MUDANÇAS CLIMÁTICAS JÁ FORÇAM O DESLOCAMENTO DE MAIS DE 20 MILHÕES DE PESSOAS A CADA ANO

Refugiados climáticos

A Organização não governamental internacional Oxfam divulgou um relatório na última segunda-feira, dia 2 de dezembro, com o título “Obrigados a deixar suas casas”. Nesse relatório, desastres climáticos como furacões, tempestades, enchentes e ciclones, são apontados como a causa do deslocamento forçado de mais de 20 milhões de pessoas a cada ano nessa última década em todo o mundo. A publicação do relatório coincidiu com a abertura da COP 25 – Conferência do Clima, organizada pela ONU – Organização das Nações Unidas, que está sendo realizada em Madrid, Espanha. 

A Oxfam International é uma confederação de 19 organizações e mais de 3.000 parceiros, que atua em mais de 90 países na busca de soluções para os problemas da pobreza, desigualdade e da injustiça, por meio de campanhas, programas de desenvolvimento e ações emergenciais. A Oxfam foi fundada no Reino Unido em 1942 e sua sede mundial fica em Nairóbi, no Quênia. 

De acordo com o relatório da Oxfam, é “três vezes mais provável que alguém seja forçado a deixar a sua casa por ciclones, inundações ou incêndios florestais do que por conflitos, e até sete vezes mais do que por terremotos ou erupções vulcânicas“. Para chegar a essas conclusões, a Organização analisou dados de catástrofes climáticas de todo o mundo no período entre 2008 e 2018. Foi a análise detalhada desses dados que mostrou o número total de pessoas que foram afetadas por eventos climáticos em todo o mundo a cada ano. 

Chama a atenção no relatório que não são apenas os países pobres e em desenvolvimento os que são vulneráveis às catástrofes com origem climática – na Europa, a lista dos países altamente vulneráveis a esses eventos é encabeçada pela República Tcheca, Grécia e Espanha. Em anos recentes, esses países foram assolados por secas, enchentes e grandes incêndios florestais, demonstrando uma grande falta de preparo para o gerenciamento e atendimento das populações que foram afetadas. 

No entanto, são mesmo as populações dos países de rendimento médio-baixo e baixo as mais susceptíveis aos impactos das crises climáticas. Cidadãos da Índia, Nigéria e Bolívia, citando como exemplo, tem cerca de 4 vezes mais chances de serem forçados a abandonar suas casas por causa de desastres climáticos naturais do que seus congêneres de países ricos como os Estados Unidos. Ironicamente, esses países são os que menos geram gases de efeito estufa, os grandes vilões do aquecimento global e das mudanças climáticas. 

Outra importante informação contida no relatório mostra que sete dos dez países com maiores riscos de deslocamento de populações por causa de fenômenos meteorológicos são as pequenas nações insulares em desenvolvimento. Entre 2008 e 2018, cerca de 5% da população de Cuba e República Dominicana, na região do Mar do Caribe, e de Tuvalu, ilha polinésia do Oceano Pacífico, foram deslocadas por condições climáticas extremas, mais especificamente por furacões e tufões que atingiram essas ilhas nos últimos anos. As emissões de gases causadores do efeito estufa per capita dessas nações equivale a 1/3 das emissões dos países ricos

Um exemplo bem recente da ira do clima mundial foram as fortes chuvas que assolaram vários países do Leste da África há cerca de 10 dias, com destaque especial para o Quênia. As fortes enxurradas provocaram grandes deslizamentos de encostas e as enchentes e ondas de lama destruíram cerca de 22 mil casas e mataram ao menos 100 pessoas. Informações da Cruz Vermelha do Quênia falam de 160 mil desabrigados. Incluindo-se nessa conta os desabrigados no Sudão do Sul, Somália, Tanzânia e Etiópia, a cifra chega à casa de 1 milhão de vítimas

Outros exemplos recentes que podemos citar são os incêndios florestais que estão devastando extensas áreas da Austrália e as enchentes em Veneza. No caso da Austrália, a origem do problema é uma forte seca que está castigando uma grande parte do país – aliás, a frequência das secas aumentou muito nessa ilha-continente nas últimas décadas. A situação está sendo agravada por fortes ventos, que ajudam a espalhar as chamas. Em Veneza, o grande vilão das enchentes são fenômenos climáticos no Mar Adriático, o que está provocando uma forte alta nas marés, um fenômeno que os locais chamam de “acqua alta”. No pico das inundações, mais de 90% da cidade ficou encoberto pelas águas. 

Existe, porém, uma grande diferença entre os eventos no Leste da África e as tragédias da Austrália e da Itália – a situação econômica dos diferentes países e a capacidade de atendimento às vítimas climáticas. Enquanto a Austrália e a Itália são países ricos e com recursos para acolher suas vítimas, os países africanos estão no grupo das nações pobres, onde as vítimas não podem contar com uma ajuda adequada dos Governos de seus países. Esse é, justamente, um dos principais alertas do relatório da Oxfam. De acordo com um dos diretores da organização, “são as pessoas mais pobres, dos países mais pobres, que pagam o preço mais alto”. 

Entre outras reinvindicações, a Oxfam espera que a COP 25 conclua a revisão do Mecanismo Internacional de Varsóvia para Perdas e Danos. Esse mecanismo foi propostos na COP 19, que ocorreu em Varsóvia, na Polônia, em 2013, com o objetivo de oferecer proteção às populações mais vulneráveis às mudanças climáticas. A Organização espera que os países membros deem um forte impulso para a criação de novos fundos de emergência com vistas ao apoio e a recuperação das comunidades atingidas por catástrofes climáticas. Também se espera que os países estipulem metas mais ambiciosas com vistas a redução das suas emissões de gases causadores do efeito estufa. 

O principal acordo internacional para a redução das emissões mundiais de gases causadores do efeito estufa é o Acordo de Paris, assinado em 2015, durante a COP 21 e com validade a partir de 2020. Pelo acordo, os 195 países signatários se comprometerem a reduzir suas emissões com vistas a conter o aquecimento global até o final do século XXI abaixo de 2° C, preferencialmente em 1,5° C, além de reforçar a capacidade dos países em promover o desenvolvimento sustentável

Entre muitos líderes mundiais que participam da COP 25 existe um consenso sobre a necessidade de tornar as medidas para a contenção dos gases de efeito estufa ainda mais restritivas.  Pelo “andar da carruagem”, as medidas propostas pelo Acordo de Paris são muito tímidas e insuficientes para limitar o aquecimento global aos valores pretendidos. Por outro lado, muitos países resistem fortemente a essa ideia, sob o argumento de riscos ao seu crescimento econômico. Entre as vozes dissonantes, o grande destaque são os Estados Unidos, país cujo Governo já decidiu pela sua retirada do Acordo de Paris. 

Enquanto os representantes de quase 200 nações discutem o futuro do planeta e os riscos das mudanças climáticas globais sem chegar a um consenso na COP 25, o risco de um aumento progressivo do número de “refugiados climáticos” ano após ano será cada vez maior. 

É fundamental que fique bem claro a todos os representantes dos países que estamos tratando do futuro de toda a humanidade. 

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