LAGO TITICACA: UM EXEMPLO DAS AGRESSÕES CRIADAS PELAS AÇÕES HUMANAS E PELAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS

Jugo de rana no Peru

Nessa segunda-feira, dia 2 de dezembro de 2019, teve início a COP 25 – Conferência do Clima. Organizada pela ONU – Organização das Nações Unidas, essa conferência reúne representantes de quase 200 países, totalizando cerca de 29 mil pessoas, que debaterão até o próximo dia 13 inúmeros temas ligados ao clima, em particular as Mudanças Climáticas Globais. Desde a assinatura do grande acordo climático global em 2015, o Acordo de Paris, a temática principal das conferências tem sido as questões ligadas ao clima. 

Originalmente, a COP 25 seria realizada aqui no Brasil. Porém, com a vitória da campanha presidencial de Jair Bolsonaro, uma série de divergências entre as visões políticas do novo Governo e os organizadores do encontro levaram a uma mudança do evento para o Chile. Nessa nova sede, os problemas para a organização do evento acompanharam a onda de protestos populares contra o Governo, forçando a uma nova transferência, desta vez para Madrid, a capital da Espanha. Se as dificuldades para a organização do encontro já foram grandes, as diferentes visões sobre os problemas climáticos globais por parte de muitos países são enormes. Aguardemos os resultados. 

A questão das mudanças climáticas é cada vez mais urgente e, em postagens recentes, temos mostrado algumas de suas faces mais dramáticas. Na nossa última postagem abordamos os problemas do Lago Titicaca, localizado entre o Peru e a Bolívia – o nível do corpo d’água está baixando lentamente e, entre as causas mais visíveis, estão o uso descontrolado da água em projetos de irrigação e o derretimento das geleiras andinas que alimentam o Lago desde tempos imemoriais. Os muitos problemas do Lago Titicaca não terminam por aí e mostram problemas semelhantes aos de outros rios, lagos e represas por todo o mundo. 

Com mais de 8,3 mil km², o Lago Titicaca é o maior corpo de água doce natural da América do Sul. De acordo com informações da Universidad Nacional del Altiplano, em Puno no Peru, até 1986, o nível médio do espelho d’água se situava na cota dos 3.812 metros de altitude (algumas fontes falam de 3.821 metros) – daquele momento até agora, o Lago perdeu uma lâmina d’água de 4 metros e está atualmente numa cota de 3.808 metros de altitude.

Além dessa visível perda água, o Titicaca sofre com a intensa poluição criada pelo lançamento de esgotos domésticos das cidades e vilas localizadas em seu entorno, além de receber grandes volumes de lixo e outros resíduos sólidos gerados pela intensa atividade mineradora da região. O Lago também recebe grandes quantidades de resíduos tóxicos de fertilizantes e agrotóxicos usados na agricultura local. 

O surgimento do Lago Titicaca é resultado dos processos que formaram a Cordilheira dos Andes. O afundamento de um grande bloco de rocha, o que em geologia estrutural é chamado de graben, formou uma grande fossa tectônica, que se encheu com as águas do oceano e formou um grande lago de águas salgadas. Com o soerguimento dos terrenos que formariam o Altiplano, o lago foi assumindo a conformação e a altitude atual. Após o surgimento das altas montanhas dos Andes, teve início também a formação dos glaciares ou geleiras de grande altitude e também de inúmeros cursos de água alimentados pela água resultante do derretimento dessas calotas de gelo. O Titicaca foi se transformando em um grande lago de água doce. 

De acordo com as lendas locais, a civilização Inca nasceu nas águas do Lago Titicaca. Manco Copac e Mama Ocllo – a popular Pachamama, filhos do Deus Sol, se instalaram em uma das ilhas do Lago Titicaca, que passou a ser conhecida Isla del Sol ou Ilha do Sol; seus descendentes formariam o povo Inca. Registros fósseis e arqueológicos indicam a presença de populações humanas ao redor do Lago Titicada há cerca de 3.700 anos. O Titicaca tem 41 ilhas naturais e inúmeras “ilhas” artificiais flutuantes, onde mora uma grande população indígena da etnia Urus. A maior cidade costeira do lago é San Carlos de Puno, que tem uma população de aproximadamente 150 mil habitantes. 

O equilíbrio ambiental que durante vários séculos existiu entre as populações e as águas do Lago Titicaca foram alterados radicalmente nas últimas décadas. O crescimento de inúmeras cidades e vilarejos nas regiões lindeiras do Lago não foi seguido da instalação das mínimas infraestruturas de saneamento básico, uma triste realidade na maioria dos países pobres e em desenvolvimento do nosso mundo. Sem sistemas para a coleta e o tratamento dos esgotos, e também dos serviços de coleta de lixo e resíduos sólidos, o Lago Titicaca passou a sofrer fortíssimas agressões ambientais. A foto abaixo mostra um dos rios tributários do Lago Titicaca na cidade de Puno coberto por lixo e detritos.

Poluição no Lago Titicaca em Puno

Na esteira desse grande aumento da população regional, passaram a surgir grandes plantações, especialmente de batata e quinoa, atividades que passaram a demandar grandes volumes de água transportada desde o Lago Titicaca através de inúmeros sistemas de irrigação, alguns altamente ineficientes. A alta incidência de raios ultravioleta nessas altitudes resulta na evaporação acelerada de grandes volumes de água. A água excedente da irrigação também passou a carrear para o Lago Titicaca grandes quantidades de resíduos de produtos químicos usados nas plantações

As tradicionais atividades mineradoras da região do Altiplano também dão sua “tóxica” contribuição para a degradação da qualidade das águas do Lago Titicaca. Além de grandes volumes de sedimentos, que produzem graves assoreamentos em rios e canais que desaguam no Titicaca, resíduos altamente tóxicos de minerais como chumbo, cobre, arsênico e mercúrio também são carreados para as águas do Lago. 

Em 2015, o Lago Titicaca deu um grande sinal de alerta, mostrando a todos o alto grau de poluição das suas águas – a forte eutrofização criada pelo excesso de esgotos e outros elementos químicos levou a um excessivo crescimento de algas, o que deixou a superfície de grandes trechos do Lago Titicaca na cor verde. A consequência mais desastrosa dessa “maré verde” foi a morte de milhares de rãs – em um único trecho do Lago, com uma área de aproximadamente 50 km², foram encontradas perto de 10 mil rãs mortas

A rã-do-Titicaca (Telatobius culeus) é uma espécie exclusiva do Lago Titicaca, adaptada para viver na atmosfera rarefeita da grande altitude. A espécie é conhecida pelos hábitos aquáticos e pelos excessos de pele no seu corpo, uma característica evolutiva que permite que o animal absorva o oxigênio dissolvido na água. Essas rãs podem atingir até 50 cm de comprimento e um peso de até 1 kg, o que torna essa espécie a maior rã do mundo. A degradação da qualidade ambiental das águas do Lago Titicaca colocou essa espécie de rã sob sério risco de extinção. 

Além da perda de habitat, as populações de rãs-do-Titicaca também sofrem com a caça predatória intensiva. O consumo de carne de rã, usada principalmente na preparação de sopas, é um hábito antigo da população do Peru, que nas últimas décadas se estendeu também para a Bolívia. Um outro hábito de consumo muito peculiar das populações do Altiplano, tanto bolivianas quanto peruanas, é a ingestão do “suco de rã” ou jugo de rana, ou ainda, licuado de rana, em espanhol, uma bebida energética indicada para melhorar o desempenho sexual e curar doenças com a tosse e a bronquite. Em barracas das feiras livres (vide foto), jovens rãs são batidas vivas com água em um liquidificador e bebidas a “um só gole” pelos mais corajosos. Essa forte pressão de caça está dizimando as populações remanescentes dessa espécie única de rã. 

A intensa poluição das águas, por fim, se volta contra as próprias populações humanas – o Lago Titicaca é o maior e um dos únicos mananciais de abastecimento de água dessa extensa região do Altiplano. Sem estações para o tratamento adequado da água para consumo em suas casas, os habitantes são obrigados a consumir uma água de qualidade cada vez pior. Uns poucos afortunados, que possuem embarcações, podem se dar ao luxo de viajar até pontos cada vez mais distantes para buscar água em trechos do Lago mais preservados.

Essa é uma triste realidade já vivida por outras populações e povos ao redor de todo o mundo, e cada vez mais intensificadas pelas mudanças climáticas globais. 

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