O GRADUAL DESAPARECIMENTO DO LAGO CHADE NA ÁFRICA

Lago Chade

Na nossa última postagem falamos dos problemas enfrentados pelo Lago Titicaca nos Altiplanos Andinos, que vem sofrendo com a intensa poluição de suas águas e também com uma lenta redução do seu nível. Ações antrópicas, ou seja, de origem humana, e o aquecimento global estão na base dos problemas. Um outro exemplo de lago que está sofrendo com terríveis problemas é o Lago Chade, na África. Até o início da década de 1960, o Chade tinha um espelho d’água com uma superfície de 25 mil km², cerca de três vezes o tamanho do Lago Titicaca – atualmente, o Lago Chade apresenta apenas 10% dessa área

O Lago Chade ocupa terras de quatro países: Chade, Camarões, Níger e Nigéria. Durante muitas eras, o Lago foi a principal fonte de água de uma região conhecida como Cinturão do Sahel, uma extensa faixa de terras entre o Oceano Atlântico a Leste e o Mar Vermelho a Oeste, separando o Deserto do Saara e as regiões de savanas na África. Uma população de 40 milhões de habitantes vive nas cercanias e depende das águas do Lago Chade. 

O Norte da África vem sofrendo as consequências de fortes mudanças climáticas e geológicas naturais há milhares de anos, que alteraram completamente o clima e as paisagens da região. Há cerca de 20 mil anos atrás, após o último período de Glaciação ou Era do Gelo, como é mais conhecida popularmente, o Norte da África apresentava um clima mais úmido e com temperaturas mais baixas que as atuais, contanto com diversos rios permanentes. De acordo com estudos recentes, o famoso Rio Nilo, que hoje atravessa o Egito de Sul a Norte e deságua no Mar Mediterrâneo, naqueles tempos atravessava todo o Norte da África e tinha a sua foz no Oceano Atlântico. Para a maioria dos especialistas, porém, essa mudança no curso do rio Nilo ocorreu há mais de 30 milhões de anos atrás. 

Grande parte do território que hoje se encontra soterrado por dezenas de metros de dunas de areia seca era coberto por densas florestas – as partes “mais secas” eram cobertas por vegetação de savana, muito parecida com o nosso Cerrado. Todos os animais africanos que você costuma ver nos documentários como elefantes, girafas, zebras, antílopes, rinocerontes, hipopótamos, macacos e aves de todos os tipos se espalhavam por todo esse território. Pinturas rupestres deixadas pelos antigos habitantes da região em pedras espalhadas por todo o deserto do Saara mostram cenas onde aparecem todos esses animais. Se você pudesse viajar no tempo e acabasse por desembarcar no meio desse território, nada lhe lembraria a imagem atual do grande deserto. 

Foi então que começaram as mudanças – nosso planeta sofreu uma leve alteração no seu eixo de rotação, o que foi suficiente para alterar a incidência solar no Norte da África e provocar uma alteração climática nos regimes de umidade e temperatura. Mudanças no relevo, provavelmente criadas por terremotos ou por um afundamento tectônico, desviaram o rio Nilo para o seu curso atual, com foz no Mar Mediterrâneo. Completando esse quadro de mudanças climáticas, grandes rios permanentes começaram a secar. Alguns cientistas afirmam que essas mudanças ocorreram a menos tempo, há cerca de 5 mil anos atrás, mas com as mesmas consequências – as florestas retrocederam lentamente até desaparecer e as áreas de savana se ampliaram.  

Todo esse profundo conjunto de mudanças climáticas, é claro, trouxe seus reflexos para o Lago Chade, que iniciou um lento e contínuo processo de encolhimento. Além de evidências físicas, existem relatos de observadores oculares que corroboram essas mudanças. Legiões romanas realizaram expedições pelo Deserto do Saara aos tempos do início da Era Cristã e deixaram registros sobre o Lago Chade, que tinha naquela época cerca de 300 mil km², uma área equivalente à da Alemanha. Isso demonstra que esse Lago, que até poucas décadas atrás era considerado o sexto maior do mundo, está num processo de encolhimento contínuo há milhares de anos. 

A lenta e gradual redução do Lago Chade sofreu um grande incremento a partir da década de 1960. Grandes projetos de agricultura irrigada passaram a ser implantados nas margens do Lago, contando com grandes estímulos dos diferentes Governos. A partir da década de 1950 teve início a chamada Revolução Verde – diversos avanços tecnológicos na produção de defensivos agrícolas e de fertilizantes mudaram as práticas na agricultura, o que permitiu um grande aumento da produção e redução da fome no mundo. Governos de países com grande carência na produção de alimentos e sujeitos a frequentes “epidemias” de fome passaram a fazer grandes investimentos em agricultura irrigada, contando para isso com apoio financeiro e tecnológico de organismos internacionais como a FAO – Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura. 

Os países localizados no entorno do Lago Chade, é claro, passaram a fazer a sua própria lição de casa e as águas passaram a ser usadas de forma não sustentável, com uso abusivo e grandes perdas por evaporação. Outra fonte importante de impactos ao Lago foi a construção de usinas hidrelétricas nas calhas de muitos dos seus rios formadores. Sem estudos de impacto ao meio ambiente, uma prática muito pouco usada naqueles tempos, essas obras provocaram uma grande redução na vazão dos rios tributários do Lago Chade, o que combinado ao uso abusivo de suas águas para irrigação levou a atual situação de crise hídrica e humanitária. 

Na década de 1980, a área ocupada pelo Lago Chade oscilava entre 10 e 20% da área existente até o início da década de 1960 – em alguns anos, essa redução atingiu a impressionante marca de 95%. A redução acentuada do nível do Lago passou a inviabilizar inúmeros projetos agrícolas, que passaram a ficar extremamente distantes das suas águas e sem condições de fazer o bombeamento. Muito projetos foram transferidos para as “novas margens” do Lago, ocupando terras que, até pouco tempo antes, faziam parte do fundo do Chade. 

O colapso na produção de alimentos e a falta de água provocou o deslocamento forçado de milhões de pessoas nos países da região de entorno do Lago Chade nas últimas décadas (vide foto). Além dos problemas ligados ao encolhimento do Lago, toda a região do Cinturão do Sahel passou a enfrentar uma drástica redução no volume de chuvas desde a década de 1970. Estudos meteorológicos indicam que as chuvas se deslocaram para regiões mais ao Sul e colocam a culpa nas mudanças climáticas globais

Nos últimos anos, as crescentes tragédias climáticas e ambientais da região ocupada pelo Lago Chade ganharam um novo e explosivo componente – uma guerra religiosa liderada pelo grupo islâmico extremista Boko Haram. Guiados por uma leitura bastante distorcida do Alcorão, o livro sagrado dos islamitas (que preferem esse nome ao usual muçulmano). Esses guerrilheiros atacam e matam populações cristãs, e também sequestram aqueles que se declaram islamitas – principalmente mulheres jovens, que são levados para campos de prisioneiros e submetidos a um ensino radical dos dogmas da religião.  

As autoridades locais calculam que mais de 2 milhões de pessoas já foram deslocadas pelos ataques do Boko Haram. A ONU – Organização das Nações Unidas, estima que 11 milhões de pessoas estão sendo impactadas diretamente pelas ações do grupo e necessitam de ajuda humanitária frequente. No total, a somatória de problemas nas regiões de entorno do Lago Chade afeta cerca de 40 milhões de pessoas, o que é uma das maiores tragédias humanitárias de nossos tempos. 

A natureza muitas vezes é cruel e suas mudanças afetam grandes comunidades de pessoas e animais. Agora, quando fenômenos naturais se somam aos efeitos das obras humanas, como é o caso das mudanças climáticas globais, as coisas ficam catastróficas como no Lago Chade. 

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