FALANDO DO POTENCIAL HIDRELÉTRICO AMPLIADO DO RIO PARAÍBA DO SUL, OU “O MILAGRE DAS ÁGUAS”

Usina Elevatória de Vigário

O rio Paraíba do Sul não é um dos maiores ou mais caudalosos do Brasil, a exemplo dos grandes rios da Região Amazônica, do rio Paraná ou ainda do rio São Francisco. Mesmo não figurando na lista dos “maiores”, o Paraíba do Sul entra numa restrita lista dos mais importantes rios brasileiros. 

Uma das principais razões dessa importância do rio Paraíba do Sul é a sua localização privilegiada, na junção dos três mais importantes Estados brasileiros: Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo. Uma outra dessas razões está ligada à topografia da bacia hidrográfica do rio, que é cercada por montanhas das Serras do Mar e da Mantiqueira, o que proporciona vários trechos com forte declive e grande potencial para a instalação de usinas hidrelétricas. Um exemplo é a Usina Hidrelétrica de Funil, localizada no município de Resende, Sul do Estado do Rio de Janeiro e inaugurada em 1969. No local existia uma forte queda d’água – o Salto do Funil, que permitiu a construção de uma barragem com altura total de 85 metros, o que garantiu uma potência instalada de 216 MW. 

Além da Usina Hidrelétrica do Funil, a bacia hidrográfica do rio Paraíba do Sul possui outras 4 grandes usinas, além de diversas pequenas centrais elétricas (PCH). A Usina Hidrelétrica Ilha dos Pombos foi a primeira a ser construída no rio Paraíba do Sul em Carmo, no interior do Estado do Rio de Janeiro. Inaugurada em 1924, a usina utilizou um projeto técnico bastante inovador para a época, que permitia a geração de 187 MW. No Estado de São Paulo são 3 hidrelétricas – Paraibuna, Jaguari e Santa Branca, sobre as quais falamos em postagem anterior. Juntas, todas essas usinas hidrelétricas geram um total de 573 MW/h. 

O relevo particular do rio Paraíba do Sul também possibilitou a criação de um impressionante sistema de transposição de águas entre bacias hidrográficas, o que permitiu ampliar o potencial hidrelétrico do rio para muito além dos limites de sua calha. As águas são conduzidas por diferentes sistemas hidráulicos para o chamado Complexo de Lajes, um conjunto de reservatórios, estações de bombeamento e usinas hidrelétricas construídos pela empresa Light, que após o uso na geração de energia elétrica são despejadas na bacia hidrográfica do rio Guandu, que corre na direção da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Essas águas são usadas no abastecimento de mais de 8 milhões de pessoas na cidade do Rio de Janeiro e municípios da Baixada Fluminense. 

O Complexo de Lages começou a ser construído em 1903 pela empresa Light & Power Company, com o início das obras da Usina Hidrelétrica de Fontes, seguida pela Barragem de Lajes, em 1905. Esse Complexo entrou em operação em 1908, gerando uma potência de 24 MW, o que era considerado na época como um dos maiores do mundo. Em 1907, o Governo Federal já havia autorizado uma ampliação da capacidade do sistema, o que foi feito a partir do desvio parcial das águas do rio Piraí através de um túnel com 8,5 km de extensão. Depois de inaugurada, em 1913, essa ampliação elevou a capacidade geradora do Complexo de Lajes para 49 MW. A Usina de Fontes foi desativada em 1989 e no seu lugar foi construída a Usina de Fontes Nova, com capacidade de geração de 132 MW. 

Em 1950, objetivando aumentar a sua capacidade de geração de energia elétrica, a Light iniciou as obras da Barragem Santa Cecília, em Barra do Piraí, sul do Estado do Rio de Janeiro. Essa barragem permitiu estabilizar a cota do rio Paraíba do Sul numa altitude de 360 metros acima do nível do mar. No local foi construída uma Estação Elevatória, que passou a permitir o bombeamento das águas do rio Paraíba do Sul até uma altura de 15 metros, alimentando o Reservatório de Santana, construído na região de Piraí.  

As águas do Reservatório de Santana, que também recebem águas do rio Piraí, são então bombeadas até uma altura de 35 metros na direção do Reservatório do Vigário pela Estação Elevatória homônima (vide foto) construída na região. É o Reservatório do Vigário que alimenta as Usinas Hidrelétricas Nilo Peçanha (subterrânea) e Pereira Passos

A Usina Hidrelétrica Nilo Peçanha foi inaugurada em 1954 e foi construída dentro de uma caverna de 100 metros de comprimento e 30 metros de altura. No local foram instalados 6 grupos geradores de energia, que permitem a produção de 330 MW. As águas do Reservatório do Vigário descem através de um sistema de tubulações de uma altura total de 330 metros, adquirindo assim uma grande energia potencial para acionar as turbinas geradoras. A Nilo Peçanha é a mais potente usina geradora do Complexo de Lajes. 

A partir da saída de águas da Usina Nilo Peçanha, é formado o Reservatório de Ponte Coberta, onde foi construída a Usina Hidrelétrica Pereira Passos. Essa hidrelétrica conta com dois grupos geradores, que fornecem uma potência total de 100 MW. As três usinas hidrelétricas do Complexo de Lages – Fontes, Nilo Peçanha e Pereira Passos, têm uma capacidade geradora total de 612 MW. Em 2011 foi concluída a construção de uma PCH – Pequena Central Hidrelétrica, de Paracambi, a jusante da Usina Pereira Passos, que agregou mais 25 MW de potência nominal ao sistema.  

A engenhosidade do Complexo de Lages, que permitiu o aproveitamento das águas do rio Paraíba do Sul e do grande desnível da Serra do Mar para a geração de energia elétrica, garantiu o fornecimento da eletricidade necessária para o desenvolvimento do antigo Estado da Guanabara, onde ficava a Capital Federal, e do Estado do Rio de Janeiro. E como um “benefício indireto”, essas águas excedentes vindas do rio Paraíba do Sul e despejadas na bacia hidrográfica do rio Guandu, passaram a reforçar os estoques de água para o abastecimento da Região Metropolitana

Conforme já comentamos em diversas postagens anteriores, não existem grandes rios que desaguam na Baía da Guanabara. A cidade do Rio de Janeiro e outras instaladas ao redor da Baía sempre sofreram com problemas para o abastecimento das suas populações, especialmente em épocas de secas prolongadas, quando os pequenos rios da região tinham seus caudais fortemente reduzidos. Com o início das operações de transposição das águas do rio Paraíba do Sul para a geração de energia elétrica no Complexo de Lajes, o fluxo de água na direção da Região Metropolitana através do rio Guandu foi regularizado, garantindo o abastecimento contínuo da população. 

Ironicamente, as importantes águas do rio Guandu estão entre as mais poluídas do Brasil. Isso ocorreu devido ao crescimento desordenado das cidades, que despejam diariamente milhares de litros de esgotos in natura nas águas do rio, além de muito lixo e resíduos sólidos de toda a ordem. As águas do rio Guandu também recebem grandes quantidades de resíduos de agrotóxicos e fertilizantes de áreas de produção agrícola, carreados para a sua calha através das chuvas. Suas margens também sofrem processos erosivos, especialmente em áreas onde é feita a exploração de areia para uso na construção civil. Para tratar e potabilizar essa água para o consumo pela população, quantidades cada vez maiores de produtos químicos precisam ser usadas na Estação de Tratamento do Guandu. 

Como se vê, as águas do rio Paraíba do Sul realizam “verdadeiros milagres” graças ao sistema de transposição criado na região de Piraí. Mas não existem milagres suficientes para livrar essas águas do descaso e mau uso feito pelas cidades e suas populações.

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