O INESQUECÍVEL INVERNO DE 1989

Garoa

A cidade de São Paulo da minha infância era muito fria… gelada!

Olhando para o título e para a primeira frase desta postagem, você poderá até ter a impressão de estar lendo algum romance antigo, daqueles que se encontram nos saldos dos sebos e em outras lojas que vendem objetos antigos. Na verdade, optei por este texto inicial um tanto saudosista para enfatizar todo um conjunto de alterações climáticas que vi, vivi e que percebi aqui na minha cidade em pouco mais de meio século.

A constatação mais evidente da mudança no clima da cidade de São Paulo foi o desaparecimento da famosa “garoa”, uma chuva muito rala e com gotas de água finíssimas que caía toda a tarde e que foi transformada em uma das marcas registradas da cidade – São Paulo da Garoa. Havia inclusive um mantra entre as mães e avós daquela época: “- sai da garoa, menino”. Esse mantra tinha outro para os começos de noites de algumas épocas do ano: “- sai do sereno, menino!” O fenômeno diário foi ficando cada vez mais raro com o passar dos anos até desaparecer completamente no final da década de 1970. Atualmente, quando acontece qualquer precipitação que se aproxime da velha garoa, os mais saudosistas chegam a festejar. Nunca esqueço uma tarde em 1999, quando estava acompanhando o dono da empresa italiana em que trabalhava na época, que havia vindo ao Brasil para uma série de reuniões com grandes clientes – na saída de uma destas reuniões, começou a garoar forte e o italiano ficou boquiaberto com o fenômeno (tenho de confessar que eu e outros saudosos paulistanos presentes também ficamos maravilhados) – era uma combinação de céu muito azul e de gotas finíssimas de água.

Outra mudança marcante na cidade foi um lento e gradual aumento da temperatura. Nos tempos da velha garoa paulistana, os invernos eram muito frios. Lembro das temporadas de inverno ainda na década de 1960, quando o quintal de casa amanhecia com uma fina camada de gelo depois das noites mais frias – algumas vezes era possível até formar pequenas bolas de gelo com as mãos. Nestas estações, as camisas de flanela que minha avó confeccionava eram indispensáveis. Essa peça de vestuário fez parte do meu guarda roupa até o final da década de 1980, quando se tornou absolutamente dispensável – os invernos rigorosos na cidade não existem mais. O ano de 1989 foi o último em que houve um inverno mais rigoroso aqui em Sampa. Eu tinha na época um carro movido a álcool, combustível que tornava as partidas do motor nos dias mais frios um verdadeiro desafio. Numa noite congelante daquele inverno, quando os termômetros de rua marcavam 2° C, tive de realizar dezenas de tentativas para ligar o motor, que só pegou, para meu desespero, quando a bateria já dava sinais claros de esgotamento. Nunca mais vi um frio daqueles por estas bandas (e também não quis mais ouvir falar em carro a álcool)…

Durante muito tempo, todo este conjunto de mudanças no padrão climático da cidade de São Paulo foi creditado ao fenômeno conhecido como “Ilhas Urbanas de Calor“. Este fenômeno começou a ser observado no começo do século XX em diversas grandes cidades e regiões metropolitanas do mundo como Londres, Nova York, Pequim e, mais recentemente, em São Paulo. Com a intensificação da urbanização, áreas de mata passaram a ser substituídas por construções, com grandes extensões de solos cobertas por concreto e por vias asfaltadas. Estas mudanças formam polos que concentram o calor do sol e que induzem à formação de microclimas locais. Uma das consequências já comprovadas das Ilhas de Calor Urbano é a concentração das chuvas nas áreas mais quentes da “ilha” (frequentemente a área central), algo que normalmente satura rapidamente os sistemas de drenagem de águas pluviais existentes, provocando enchentes localizadas. No caso da cidade de São Paulo, que convive com enchentes praticamente desde a sua fundação, as enchentes nas áreas centrais são cada vez mais catastróficas.

O Planalto de Piratininga, região onde foi fundada a cidade de São Paulo, possui uma extensa rede hidrográfica, onde o famoso Rio Tietê é o principal curso d’água. O Tietê recebe contribuições de água de inúmeros pequenos rios e córregos, que algumas fontes antigas afirmavam chegar a 3.000 corpos d’água no município de São Paulo. Durante o processo de crescimento da cidade, especialmente a partir das últimas décadas do século XIX, centenas de córregos foram canalizados para liberar áreas para construções e aberturas de vias urbanas. Outros tantos rios e córregos passaram por obras de retificação de curso e de canalização, onde não se realizaram os procedimentos de limpeza e de manutenção regulares para a remoção de resíduos e de areia. O resultado – enchentes generalizadas por todas as regiões da cidade no período das chuvas de Verão. Grandes obras para combater estas enchentes são sistematicamente realizadas, mas os resultados ficam cada vez menos evidentes. Eu sempre me perguntava: até onde estas enchentes são consequências de alterações no microclima regional ou podem ser resultantes de um contexto de mudanças climáticas mais amplo?

A resposta surgiu a bem pouco tempo atrás: entre os anos de 2014 e 2015, uma fortíssima e inédita seca se abateu sobre a Região Entre Serras e Águas, um recanto bastante pitoresco do Estado de São Paulo localizado entre a Serra da Cantareira e a Serra da Mantiqueira. Este evento, na minha opinião, começou a comprovar que as alterações no clima extrapolavam a área da Capital paulista. Naquela ocasião, os reservatórios do Sistema Cantareira simplesmente secaram, entrando no chamado “volume morto“. Para quem não conhece, este Sistema responde pelo abastecimento de metade da população metropolitana de São Paulo e de parte da população metropolitana de Campinas, a segunda maior região em número de habitantes do Estado. Foi necessário um esforço gigantesco da população para enfrentar um racionamento de água nunca visto em toda a história da cidade.

Autoridades locais, como sempre acontece em situações extremas, bateram cabeça como nunca para realizar obras “emergenciais de emergência” (a redundância é proposital), que deveriam ter sido planejadas e executadas com muita antecedência caso houvesse algum tipo planejamento mínimo. Felizmente, as chuvas voltaram a cair com regularidade em 2016 e as represas do Sistema Cantareira voltaram a encher. Depois deste susto, alguns projetos para aumentar a segurança hídrica da região foram tirados do papel – entre eles destaco a interligação do Sistema Cantareira com a represa de Paraibuna e a construção do novo sistema produtor de água em São Lourenço da Serra. Estamos salvos de morrer de sede – até quando, só Deus sabe!

Muitos de vocês, provavelmente, tem alguma história para contar sobre alguma mudança climática observada aí na sua cidade ou região. Sutis mudanças no clima estão acontecendo neste momento em grande parte do nosso mundo.

A moral da história: mesmo sem existir ainda uma comprovação científica sobre a verdadeira extensão e as implicações das mudanças climáticas globais, é bem provável que todos nós já estejamos a pagar os custos destas mudanças climáticas – senão, logo começaremos a receber as “faturas”. Serão dezenas de bilhões de reais em recursos públicos aplicados em obras para o controle de enchentes, reforço nos sistemas de produção e distribuição de água, reflorestamento de matas ciliares, remoção de casas em áreas de risco em encostas e baixadas, entre outras despesas ligadas diretamente aos efeitos do aquecimento global – e olhem que não estou nem fazendo referência aos prejuízos da falta de chuvas em algumas regiões, das enchentes em outras, das ondas de frio e de calor, entre outros impactos.

Que os céus nos protejam. Amém!

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