UM BALANÇO DAS CHUVAS DE VERÃO 2018/2019 EM SÃO PAULO

Enchente em São Paulo

Na última postagem, falamos do drama vivido por populações de Moçambique, Botswana e Malawi após a passagem do ciclone tropical Idai. Regiões inteiras desses países ainda se encontram completamente inundadas, mesmo passados 10 dias desde a catástrofe natural. Mudanças climáticas regionais, observadas em toda a região do Oceano Índico, podem ser as responsáveis pela extrema violência desse fenômeno climático. Ciclones tropicais são comuns no Oceano Índico durante os meses de verão, porém, tanto a violência quanto o avanço do Idai contra o Sudeste do continente africano são incomuns.  

Mudanças climáticas localizadas estão sendo sentidas em diversas regiões do mundo e servem como um sinal de alerta de grandes alterações nos padrões climáticos mundiais. No Estado de São Paulo e, especialmente, na grande Região Metropolitana de São Paulo, muitas dessas mudanças são facilmente perceptíveis.  

Qualquer paulistano com mais de 40 anos se lembra dos invernos rigorosos de um passado recente – em algumas regiões nos extremos da cidade as temperaturas em alguns momentos do inverno chegavam bem próximas de 0° C. Atualmente, na maior parte dos nossos invernos, é possível ir até a Baixada Santista para pegar uma praia. 

Outra mudança bastante visível nos padrões climáticos locais são as chuvas e as temperaturas acima da média no período do verão. De acordo com dados do balanço oficial divulgado pelo INM –Instituto Nacional de Meteorologia, a cidade de São Paulo teve chuvas em 54 dos 90 dias do verão. Essas medições foram feitas na estação de medição oficial da cidade, no Mirante de Santana

Outros dados interessantes desse relatório oficial: 

Choveu acima da média histórica em janeiro e em fevereiro, e em março, o total de chuva em 20 dias já estava próximo da média histórica

Um dos fatos mais marcantes do verão de 2019 foi o calor de janeiro, que em relação à média das temperaturas máximas foi considerado o janeiro mais quente em 76 anos de medições, igualando com janeiro de 2014

Fevereiro de 2019 também merece destaque, pois foi o fevereiro mais chuvoso em 15 anos

Com acumulado de 884,5 mm, o verão 2018/2019 ficou em 9º lugar na lista dos verões mais chuvosos na capital paulista; 

A média da temperatura máxima deste verão foi de 30,0°C, igualando ao ano de 2001, e ficou em 5º lugar no ranking do histórico de 1961 a 2018. O calor intenso que predominou em janeiro foi determinante para chegar a esta posição; 

A média da temperatura mínima do verão 2018/2019 foi de 20,3°C, empatando com os anos de 2003 e 2010 na 4ª posição dos verões mais quentes do histórico de 1961 a 2018; 

chuva de janeiro foi irregular e deficiente em grande parte do estado de São Paulo. A falta de chuva justifica o calor excessivo observado em janeiro de 2019. A chuva de fevereiro foi melhor distribuída pelo estado; 

Os acumulados de precipitação no estado de São Paulo no verão 2018/2019 variaram, em média, entre 500 mm e 800 mm. Os maiores volumes ocorreram na faixa leste, especialmente entre Planalto Paulistano e o litoral, com volumes até acima dos 1200 mm. Aqui merecem destaques algumas chuvas torrenciais que caíram em Bertioga, Iguape e São Sebastião, cidades do litoral de São Paulo, onde os volumes acumulados atingiram, respectivamente, 178,0 mm, 153,3 mm e 124,2 mm em um único dia; 

Antes de qualquer outro comentário, precisamos destacar que todo esse volume de chuvas, especialmente na Região Metropolitana de São Paulo, teve como consequências grandes enchentes (vide foto), alagamentos localizados de grandes proporções, desmoronamento de encostas e destruição de inúmeras casas. Infelizmente, esses eventos extremos resultaram na perda de inúmeras vidas humanas. Nossas cidades não estão preparadas para suportar os grandes volumes das chuvas de verão, um problema que não para de se agravar.

A combinação de chuvas e temperaturas acima da média combinadas com uma má distribuição territorial das chuvas no Estado de São Paulo gerou uma consequência preocupante – os níveis de água em dois importantes conjuntos de reservatórios estão ligeiramente abaixo da média, o que causa muita preocupação. O Sistema Cantareira, principal manancial de abastecimento das Regiões Metropolitanas de São Paulo e de Campinas, está com apenas 55% do seu nível (dado de 26/03/2019). Nessa mesma data, no ano de 2009, o Sistema Cantareira apresentava um nível de 85% – de lá para cá, os níveis máximos dos reservatórios vêm apresentando níveis cada vez menores, lembrando que entre os anos de 2014 e 2015, o Sistema entrou em colapso

Outro conjunto de reservatórios importantes estão localizados na Bacia Hidrográfica do rio Paraíba do Sul. Além de sua importância no abastecimento de cidades e populações dentro do Estado de São Paulo, as águas do rio Paraíba do Sul são essenciais para o abastecimento da Região Metropolitana do Rio de Janeiro e municípios da Baixada Fluminense. Um complexo sistema de transposição entre bacias hidrográficas desvia até 60% das águas do rio Paraíba do Sul na direção da bacia hidrográfica do rio Guandu – 80% da água usada no abastecimento da cidade do Rio de Janeiro e de parte da Baixada Fluminense vem desse sistema. 

O volume útil do Reservatório Equivalente, que corresponde à soma dos volumes dos reservatórios de Paraibuna, Santa Branca, Jaguari e Funil, está com 55,3% do nível máximo. De acordo com dados da Ana – Agência Nacional de Águas, esse nível corresponde ao oitavo menor resultado desde 1998 e está abaixo dos níveis do Reservatório Equivalente nos dois últimos anos

A situação dos reservatórios da Região Centro-Sul do país, que tem seu período de chuvas no verão, apresentam problemas semelhantes aos observados nestes reservatórios do Estado de São Paulo – os níveis estão abaixo da média histórica. Aqui, as preocupações vão além das necessidades de água para o abastecimento de populações: parte considerável da energia elétrica consumida no Brasil vem de fontes hidrelétricas. Sem contar com níveis seguros para a geração da energia elétrica necessária ao funcionamento do país, as autoridades do setor elétrico serão obrigadas a acionar as poluentes usinas de geração termelétricas a carvão, gás e óleo combustível. 

Apesar dos insistentes alertas dos cientistas, que afirmam que essas e outras mudanças já observadas nos padrões climáticos de muitas regiões não podem ser debitadas somente na conta das mudanças climáticas globais, eu acho bastante improvável que não sejam. Nós, caipiras aqui do Estado de São Paulo, costumamos falar que quando se vê só o rabo do gato, é quase certeza que o que se vê é um gato inteiro – na pior das hipóteses, é um filhote de onça ou de jaguatirica. 

É preciso ficar em alerta e começar a planejar uma vida em um mundo novo, com padrões climáticos diferentes em todo o planeta. Isto é inadiável.

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