OS ÍNDIOS “INCENDIÁRIOS” DE FLORESTAS NA AMÉRICA DO NORTE

Pilgrims

Quando os primeiros navegadores/exploradores europeus começaram a chegar a diferentes partes do continente americano, isso a partir da última década do século XV, lentamente começaram a perceber que aquelas terras faziam parte de um Novo Mundo, completamente desconhecido das grandes nações europeias de então. Além de apresentar uma nova geografia, o grande continente americano se mostrava cheio de novas e desconhecidas espécies animais e vegetais, além de novas gentes, muitas gentes. 

Existem diversas controvérsias sobre a real cifra de habitantes nas Américas daqueles primeiros anos. Conforme a fonte que você pesquisar, poderá encontrar números entre 90 e 112,5 milhões de habitantes. Tzvetan Todorov, filósofo e linguista búlgaro, autor do famoso livro A Conquista da América: a questão do outro, trabalha com uma cifra de 70 milhões de habitantes. No Brasil, os números também são vários – o antropólogo Darcy Ribeiro, em seu livro O Povo Brasileiro, falava que existiam perto de 1 milhão de indígenas no país à época do desembarque de Pedro Álvares Cabral; outros historiadores falam de populações originais entre 2 e 4,8 milhões de indígenas vivendo no Brasil. Qualquer que fossem as cifras reais, era muita gente. 

Ainda há muita controvérsia sobre a data da chegada desses grupos de seres humanos nas Américas – a migração de grupos de caçadores asiáticos através do Estreito de Bering, localizado entre o extremo Leste da Rússia e o Oeste do Alasca, entre 15 mil e 20 mil anos atrás, está entre as teorias mais aceitas. Isolados do resto do mundo, esses grupos humanos passaram a ocupar grandes territórios de Norte a Sul do continente e a desenvolver suas culturas, línguas e modos de vida. Infelizmente, esse longo isolamento de populações do resto do mundo acabaria sendo fatal para esses indígenas: doenças e vírus como os da varíola, da sífilis, e da gripe, entre outros, trazidos involuntariamente pelos europeus, seriam mortais para grande parte das populações americanas. Existem casos documentados que falam da morte de 80% dos membros de algumas tribos após o contato com os primeiros europeus – sem anticorpos contra as doenças mais comuns como uma gripe, os indígenas morriam rapidamente. O poeta chileno Pablo Neruda usou as seguintes palavras para descrever a tragédia: “la espada, la cruz y el hambre iban diezmando la familia salvage”.   

Nesse longo período em que reinaram sozinhos em nossos extensos territórios, os indígenas das três Américas se valeram do poder do fogo para abrir espaços dentro das grandes áreas florestais para a criação de áreas abertas para a prática da agricultura e para criação de áreas de caça; algumas vezes, os incêndios florestais foram provocados acidentalmente a partir de fogueiras de grupos de caça, largadas acesas nas matas. Vamos começar falando dos indígenas da América do Norte: 

Espanhóis, ingleses e franceses tomaram posse de diferentes regiões do continente norte-americano já no início do século XVI. A colonização efetiva das terras do Novo Mundo teve início no século XVII – um marco dessa colonização aconteceu em 1620, com a chegada do lendário navio Mayflower, que trazia a bordo os 102 primeiros peregrinos protestantes (pilgrims), fundadores daquele que, anos depois, seria os Estados Unidos da América. A pintura que ilustra esse post – The First Thanksgiving in 1621, de autoria de Jean Leon Jerome Ferris, nos dá uma visão “idealizada” dos primeiros contatos entre os colonos europeus e os indígenas americanos. Relatos deixados por esses mesmos colonos falam de grandes incêndios florestais provocados pelos indígenas. Veja esse testemunho de 1654, escrito pelo colono inglês Edward Johnson

“A queima frequente dos bosques pelos índios tornou as florestas a leste do Mississipi tão abertas e ralas de arboredos que eram como os nossos parques da Inglaterra”.  

Os indígenas das etnias Choctaw e Iroquois eram muito conhecidos por seus hábitos de cortar e queimar grandes áreas florestais, abrindo assim espaço para a criação de campos agrícolas, onde era cultivado o milho, o alimento mais importante dos indígenas norte-americanos. Sempre que os solos em uso apresentavam sinais de esgotamento, esses indígenas se mudavam para outras regiões e abriam espaços para novos campos agrícolas a base da queima da vegetação. Outra preocupação desses indígenas era a criação artificial de grandes áreas abertas com pastagens, que tinham como objetivo atrair grandes animais como veados, alces e bisões, que eram assim caçados com maior facilidade. Estudos realizados por diversas universidades dos Estados Unidos e do Canadá comprovaram que grande parte das Pradarias do Meio Oeste, extensos campos abertos cobertos por pastagens, não são de origem natural, mas sim resultado de um contínuo processo de queima de florestas. 

Outros povos nativos da América do Norte que podem ser incluídos na lista de “incendiários de florestas” são: Ojibwa, Cree, Mandam, Araphoe, Gros Ventres, Shosbone, Blackfeet, Assiniboine e várias tribos Athapaskan do Norte. Um colono americano, que foi testemunha ocular de um desses grandes incêndios florestais no Norte dos Estados Unidos no início do século XIX, deixou um dramático relato sobre os danos provocados aos rebanhos de búfalos da região: 

As pobres bestas têm todos os pelos chamuscados; mesmo o couro em muitas partes está enrugado e terrivelmente queimado, e seus olhos estão inchados e quase fechados. É realmente digno de pena vê-los cambaleantes, às vezes correndo em direção a uma enorme pedra, e outras vezes tombando colinas abaixo ou afundando em riachos ainda não completamente congelados. Em um certo lugar nós encontramos uma manada inteira morta.” 

Finalizando, vejam as conclusões de um estudo sobre esse assunto realizado pela Universidade de Visconsin, nos Estados Unidos: 

“O impacto causado pelo índio (sobre o meio ambiente) não era nem benigno nem localizado nem efêmero, nem eram os recursos utilizados em um modo notoriamente ecológico… O tamanho das populações nativas, o deflorestamento associado e a prolongada agricultura intensiva levaram a uma severa degradação da terra em algumas regiões. “ 

Observem que essas conclusões do estudo americano lembram muito algumas postagens publicadas aqui no blog, onde tratamos de queimadas e desmatamentos feitos por “gente civilizada” aqui no Brasil.

Continuaremos na próxima postagem. 

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