A PECUÁRIA, A AGRICULTURA, OS BANHADOS E A DESTRUIÇÃO DOS RIOS GAÚCHOS

Gado nos Pampas

Durante muito tempo, a economia do extremo Sul do Brasil teve como base a pecuária. Os primeiros rebanhos bovinos chegaram à região no século XVII pelas mãos dos padres Jesuítas espanhóis, fundadores das Missões ou reduções do Rio Grande de São Pedro: São Francisco de Borja, São Nicolau, São Miguel Arcanjo, São Lourenço Mártir, São João Batista, São Luiz Gonzaga e Santo Ângelo Custódio. De acordo com o Tratado de Tordesillas, assinado entre Portugal e Espanha em 1494, todo o território atual do Rio Grande do Sul se encontrava dentro dos domínios da Espanha. As reduções jesuíticas foram criadas para a conversão e educação dos indígenas – durante décadas a fio, os bandeirantes paulistas atacaram estas reduções para a captura dos indígenas “já civilizados”. Com a destruição sucessiva destes aldeamentos, os rebanhos bovinos acabavam abandonados nos campos e pouco a pouco retornaram ao estado selvagem, se espalhando pelos extensos pampas gaúchos. A captura e domesticação destes rebanhos bovinos a partir do século XVIII acabou por se tornar a base cultural e econômica do povo gaúcho.

A partir do século XIX, num esforço do Governo Imperial em povoar o Rio Grande e proteger Província das sucessivas invasões de Castelhanos, houve um grande estímulo à imigração, quando grandes contingentes de açorianos, italianos e alemães chegaram a Província. Esses novos colonos fundaram diversas cidades e deram início a agricultura em grande escala na região que, pouco a pouco, passou a rivalizar com a pecuária. A partir de meados do século XX, o Rio Grande do Sul se tornou um dos maiores produtores de grãos do Brasil, passando inclusive a “exportar” agricultores para os novos territórios das Regiões Centro-Oeste e Norte do país.

Esse resumo “resumido” da história do Rio Grande do Sul foi apresentado para complementarmos a postagem anterior, quando falamos da destruição dos banhados do extremo Sul. Esses ecossistemas, ricos em água e em vida, foram fundamentais para a expansão dos rebanhos bovinos nos primeiros séculos da colonização da região. Estima-se que, originalmente, entre 10 e 20% do território atual do Rio Grande era coberto por áreas de banhado – com o avanço da agricultura, os solos ricos e úmidos dos banhados passaram a ser ocupados por culturas de grãos como o arroz e o trigo. Existe uma grande incerteza sobre o grau de destruição já consolidado nestas áreas de banhado: o avanço da agricultura no Banhado do Taim nos dá uma ideia desta destruição. Com subsídios governamentais, os agricultores locais eram estimulados a realizar a drenagem de áreas de banhado para ampliar as áreas agricultáveis – o que restou do Banhado do Taim corresponde a menos de 10% da área original ocupada pelo ecossistema.

A expansão da cultura do arroz nas últimas décadas em algumas regiões corrobora a percepção assustadora da destruição dos banhados: da antiga área de mais de 45 mil hectares do Banhado Grande de Gravataí, restou pouco mais de 5 mil hectares; dos antigos 3 mil hectares do Banhado Santa Catarina entre Santa Maria e São Gabriel, encontramos hoje menos de 300 hectares de áreas úmidas selvagens. Nesta lista de áreas devastadas podemos incluir o Banhado de São Donato, entre Itaqui e São Borja; o Banhado Inhatinhum em São Gabriel; o Banhado Upamaroti entre Dom Pedrito e Santa Vitória do Palmar, entre muitos outros.
 
Os banhados são ecossistemas extremamente ricos em vida, podendo ser comparados aos bancos de corais dos oceanos. Funcionando como uma espécie de “esponja natural”, as áreas de banhado acumulam grandes volumes de água nos períodos de chuva, auxiliando inclusive no controle das cheias dos rios; nos períodos de seca, fornecem água para as lagoas, garantido a sobrevivência de um sem número de espécies animais e vegetais. Os solos úmidos dos banhados são ricos em matéria orgânica, resultante da decomposição dos juncos e gramíneas – essa excepcional fertilidade dos solos tornou essas áreas em alvo para a expansão das fronteiras agrícolas.

As algas estão na base da cadeia alimentar das áreas de banhado. Estes vegetais se nutrem a partir da filtragem das partículas em suspensão na água, desempenhado um papel de filtro biológico do ecossistema. Diversas espécies de moluscos se alimentam destas algas e, por sua vez, servem de alimento para diversas espécies de peixes – aves locais e migratórias buscam alimento e abrigo nos banhados, assim como toda uma cadeia de animais como capivaras, lontras, ratões-do-banhado e jacarés-do-papo-amarelo. Toda uma frágil teia de vida e de inter-relações entre espécies animais e vegetais sobrevive nos banhados.

Um exemplo da fragilidade do equilíbrio ambiental dos banhados pode ser visto numa espécie de caramujo encontrado nestes locais – a pomácea. Esse caramujo é uma importante fonte de alimento para diversas espécies de aves, sobretudo ao gavião caramujeiro, espécie que se alimenta exclusivamente desta “iguaria”. A drenagem dos banhados para a implantação de culturas de grãos ou o carreamento de grandes volumes de resíduos de defensivos agrícolas, pode levar à extinção de grandes colônias deste caramujo – a maioria das aves perderá um dos seus alimentos: o gavião caramujeiro, entretanto, perderá a sua única e exclusiva fonte de alimentação.

Um outro exemplo da importância biológica das áreas de banhado, citada na última postagem, tem a ver com uma série de aves migratórias que utilizam estes ecossistemas como áreas de descanso, alimentação e até como territórios de nidificação. Os cisnes-do-pescoço-preto (Cygnus melanocoryphus) tem seu território distribuído desde a Terra do Fogo, no extremo Sul da América do Sul até áreas na região Sudeste do Brasil – esse extenso território inclui, além do nosso território, regiões da Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai e Ilhas Malvinas. Diversos banhados dos pampas gaúchos ficam no caminho das rotas migratórias da espécie. Uma outra espécie, a coscoroba (Coscoroba coscoroba), também chamada de cisne-coscoroba e capororoca, é uma ave migratória com território indo desde a Patagônia, no sul da Argentina e do Chile, até as regiões Sul do Brasil e Estados como São Paulo e Mato Grosso do Sul. Estas aves utilizam áreas de banhados do extremo Sul para descanso, alimentação e nidificação ao longo de suas migrações. O comportamento instintivo destas aves é o resultado de milhares de anos de adaptação ao meio ambiente e, quando um dos seus habitats é destruído ou modificado, estes animais não conseguem mudar seus hábitos rapidamente – grupos inteiros de animais podem morrer de fome ou simplesmente não conseguir se reproduzir, colocando a espécie sob pressão e ameaça de extinção.

As áreas de banhado também têm importância ímpar para os rios gaúchos. Conforme já comentamos, eles atuam na regulação dos níveis de água tanto nos períodos de cheias quanto de secas; também são fundamentais para a manutenção da biodiversidade das espécies animais que vivem nos rios, incluindo-se peixes, crustáceos, mamíferos, aves e répteis, que têm nos banhados importantes áreas de alimentação e reprodução. Uma função crítica desempenhada pela vegetação dos banhados é a retenção e a depuração de sedimentos e despejos que correm na direção da calha dos rios, auxiliando na manutenção da qualidade das águas. Nos banhados também se encontram nascentes que contribuem com substanciais volumes de água, recurso importante nos períodos de seca. Diversos rios em todo o Estado do Rio Grande do Sul têm sofrido fortes impactos devido a esta sistemática e contínua destruição dos banhados, onde destacamos os problemas dos rios Caí, Gravataí e dos Sinos, corpos d’água que, infelizmente, integram a lista dos dez rios mais poluídos do Brasil.

Até o próximo post.

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