ligadas a área ambiental faz referência aos “extremos climáticos”. Ela é usada para falar de chuvas excessivas ou secas severas em determinadas regiões, de invernos extremamente frios ou ainda de verões extremamente quentes em outros lugares. 

Ao longo de milhões de anos de história geológica, nosso planeta criou todo um mosaico de padrões climáticos. Em zonas equatoriais e tropicais existem temporadas de fortes chuvas intercaladas com meses de calor e seca. Mas áreas temperadas, as estações costumam ser nitidamente divididas em primavera, verão, outono e inverno. Nas áreas polares, um longo inverno se alterna com uns poucos meses de tempo menos frio. Tudo isso está mudando. 

O aquecimento global está mudando esses padrões climáticos, sendo que em alguns casos isso está se dando de forma bastante visível. Chuvas estão se tornando fortes demais, ou então são secas arrasadoras. Em algumas regiões os invernos estão ficando cada vez mais quentes e em outros locais nevascas estão caindo fora de época. Em resumo – o clima está ficando “maluco” em diversas regiões desse nosso mundo. 

Um lugar do nosso planeta onde os extremos climáticos estão se tornando notáveis é o Subcontinente Indiano, particularmente na Índia, o maior país da região. As implacáveis secas e as fortes temporadas de chuva estão se alternando no país com uma frequência impressionante. 

A Índia possui um território com 3,27 milhões de km2, que sempre foi caracterizado por padrões climáticos bem definidos. O Noroeste do país, junto à fronteira com o Paquistão, possui uma extensa área que vai do clima desértico ao semiárido. Entre o Norte e o Nordeste, onde fica a bacia hidrográfica do rio Ganges, o clima é claramente subtropical.  

No Centro e no Sul do país predomina o clima equatorial de Monção, com algumas áreas mais centrais com um clima semiárido parecido com o do Cerrado Brasileiro. Nas áreas montanhosas da Cordilheira do Himalaia o clima é temperado com invernos bastante rigorosos e com pesadas precipitações de neve. 

Uma das características mais marcantes do clima da maior parte da Índia sempre foi a temporada das Chuvas da Monção, um período de chuvas fortes e contínuas que sucede um verão extremamente quente e seco. Nada muito diferente do clima equatorial da nossa Amazônia. 

O Oceano Índico, conforme já apresentamos em postagens anteriores, é o que tem se mostrado mais susceptível às mudanças do clima mundial. O derretimento de grandes massas de gelo no Continente Antártico tem alterado suas correntes marinhas e tem se observado um gradual aumento na temperatura das suas águas superficiais. Essas mudanças estão provocando alterações nos ciclos das Chuvas da Monção, o que está prejudicando a vida de dezenas de milhões de pessoas na Índia e em outros países a região. 

Desde tempos imemoriais, a vida das populações das margens e do delta do rio Ganges e de outros grandes rios do país sempre foi regulada pelos ciclos de cheia no período das Chuvas da Monção e da vazante. Grandes volumes de sedimentos são carreados pelas fortes chuvas desde as terras altas das bacias hidrográficas, fertilizando naturalmente os solos e garantindo abundantes colheitas

Nos últimos anos, as Chuvas da Monção têm se tornado cada vez mais irregulares, com excessos de chuvas em alguns anos e escassez em outros. Além disso, as águas do Golfo de Bengala estão avançando cada vez mais na direção da região deltaica do rio Ganges, aumentando a salinização das águas dos rios e ameaçando as águas do lençol freático. 

Secas fortes e incomuns também estão se tornando frequentes em regiões que sempre foram marcadas por uma intensa temporada de chuvas na época da Monção. Um desses casos é Chennai, a sexta maior cidade da Índia com quase 5 milhões de habitantes e localizada na costa Sudeste do país. 

Em 2019, a região de Chennai passou quase 200 dias sem receber chuvas e enfrentando temperaturas próximas dos 40° C, uma situação que levou todos os reservatórios de água ao colapso. A cidade passou a depender da água transportada desde outras regiões em trens com até 50 vagões tanques, que transportavam até 2,5 milhões de litros a cada viagem. Essa água passou a responder por 40% do abastecimento da população. Em 2001, a cidade já havia passado por uma situação semelhante. 

Essa crise hídrica também afetou a produção de energia em centrais hidrelétricas da região, obrigando a população a racionar o uso de eletricidade. Sem água para irrigar suas lavouras, os agricultores da região sofreram pesadas perdas na sua produção agrícola e nos seus rebanhos. 

Outro evento marcante foi a grande seca que se abateu sobre Índia em 2009, quando 177 dos 626 distritos do país foram afetados. Há época, essa seca foi considerada a mais intensa em 20 anos. De acordo com informações dos serviços de meteorologia da Índia, os volumes das Chuvas da Monção naquele ano foram 30% menores do que a média histórica. Essas chuvas correspondem a 90% das precipitações do país. 

A Índia, não custa lembrar, tem uma população de 1,3 bilhão de habitantes, sendo que quase 80% dessa população vive nas áreas rurais do país e depende basicamente da agricultura e da criação de rebanhos animais para sobreviver. São mais de 850 milhões de pessoas, o que corresponde a quatro vezes a população brasileira. 

Durante milhares de anos, essas populações vêm tendo as suas vidas e os seus trabalhos sincronizados com a temporada das Chuvas da Monção. E toda essa gente não está conseguindo acompanhar a velocidade das mudanças nos padrões climáticos. Sem contar com grandes reservatórios para o armazenamento de água, essas populações dependem basicamente das chuvas, que, quando não vem, provocam fome e desemprego generalizado. 

Problemas semelhantes também ocorrem em períodos de chuvas excessivas, quando plantações são alagadas e há enormes perdas nos rebanhos. As enchentes destroem as pequenas vilas com suas habitações precárias, além de danificar as já deficientes estradas e ferrovias do país. É bastante difícil definir o que é pior para a população do país: as fortes chuvas ou as secas inclementes. 

Os prognósticos para os indianos nos próximos anos não são nada animadores: os excessos de chuvas e os períodos de fortes estiagens tenderão a se alternar com uma violência cada vez maior nas próximas décadas, prejudicando centenas de milhões de pessoas. Serão tempos cada vez mais difíceis para eles e para todos nós… 

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