AMAZÔNIA SUSTENTÁVEL: O COURO VEGETAL FEITO A PARTIR DO LÁTEX

O látex é uma seiva natural produzida por várias espécies de árvores e plantas, com destaque para a seringueira (Hevea brasiliensis), uma espécie nativa da Floresta Amazônica. Detentor de uma parte considerável dessa Floresta, o Brasil rapidamente despontou como o maior produtor mundial de látex

O uso do látex começou no século XVIII por indústrias do segmento de confecção, quando era pulverizado sobre capas de chuva com o objetivo de criar uma camada impermeável, que funcionava perfeitamente nos dias de chuva. Em dias de extremo calor, porém, a camada impermeável se tornava grudenta e em dias muito frios ela endurecia e se tornava quebradiça. Outros produtos há época feitos à base do látex apresentavam os mesmos problemas.  

Em 1839, o inventor norte-americano Charles Goodyear, depois de inúmeros experimentos, desenvolveu o processo da vulcanização, onde uma mistura de látex e enxofre era submetida a pressão e calor, permitindo a modelagem das peças de borracha e tornando-as resistentes ao calor e ao frio. Após a invenção deste processo, as aplicações industriais e o consumo do látex no mundo explodiram.  

A borracha passou a ser a matéria prima de uma série de produtos inovadores: correias para máquinas, sapatos, luvas, chapéus, roupas impermeáveis, flutuadores, bandas de rodagem para rodas de carroças (mais tarde substituídas por rodas com pneus), mangueiras, entre outros produtos. Nas últimas décadas do século XIX, com o uso cada vez maior da eletricidade, peças isolantes à base de borracha ganharam enorme importância no mercado mundial.  Também merece um grande destaque a nascente produção de automóveis em série.

Entre 1850 e 1920, a produção do látex foi a grande riqueza da Floresta Amazônica, o que fez a fortuna de uns poucos seringalistas e exportadores da matéria prima, e lançou milhares de seringueiros anônimos à mais completa e absoluta miséria nos confins mais distantes da Amazônia. Foi então que, a partir de 1913, seringais ingleses plantados no Sudeste Asiático com sementes de seringueira roubadas na Amazônia passaram a produzir látex em maior quantidade e com custos mais baixos que os da grande floresta sul-americana.  

Após a Primeira Guerra Mundial, as indústrias petroquímicas conseguiram desenvolver a borracha sintética a partir do petróleo – a grande saga do látex natural praticamente terminaria aqui. Houve uma efêmera tentativa de reativar a produção durante a Segunda Guerra Mundial com os lendários Soldados da Borracha, mas tanto o projeto quanto os soldados foram rapidamente abandonados. A produção do látex amazônico em grande escala perdeu completamente a sua relevância. Siga os links indicados no texto para conhecer os detalhes dessa história. 

A exploração do látex, apesar de todo o drama social que foi gerado pelo sistema de extração daquela época, é sustentável do ponto de vista ambiental. As seringueiras nativas são localizadas no meio da mata, onde é feito o corte do caule para a “sangria” do látex em pequenas quantidades (vide foto abaixo), algo que não costuma criar maiores problemas para as árvores. Já para os seringueiros, a atividade é um dos ícones máximos da exploração da mão de obra. 

Uma aplicação para o látex que vem crescendo muito nas últimas décadas é seu uso para a produção do chamado couro vegetal”. Existem referências à produção desse material na Amazônia desde 1834. Uma peça de tecido de algodão montada numa moldura é colocada sobre a saída de fumaça de um forno a lenha e passa a receber o despejo de pequenas quantidades de látex, numa forma de trabalho muito parecida com a confecção das pélas de borracha pelos seringueiros (vide foto).  

O látex gruda no tecido e vai coagulando, produzindo um efeito emborrachado, com uma aparência muito similar ao couro animal. Essa forma artesanal de produção resulta em peças com texturas e cores diferentes, que vão do castanho claro ao marrom café e que dão ao produto um charme e uma exclusividade toda especial. 

Há cerca de uns quinze anos atrás eu comprei, com alguma desconfiança, um sofá revestido com esse couro vegetal e depois acabei ficando surpreso com a qualidade do material. Produzido artesanalmente por seringueiros e indígenas da Amazônia, especialmente no Estado do Acre, o produto começou a chamar a atenção de grandes empresas, que cada vez mais têm feito investimentos na melhoria dos processos de produção dessa materia prima.

Uma iniciativa das mais interessantes é o Projeto Couro Vegetal da Amazônia, que reúne seringueiros, indígenas caxinauá, uma ONG – Organização Não Governamental, e empresários do setor. O grupo vem trabalhando desde 1991 no desenvolvimento do artesanato tradicional dos seringueiros da Amazônia no Estado do Acre. 

Com apoio das empresas, a produção das peças de couro alcançou um melhor padrão de qualidade, especialmente no tingimento. As peças são usadas na confecção de artigos de vestuário, calçados, bolsas e mochilas, tapeçaria, encadernações e em revestimentos decorativos. Com essa produção, os seringueiros e os indígenas passaram a ter um rendimento bem maior do que o que teriam com a simples extração e venda do látex. 

A partir da Floresta Amazônica, o couro vegetal começou a ganhar o mundo. Primeiro foram empresas de confecção de grandes cidades brasileiras como Rio de Janeiro e São Paulo. Em 1998, a iniciativa conseguiu fechar um contrato de 10 anos para o fornecimento de peças de couro vegetal para a tradicional grife francesa Hermès Sellier, uma empresa fundada em 1837. 

O produto artesanal da Amazônia tem um forte apelo ecológico junto aos consumidores “endinheirados”, que enxergam na iniciativa uma forma de contribuir para o desenvolvimento sustentável da Amazônia, deixando assim suas consciências mais “leves” para poder gastar o equivalente a milhares de Reais em sapatos, bolsas, e peças de vestuário da grife.. 

Existem cerca de 30 mil comunidades extrativistas em toda a Amazônia, a grande maioria formada por grupos de famílias que vivem espalhadas ao longo dos rios, onde se incluem populações ribeirinhas, muitos descendentes dos antigos seringueiros, e povos tradicionais de origem indígena.  Essas populações vivem da caça, da pesca, da produção agrícola de subsistência e da extração de produtos florestais como o látex e a castanha-do-pará. Os índices de desenvolvimento social dessas comunidades estão entre os mais baixos do Brasil. 

A produção do couro vegetal é uma ótima alternativa de trabalho e renda para essas comunidades – o produto possui um preço de venda, no mínimo, quatro vezes maior do que o látex. A produção pode ser feita na casa dos seringueiros ou nas aldeias indígenas, sem necessitar de qualquer infraestrutura adicional as já existentes. A extração do látex é totalmente sustentável e, de acordo com a legislação ambiental, essa pode ser feita em Unidades de Conservação classificadas como reservas extrativistas. Além do Acre, já existem outras iniciativas de produção de couro vegetal nos Estados do Amazonas e do Pará. 

Existem diversos problemas para a consolidação da atividade, principalmente a necessidade de criação de um sistema adequado para o escoamento da produção, onde os produtores possam receber um preço justo pelo seu produto. Lembro aqui que, com a decadência da indústria gomífera (ou do látex) na década de 1920, muitos seringueiros passaram a caçar animais da fauna nativa da Amazônia para o aproveitamento do couro e das peles, que eram vendidas a preços de “banana” para intermediários. 

Com as cautelas necessárias, a produção de couro vegetal de látex em grande escala poderá ser mais uma ótima opção para a geração de trabalho e renda para a população mais pobre da Amazônia, garantindo a conservação da floresta e um desenvolvimento sustentável sem sobressaltos para a região.

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