A CONTAMINAÇÃO DAS FONTES DE ÁGUA POR AGROTÓXICOS

Agrotóxicos e água

O uso indiscriminado de agrotóxicos nas lavouras brasileiras é um problema bastante grave, sobre o qual começamos a tratar na postagem anterior. Apesar de não ser o maior produtor agrícola do mundo, o Brasil é o maior consumidor mundial de agrotóxicos – 19% de toda a produção desses produtos químicos tem como destino as lavouras brasileiras. Entre outros inúmeros problemas, esse uso indiscriminado traz sérias consequências para o meio ambiente. E um dos maiores males é a contaminação de lençóis de água e aquíferos subterrâneos e de fontes de água superficiais

De acordo com um estudo do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, publicado em 2011, os resíduos de agrotóxicos são a segunda principal fonte de contaminação das águas do Brasil, ficando atrás apenas dos esgotos sanitários. Como quase nenhum avanço nessa área ocorreu nos últimos anos, é bem provável que a situação atual em 2018 seja até pior. De acordo com o estudo, os resíduos de agrotóxicos respondem por mais de 6% das contaminações das águas, ficando à frente dos despejos industriais e das contaminações geradas por atividades mineradoras

De acordo com especialistas em medicina, a maioria dos agrotóxicos são produzidos a partir de derivados de benzeno, uma substância tóxica altamente prejudicial à saúde e bastante associada ao desenvolvimento de casos de câncer. Segundo reportagem que tratou desse assunto, com informações da doutora Silvia Brandalise, médica do Centro Boldrini de Campinas, instituição especializada no tratamento do câncer infantil, e professora de Ciências Médicas da Unicamp – Universidade Estadual de Campinas,  “os derivados de benzeno têm como ação importante a quebra de cromátides, que são elementos que compõem o cromossoma. Uma exposição aos derivados de benzeno ou à radiação, você consegue fazer uma mutação. Sendo assim, o câncer e outras doenças, que são mutações sucessivas, vão acontecendo na célula cronicamente exposta a esses produtos.” 

Conforme já comentamos em postagem anterior, as atividades agrícolas são as maiores utilizadoras de água do mundo, sendo responsáveis por mais de 70% do consumo. Os resíduos de agrotóxicos que ficaram acumulados nas plantas e nos solos acabam sendo carreados pela água usada na irrigação ou pelas chuvas na direção dos corpos d’água da região – parte desses resíduos acabam infiltrando nos solos e atingem as reservas subterrâneas de água. Diferentemente de outros contaminantes como esgotos domésticos, efluentes industriais e resíduos de mineração, que alteram as características e a cor das águas, os resíduos de agrotóxicos são “invisíveis” a olho nu – moradores das margens dos rios coletarão e utilizarão a água sem consciência dos riscos que estão correndo (excluam-se os casos onde as altas concentrações de produtos químicos deixarão a água com um cheiro forte). 

Além da contaminação direta da água, os resíduos de agrotóxicos afetam toda a biota aquática. A depender do tipo de produto químico, plantas, bactérias, invertebrados e pequenos peixes sofrerão as consequências da contaminação, que poderão, inclusive, levar grande parte das populações à morte. Há uma outra consequência bem mais séria – essas plantas e pequenos animais estão na base da cadeia alimentar dos rios e lagos, o que fatalmente levará à contaminação de peixes maiores. Esses poderão não ter maiores problemas com a ingestão dessas substâncias, que ficarão armazenadas nos tecidos adiposos. Caso esse peixe venha a ser pescado e consumido, esses produtos químicos acabarão sendo absorvidos e acumulados no corpo dos seres humanos, o que poderá resultar em intoxicações e envenenamentos, ou ainda, poderão desencadear uma série de doenças no longo prazo. 

A contaminação de reservas subterrâneas de água também é um problema gravíssimo. Conforme já comentamos em postagem anterior, as águas subterrâneas são fundamentais para o abastecimento de populações rurais e urbanas, que nem sempre podem contar com a disponibilidade de águas superficiais para o abastecimento. Na agricultura, essas águas são importantes para a irrigação, especialmente nos períodos da seca. Expostos sistematicamente à infiltração de água com resíduos de agrotóxicos, os aquíferos e lençóis subterrâneos de água vão apresentando níveis de contaminação cada vez mais altos. E como nem sempre as águas retiradas do subsolo passam por testes de laboratório para averiguar a sua qualidade e potabilidade, pessoas, animais e plantas podem estar sendo expostos a altos níveis de contaminantes químicos. 

Segundo algumas estimativas, apenas 1% dos agrotóxicos aplicados nas lavouras atingem o seu objetivo, que são ervas daninhas, insetos predadores, fungos, invertebrados e outras pragas prejudiciais – os 99% restantes acabam transformados em resíduos tóxicos. Esse é um dado assustador – as atividades humanas que envolvem a aplicação de agrotóxicos nas lavouras são, na verdade, operações de envenenamento do meio ambiente, com seríssimas consequências para os corpos d’água. 

É preciso se repensar tudo isso. 

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