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Posts de ferdinandodesousa

Escritor, jornalista, gestor e educador ambiental. Especialista em projetos de comunicação social e de educação ambiental.

AS DIFICULDADES DOS SERVIÇOS DE ABASTECIMENTO DE ÁGUA NAS GRANDES CIDADES, OU BUSCANDO A ÁGUA EM DISTÂNCIAS CADA VEZ MAIORES

Páramos andinos

Na nossa última postagem, falamos da chegada do período das chuvas de verão na Região Centro-Sul do Brasil. Como acontece todos os anos, esse é um período marcado por enchentes, alagamentos e desmoronamento de encostas em muitas cidades, onde o crescimento não foi acompanhado por um planejamento urbano adequado e por obras de infraestrutura, especialmente na área do saneamento básico. Mesmo com todos esses problemas, essas chuvas são fundamentais para a recomposição dos níveis das represas de abastecimento de água e também nos reservatórios das usinas hidrelétricas

Uma informação transversal que surgiu no texto dava conta das dificuldades para o abastecimento das cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro, onde a água precisa ser captada a centenas de quilômetros de distâncias e transportada por complexos sistemas de bombeamento e transposição entre bacias hidrográficas. Esse tema é bem interessante e vamos falar um pouco mais sobre isso hoje. 

A cidade de são Paulo, fundada pelos padres Jesuítas em 1554, seguiu uma “fórmula” muito usada na Idade Média – o assentamento foi formado entre dois rios. De um lado, o rio Tamanduateí, que foi responsável pelo abastecimento de água da população até meados do século XIX; de outro lado, o rio Anhangabaú, escolhido para receber e dispersar o lixo e os resíduos gerados pelos moradores. A escolha do Anhangabaú para essa triste função teve uma boa ajuda dos indígenas – dentro do folclore local, esse rio era amaldiçoado e evitado desde tempos imemoriais pelos índios. 

Com o crescimento da cidade de São Paulo, cresceu também a poluição das águas do rio Tamanduateí, que apresentava uma qualidade cada vez pior. Por volta da década de 1880, a Prefeitura da cidade resolveu buscar água na então distante Serra da Cantareira, famosa pelas suas muitas fontes de água cristalina. Foi criado então o primeiro Sistema Cantareira, que foi responsável por parte importante do abastecimento da cidade até o início da década de 1970, época em que o aumento explosivo da população da Região Metropolitana exigiu a construção de um novo e muito maior sistema de abastecimento de água. 

Sem contar com importantes fontes de água disponíveis nas proximidades, foi escolhida a Região Entre Serras e Águas na divisa com o Estado de Minas Gerais, a mais de 100 km de distância do centro da cidade de são Paulo. Alguns dos principais mananciais do Sistema tem nascentes no Estado vizinho como é o caso do rio Camanducaia. As distâncias que são percorridas pelas águas do Sistema Cantareira chegam até 160 km, onde se incluem represas, canais, tuneis e estações de bombeamento. O Cantareira atende atualmente 7,5 milhões de habitantes. Numa eventual saturação do Sistema Cantareira, a Região Metropolitana de São Paulo terá de buscar águas no rio Ribeira de Iguape, a mais de 250 km de distância.

Na cidade do Rio de Janeiro e municípios vizinhos da Região Metropolitana, cerca de 80% da água usada no abastecimento vem do rio Paraíba do Sul – a margem desse rio mais próxima da capital fluminense fica a quase 200 km de distância. A escolha do sítio onde foi fundada a cidade do Rio de Janeiro se deu em função das boas condições da Baía da Guanabara para o atracamento de grandes embarcações. Apesar da localização altamente estratégica, a região não possui grandes rios e o abastecimento de água sempre foi problemático na cidade. 

A solução para os problemas de abastecimento de água no então Estado da Guanabara, antiga Capital Federal do Brasil, começou a ser resolvida com a entrada em cena da Light & Power Company, empresa que ganhou a concessão dos serviços de geração e distribuição de energia elétrica. A primeira grande obra da empresa foi a Usina Hidrelétrico de Fontes, iniciada em 1903, seguida pela Barragem de Lajes, iniciada em 1905, além de usinas hidrelétricas na calha do rio Paraíba do Sul

Em1950, buscando atender o grande aumento na demanda de energia elétrica do Rio de Janeiro, a Light iniciou a construção da Barragem de Santa Cecília no rio Paraíba do Sul. Essa estrutura fazia parte de um grande sistema de transposição das águas do rio Paraíba do Sul na direção de represas e usinas hidrelétricas da Light no interior do Estado. Graças a esse complexo sistema de transposição, cerca de 60% dos caudais do rio Paraíba do Sul passaram a ser desviados – depois de passar pelas turbinas de geração de energia elétrica, essa água era lançada na bacia hidrográfica do rio Guandu e assim seguia na direção da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, passando a ser usada no abastecimento da população local. 

Uma outra grande cidade que tem de se esforçar bastante para garantir o abastecimento de sua população é Nova York, a maior cidade dos Estados Unidos, que abriga uma população de mais de 15 milhões de habitantes em sua Região Metropolitana. A maior parte da população se concentra em 5 grandes ilhas, localizadas entre o Oceano Atlântico e a foz do rio Hudson. O sistema de abastecimento de água da cidade começou a ser construído em 1830, captando águas no rio Hudson a montante da mancha urbana. A proximidade com as águas salgadas do oceano é sempre problemática para um sistema de abastecimento de água. A intrusão de água salgada na calha do rio, que em algumas épocas do ano aumenta muito, sempre obrigou a captação a grandes distâncias da foz. 

No início da década de 1990, o sistema de abastecimento de água de Nova York atingiu um ponto de saturação, sem conseguir atender mais o crescimento da demanda. Sem contar com recursos para a construção de um novo sistema produtor, orçado na época em US$ 5 bilhões, a empresa de águas da cidade iniciou um amplo programa de economia e uso racional da água, o que garantiu alguns anos de sobrevida ao antigo sistema. Nos últimos anos, contando com dinheiro para a realização das obras, Nova York iniciou a construção de seu novo sistema de abastecimento – as represas estão localizadas a mais de 170 km do centro da cidade, o que exigiu a construção de um complexo sistema de tubulações e túneis para o transporte da água. 

Outra grande cidade que podemos incluir na lista daquelas com dificuldade para o abastecimento de sua população é Bogotá, a capital da Colômbia. Com mais de 7 milhões de habitantes e localizada a uma altitude de 2.640 metros acima do nível do mar, Bogotá sempre contou com as águas do rio Madalena para o seu abastecimento. Esse importante rio, infelizmente, está apresentando uma série de problemas e, dentro de pouco tempo, o abastecimento da população poderá entrar em colapso. As nascentes do rio Madalena dependem da água resultante do derretimento da neve e do gelo acumulado no alto da Cordilheira dos Andes. Conforme comentamos em uma outra postagem, o aquecimento global está provocando o desaparecimento de uma série de geleiras nos Andes Tropicais

Até o início da década de 1950, existiam 14 grandes geleiras nos Andes colombianos – de lá para cá, 8 dessas geleiras já desapareceram e as 6 restantes estão apresentando uma diminuição sistemática de suas massas de gelo. Prevendo o desaparecimento iminente do rio Madalena, a cidade de Bogotá está realizando uma série de obras que permitirão a captação da água dos páramos andinos (vide foto), um tipo de vegetação arbustiva que cresce a partir de altitudes acima dos 3 mil metros e se estende até a linha de formação da neve. Esse tipo de vegetação é muito similar aos banhados dos Pampas Sulinos e tem a características de funcionar como uma esponja que absorve grandes quantidades de água.  

À diferença do rio Madalena, que corta a cidade de Bogotá, esses novos sistemas de captação de água nos páramos ficam a dezenas de quilômetros de distância da mancha urbana, o que vai dificultar e encarecer bastante a captação e o transporte da água

Buscar água em fontes cada vez mais distantes está se tornando uma frequente e triste realidade para as grandes cidades do mundo. 

AS SEMPRE AGUARDADAS CHUVAS DE VERÃO

Chuvas de Verão

Com a chegada do final do ano, tem início o período das fortes chuvas na Região Centro-Sul do Brasil, temporada que, normalmente, se estenderá até o final do mês de março. Em muitas das grandes e médias cidades da Região, a temporada das chuvas também se apresenta como um período de fortes transtornos e tragédias, com enchentes, alagamentos e desmoronamentos de encostas. Essas cidades, em sua grande maioria, cresceram e se desenvolveram sem maiores preocupações com o saneamento básico: esgotos e águas pluviais sempre foram tratados com muito descaso e improviso. Com a chegada das chuvas de verão, a “fatura” desse descaso acaba chegando a todos os seus habitantes. 

Apesar de todos os problemas e tragédias que chegam junto com as chuvas, essa é uma temporada aguardada com grande expectativa: são essas chuvas que enchem os reservatórios das usinas hidrelétricas e as represas de abastecimento das áreas urbanas, garantindo a água que será usada pelas populações ao longo do próximo ano. Um exemplo dessa importância é o Sistema Cantareira, o principal manancial de abastecimento da Região Metropolitana de São Paulo. 

De acordo com informações da Sabesp, empresa responsável pelo abastecimento de água em grande parte do Estado de São Paulo, hoje o Sistema Cantareira está com apenas 38% da sua capacidade de armazenamento (09/12/2019). De acordo com os parâmetros usados pela empresa, quando o nível do Sistema está entre 30% e 40% de sua capacidade, é considerado em Estado de Atenção e a retirada de água passa a ser limitada a 27 mil litros por segundo – de acordo com informações da empresa, a retirada já está abaixo de 25 mil litros/s a fim de economizar água

O Sistema Cantareira foi construído entre as décadas de 1960 e final da década de 1970, possuindo um total de cinco reservatórios na região conhecida como Entre Serras e Águas, que fica na divisa entre o Nordeste do Estado de São Paulo e o Sul de Minas Gerais. Esse sistema foi projetado com o objetivo de substituir o Sistema Cantareira Velho, em operação desde as últimas décadas do século XIX e que não estava mais atendendo as necessidades de consumo da Região Metropolitana. O novo Sistema Cantareira é formado por um complexo conjunto de represas, canais, túneis e estações de bombeamento, responsáveis por transportar a água por distâncias de até 160 km até chegar aos consumidores na Região Metropolitana de São Paulo.  

Até recentemente, o Sistema Cantareira era responsável pelo abastecimento de mais de 9 milhões de pessoas, porém, depois da grande crise de abastecimento vivida na Região entre os anos de 2014 e 2016, o Sistema atende “apenas” 7,5 milhões de pessoas atualmente. A água fornecida pelo Sistema Cantareira abastece as Zonas Norte, Oeste, Central e parte da Zona Leste da cidade de São Paulo, além dos municípios de Franco da Rocha, Francisco Morato, Caieiras, Osasco, Barueri, São Caetano do Sul e Guarulhos. O abastecimento de água da população é complementado por um conjunto de outros mananciais que formam os Sistemas Guarapiranga, Alto Tietê, Rio Grande, entre outros menores. 

Em abril de 2018, a Sabesp inaugurou o Sistema São Lourenço, um novo manancial com capacidade para atender uma população de até 2 milhões de habitantes nos municípios de Barueri, Carapicuíba, Cotia, Itapevi, Osasco, Jandira, Santana de Parnaíba e Vargem Grande Paulista. Esse novo Sistema veio aliviar parte da extrema dependência dos paulistanos em relação ao Sistema Cantareira e ajudar a prevenir os problemas criados pela grande seca de anos anteriores. 

A seca que se abateu na região Entre Serras e Águas a partir de 2014 foi fortíssima e levou o nível do sistema Cantareira para menos de 3% de sua capacidade de armazenamento. Foi necessária a implantação de uma rigorosa redução da pressão nas redes de abastecimento de água (o Governo paulista se recusa em admitir que foi um racionamento de água), além da realização de um conjunto de obras emergenciais para a captação e o transporte de água a partir de outros sistemas produtores. Nas represas do Sistema Cantareira foram realizadas obras que permitiram a captação da água localizada no chamado Volume Morto, uma reserva que está abaixo do nível normal de captação. 

O trauma deixado por essa grande seca também incentivou a construção de um sistema que permite a transposição de águas da Represa Jaguari, localizada na bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul, para a Represa do Atibainha, uma das formadoras do Sistema Cantareira. Inaugurado em março de 2018, esse sistema de transposição entre bacias hidrográficas permite a transferência de águas nos dois sentidos. Em momentos em que o Sistema Cantareira atingir o seu nível máximo, o que não acontece desde 2012, as águas excedentes poderão ser lançadas na Represa Jaguari, reforçando os estoques de água. Em momentos em que o Sistema Cantareira estiver com baixos níveis, a água será retirada da Represa Jaguari e bombeada na direção da Represa do Atibainha   

Apesar de estar localizada dentro do Estado de São Paulo, a Represa Jaguari, e outras localizadas ao longo da bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul, faz parte do sistema de armazenamento de água que é usado para o abastecimento do Estado do Rio de Janeiro. Um volume com cerca de 60% das águas do rio Paraíba do Sul é desviado para o Estado do Rio de Janeiro através de um sofisticado sistema de transposição, onde as águas são usadas primeiro para a geração de energia elétrica e depois são lançadas na direção do rio Guandu e usadas para o abastecimento de 80% da população da Região Metropolitana do Rio de Janeiro

Os Estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais já tiveram de disputar na Justiça o direito pelo uso das águas do rio Paraíba do Sul. A questão chegou inclusive ao STF – Supremo Tribunal Federal, onde foi estabelecido um sistema para a partilha dessas águas. A inauguração do sistema de transposição Jaguari-Atibainha, apesar de estar amparado pela lei, é visto com desconfiança pelos demais Estados que formam a bacia hidrográfica. 

A água é um dos recursos naturais mais escassos e disputados da atualidade. O Brasil está entre os países do mundo com a maior disponibilidade de água doce do planeta. Porém, como deve ser do conhecimento de todos, a maior parte desses recursos estão na Região Norte do país, onde fica a Bacia Amazônica. Em Estados densamente povoados como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, o recurso é cada vez mais escasso, sendo intensamente disputado por populações, indústrias e agricultura. 

Dentro desse quadro complicado, onde o abastecimento de milhões de pessoas está em jogo, a chegada do período das chuvas é sempre bem-vindo, apesar de todos os eventuais transtornos envolvidos. 

Então, que venham as chuvas…

OS REFUGIADOS DO CLIMA

BANGLADESH-CLIMATE

Eu acredito que a maioria dos leitores deva conhecer a história de Noé, um dos velhos patriarcas da Bíblia. Alertado pelo próprio Deus sobre um iminente dilúvio que desabaria sobre a Terra, Noé recebeu instruções detalhadas para a construção de uma grande embarcação, através da qual poderia salvar sua família, vizinhos e os animais de uma morte certa por afogamento. Chamado de louco pelos seus compatriotas, Noé não se intimidou e gastou muitos anos em sua empreitada. Segundo a narrativa, um casal de cada espécie animal veio voluntariamente se abrigar na arca – nenhum outro ser humano além de Noé e sua família buscou refúgio contra a tragédia. Chuvas torrenciais caíram durante vários dias, cobrindo toda a Terra e matando todos os “pecadores”.  

Evidências geológicas indicam que, por volta do VI milênio antes de Cristo, houve mesmo uma grande enchente em regiões da Ásia Central. Segundo uma das hipóteses dos geólogos, uma série de fortes terremotos pode ter fechado ou reduzido o Estreito de Bósforo, na Turquia, o que foi seguido de períodos de fortes chuvas na Ásia Central. Isso levou a uma forte elevação do nível do Mar Negro, que acabou invadindo grandes extensões de territórios de baixa altitude. Milhares de pessoas (talvez milhões) foram obrigadas a abandonar suas terras e fugir para terrenos mais altos. A história de Noé e de sua saga aparece em diferentes narrativas de diversos povos da região, sendo que a maioria desses relatos são bem anteriores à versão descrita pelos judeus em seu livro sagrado. 

A narrativa do dilúvio bíblico é apenas uma entre milhares de outras histórias e relatos históricos (muitos se aproximam mais do misticismo) de grandes tragédias climáticas vividas por diferentes povos, em diferentes locais e tempos ao longo da história. O rumo e os destinos de muitos povos antigos foram, literalmente, destruídos por eventos climáticos extremos como secas, enchentes e furacões. Nações inteiras acabaram por serem destruídas pela fúria do clima e grandes contingentes populacionais foram deslocados para outras regiões. 

Nas últimas décadas, as mudanças climáticas globais criaram uma nova categoria de refugiados, que passaram a ser chamados de refugiados climáticos ou ambientais. Essa nova “classe” de refugiados veio de somar a outros milhões de deslocados por guerras e por tragédias ambientais naturais. De acordo com estimativas da ONU – Organização das Nações Unidas, existem perto de 65,6 milhões de refugiados de guerras, conflitos internos, perseguições políticas e violações dos direitos humanos no mundo atual. Os refugiados climáticos são estimados em mais de 20 milhões de pessoas a cada ano. 

Entre as principais razões para a migração de populações por causas climáticas estão a desertificação, o aumento do nível do mar, as secas e a interrupção de fenômenos naturais como as monções, o período de fortes chuvas anuais do Subcontinente indiano e Sudeste Asiático. De acordo com o Relatório Mundial de Desastres de 2001, publicado pela Cruz Vermelha Internacional, os desastres ambientais estão superando as guerras como um fator do deslocamento de populações.  

O continente africano oferece diversos exemplos das tragédias que estão sendo criadas pelas mudanças do clima mundial. De acordo com informações recentes divulgadas pela ONU, perto de 45 milhões de pessoas estarão em grave situação de insegurança alimentar nos próximos seis meses por causa da forte seca que está assolando a África Austral, um tema que já tratamos em postagem anterior. Mudanças no padrão climático do Oceano Índico, com origem no aquecimento global, estão reduzindo as chuvas no Sul e no Leste da África, o que tem resultado em um forte período de seca em países como Angola, Lesoto, Madagascar, Malauí, Namíbia, Moçambique, Zâmbia, Zimbábue e África do Sul

Nos últimos cinco anos, as chuvas foram regulares em apenas um. Para piorar a situação, as temperaturas na África Austral aumentaram o dobro da média mundial. Com a falta de chuvas e com o aumento da temperatura, a produção agrícola entrou em colapso em muitas regiões, colocando a sobrevivência de milhões de pessoas em risco. Sem outras alternativas, essas populações passam a migrar em busca de melhores condições de vida em outras regiões. 

Parte dessa mesma região foi atingida em março deste ano pelo ciclone Idai, que causou forte destruição em Moçambique, Madagascar, Malauí, Zimbábue e África do Sul. Foram registradas mais de 700 mortes, especialmente em Moçambique, e centenas de milhares de pessoas ficaram desabrigadas. As estimativas oficiais afirmam que perto de 2,5 milhões de pessoas foram afetadas diretamente pela fúria do Idai

O aumento do nível do mar também está se transformando em uma outra forte razão para o deslocamento de populações. Em 2009, os habitantes das Ilhas Carteret, em Papua Nova Guiné, se transformaram nos primeiros refugiados climáticos oficiais por causa da elevação do nível do mar. Com uma altitude máxima de 1,7 metro acima do nível do mar, as terras dessas ilhas passaram a ser varridas pelas ondas, o que destruía casas e plantações. 

Sem outra alternativa, o Governo local iniciou um plano de evacuação total da população em março de 2009. Os cerca de 2.600 habitantes foram transferidos para ilhas próximas com maior altitude, como a Ilha de Bougainville localizada a cerca de 80 km de distância. Conforme comentamos na postagem anterior, as maiores vítimas das mudanças climáticas são as populações pobres dos países mais pobres. Os moradores das Ilhas Carteret nunca contaram com eletricidade ou com veículos com motores a combustão interna e, consequentemente, suas contribuições em termos de emissão de gases de efeito estufa ao longo da história foram desprezíveis. 

O aumento do nível do mar está entre as maiores ameaças climáticas dos próximos anos. Em um relatório recente do Banco Asiático de Desenvolvimento – Mudança Climática e Migração na Ásia e no Pacífico, há previsões bastante preocupantes dos impactos da elevação do nível dos oceanos na região. As estimativas falam de 37 milhões de deslocados na Índia, 22 milhões na China e 21 milhões na Indonésia até o ano de 2050. Em Bangladesh, país que tem atualmente 170 milhões habitantes, as estimativas falam de 30 milhões de refugiados climáticos até o ano de 2050

A Ilha de Bhola (vide foto), que fica na região da foz do rio Meghna na costa de Bangladesh, é um exemplo do que já está acontecendo na região. Desde a década de 1990, cerca de 500 mil pessoas dessa ilha já perderam as suas terras por causa da elevação do nível do mar e foram obrigadas a se mudar para outras regiões. 

Apesar de ser uma “criação” bastante recente da humanidade, os refugiados climáticos serão em breve um dos maiores desafios humanitários do nosso planeta, afetando populações em todo o mundo. 

MUDANÇAS CLIMÁTICAS JÁ FORÇAM O DESLOCAMENTO DE MAIS DE 20 MILHÕES DE PESSOAS A CADA ANO

Refugiados climáticos

A Organização não governamental internacional Oxfam divulgou um relatório na última segunda-feira, dia 2 de dezembro, com o título “Obrigados a deixar suas casas”. Nesse relatório, desastres climáticos como furacões, tempestades, enchentes e ciclones, são apontados como a causa do deslocamento forçado de mais de 20 milhões de pessoas a cada ano nessa última década em todo o mundo. A publicação do relatório coincidiu com a abertura da COP 25 – Conferência do Clima, organizada pela ONU – Organização das Nações Unidas, que está sendo realizada em Madrid, Espanha. 

A Oxfam International é uma confederação de 19 organizações e mais de 3.000 parceiros, que atua em mais de 90 países na busca de soluções para os problemas da pobreza, desigualdade e da injustiça, por meio de campanhas, programas de desenvolvimento e ações emergenciais. A Oxfam foi fundada no Reino Unido em 1942 e sua sede mundial fica em Nairóbi, no Quênia. 

De acordo com o relatório da Oxfam, é “três vezes mais provável que alguém seja forçado a deixar a sua casa por ciclones, inundações ou incêndios florestais do que por conflitos, e até sete vezes mais do que por terremotos ou erupções vulcânicas“. Para chegar a essas conclusões, a Organização analisou dados de catástrofes climáticas de todo o mundo no período entre 2008 e 2018. Foi a análise detalhada desses dados que mostrou o número total de pessoas que foram afetadas por eventos climáticos em todo o mundo a cada ano. 

Chama a atenção no relatório que não são apenas os países pobres e em desenvolvimento os que são vulneráveis às catástrofes com origem climática – na Europa, a lista dos países altamente vulneráveis a esses eventos é encabeçada pela República Tcheca, Grécia e Espanha. Em anos recentes, esses países foram assolados por secas, enchentes e grandes incêndios florestais, demonstrando uma grande falta de preparo para o gerenciamento e atendimento das populações que foram afetadas. 

No entanto, são mesmo as populações dos países de rendimento médio-baixo e baixo as mais susceptíveis aos impactos das crises climáticas. Cidadãos da Índia, Nigéria e Bolívia, citando como exemplo, tem cerca de 4 vezes mais chances de serem forçados a abandonar suas casas por causa de desastres climáticos naturais do que seus congêneres de países ricos como os Estados Unidos. Ironicamente, esses países são os que menos geram gases de efeito estufa, os grandes vilões do aquecimento global e das mudanças climáticas. 

Outra importante informação contida no relatório mostra que sete dos dez países com maiores riscos de deslocamento de populações por causa de fenômenos meteorológicos são as pequenas nações insulares em desenvolvimento. Entre 2008 e 2018, cerca de 5% da população de Cuba e República Dominicana, na região do Mar do Caribe, e de Tuvalu, ilha polinésia do Oceano Pacífico, foram deslocadas por condições climáticas extremas, mais especificamente por furacões e tufões que atingiram essas ilhas nos últimos anos. As emissões de gases causadores do efeito estufa per capita dessas nações equivale a 1/3 das emissões dos países ricos

Um exemplo bem recente da ira do clima mundial foram as fortes chuvas que assolaram vários países do Leste da África há cerca de 10 dias, com destaque especial para o Quênia. As fortes enxurradas provocaram grandes deslizamentos de encostas e as enchentes e ondas de lama destruíram cerca de 22 mil casas e mataram ao menos 100 pessoas. Informações da Cruz Vermelha do Quênia falam de 160 mil desabrigados. Incluindo-se nessa conta os desabrigados no Sudão do Sul, Somália, Tanzânia e Etiópia, a cifra chega à casa de 1 milhão de vítimas

Outros exemplos recentes que podemos citar são os incêndios florestais que estão devastando extensas áreas da Austrália e as enchentes em Veneza. No caso da Austrália, a origem do problema é uma forte seca que está castigando uma grande parte do país – aliás, a frequência das secas aumentou muito nessa ilha-continente nas últimas décadas. A situação está sendo agravada por fortes ventos, que ajudam a espalhar as chamas. Em Veneza, o grande vilão das enchentes são fenômenos climáticos no Mar Adriático, o que está provocando uma forte alta nas marés, um fenômeno que os locais chamam de “acqua alta”. No pico das inundações, mais de 90% da cidade ficou encoberto pelas águas. 

Existe, porém, uma grande diferença entre os eventos no Leste da África e as tragédias da Austrália e da Itália – a situação econômica dos diferentes países e a capacidade de atendimento às vítimas climáticas. Enquanto a Austrália e a Itália são países ricos e com recursos para acolher suas vítimas, os países africanos estão no grupo das nações pobres, onde as vítimas não podem contar com uma ajuda adequada dos Governos de seus países. Esse é, justamente, um dos principais alertas do relatório da Oxfam. De acordo com um dos diretores da organização, “são as pessoas mais pobres, dos países mais pobres, que pagam o preço mais alto”. 

Entre outras reinvindicações, a Oxfam espera que a COP 25 conclua a revisão do Mecanismo Internacional de Varsóvia para Perdas e Danos. Esse mecanismo foi propostos na COP 19, que ocorreu em Varsóvia, na Polônia, em 2013, com o objetivo de oferecer proteção às populações mais vulneráveis às mudanças climáticas. A Organização espera que os países membros deem um forte impulso para a criação de novos fundos de emergência com vistas ao apoio e a recuperação das comunidades atingidas por catástrofes climáticas. Também se espera que os países estipulem metas mais ambiciosas com vistas a redução das suas emissões de gases causadores do efeito estufa. 

O principal acordo internacional para a redução das emissões mundiais de gases causadores do efeito estufa é o Acordo de Paris, assinado em 2015, durante a COP 21 e com validade a partir de 2020. Pelo acordo, os 195 países signatários se comprometerem a reduzir suas emissões com vistas a conter o aquecimento global até o final do século XXI abaixo de 2° C, preferencialmente em 1,5° C, além de reforçar a capacidade dos países em promover o desenvolvimento sustentável

Entre muitos líderes mundiais que participam da COP 25 existe um consenso sobre a necessidade de tornar as medidas para a contenção dos gases de efeito estufa ainda mais restritivas.  Pelo “andar da carruagem”, as medidas propostas pelo Acordo de Paris são muito tímidas e insuficientes para limitar o aquecimento global aos valores pretendidos. Por outro lado, muitos países resistem fortemente a essa ideia, sob o argumento de riscos ao seu crescimento econômico. Entre as vozes dissonantes, o grande destaque são os Estados Unidos, país cujo Governo já decidiu pela sua retirada do Acordo de Paris. 

Enquanto os representantes de quase 200 nações discutem o futuro do planeta e os riscos das mudanças climáticas globais sem chegar a um consenso na COP 25, o risco de um aumento progressivo do número de “refugiados climáticos” ano após ano será cada vez maior. 

É fundamental que fique bem claro a todos os representantes dos países que estamos tratando do futuro de toda a humanidade. 

O GRADUAL DESAPARECIMENTO DO LAGO CHADE NA ÁFRICA

Lago Chade

Na nossa última postagem falamos dos problemas enfrentados pelo Lago Titicaca nos Altiplanos Andinos, que vem sofrendo com a intensa poluição de suas águas e também com uma lenta redução do seu nível. Ações antrópicas, ou seja, de origem humana, e o aquecimento global estão na base dos problemas. Um outro exemplo de lago que está sofrendo com terríveis problemas é o Lago Chade, na África. Até o início da década de 1960, o Chade tinha um espelho d’água com uma superfície de 25 mil km², cerca de três vezes o tamanho do Lago Titicaca – atualmente, o Lago Chade apresenta apenas 10% dessa área

O Lago Chade ocupa terras de quatro países: Chade, Camarões, Níger e Nigéria. Durante muitas eras, o Lago foi a principal fonte de água de uma região conhecida como Cinturão do Sahel, uma extensa faixa de terras entre o Oceano Atlântico a Leste e o Mar Vermelho a Oeste, separando o Deserto do Saara e as regiões de savanas na África. Uma população de 40 milhões de habitantes vive nas cercanias e depende das águas do Lago Chade. 

O Norte da África vem sofrendo as consequências de fortes mudanças climáticas e geológicas naturais há milhares de anos, que alteraram completamente o clima e as paisagens da região. Há cerca de 20 mil anos atrás, após o último período de Glaciação ou Era do Gelo, como é mais conhecida popularmente, o Norte da África apresentava um clima mais úmido e com temperaturas mais baixas que as atuais, contanto com diversos rios permanentes. De acordo com estudos recentes, o famoso Rio Nilo, que hoje atravessa o Egito de Sul a Norte e deságua no Mar Mediterrâneo, naqueles tempos atravessava todo o Norte da África e tinha a sua foz no Oceano Atlântico. Para a maioria dos especialistas, porém, essa mudança no curso do rio Nilo ocorreu há mais de 30 milhões de anos atrás. 

Grande parte do território que hoje se encontra soterrado por dezenas de metros de dunas de areia seca era coberto por densas florestas – as partes “mais secas” eram cobertas por vegetação de savana, muito parecida com o nosso Cerrado. Todos os animais africanos que você costuma ver nos documentários como elefantes, girafas, zebras, antílopes, rinocerontes, hipopótamos, macacos e aves de todos os tipos se espalhavam por todo esse território. Pinturas rupestres deixadas pelos antigos habitantes da região em pedras espalhadas por todo o deserto do Saara mostram cenas onde aparecem todos esses animais. Se você pudesse viajar no tempo e acabasse por desembarcar no meio desse território, nada lhe lembraria a imagem atual do grande deserto. 

Foi então que começaram as mudanças – nosso planeta sofreu uma leve alteração no seu eixo de rotação, o que foi suficiente para alterar a incidência solar no Norte da África e provocar uma alteração climática nos regimes de umidade e temperatura. Mudanças no relevo, provavelmente criadas por terremotos ou por um afundamento tectônico, desviaram o rio Nilo para o seu curso atual, com foz no Mar Mediterrâneo. Completando esse quadro de mudanças climáticas, grandes rios permanentes começaram a secar. Alguns cientistas afirmam que essas mudanças ocorreram a menos tempo, há cerca de 5 mil anos atrás, mas com as mesmas consequências – as florestas retrocederam lentamente até desaparecer e as áreas de savana se ampliaram.  

Todo esse profundo conjunto de mudanças climáticas, é claro, trouxe seus reflexos para o Lago Chade, que iniciou um lento e contínuo processo de encolhimento. Além de evidências físicas, existem relatos de observadores oculares que corroboram essas mudanças. Legiões romanas realizaram expedições pelo Deserto do Saara aos tempos do início da Era Cristã e deixaram registros sobre o Lago Chade, que tinha naquela época cerca de 300 mil km², uma área equivalente à da Alemanha. Isso demonstra que esse Lago, que até poucas décadas atrás era considerado o sexto maior do mundo, está num processo de encolhimento contínuo há milhares de anos. 

A lenta e gradual redução do Lago Chade sofreu um grande incremento a partir da década de 1960. Grandes projetos de agricultura irrigada passaram a ser implantados nas margens do Lago, contando com grandes estímulos dos diferentes Governos. A partir da década de 1950 teve início a chamada Revolução Verde – diversos avanços tecnológicos na produção de defensivos agrícolas e de fertilizantes mudaram as práticas na agricultura, o que permitiu um grande aumento da produção e redução da fome no mundo. Governos de países com grande carência na produção de alimentos e sujeitos a frequentes “epidemias” de fome passaram a fazer grandes investimentos em agricultura irrigada, contando para isso com apoio financeiro e tecnológico de organismos internacionais como a FAO – Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura. 

Os países localizados no entorno do Lago Chade, é claro, passaram a fazer a sua própria lição de casa e as águas passaram a ser usadas de forma não sustentável, com uso abusivo e grandes perdas por evaporação. Outra fonte importante de impactos ao Lago foi a construção de usinas hidrelétricas nas calhas de muitos dos seus rios formadores. Sem estudos de impacto ao meio ambiente, uma prática muito pouco usada naqueles tempos, essas obras provocaram uma grande redução na vazão dos rios tributários do Lago Chade, o que combinado ao uso abusivo de suas águas para irrigação levou a atual situação de crise hídrica e humanitária. 

Na década de 1980, a área ocupada pelo Lago Chade oscilava entre 10 e 20% da área existente até o início da década de 1960 – em alguns anos, essa redução atingiu a impressionante marca de 95%. A redução acentuada do nível do Lago passou a inviabilizar inúmeros projetos agrícolas, que passaram a ficar extremamente distantes das suas águas e sem condições de fazer o bombeamento. Muito projetos foram transferidos para as “novas margens” do Lago, ocupando terras que, até pouco tempo antes, faziam parte do fundo do Chade. 

O colapso na produção de alimentos e a falta de água provocou o deslocamento forçado de milhões de pessoas nos países da região de entorno do Lago Chade nas últimas décadas (vide foto). Além dos problemas ligados ao encolhimento do Lago, toda a região do Cinturão do Sahel passou a enfrentar uma drástica redução no volume de chuvas desde a década de 1970. Estudos meteorológicos indicam que as chuvas se deslocaram para regiões mais ao Sul e colocam a culpa nas mudanças climáticas globais

Nos últimos anos, as crescentes tragédias climáticas e ambientais da região ocupada pelo Lago Chade ganharam um novo e explosivo componente – uma guerra religiosa liderada pelo grupo islâmico extremista Boko Haram. Guiados por uma leitura bastante distorcida do Alcorão, o livro sagrado dos islamitas (que preferem esse nome ao usual muçulmano). Esses guerrilheiros atacam e matam populações cristãs, e também sequestram aqueles que se declaram islamitas – principalmente mulheres jovens, que são levados para campos de prisioneiros e submetidos a um ensino radical dos dogmas da religião.  

As autoridades locais calculam que mais de 2 milhões de pessoas já foram deslocadas pelos ataques do Boko Haram. A ONU – Organização das Nações Unidas, estima que 11 milhões de pessoas estão sendo impactadas diretamente pelas ações do grupo e necessitam de ajuda humanitária frequente. No total, a somatória de problemas nas regiões de entorno do Lago Chade afeta cerca de 40 milhões de pessoas, o que é uma das maiores tragédias humanitárias de nossos tempos. 

A natureza muitas vezes é cruel e suas mudanças afetam grandes comunidades de pessoas e animais. Agora, quando fenômenos naturais se somam aos efeitos das obras humanas, como é o caso das mudanças climáticas globais, as coisas ficam catastróficas como no Lago Chade. 

LAGO TITICACA: UM EXEMPLO DAS AGRESSÕES CRIADAS PELAS AÇÕES HUMANAS E PELAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS

Jugo de rana no Peru

Nessa segunda-feira, dia 2 de dezembro de 2019, teve início a COP 25 – Conferência do Clima. Organizada pela ONU – Organização das Nações Unidas, essa conferência reúne representantes de quase 200 países, totalizando cerca de 29 mil pessoas, que debaterão até o próximo dia 13 inúmeros temas ligados ao clima, em particular as Mudanças Climáticas Globais. Desde a assinatura do grande acordo climático global em 2015, o Acordo de Paris, a temática principal das conferências tem sido as questões ligadas ao clima. 

Originalmente, a COP 25 seria realizada aqui no Brasil. Porém, com a vitória da campanha presidencial de Jair Bolsonaro, uma série de divergências entre as visões políticas do novo Governo e os organizadores do encontro levaram a uma mudança do evento para o Chile. Nessa nova sede, os problemas para a organização do evento acompanharam a onda de protestos populares contra o Governo, forçando a uma nova transferência, desta vez para Madrid, a capital da Espanha. Se as dificuldades para a organização do encontro já foram grandes, as diferentes visões sobre os problemas climáticos globais por parte de muitos países são enormes. Aguardemos os resultados. 

A questão das mudanças climáticas é cada vez mais urgente e, em postagens recentes, temos mostrado algumas de suas faces mais dramáticas. Na nossa última postagem abordamos os problemas do Lago Titicaca, localizado entre o Peru e a Bolívia – o nível do corpo d’água está baixando lentamente e, entre as causas mais visíveis, estão o uso descontrolado da água em projetos de irrigação e o derretimento das geleiras andinas que alimentam o Lago desde tempos imemoriais. Os muitos problemas do Lago Titicaca não terminam por aí e mostram problemas semelhantes aos de outros rios, lagos e represas por todo o mundo. 

Com mais de 8,3 mil km², o Lago Titicaca é o maior corpo de água doce natural da América do Sul. De acordo com informações da Universidad Nacional del Altiplano, em Puno no Peru, até 1986, o nível médio do espelho d’água se situava na cota dos 3.812 metros de altitude (algumas fontes falam de 3.821 metros) – daquele momento até agora, o Lago perdeu uma lâmina d’água de 4 metros e está atualmente numa cota de 3.808 metros de altitude.

Além dessa visível perda água, o Titicaca sofre com a intensa poluição criada pelo lançamento de esgotos domésticos das cidades e vilas localizadas em seu entorno, além de receber grandes volumes de lixo e outros resíduos sólidos gerados pela intensa atividade mineradora da região. O Lago também recebe grandes quantidades de resíduos tóxicos de fertilizantes e agrotóxicos usados na agricultura local. 

O surgimento do Lago Titicaca é resultado dos processos que formaram a Cordilheira dos Andes. O afundamento de um grande bloco de rocha, o que em geologia estrutural é chamado de graben, formou uma grande fossa tectônica, que se encheu com as águas do oceano e formou um grande lago de águas salgadas. Com o soerguimento dos terrenos que formariam o Altiplano, o lago foi assumindo a conformação e a altitude atual. Após o surgimento das altas montanhas dos Andes, teve início também a formação dos glaciares ou geleiras de grande altitude e também de inúmeros cursos de água alimentados pela água resultante do derretimento dessas calotas de gelo. O Titicaca foi se transformando em um grande lago de água doce. 

De acordo com as lendas locais, a civilização Inca nasceu nas águas do Lago Titicaca. Manco Copac e Mama Ocllo – a popular Pachamama, filhos do Deus Sol, se instalaram em uma das ilhas do Lago Titicaca, que passou a ser conhecida Isla del Sol ou Ilha do Sol; seus descendentes formariam o povo Inca. Registros fósseis e arqueológicos indicam a presença de populações humanas ao redor do Lago Titicada há cerca de 3.700 anos. O Titicaca tem 41 ilhas naturais e inúmeras “ilhas” artificiais flutuantes, onde mora uma grande população indígena da etnia Urus. A maior cidade costeira do lago é San Carlos de Puno, que tem uma população de aproximadamente 150 mil habitantes. 

O equilíbrio ambiental que durante vários séculos existiu entre as populações e as águas do Lago Titicaca foram alterados radicalmente nas últimas décadas. O crescimento de inúmeras cidades e vilarejos nas regiões lindeiras do Lago não foi seguido da instalação das mínimas infraestruturas de saneamento básico, uma triste realidade na maioria dos países pobres e em desenvolvimento do nosso mundo. Sem sistemas para a coleta e o tratamento dos esgotos, e também dos serviços de coleta de lixo e resíduos sólidos, o Lago Titicaca passou a sofrer fortíssimas agressões ambientais. A foto abaixo mostra um dos rios tributários do Lago Titicaca na cidade de Puno coberto por lixo e detritos.

Poluição no Lago Titicaca em Puno

Na esteira desse grande aumento da população regional, passaram a surgir grandes plantações, especialmente de batata e quinoa, atividades que passaram a demandar grandes volumes de água transportada desde o Lago Titicaca através de inúmeros sistemas de irrigação, alguns altamente ineficientes. A alta incidência de raios ultravioleta nessas altitudes resulta na evaporação acelerada de grandes volumes de água. A água excedente da irrigação também passou a carrear para o Lago Titicaca grandes quantidades de resíduos de produtos químicos usados nas plantações

As tradicionais atividades mineradoras da região do Altiplano também dão sua “tóxica” contribuição para a degradação da qualidade das águas do Lago Titicaca. Além de grandes volumes de sedimentos, que produzem graves assoreamentos em rios e canais que desaguam no Titicaca, resíduos altamente tóxicos de minerais como chumbo, cobre, arsênico e mercúrio também são carreados para as águas do Lago. 

Em 2015, o Lago Titicaca deu um grande sinal de alerta, mostrando a todos o alto grau de poluição das suas águas – a forte eutrofização criada pelo excesso de esgotos e outros elementos químicos levou a um excessivo crescimento de algas, o que deixou a superfície de grandes trechos do Lago Titicaca na cor verde. A consequência mais desastrosa dessa “maré verde” foi a morte de milhares de rãs – em um único trecho do Lago, com uma área de aproximadamente 50 km², foram encontradas perto de 10 mil rãs mortas

A rã-do-Titicaca (Telatobius culeus) é uma espécie exclusiva do Lago Titicaca, adaptada para viver na atmosfera rarefeita da grande altitude. A espécie é conhecida pelos hábitos aquáticos e pelos excessos de pele no seu corpo, uma característica evolutiva que permite que o animal absorva o oxigênio dissolvido na água. Essas rãs podem atingir até 50 cm de comprimento e um peso de até 1 kg, o que torna essa espécie a maior rã do mundo. A degradação da qualidade ambiental das águas do Lago Titicaca colocou essa espécie de rã sob sério risco de extinção. 

Além da perda de habitat, as populações de rãs-do-Titicaca também sofrem com a caça predatória intensiva. O consumo de carne de rã, usada principalmente na preparação de sopas, é um hábito antigo da população do Peru, que nas últimas décadas se estendeu também para a Bolívia. Um outro hábito de consumo muito peculiar das populações do Altiplano, tanto bolivianas quanto peruanas, é a ingestão do “suco de rã” ou jugo de rana, ou ainda, licuado de rana, em espanhol, uma bebida energética indicada para melhorar o desempenho sexual e curar doenças com a tosse e a bronquite. Em barracas das feiras livres (vide foto), jovens rãs são batidas vivas com água em um liquidificador e bebidas a “um só gole” pelos mais corajosos. Essa forte pressão de caça está dizimando as populações remanescentes dessa espécie única de rã. 

A intensa poluição das águas, por fim, se volta contra as próprias populações humanas – o Lago Titicaca é o maior e um dos únicos mananciais de abastecimento de água dessa extensa região do Altiplano. Sem estações para o tratamento adequado da água para consumo em suas casas, os habitantes são obrigados a consumir uma água de qualidade cada vez pior. Uns poucos afortunados, que possuem embarcações, podem se dar ao luxo de viajar até pontos cada vez mais distantes para buscar água em trechos do Lago mais preservados.

Essa é uma triste realidade já vivida por outras populações e povos ao redor de todo o mundo, e cada vez mais intensificadas pelas mudanças climáticas globais. 

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AS MUDANÇAS CLIMÁTICAS GLOBAIS E OS RISCOS AO LAGO TITICACA NOS ANDES

Lago Titicaca

Uma série de pequenas mudanças no clima do planeta vem ocorrendo de forma contínua nos últimos 250 anos sem que a maioria da população do mundo perceba. Ao longo do tempo geológico, nosso planeta vem passando por inúmeras mudanças no clima global – a última grande mudança climática ou período glacial, mais conhecido como Era do Gelo, teve início há cerca de 21 mil anos e terminou a aproximadamente 11,5 mil anos atrás. De lá para cá, o clima planetário vem se mantendo razoavelmente estável. 

Em meados do século XVIII, quando começou a chamada Revolução Industrial, foi iniciado um ciclo contínuo de emissões de gases de efeito estufa, gerados principalmente pela queima do carvão usado nos processos de produção das indústrias, nas locomotivas, centrais geradoras de energia elétrica e na calefação de milhões de residências. A partir das últimas décadas do século XIX, com o início da produção em massa de carros, caminhões e ônibus, combustíveis fósseis derivados do petróleo também passaram a dar a sua colaboração na geração de poluentes atmosféricos. 

Na minha cidade, São Paulo, as mudanças no padrão climático são bem mais visíveis que em outras regiões do país. Nos meus anos de infância, entre as décadas de 1960 e 1970, os invernos na cidade costumavam ser congelantes, com temperaturas chegando próximas dos 0° C nos dias mais frios. Um outro fenômeno climático bem paulistano daqueles tempos era a garoa (que na grafia antiga se escrevia garôa), uma chuva rápida com gotas finíssimas que caía todo final de tarde. A garoa desapareceu no final da década de 1970 e nos últimos invernos no Planalto de Piratininga raramente tivemos temperaturas abaixo dos 10° C. Em outras regiões do Brasil, as mudanças climáticas podem ser observadas claramente nas alterações dos padrões das chuvas anuais. 

Um dos locais aqui da América do Sul onde as mudanças no clima são bem mais visíveis são os Andes Tropicais, trecho da Cordilheira que vai do Sul da Bolívia até Colômbia e Venezuela ao Norte. Inúmeros glaciares ou geleiras dessa extensa região estão derretendo a velocidades alarmantes nos últimos anos. Para dar uma ideia do tamanho dos problemas – das 10 geleiras que existiam nas montanhas dos Andes na Venezuela até 1952, só restaram 5. No mesmo período, 8 geleiras da Colômbia desapareceram e só restam 6.  

Mais ao Sul, os problemas são ainda mais evidentes – no Equador, as geleiras dos vulcões AntizanaCotopaxi e Chimborazo já perderam entre 42 e 60% de suas massas. As 722 geleiras existentes na Cordillera Blanca no Peru sofreram uma redução de 22,4% desde 1970 e na Bolívia, as geleiras de Charquini perderam entre 65 e 78% das suas áreas nas últimas décadas, entre outros derretimentos confirmados

Em todos esses países, cidades importantes estão tendo sérios problemas para o abastecimento de água de suas populações. As nascentes de água em toda a Cordilheira dos Andes sempre dependeram do lento derretimento das geleiras para a formação dos seus caudais. Com o desaparecimento de geleiras do trecho Tropical dos Andes, todo o ciclo da água nessas regiões está ficando comprometido e milhões de pessoas estão sob ameaça de ficar sem água em suas casas e plantações. 

O maior corpo de água doce natural da América do Sul, o Lago Titicaca, está se tornando refém dos riscos de desaparecimento de algumas geleiras Andinas. Com mais de 8,3 mil km² de superfície, o Lago Titicaca se estende na região do Altiplano entre o Peru e a Bolívia, a uma altitude de 3.812 metros acima do nível do mar. Nessa região de chuvas escassas, a alimentação do Lago Titicaca depende de um sem números de pequenos rios com nascentes nas geleiras das grandes altitudes. 

Nas altas montanhas Andinas (com altitudes entre 5 e 6 mil metros) a precipitação anual normalmente se situa na faixa entre 1.200 e 1.500 mm, resultando num acúmulo de neve entre 2 e 3 metros. Ao longo de milhares de anos, essa neve anual foi se compactando e formando todo um conjunto de glaciares de Norte a Sul da Cordilheira. Nessas regiões, a precipitação é controlada, principalmente por correntes de ar vindas do Oceano Pacífico, que se misturam com massas de ar quente vindas da região amazônica. As altas montanhas interceptam as massas de ar, resultando em precipitação e acúmulo de neve – o derretimento gradual de uma pequena parte dessa massa de gelo está na origem das nascentes de água de todos os rios andinos, inclusive os rios que alimentam o Lago Titicaca. 

Com a alta incidência de radiação solar no Altiplano, uma lâmina de água com até 120 cm de espessura evapora a cada ano no Lago Titicaca e precisa ser reposta a partir da água dos seus rios tributários. É justamente aqui que se encontra a principal ameaça – com o desaparecimento de muitas geleiras nas regiões de entorno do Titicaca, os tributários estão despejando quantidades cada vez menores de água e o nível do Lago está baixando lentamente. 

De acordo com informações da Universidad Nacional del Altiplano, localizada na cidade de Puno no Peru, o nível do Lago Titicaca está atualmente na cota de 3.808 metros acima do nível do mar, cerca de 4 metros abaixo do nível médio histórico. A universidade afirma que, além da diminuição dos caudais dos rios tributários, existem grandes perdas de água no Lago Titicaca para inúmeros sistemas de irrigação agrícola nas regiões lindeiras. Parte importante dessa água se perde por evaporação devido ao uso abusivo e ineficiente

Um sinal de alerta importante sobre a situação da água no Altiplano se deu em 2017, quando o segundo maior lago da Bolívia, o Poopó, simplesmente desapareceu. O Lago Poopó se localizava no Departamento de Oruro, próximo da divisa com o Chile. Nos períodos de cheia, esse Lago chegava a cobrir uma superfície de 2,5 mil km², com uma profundidade média de 2,5 metros, podendo chegar até 6 metros em alguns trechos. A intensa atividade mineradora na região levou ao assoreamento de diversos rios tributários do Lago e contribuiu para essa tragédia.  

A principal fonte de água que alimentava o Lago Poopó era o rio Desaguadero, uma fenda natural localizada na parte Sul do Lago Titicaca. Essa fenda funcionava como uma espécie de “ladrão”, escoando todo o excedente de água do Lago Titicaca na direção do Lago Poopó, localizado num trecho mais baixo do Altiplano. O Lago Poopó era o trecho terminal dessa bacia hidrográfica fechada, que em geografia recebe o nome de bacia endorreica

Com a redução do nível médio do Lago Titicaca, a quantidade de água que escapava pelo canal do rio Desaguadero foi sendo gradualmente reduzida, até o momento em que o nível da água ficou próximo do nível do canal de fuga. Para piorar o problema, as águas do rio Desaguadero passaram a ser desviadas para uso em diversos programas de irrigação, acelerando assim o colapso do Lago Poopó

As autoridades dos países, principalmente da Bolívia, procuram minimizar a situação, afirmando que “as oscilações do nível do Lago Titicaca são normais e que não há motivos para pânico“. Se o desaparecimento de um lago com uma área quase seis vezes maior que a Baía da Guanabara ou três vezes o tamanho da cidade de São Paulo, o que foi caso do Lago Poopó, não é motivo para pânico, eu sinceramente não sei o que seria. 

Além da perda sistemática de água, o Lago Titicaca também está sofrendo intensamente com a poluição e com o despejo de lixo. Vamos falar disso na próxima postagem. 

AS FORTES NEVASCAS NOS ESTADOS UNIDOS E SEUS IMPACTOS NO FERIADO DO DIA DE AÇÃO DE GRAÇAS

Nevasca nos EUA

Conforme estamos mostrando em nossas últimas postagens, uma série de eventos climáticos incomuns têm causado grandes problemas em diferentes partes do mundo. Na Austrália, a forte seca e os ventos estão provocando os mais intensos incêndios florestais registrados nas últimas décadas. Na maravilhosa Veneza, no Nordeste da Itália, são as enchentes, as maiores desde 1966, que estão ameaçando o inestimável patrimônio artístico, arquitetônico e cultural. Por fim, falamos das violentas chuvas e suas trágicas consequências no Leste da África – enormes desmoronamentos de encostas e enchentes já mataram centenas de pessoas e centenas de milhares estão desabrigadas. 

Apesar das enormes distâncias geográficas que separam essas diferentes localidades no mapa mundial, existe um ponto em comum por trás de todos esses eventos climáticos extremos – as mudanças climáticas globais. A grande liberação de gases de efeito estufa, emitidos principalmente pela queima de combustíveis fósseis como o carvão e os derivados de petróleo, é uma das principais vilãs dessa tragédia global.  

Os desmatamentos e as queimadas em áreas florestais, a pecuária, a agricultura, a produção industrial e a geração de energia elétrica, entre outras atividades humanas, completam a extensa lista dos emissores dos gases de efeito estufa. A grande concentração desses gases na atmosfera tem provocado um lento e gradual aumento da temperatura no planeta Terra, o que, por sua vez, vem provocando toda uma série de eventos climáticos extremos

A mais recente peça pregada pelo clima nesses últimos dias foram as fortes nevascas fora de época em diferentes regiões dos Estados Unidos. O NWS – Serviço Nacional do Clima na sigla em inglês, classificou esses eventos climáticos como “históricos e sem precedentes“. Além de fortes ventos e inundações em áreas litorâneas, o Serviço fez previsões de precipitações de até 120 cm de neve em regiões de montanha, o que é muita coisa considerando-se que ainda é outono no Hemisfério Norte. 

A situação fica ainda mais dramática quando verificamos a semana em que essas nevascas temporãs ocorrem – dia 28 de novembro é o Dia de Ação de Graças, o Thanksgiving, o mais importante feriado norte-americano. A data rememora a época da chegada dos primeiros 102 peregrinos protestantes ao Novo Mundo, a bordo do lendário navio Mayflower no final de 1620. Sem alimentos para sobreviver ao rigoroso inverno daquele ano, esses peregrinos foram salvos pelos indígenas, que de bom grado ofereceram alimentos para os recém-chegados.  Em 28 de novembro de 1621, exatamente um ano após o desembarque dos pilgrims em terras americanas, foi celebrado The First Thanksgiven, ou, o Primeiro dia de Ação de Graças. 

Entre os norte-americanos, o Dia de Ação de Graças é considerado um dos feriados mais importantes do calendário nacional e uma forte razão para uma boa reunião familiar. As estimativas falam que perto de 55 milhões de norte-americanos viajarão por todo o país para se reunir com suas famílias. Nevascas fora de época nessa data representam uma enorme fonte de problemas para todos esses viajantes. Muitas rodovias estão cobertas por neve e quem já teve a experiência de dirigir nessas condições sabe das dificuldades de manter uma trajetória segura de um veículo nessas situações.  

Outra forma usual de viagens nos Estados Unidos é por via aérea. Diversos aeroportos do país foram obrigados a cancelar centenas de voos devido as condições climáticas. Um exemplo é o aeroporto da cidade de Denver, no Estado do Colorado, que no dia 27 cancelou cerca de 500 voos e outros tantos sofreram atrasos. Segundo informações divulgadas pelo aeroporto, cerca de mil pessoas foram obrigadas a passar a noite acomodadas de forma improvisada nos bancos dos terminais

As nevascas também interromperam os serviços de distribuição de energia elétrica em cinco Estados do Meio-Oeste, onde se incluem o Michigan, Ohio e Wisconsin. De acordo com os levantamentos mais recentes, cerca de 300 mil imóveis ficaram sem energia elétrica. Numa extensa faixa no centro do país, que vai do Oeste do Texas até os Estados do Missouri Ohio, os Serviços de Meteorologia previam ventos de até 95 km/h e fortes tormentas no Dia de Ação de Graças, condições que tornam as viagens rodoviárias extremamente perigosas e desaconselháveis. 

Fugindo um pouco dos problemas ligados ao feriado nacional, essas nevascas trouxeram uma série de impactos negativos aos agricultores de diversas regiões do país. Os Estados Unidos, para que não sabe, ocupam a posição de maior produtor agrícola do mundo, principalmente de grãos, e o outono é a época de colheita de diversas culturas, especialmente o milho e a soja. Há notícias de diversas fazendas onde as plantações, já em vias da colheita, foram cobertas pela neve – será preciso esperar essa neve derreter e as plantas secarem para se avaliar as possíveis perdas. 

Os agricultores norte-americanos disputam com os brasileiros, saca a saca, o título de maior produtor mundial de soja. Mesmo assim, a demanda pelo grão no mercado chinês está em fortíssima alta e já está faltando soja no mercado – eventuais perdas nas culturas dos campos norte-americanos poderão elevar ainda mais o preço dessa commodity, com reflexos nos preços de diversos produtos que consumimos em nosso dia a dia. A soja é um importante ingrediente para a produção de rações para animais e qualquer aumento de preços terá reflexos nos custos de ovos, carnes e seus derivados. 

Em meados do mês de outubro, uma outra nevasca fora de época já havia atingido os Estados de Minnesota, Dakota do Norte, Montana, Iowa e Wisconsin, importantes produtores de soja do país. Alguns fazendeiros fizeram relatos de uma camada de neve com 35 cm cobrindo suas plantações. Diversos produtores nesses Estados já estavam realizando a colheita do grão e foram obrigar a paralisar os trabalhos por causa do tempo. A chegada de outras nevascas temporãs num espaço tão curto de tempo poderá comprometer de vez as colheitas de muitas dessas propriedades. 

Como fica fácil de perceber, os extremos climáticos estão se tornando cada vez mais comuns em todo o mundo e eles têm trazido muitos prejuízos financeiros e problemas de todos os tipos. Desgraçadamente, muitas tragédias humanas também já estão se desenrolando, com muitas mortes relatadas e milhares de pessoas desabrigadas. 

Essas nevascas fora de época nos Estados Unidos revelam, além de tudo, uma grande ironia do destino – o Governo do país está entre os que mais resistem em reduzir as emissões de gases de efeito estufa. Inclusive, o país acaba de se retirar do Acordo de Paris, uma iniciativa internacional dos países para a redução das emissões de gases causadores do aquecimento global.  

Para encerrar – os americanos, ao lado dos chineses, são os maiores emissores desses gases no mundo; a única diferença é que a China continua no Acordo de Paris. 

 

AS FORTES CHUVAS E OS DESLIZAMENTOS DE TERRA NO QUÊNIA

Enchentes no Quênia

Nesses últimos dias, fortes chuvas estão atingindo o Quênia, país do Leste da África, e mais de 100 pessoas já morreram por causa de grandes deslizamentos de terra. Cerca de 22 mil casas foram atingidas pela lama e entre 80 e 120 mil pessoas estão desabrigadas – informações da Cruz Vermelha falam de 160 mil desabrigados. As enchentes e a lama também destruíram pontes e rodovias, criando uma situação caótica em uma extensa região.  

Problemas semelhantes estão atingindo países próximos como o Sudão do Sul, a Tanzânia, a Etiópia e a Somália. No Sudão do Sul, país que já sofre uma grande crise humanitária devido aos conflitos entre diferentes grupos religiosos, quase um milhão de pessoas já foram atingidas e há temores de epidemias e de fome. Dezenas de mortes já foram confirmadas na Etiópia e na Tanzânia, além de dezenas de milhares de desabrigados nesses países e também na Somália. 

O resgate às vítimas está sendo dificultado pela falta de infraestrutura – pontes e estradas foram destruídas pelos deslizamentos e em muitos locais o socorro só está conseguindo chegar com o uso de helicópteros das forças militares e policiais. De acordo com informações da Cruz Vermelha da Nigéria, “os sobreviventes não tem água ou comida e não podem receber assistência médica”. A situação poderá piorar nos próximos dias – o serviço de meteorologia do país afirma que mais chuvas fortes são esperadas. 

O Quênia é considerado o país mais rico do Leste da África. É famoso no mundo inteiro por suas Savanas e reservas naturais, onde vivem grandes manadas de animais selvagens. Milhões de turistas são atraídos ao país todos os anos e chegam ansiosos para viver as aventuras de um safari. Outra grande atração turística do país é o Monte Quênia, a segunda montanha mais alta da África com 5.199 metros de altitude. O Quênia ocupa uma área total de 581 mil km², pouco maior que a área do Estado da Bahia, e tem uma população de 45 milhões de habitantes. 

A produção agrícola é fundamental para a economia do país, respondendo por 25% do PIB – Produto Interno Bruto, além de ser a grande geradora de postos de trabalho. O Quênia é um grande exportador de café, uma planta originária da vizinha Etiópia, e de chá, cultura que foi introduzida pelos ingleses nas últimas décadas do século XIX. O país fez parte da chamada África Oriental Britânica entre 1895 e 1920 como um protetorado, e entre 1920 e 1963 passou a ser a Colônia Britânica do Quênia. Em 1963 o Quênia se tornou um país independente. 

Com o início da colonização britânica na região, teve início um intenso processo de derrubada da cobertura florestal original das regiões Oeste e Sul do país para permitir a implantação de grandes lavouras comerciais, especialmente de chá, café, tabaco e algodão. Para facilitar o escoamento da produção agrícola, os britânicos construíram uma ferrovia, concluída em 1902, ligando a cidade de Mombaça, no litoral do Quênia, ao Lago Vitória. Esse modelo de agricultura baseado em intensos desmatamentos está na raiz dos problemas de deslizamentos de terras provocados pelas chuvas no Quênia. 

De acordo com estimativas de grupos conservacionistas internacionais, atualmente o Quênia possui apenas 2% da sua cobertura florestal original. Além do corte de matas para a abertura de campos agrícolas, grandes extensões de florestas foram derrubadas para a exportação das madeiras de lei e também para a criação de florestas comerciais com árvores de espécies exóticas. Essa radical redução da cobertura florestal trouxe graves impactos nos corpos d’água de uma parte do país, onde se observa uma forte redução dos caudais e um intenso assoreamento dos canais. 

Conforme já comentamos em inúmeras postagens aqui no blog, a presença de vegetação é fundamental para a proteção dos solos contra os efeitos da erosão e também para permitir a infiltração da água das chuvas nos solos, recarregando aquíferos e lençóis subterrâneos. Um exemplo brasileiro da importância da cobertura vegetal é o Cerrado, o segundo maior bioma do país. A vegetação nativa dos solos do Cerrado possui sistemas de raízes bem desenvolvidas e profundas, fundamentais para a infiltração da água das chuvas nos solos. Com o avanço das frentes agrícolas em toda a Região Centro-Oeste do Brasil, onde grandes extensões de vegetação do Cerrado estão sendo derrubadas, nota-se uma clara redução dos caudais dos rios

As raízes de culturas como a soja e o milho, plantadas em larga escala no Cerrado, possuem raízes muito curtas e, portanto, ineficientes para ajudar na absorção de água pelos solos. Sem a cobertura da vegetação original do Cerrado, os solos também sofrem com os processos erosivos. São exatamente esses problemas que estão acontecendo no Quênia, porém, com um agravante – diferente dos solos planos do nosso Cerrado, o relevo das regiões agrícolas do Quênia é bem mais acidentado, o que potencializa a formação de fortes enxurradas e o desmoronamento de encostas. 

O clima no Quênia apresenta variações conforme a região do país – no litoral o clima é Tropical, variando para Temperado nas regiões Oeste e Sul do país, e para um clima Árido nas regiões Norte e Nordeste. O país possui duas temporadas de chuva ao longo do ano – as “chuvas de longa duração”, que ocorrem entre os meses de março/abril e maio/junho. No final do ano, entre outubro e dezembro, ocorre a temporada das “chuvas de curta duração”. Nos últimos anos, entretanto, o Quênia vem enfrentando extremos climáticos, com ciclos alternados de fortes secas em alguns anos e de fortes chuvas, em outros. 

Fortes temporadas de chuvas são frequentes em toda a África Oriental. Neste ano, porém, o volume e a intensidade das chuvas estão muito acima da média histórica. De acordo com as observações dos cientistas, intensos fenômenos climáticos no Oceano Índico estão por trás dessas fortes chuvas. Conforme já comentamos em postagem anterior, a temperatura das águas do Oceano Índico vem aumentando sistematicamente nos últimos anos, causando uma série de mudanças no clima de grandes áreas da África e da Ásia. 

As medições sistemáticas da temperatura das águas do Oceano Índico começaram em 1880. Nos últimos anos, estas medições têm encontrado aumentos sucessivos nas temperaturas das águas: em 2010, foi observado um aumento de 0,70° C em relação à média histórica; em 2011, a temperatura média caiu um pouco e mostrou um aumento de 0,58° C; em 2012, o aumento foi de 0,62° C e em 2013, o aumento  foi de 0,67° C. Nos anos seguintes, foram registrados recordes sucessivos de aumento da temperatura: 0,74° C em 2014, 0,90° C em 2015 e 0,94° C em 2016. 

De todos os grandes oceanos do planeta, o Índico é o que, proporcionalmente, mais sofre com as interferências das mudanças climáticas na Antártida. O aumento da temperatura do planeta vem causando o derretimento de grandes massas de gelo no Polo Sul, o que tem provocado alterações nas correntes marinhas do Oceano Índico. Combinadas com o aumento da temperatura das águas, essas correntes marinhas tem reflexos diretos na formação e no deslocamento das massas de umidade que atingem a África e a Ásia – algumas áreas estão sofrendo com chuvas abaixo da média e outras com volumes muito acima da média histórica, como o que está acontecendo no Quênia nos últimos dias. 

As mudanças climáticas estão por aí e vieram para ficar.