A CHAPADA DIAMANTINA E SEUS RIOS QUE CORREM DIRETO PARA O MAR

Nas últimas postagens apresentamos alguns dos rios da Mata Atlântica que desaguam no litoral do Estado da Bahia e os seus muitos problemas ambientais. Até aqui já falamos dos rios Jequitinhonha, Mucuri e Pardo, que tem suas nascentes no Semiárido Mineiro, e também do rio Cachoeira, que tem suas nascentes na região baiana de Vitória da Conquista.  

Seguindo a programação, vamos falar nas postagens seguintes sobre os rios de Contas e Paraguaçu, dois dos mais importantes rios da faixa Leste da Bahia. Esses corpos d’água têm suas nascentes na Chapada Diamantina, uma das mais impressionantes formações geológicas do Brasil e que merece uma apresentação prévia. 

A Chapada Diamantina está localizada na região Central do Estado da Bahia e se destaca pelo seu tamanho, ocupando uma área de mais de 41,7 mil km². Para efeito de comparação, o Estado do Rio de Janeiro tem uma área total pouca coisa maior, com cerca de 43 mil km². A região da Chapada Diamantina compreende um total de 24 municípios baianos, onde vive uma população de mais de 570 mil habitantes. 

As chapadas são formações naturais encontradas em todas as regiões do território brasileiro e se caracterizam por formar uma área elevada nos terrenos, geralmente de grandes dimensões, onde o topo é plano. Esse tipo de formação também é chamado de altiplano e planalto. Exemplos são a Chapada dos Guimarães, no Estado do Mato Grosso, a Chapada dos Veadeiros, em Goiás, e a Chapada do Araripe, na divisa dos Estados do Ceará, Pernambuco e Piauí.  

As chapadas geralmente se localizam em pontos onde diferentes biomas se encontram, o que as transforma em importantes locais de refúgio para a biodiversidade, e também pela presença de inúmeros afloramentos de água e nascentes de rios. A Chapada Diamantina se encontra no limite entre a Mata Atlântica e o Semiárido Nordestino, além de apresentar fragmentos de vegetação do Cerrado

A região onde se encontra a Chapada Diamantina já foi, num passado geológico bastante remoto, uma grande bacia sedimentar e o fundo de um mar raso. Os terrenos da região sofreram um lento e contínuo processo de soerguimento (elevação), devido à movimentação das placas tectônicas. Os processos de erosão dos solos e de intemperismo moldaram as faces atuais do relevo, num trabalho que levou milhões de anos.

Os solos e as formações da região são ricos em rochas sedimentares, calcárias e de aglomerados minerais, rochas que facilitam a infiltração e a formação de grandes depósitos subterrâneos de água. Um exemplo de rocha sedimentar é o arenito, uma rocha que se forma a partir de depósitos de areia. Cada metro cúbico de arenito pode armazenar até 400 litros de água, o que nos dá uma ideia da capacidade de armazenamento de água nas grandes formações da Chapada Diamantina.

A Chapada Diamantina se estende no sentido Norte-Sul, formando um divisor de águas entre as bacias hidrográficas do rio São Francisco e do Atlântico Nordeste, onde se incluem os importantes rios Paraguaçu e de Contas. As principais nascentes desses rios estão localizadas na formação e surgem a partir da junção das águas de inúmeros pequenos afloramentos nas paredes rochosas e nos cumes dos morros, que se juntam com as águas de incontáveis cachoeiras e de piscinas naturais transparentes.  

Esses recursos hídricos são fundamentais para uma extensa região da faixa Leste e Sul do Estado – as águas do rio Paraguaçu, citando um único exemplo, são usadas no abastecimento da cidade de Salvador, a capital e maior cidade da Bahia, com uma população estimada em 3,9 milhões de habitantes (2020).  

A altitude média das formações rochosas da Chapada Diamantina se situa entre altitudes de 800 e 1.200 metros acima do nível do mar. Em alguns trechos, porém, os maciços rochosos atingem grandes altitudes e formam algumas das maiores elevações da região Nordeste do Brasil. Destacam-se o Pico do Barbado, com 2.033 metros, o Pico do Itobira, com 1.970 metros e o Pico das Almas, com 1.958 metros. As formações rochosas da Chapada Diamantina fazem parte da mesma formação geológica da Serra do Espinhaço, do Estado de Minas Gerais.  

A grande biodiversidade vegetal e animal, onde se incluem inúmeras espécies ameaçadas, em conjunto com os fartos recursos hídricos e paisagísticos desta esplêndida região, levaram à criação de uma área de preservação ambiental – o Parque Nacional da Chapada Diamantina. Criado através de Decreto Federal em 1985 e contando com uma área de 152 mil hectares, o Parque abrange áreas dos municípios de Adaraí, Ibicoara, Iramaia, Itaetê, Lençóis, Mucugê e Palmeiras. A administração do Parque cabe ao ICMbio – Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade.  

A vegetação da Chapada Diamantina inclui plantas típicas da Caatinga nordestina, que ocorrem em altitudes entre 500 e 900 metros, vegetação de Mata Atlântica nas altitudes mais baixas e ao longo dos cursos dos inúmeros rios, além de possuir inúmeros fragmentos da vegetação do Cerrado. Entre as espécies animais em risco de extinção se incluem a onça-parda (Puma concolor), a onça-pintada (Panthera onca), o gato-do-mato (Leopardus tigrinus), o tatu-canastra (Priodontes maximus) e o Tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla).   

É nececessário um destaque especial ao guigó (Callicebus barbarabrownae), uma espécie de macaco que já foi comum nas florestas ao Sul do rio São Francisco, mas que atualmente está restrita à região da Chapada Diamantina – calcula-se que existam apenas 250 indivíduos dessa espécie vivendo em liberdade.  

Dentre as inúmeras espécies de aves da Chapada Diamantina merecem proteção especial o gavião-pombo-pequeno (Amadonastur lacernulatus), a borboletinha-baiana (Phylloscartes bekeri), a águia-cinzenta (Urubitinga coronata) e o joão-baiano (Synallaxis whitneyi). Inúmeras espécies vegetais endêmicas, onde se incluem diversas espécies de orquídeas, fazem parte da flora local, o que é um motivo a mais para a preservação ambiental de toda essa importante região. 

Além de todo esse patrimônio natural, a Chapada Diamantina possui um rico acervo cultural formado por dezenas de sítios arqueológicos, que testemunham a história da ocupação humana na região e que podem ter entre 8 e 35 mil anos de idade. As cavernas e paredões das formações rochosas apresentam inúmeras pinturas rupestres que contam a vida e os hábitos das diversas nações indígenas que vem ocupando a região há vários milênios, algo que fascina e encanta os milhares de turistas que visitam a região a cada ano. 

Com todo o seu patrimônio ambiental e cultural, a Chapada Diamantina se transformou num dos mais importantes destinos turísticos do Estado da Bahia. A cidade de Lençóis, considerada um dos melhores destinos turísticos da região e que foi eleita em primeiro lugar no prêmio “Melhores Destinos 2019”, recebia, em média, cerca de 150 mil turistas nacionais e internacionais por ano – números anteriores à pandemia da Covid-19. 

Apesar de expressivo, esses números estão muito distantes de outros destinos turísticos similares no mundo. Citando um exemplo – o Grand Canyon na Região Sudoeste dos Estados Unidos, recebe mais de 5 milhões de visitantes a cada ano. Isso mostra o tanto o turismo pode crescer e, sendo bem gerenciado, o quanto que poderá ajudar na preservação dessa fascinante região da Bahia. 

A COSTA DO CACAU E O RIO CACHOEIRA

A Costa do Cacau, no Sul do Estado da Bahia, compreende um trecho de litoral com extensão de aproximadamente 200 km e onde encontramos o maior fragmento contínuo da Mata Atlântica na Região Nordeste. Essa região engloba os municípios de Ilhéus, Itacaré, Ipiaú, Maraú, Una, Canavieiras, Itabuna, Uruçuca, Santa Luzia, Pau Brasil e São José da Vitória. De meados do século XIX até anos bem recentes, essa região se destacava pela produção do cacau. 

Esse verdadeiro “milagre” da preservação da Mata Atlântica nessa região não foi mera obra do acaso. Já nos primeiros anos da colonização do Brasil foram feitos esforços para a implantação de duas Capitânias nessa região: Ilhéus e Porto Seguro. Os sonhos dos Donatários, porém, não se concretizaram – a região fazia parte do território dos temíveis índios botocudos, que atacavam e queimavam as vilas, os engenhos e as igrejas, matando todos os colonos em que conseguissem colocar as mãos. Esses empreendimentos foram abandonados e as matas, diferentemente do que ocorreu em todo o resto da faixa Leste da Região Nordeste, sobreviveram. 

As primeiras mudas do cacau (Theobroma cacao) chegaram na região no início do século XVIII. Originário da Bacia Amazônica e das florestas da América Central, o cacau é uma árvore que precisa de clima quente e úmido, além da sombra de árvores mais altas para crescer. O ambiente das matas do Sul da Bahia oferecia tudo isso. A cultura do cacau ganhou musculatura ao longo de todo o século XIX com a popularização do consumo do chocolate em todo o mundo

A Bahia foi, durante quase um século, uma das maiores produtoras de cacau do mundo. Em meados do século passado, a produção baiana começou a ser superada por países da costa Oeste da África, região conhecida como Costa do Ouro. Um outro grande golpe sentido pela indústria cacaueira da Bahia se deu no final da década de 1980, com a proliferação da vassoura-de-bruxa, um fungo que ataca e mata os cacaueiros. A produção do cacau nessa região ainda não se recuperou. 

Essa região é cortada por importantes rios, que assim como outros tantos rios do bioma Mata Atlântica estão cheios de problemas. Vamos começar falando sobre o rio Cachoeira, que tem sua foz em Ilhéus, cidade que já foi o coração da Costa do Cacau e que nunca perdeu o seu charme. 

O rio Cachoeira tem um curso sinuoso e acidentado, onde os blocos de rocha formam pequenas cachoeiras. Suas nascentes mais distantes ficam em terras do Semiárido Nordestino na Serra do Itaraca, na região de Vitória da Conquista. O trecho inicial é conhecido como rio Colônia. Após o encontro com as águas do rio Salgado, na altura da cidade de Itapé, o rio passa a ser chamado de rio Cachoeira. Desde de suas nascentes até a foz no Oceano Atlântico, o rio tem uma extensão de aproximadamente 300 km. 

Com a faixa litorânea sob controle dos botocudos, a penetração dos colonizadores se deu a partir dos sertões. Desde o final do século XVI, criadores de gado começaram a ocupar os sertões, principalmente em Pernambuco e na região do Recôncavo Baiano. Com o crescimento dos rebanhos e com os conflitos com plantadores de cana de açúcar do litoral, as boiadas passaram a penetrar cada vez mais nos sertões do Semiárido.  Vejam essa citação do antropólogo Darcy Ribeiro:

“O gado trazido pelos portugueses das ilhas de Cabo Verde vinha já, provavelmente, aclimatado para a criação extensiva, sem estabulação, em que os próprios animais procuram suas aguadas e seu alimento. Os primeiros lotes instalaram-se no agreste pernambucano e na orla do recôncavo baiano, suficientemente distanciados dos engenhos para não estragar os canaviais. Daí se multiplicaram e dispersaram em currais, ao longo dos rios permanentes, formaram as ribeiras pastoris. Ao fim do século XVI, os criadores baianos e pernambucanos se encontravam já nos sertões do Rio São Francisco, prosseguindo ao longo dele rumo ao sul e para além, rumo às terras do Piauí e do Maranhão. Seus rebanhos somariam então cerca de 700 mil cabeças, que dobrariam no século seguinte.”

Com a descoberta das minas de ouro nas Geraes e com o crescimento da população da Província ao longo do século XVIII, a região de Vitória da Conquista foi transformada num dos muitos caminhos das boiadas que seguiam para abastecer as Geraes e acabou sendo transformada em um importante centro de produção pecuária. 

A pecuária ajudou a modelar a colonização da bacia hidrográfica do rio Cachoeira, onde ocupa atualmente uma área equivalente a 43% do território. A pecuária e a agricultura ocupam a maior parte da bacia hidrográfica, principalmente nas faixas Central e Oeste. A área restante, próxima ao litoral, concentra os remanescentes da Mata Atlântica e a produção do cacau em cabruca ou em “mata cabrucada”. 

As matas dessa região, que ocupam cerca de 33% da área da bacia hidrográfica, são formadas por remanescentes de Mata Atlântica e matas secundárias, onde se encontram espécies nativas como o pau d’alho, gameleira, louro, caobi, cedro, vinhático, jequitibá, sapucaia, embiriçu, maçaranduba e gindiba. As mudas de cacau são plantadas em meio a essas árvores. Durante muito tempo, a cultura do cacau e suas matas foram grandes aliadas da preservação de uma parte importante do rio Cachoeira. 

Com o declínio da produção do cacau por causa da vassoura-de-bruxa, grandes extensões desses remanescentes florestais passaram a ser derrubados para a ampliação de áreas de pastagens e também para o plantio da palma-da-Guiné, produtora do dendê, um fruto de onde se extrai um óleo extremamente valorizado pelas indústrias de alimentos, de cosméticos e química. Os problemas ambientais decorrentes desse avanço contra as matas vieram a se somar a muitos outros já enfrentados pelo rio Cachoeira. 

Historicamente, o rio Cachoeira vem sofrendo as consequências dos intensos desmatamentos ocorridos em sua bacia hidrográfica. Um dos mais graves problemas é a erosão de solos e o carreamento de grandes volumes de sedimentos para as calhas do rio e de todos os seus afluentes. Outro problema que se tornou frequente foram as grandes enchentes no período das chuvas. 

Um dos papéis desempenhados pela vegetação, especialmente pelas árvores e suas grandes raízes, é o de facilitar a infiltração das águas das chuvas nos solos. Além de reduzir a velocidade e os volumes das águas que chegam na calha dos rios, um “serviço” que ajuda a controlar as cheias bruscas, esses processos ajudam na recarga dos lençóis e aquíferos subterrâneos, principais alimentadores das nascentes de água. 

A destruição intensa de matas, como visto na bacia hidrográfica do rio Cachoeira, altera completamente o ciclo hidrológico dos rios. Nos períodos de chuva, os rios recebem grandes volumes de água e transbordam, criando inúmeros problemas para as cidades e populações que vivem em suas margens. Quando chega o período da seca, os rios definham. 

A primeira grande enchente do rio Cachoeira ocorreu em 1914, indicando claramente o avanço dos desmatamentos. Outras enchentes memoráveis ocorreram em 1920, 1947, 1964, 1965 e, a mais devastadora de todas, a de 1967. Itabuna, uma das maiores cidades da bacia hidrográfica do rio Cachoeira, sempre foi a que mais sofreu com essas enchentes. Os bairros ribeirinhos de Mangabinha, Burundanga, Bananeira e Berilo estão entre os mais prejudicados. 

Outro problema que vem crescendo muito é a poluição das águas do rio. Além dos problemas criados pela agricultura e pela pecuária, que vão do carreamento de resíduos de fertilizantes e defensivos agrícolas ao lançamento de efluentes produzidos pelos animais, o lançamento de esgotos domésticos cresce sem parar. Na cidade de Itabuna, que possui cerca de 200 mil habitantes, mais de 80% do esgoto produzido é despejado sem tratamento nas águas do rio Cachoeira (vide foto), situação nada diferente das demais cidades da bacia hidrográfica. 

Além de afetar toda uma região repleta de importantes manguezais, toda essa mancha de poluição nas águas do rio Cachoeira corre diretamente para as praias de Ilhéus, um dos mais importantes destinos turísticos do litoral da Bahia, distante cerca de 30 km de Itabuna. 

A grande ironia da situação é que o turismo, que vem substituindo a riqueza perdida dos tempos do cacau, pode estar ameaçado pela degradação das águas de importantes rios como o Cachoeira. 

O RIO PARDO DO SUL DA BAHIA

De acordo com os dicionários da Língua Portuguesa, pardo é uma cor escura entre o preto e o branco, ou ainda algo branco que está sujo ou escurecido. Como é muito comum encontrarmos cursos de águas barrentas (pelo menos em parte do ano) e de cor parda, surgiram inúmeros rios Pardos por todo o Brasil, algo que muitas vezes pode levar a grandes confusões.  

Um desses rios nasce em Minas Gerais e corta todo o Sul da Bahia, desaguando a apenas 18 km ao Norte da foz do famoso rio Jequitinhonha. As nascentes do rio Pardo, que ao longo do período colonial era conhecido como rio Santo Antônio, ficam dentro dos domínios do Semiárido do Norte de Minas Gerais, mais especificamente no município de Rio Pardo de Minas. O rio corre diretamente no sentido Leste, percorrendo cerca de 565 km até encontrar o Oceano Atlântico ao lado da cidade baiana de Canavieiras. 

A maior parte da bacia hidrográfica do rio Pardo, que tem 32 mil km², é formada pela Floresta Ombrófila Densa, um dos muitos subsistemas florestais da Mata Atlântica. A bacia hidrográfica abrange um total de 37 municípios, 13 dentro do Estado de Minas Gerais e 24 na Bahia. O rio Pardo tem uma extensão de 220 km em terras mineiras e 345 km em terras baianas. 

Os principais afluentes do rio Pardo são o Ribeirão do Salitre, o Riacho das 5 Veredas e os rios São João do Paraíso, Verruga e Catolé Grande, na margem esquerda, e os rios Mosquito, Manjerona, Macarani e Maiquinique, na margem direita. Entre esses afluentes, o de maior destaque é o rio Mosquito, que nasce na região mineira de Salinas e atravessa 11 municípios, sendo responsável pelo abastecimento de aproximadamente 110 mil habitantes. 

Como muitos outros rios da faixa Leste do Brasil, o rio Pardo foi um dos caminhos usados pelos primeiros exploradores para se atingir os sertões das Geraes. A primeira expedição documentada se deu entre os anos de 1553 e 1554 e foi comandada por Francisco Spinosa, um castelhano a serviço da Cora de Portugal. Partindo de Porto Seguro, a expedição explorou rios das bacias hidrográficas do Pardo, do Jequitinhonha e do São Francisco

Conforme já comentamos em outras postagens, essa região era habitada por diversas tribos indígenas como os tapuias, os mongoiós e os pataxos, além dos temidos botocudos. Foram inúmeros confrontos e embates entre os indígenas e os expedicionários. Outras expedições ao longo das décadas seguintes, inclusive com a participação de bandeirantes paulistas, fizeram praticamente as mesmas rotas em busca de ouro e pedras preciosas nas Geraes

A ocupação das áreas de mineração na região das nascentes no rio Pardo começou nos últimos anos do século XVII, quando surgiram os primeiros povoados e vilas de garimpeiros. O rio Pardo foi então transformado numa importahte rota de ligação entre os sertões das Geraes e o litoral, através da qual circulavam pessoas e mercadorias. Como aconteceu em outras regiões do Nordeste, as trilhas abertas nas matas do Sul da Bahia também foram usadas para a penetração de boiadas e criação de fazendas para a criação de gado, atividade econômica que é uma das mais importantes da região até os dias de hoje. 

A ocupação desordenada dos solos e os intensos desmatamentos, assim como aconteceu em outras bacias hidrográficas da região, foram marcantes ao longo da história da colonização do rio Pardo. Mais de 2/3 das matas da região desapareceram, sendo substituídas por pastagens e campos agrícolas, que ocupam, respectivamente, 32% e 28% do território da bacia hidrográfica. 

Como era de se esperar, essa ocupação desordenada alterou profundamente os ciclos de cheias e de secas no rio Pardo. Nos períodos de chuva, o nível do rio sobe rapidamente, provocando transbordamentos e transtornos para as populações que moram próximas de suas margens. Sem a densa cobertura vegetal das antigas matas, que permitiam a infiltração de grandes volumes de águas nos solos, a maior parte das águas das chuvas corre pela superfície, carregando grandes volumes de sedimentos para as calhas dos rios e fazendo os seus caudais aumentaram rapidamente. 

No período da seca, os caudais diminuem drasticamente (vide foto), criando toda uma série de problemas para o abastecimento das populações das cidades e vilas, para a dessedentação dos animais e para a irrigação de plantações, essa que é a principal consumidora de água da bacia hidrográfica. Se repete aqui um velho problema que sempre relembramos: sem a infiltração de parte substancial das águas das chuvas nos solos por falta de matas, os aquíferos e os lençóis subterrâneos não são recarregados. E sem essa recarga, os volumes de água que brotam nas nascentes definham na temporada da seca. 

Além dos problemas “triviais” criados pela agricultura e pela pecuária, o rio Pardo sofre cada vez mais com a poluição gerada pelas cidades. Os problemas aqui também são conhecidos por todos – assoreamento da calha dos rios, carreamento de resíduos de fertilizantes e de defensivos agrícolas, geração e despejo de grandes volumes de esgotos domésticos sem tratamento pelas cidades e também o lançamento, direto ou indireto, de resíduos sólidos de todos os tipos.  

Nessa conta entram os resíduos sólidos despejados precariamente pelas Prefeituras nos lixões, onde parte acaba sendo carreada pelas chuvas para as calhas dos rios. Também precisamos citar os despejos feitos pelas populações em ruas e terrenos baldios das cidades, e também os descartes irregulares de entulhos da construção civil. 

Também não são nada desprezíveis os efluentes e resíduos gerados por inúmeros abatedouros de animais espalhados por toda a região, grande parte deles clandestinos. Esses estabelecimentos abastecem inúmeras cidades da região com carnes e derivados, sem um controle rígido das autoridades sanitárias e ambientais. A maioria desses estabelecimentos simplesmente descarta os seus “restos” nas águas dos rios da bacia hidrográfica. 

Um agravante preocupante: a bacia hidrográfica do rio Pardo não possui um Comitê Gestor. Os Comitês Gestores de Bacia Hidrográfica são fóruns locais que reúnem grupos de pessoas – autoridades municipais, associações da sociedade civil, conselhos profissionais, populações, entre outros atores dos municípios banhados pelos rios que formam a bacia hidrográfica, além de autoridades dos órgãos ambientais estaduais e federal (o Pardo é um rio federal). Curiosamente, o rio Mosquito, seu principal afluente, tem um atuante Comitê de Bacia Hidrográfica. 

Esses comitês discutem os interesses comuns ligados ao melhor uso das águas. Sem esse fórum local, a gestão da bacia hidrográfica fica limitada às esferas do Estado e da União, em escritórios e repartições públicas distantes das águas. Essa falta de participação direta das populações locais abre espaço para todos os tipos de abusos, onde poucos fazem o que bem querem e muitos sofrem com a carência e a baixa qualidade das águas. 

Um sintoma da falta de uma gestão adequada da bacia hidrográficado rio Pardo é o crescimento contínuo do consumo de água pela agropecuária e pelos sistemas de irrigação agrícola, observados desde 1984. Sem uma partilha adequada, muitos consumidores podem estar captando (e desperdiçando) muita água da bacia hidrográfica, enquanto outros usuários estão sofrendo com a falta desse importante insumo. 

Em tempo: a população que vive na bacia hidrográfica do rio Pardo é de aproximadamente 260 mil habitantes. É gente demais dependendo das águas dos rios e sem contar com uma gestão a altura dos recursos hídricos da região. Lamentável! 

A DEVASTAÇÃO DA MATA ATLÂNTICA NOS VALES DOS RIOS DOCE, SÃO MATEUS E MUCURI

De acordo com as afirmações de muitos pesquisadores, o trecho da Mata Atlântica que cobria o Extremo Sul da Bahia, Norte do Espírito Santo e uma faixa entre o Nordeste e o Leste de Minas Gerais, tinha características muito similares aos trechos de matas secas da Floresta Amazônica. Até o início do século XX, a região era coberta por matas densas, com árvores altas e bem encorpadas, contando ainda com a mesma altitude e com um clima quente e úmido similar ao Equatorial. No meio dessa magnífica floresta encontramos os rios Doce, São Mateus e Mucuri

Em meados da década de 1950, essas florestas já haviam sucumbido aos impiedosos machados e às insaciáveis máquinas das “infinitas” serrarias e fábricas de móveis da região. No total, foram devastados cerca de 95 mil km² de florestas na região. Vamos tentar mostrar o que aconteceu. 

A devastação de áreas florestais se tornou uma espécie de “rotina” para as populações humanas há, pelo menos, 10 mil anos. Data desse período (falamos aqui de algo entre 12 mil e 10 mil anos atrás) da invenção da agricultura. Populações até então nômades, descobriram que podiam trabalhar a terra e produzir alimentos e, de quebra, criar animais nas áreas de entorno. 

Inicialmente, a agricultura era praticada em áreas de campos e estepes, onde existiam poucas árvores – a Mesopotâmia, entre os rios Tigre e Eufrates, na Ásia Central; os Vales do Indus e do Ganges, no Subcontinente Indiano; nas várzeas do rio Yangtzé, na China, ente outros. Quando essas populações praticantes da agricultura mudaram para regiões cobertas por florestas como o Norte da Ásia e a Europa, passou a ser necessária a destruição das matas a fim de liberar a terra para os cultivos e permitir que a luz do sol banhasse os solos

Essas práticas de desmatamentos se tornaram tão rotineiras na história da humanidade, que foram poucos os historiadores que perderam tempo anotando a forma como isso era feito. Na região entre os vales dos rios Doce, São Mateus e Mucuri, a derrubada das florestas seguiu exatamente esse roteiro e muitos detalhes dos trabalhos se perderam para sempre. 

Um dos grandes inibidores do processo “civilizatório” nessa região, conforme já destacamos em postagens anteriores, eram os ferozes e canibais índios botocudos. As dificuldades para navegação nos rios também eram enormes. Além dos inúmeros obstáculos naturais como cachoeiras e corredeiras, como é o caso do rio Doce, faltavam pontos de apoio ao longo das margens dos rios para os canoeiros e barqueiros. Com botocudos nas matas e falta de suporte logístico, eram muitos poucos os que se arriscavam em viagens por esses rios. 

O primeiro empreendimento de navegação bem sucedido nessa região foi o do rio Mucuri, a partir de meados do século XIX, sob o comando do empreendedor Teófilo OttoniNo rio Doce, foram feitas diversas tentativas para a implantação de um grande sistema de navegação ao longo de todo o século XIX, porém sem lograr maiores sucessos. 

O grande meio de transporte nessa região e principal aliado dos processos de desmatamentos foram mesmo os trilhos das ferrovias. A primeira delas foi a Estrada de Ferro Bahia Minas, que começou a ser construída no início da década de 1880, a partir de Caravelas, cidade portuária do Sul da Bahia. Os trilhos chegaram na cidade de Teófilo Ottoni em 1898. Aliás, a construção dessa ferrovia foi um dos grandes sonhos não realizados em vida por esse empreendedor. 

A Ferrovia Vitória Minas, que teve o seu primeiro trecho de 30 quilômetros inaugurado em 1904, foi durante muito tempo o principal meio de transporte para os grandes volumes de madeiras retirados das matas da faixa Leste de Minas Gerais. Um detalhe importante que hoje pode até parecer irrelevante – as locomotivas usadas nessas ferrovias eram a vapor e consumiam mais de 1 m³ de lenha a cada hora de operação

Inicialmente, a exploração de madeira nessa extensa região foi bastante seletiva. A madeira mais valiosa e cobiçada era o jacarandá, um produto altamente valorizado pelas indústrias de móveis há época. Outras madeiras valiosas eram o jequitibá, cedro, vinhático, ipê, peroba e o pau-brasil, entre outras. A demanda pelas madeiras acompanhava as oscilações dos preços de mercado – pelas dificuldades de corte e transporte, os madeireiros buscavam sempre as árvores mais lucrativas num determinado momento. 

Grupos de madeireiros entravam nas matas em busca das melhores árvores e, quando conseguiam localizar um exemplar, faziam um esforço concentrado para derrubá-lo e cortá-la para o transporte (vide foto). Era comum que um grupo entre 3 e 5 homens trabalhasse com seus machados de forma sincronizada no corte. Esse trabalho em equipe se mostrava fundamental nos casos de acidentes de trabalho, o que não era incomum. 

O transporte das toras de madeira era feito por juntas de bois – entre 5 e 8 pares de animais. O tronco era arrastado através de trilhas rudimentares abertas na mata. Segundo as informações disponíveis, uma junta com 14 animais podia arrastar um tronco entre 1,2 e 1,5 tonelada por até 12 km ao longo de um dia. O destino inicial dessas madeiras eram plataformas de carga ao longo das ferrovias ou, em alguns casos, serrarias com máquinas movidas a vapor onde as toras receberiam os cortes.  

Muitas dessas serrarias eram especializadas na fabricação de dormentes para trilhos de ferrovias e onde as madeiras mais utilizadas eram as resistentes perobas e ipês. Outros grandes consumidores nacionais das madeiras da Mata Atlântica eram as indústrias de móveis e da construção naval. No mercado internacional, faziam sucesso madeiras consideradas exóticas como o jacarandá, o cedro e o pau-brasil. Aqui é importante destacar que com o início da I Guerra Mundial, houve um grande aumento nas exportações de madeiras pelo Brasil. 

Ao longo das décadas de 1920 e 1930, a exploração de madeiras foi uma das atividades econômicas mais importantes da região. No caso do Espírito Santo, a exportação de madeiras através do Porto de Vitória chegou a representar até 6% do volume total de exportações do Estado. Com a crise da cultura do café, iniciada com a quebra da Bolsa de Valores de Nova York em 1929, essa atividade chegou a ser a mais importante dessa região

A partir de 1936, quando os trilhos da Ferrovia Vitória Minas chegam finalmente até Belo Horizonte, a capital mineira foi transformada em um dos mais importantes polos moveleiros do país. Até então, os grandes centros produtores de móveis se concentravam em Teófilo Ottoni, Carangola, Aimorés, Manhuaçu, Guanhães, Caratinga e Rio Casca, entre outras

De acordo com o Anuário Industrial do Estado de Minas Gerais de 1937, as cidades de Belo Horizonte e de Juiz de Fora formavam os principais centros da indústria madeireira mineira. Além desses dois centros, esse Anuário também mostra uma concentração dessas indústrias ao longo do vale do rio Doce, que vão migrando conforme a abertura de novos ramais ferroviários e o esgotamento das matas. 

Além da extração de madeiras nobres e resistentes para usos na movelaria, construção civil e para a fabricação de dormentes, as madeiras “menos nobres” passariam a encontrar um outro fim – alimentar os altos-fornos das usinas siderúrgicas de Minas Gerais com o carvão de origem vegetal. A produção siderúrgica mineira, que desde a década de 1830, já vinha se consolidando como uma grande consumidora de carvão vegetal, ganhou “musculatura” com a implantação das ferrovias, um caminho que passava a permitir o escoamento da produção na direção dos portos. 

Os mesmos trilhos e vagões que transportavam grandes cargas de minérios e produtos siderúrgicos numa direção, passaram a ser utilizados para transportar grandes carregamentos de carvão vegetal em outras direções. A derrubada seletiva de madeiras que se viu até os primeiros anos da década de 1930, agora seria transformada numa espécie de vale tudo – qualquer árvore com possibilidade de ser transformada em carvão passaria a ser derrubada “sem choro ou dó”. 

Um grande exemplo dessa época é a Siderúrgica Belgo-Mineira, que em 1937, inaugurou em João Monlevade o maior alto-forno alimentado a carvão vegetal do mundo até aqueles tempos. Logo, não é de se estranhar que, já em meados do século XX, a fabulosa Mata Atlântica tenha desaparecido do mapa nessas regiões. 

A COLONIZAÇÃO DO VALE DO RIO MUCURI, OU LEMBRANDO DE TEÓFILO OTTONI

Escrever diariamente as postagens aqui do blog é uma tarefa que não é das mais fáceis, principalmente quando entramos em temáticas novas. É preciso vasculhar a internet em busca de informações – principalmente trabalhos científicos e teses de mestrado e doutorado. Nas últimas postagens, onde temos falado dos problemas ambientais em rios da Mata Atlântica no Norte do Espírito Santo, Extremo Sul da Bahia e Nordeste de Minas Gerais, as coisas ficaram bem mais complicadas, pois, a disponibilidade de trabalhos científicos não é tão grande. 

A grande recompensa vem quando surgem as “grandes descobertas” (as vezes nem tão grandes assim) – a minha mais recente foi sobre Teófilo Ottoni. Confesso que conheço o nome dessa cidade desde a minha mais tenra infância – alguns conhecidos de nossa família vieram de lá. Mesmo assim, o lugar nunca passou de mais um nome entre tantos outros nomes, que pessoas de cidades grandes como eu ouvem diversas vezes ao dia. Não é que o “tal” de Teófilo Ottoni foi uma peça chave na colonização no rio Mucuri. Vamos conhecê-lo: 

Conforme comentamos nas postagens anteriores, uma extensa faixa de terras entre o Sul da Bahia, Norte do Espírito Santo e Nordeste e Leste de Minas Gerais permaneceu com suas densas florestas de Mata Atlântica praticamente intocadas até meados do século XIX. Esse era o território de um grande número de nações indígenas nada amigáveis aos colonizadores “brancos”, onde o grande destaque eram os temíveis e sanguinários botocudos.  

Esses índios ganharam uma péssima fama ao longo dos séculos – além de matar seus inimigos, segundo muita gente há época acreditava, os botocudos “sorviam o sangue através das feridas e desmembravam os corpos para comê-los” em rituais antropofágicos. Graças a esse medo “mítico” criado nos colonizadores, os botocudos ajudaram essa grande área da Mata Atlântica a ganhar uma importante sobrevida

No vale do rio Mucuri, que nasce no Nordeste de Minas Gerais e corre até o encontro com o Oceano Atlântico no Extremo Sul da Bahia, a até então tranquila história ambiental do bioma começaria a mudar drasticamente em 1847, ano em que foi criada a Companhia de Navegação e Comércio do Mucuri, empresa que tinha como objetivo principal a ligação da região Centro-Oeste de Minas Gerais ao “mar” através da navegação pelo rio Mucuri. Países e regiões com acesso aos oceanos e às facilidades criadas pelo comércio marítimo se desenvolvem mais forte e rapidamente. Simples assim! 

À frente desse empreendimento estava a figura de Teófilo Benedito Ottoni (1807-1869), um jornalista, comerciante, político e empresário de destaque dos tempos do Brasil Império. Ottoni nasceu em Serro, cidade localizada na Serra do Espinhaço e que naqueles tempos era chamada de Vila do Príncipe. A cidade nasceu em função do ciclo da mineração do ouro no século XVIII e, só para lembrar, as nascentes do rio Jequitinhonha ficam nesse município. 

Ainda bem jovem, o já republicano Teófilo Ottoni começou a escrever para um periódico oposicionista ao Império – A Sentinela de Serro, onde depois passou a ser o redator chefe. Em 1842, Teófilo Ottoni foi um dos líderes da Revolta Liberal em Minas Gerais. Essa Revolta, que se espalhou por diversas Províncias do país, foi organizada pelo Partido Liberal e contestava a ascensão do Partido Conservador ao poder.  

O Governo Imperial nomeou o militar Luís Alves de Lima e Silva, há época o Barão de Caxias, para reprimir a Revolta em Minas Gerais. Teófilo Ottoni e outros líderes do movimento acabaram presos e processados. Os rebeldes foram beneficiados por uma anistia geral decretada pelo Imperador Dom Pedro II. Ottoni acabou se envolvendo na política como um militante republicano, sendo eleito deputado provincial, deputado geral e senador do Império entre 1864 e 1869. 

Nosso ponto de maior interesse na vida de Teófilo Ottoni se deu entre 1850 e 1860, quando esteve à frente da sua Companhia de Navegação. O grande trunfo de Teófilo Ottoni foi o de ter conseguido uma aproximação razoavelmente pacífica com os índios da região, obtendo deles a “autorização” para construir estradas, navegar nas águas do rio Mucuri, instalar fazendas e também fundar a Freguesia de Filadélfia, embrião da cidade de Teófilo Ottoni. 

Teófilo Ottoni organizou uma expedição em 1847, que saiu da cidade de Mucuri no litoral baiano na direção dos sertões de Minas Gerais. Consta que à certa altura do percurso, os expedicionários foram recebidos aos gritos pelos índios do cacique Poton dos botocudos. A fala dos índios – “Pogirum! Pogirum! Jak-jemenuk, jak-jemenuk!”, que foi traduzida por um guia como algo como “homens brancos, já não somos matadores”, foi um claro sinal de busca de paz. 

Àquela altura, já fazia quase trinta anos que uma Carta Régia de Dom João VI havia sido publicada, declarando “estado de guerra” contra os botocudos. Depois de tantos anos de massacres, esse povo já estava complemente exaurido e sem condições de continuar a combater os colonizadores “brancos”. Além disso, os indígenas enfrentavam inúmeros confrontos com outros grupos de botocudos – o cacique Poton e seus guerreiros lutavam há muito tempo contra o grupo do cacique Giporok

Uma vez firmado esse pacto de paz (que ainda não seria pleno), a Companhia de Navegação pode começar a funcionar efetivamente. Um dos primeiros trabalhos executados foi o mapeamento do curso e a avaliação da profundidade do rio Mucuri por engenheiros contratados. Nos trechos onde o rio não era navegável, foram abertas estradas para o transporte de pessoas e mercadorias por via terrestre. A primeira embarcação a navegar pelo até então desconhecido rio Mucuri foi o vapor Peruípe em 1852. A companhia operaria outras duas embarcações e funcionaria até 1918. A rota das embarcações ligava a cidade de Mucuri até o porto fluvial de Santa Clara, próximo da cidade de Nanuque, já em Minas Gerais.

Ao longo dos anos seguintes, as densas florestas das margens do rio passaram a dar lugar a áreas de plantio, pastagens para animais, vilas e cidades. Aos primeiros expedicionários que desbravaram essas terras vieram se juntar outros personagens: soldados, populações livres, pretos escravizados, religiosos, fazendeiros, funcionários dos Governos e naturalistas estrangeiros, entre muitos outros. Depois desses brasileiros, também começaram a chegar estrangeiros de todos os cantos do mundo: alemães, belgas, franceses, suíços, austríacos, russos, holandeses e até chineses. 

O calor e a umidade intensa, os mosquitos, as doenças tropicais e as “febres”, os ataques de infinitos insetos e dos “bichos-de-pé”, a abundância de morcegos hematófagos, entre outras dificuldades da floresta tropical, pouco a pouco foram minando os antigos sonhos de Teófilo Ottoni de construir ali uma espécie de paraíso dos trópicos. Muitos dos recém chegados ao vale do rio Mucuri acabaram desistindo da empreitada e foram buscar alternativas de vida em outros locais do país. Os caminhos do rio Mucuri, entretanto, já estavam abertos e a vida seguiu. 

A exloração das abundantes madeiras nobres nas matas da região – jacarandás, jequitibás, cedros, vinháticos, ipês, perobas e pau-brasil, rapidamente se transformou na base da economia local. Dentro de poucas décadas, a cidade de Teófilo Ottoni se transformaria num dos mais importantes polos moveleiros de Minas Gerais. A exploração madeireira ao longo de todo o vale do rio Mucuri ganharia um forte impulso a partir de 1882, quando começaram as operações da Estrada de Ferro Bahia Minas e o porto de Caravelas foi transformado em um grande exportador de madeiras, especialmente de dormentes para outras ferrovias. 

Essa ligação férrea, que foi um dos grandes sonhos acalantados em vida por Teófilo Ottoni, chegaria a “sua” cidade em 1898. O tão almejado desenvolvimento econômico, infelizmente, foi limitado – os “fabulosos”, mas não infinitos, recursos florestais da região começaram a se esgotar na década de 1920. 

Continuamos na próxima postagem. 

VALE DO RIO MUCURI: O TERRITÓRIO DOS TEMIDOS ÍNDIOS BOTOCUDOS

A cerca de 60 km ao Norte da foz do rio São Mateus (ou Cricaré) encontramos a foz de um outro rio importante dessa região Leste do Brasil – o rio Mucuri. Totalmente inserido dentro do bioma Mata Atlântica, o rio Mucuri sofre atualmente com as grandes plantações de eucalipto e com a poluição gerada por grandes fábricas produtoras de papel e celulose, problemas que vem causando grandes embates com as populações tradicionais e pescadores. 

Entretanto, diferente da história ambiental dos rios Jequitinhonha e São Mateus, que têm como origem dos seus problemas os grandes desmatamentos e queimadas feitas para a criação de áreas de pastagens para o gado na região de suas nascentes entre os biomas Mata Atlântica e Caatinga, o rio Mucuri foi vítima, principalmente, da intensa exploração madeireira. Essa exploração teve início na segunda metade do século XIX, porém, sofreu um forte incremento a partir de meados do século XX. 

O rio Mucuri, ou “rio das raposas” na língua dos indígenas que habitavam a região, tem cerca de 320 km de extensão. Sua nascente principal, o rio Mucuri do Norte, fica em Ladainha, no Nordeste de Minas Gerais. O curso principal do rio recebe as águas do rio Mucuri do Sul, um afluente com nascentes em Malacacheta, também em Minas Gerais. O rio segue no sentido Leste, acompanhando a linha de divisa entre os Estados da Bahia e do Espírito Santo até desaguar no Oceano Atlântico em Mucuri, a cidade mais meridional do território baiano. 

Até meados do século XIX, as densas florestas de Mata Atlântica da bacia hidrográfica do rio Mucuri estavam praticamente intocadas. A razão disso era muito simples – a região estava “infestada” de botocudos, o temível povo indígena que dominava um extenso território entre o Sul da Bahia, o Norte do Espírito Santo e uma área entre o Nordeste e Leste de Minas Gerais.  

Devido aos intensos embates com colonizadores e forças militares ao longo dos séculos, diversas tribos de botocudos fugiram da faixa costeira e passaram a buscar refúgio nas matas ao longo das margens do rio Mucuri. E com esses temidos índios nessa região, os “brancos” procuravam ficar o mais longe possível desse rio. 

Os primeiros embates entre os índios botocudos e os colonizadores “brancos” (uso aspas aqui por que, além de brancos europeus, esse grupo incluía os pretos escravizados trazidos da África e os indígenas aculturados) remetem às tentativas de formação das Capitânias de Ilhéus e de Porto Seguro, no Sul da Bahia, em meados do século XVI. Os índios atacavam os vilarejos, igrejas e engenhos, matando colonos e incendiando as construções. Esses projetos coloniais foram abandonados pelos Donatários. 

Nasceu aqui o estigma do selvagem violento, primitivo e sanguinário, que além matar, desmembrava e comia suas vítimas em rituais antropofágicos. Essa imagem veio ao encontro de “estudos científicos” de vários filósofos europeus há época, que buscavam encontrar o limite entre os macacos e os humanos. Em fins do século XVIII, Cornelius de Pauw, um filósofo e geógrafo holandês, associou o canibalismo de indígenas americanos como os botucudos a um “fenômeno gerado pela fome e miséria de seres de natureza aviltada e degradada, mais próximos das feras que do homem.” 

Há mesma época, o antropólogo, naturalista e fisiologista alemão Johann Friedrich Blumenbach analisou o antigo crânio de um botocudo, que havia sido levado para a Europa por uma expedição científica anos antes, e afirmou se tratar de uma espécie de “elo perdido” entre os orangotangos e os seres humanos. Essas “supostas” características animalescas dos botocudos foram usadas, durante muito tempo, como uma espécie de justificativa moral para o seu extermínio pelos colonizadores “brancos”. 

Aqui é importante lembrar que o imaginário do europeu há época já estava repleto de imagens sobre os índios canibais das Américas. Cito o caso de Hans Staden, um aventureiro e mercenário alemão do século XVI, que acabou prisioneiro dos índios tupinambás por nove meses, quando presenciou diversos “banquetes” antropofágicos. Ao retornar à Alemanha, Staden publicou em 1557 um livro relatando as suas “aventuras” entre os índios – História Verdadeira e Descrição de uma Terra de Selvagens, Nus e Cruéis Comedores de Seres Humanos, Situada no Novo Mundo da América, Desconhecida antes e depois de Jesus Cristo nas Terras de Hessen até os Dois Últimos Anos, Visto que Hans Staden, de Homberg, em Hessen, a Conheceu por Experiência Própria e agora a Traz a Público com essa Impressão. Apesar do título gigantesco, a obra foi um grande sucesso de venda.

A matança dos botocudos ganharia caráter oficial em 1808, quando uma das primeiras Cartas Régias editadas por Dom João VI logo após chegar ao Brasil estabelecia o “estado de guerra” contra esses índios. O governante, que provavelmente já conhecia muitas histórias sobre o canibalismo desses índios, ouviu inúmeras queixas de moradores de localidades ao longo do rio Doce. As descrições falavam dos horrores dos ataques, “ora assassinando os Portugueses, e os índios mansos por meios de feridas, de que sorvem depois o sangue, ora dilacerando os corpos e comendo os seus tristes restos“. 

Além de autorizar explicitamente o genocídio desses índios pelas tropas militares, a Carta Régia estabelecia bonificações aos comandantes das guarnições, que receberiam soldos extras em função da quantidade de índios mortos e/ou capturados. Como uma consequência direta dessa “legislação” Imperial, surgiu a figura do bugreiro, profissional da “iniciativa privada” que recebia um pagamento para cada índio abatido. A comprovação do trabalho executado poderia ser feita, por exemplo, mediante a apresentação das sui generis orelhas (conservadas em sal) dos botocudos mortos. 

As primeiras descrições científicas do rio Mucuri por naturalistas europeus começaram a ser feitas em 1815. O primeiro deles foi Maximilian Alexander Philipp zu Wied-Neuwied, um príncipe alemão que passou dois anos no Brasil entre 1815 e 1817. Ele explorou o Vale do rio Doce em 1816 e entrou em matas próximas ao rio Mucuri. Cerca de um ano depois, foi a vez do botânico francês Auguste de Saint-Hilarie explorar as bordas das matas na região das nascentes do rio Mucuri. Nenhum desses dois naturalistas, provavelmente impactados pelas histórias do canibalismo dos botocudos, ousou entrar mais fundo nas matas dessa região. 

Mesmo sem explorar o território desses índios, Saint-Hilarie deixou extensos relatos sobre os botocudos. Eles foram descritos como “nus, desfigurados, lambuzados de tintas, cílios arrancados, o lábio inferior tal qual uma pequena mesa de três polegadas de diâmetro, orelhas horrendas”. Segundo seus relatos, sabemos que os botocudos viviam em aldeias com população entre 50 e 100 indivíduos. As diferentes tribos falavam a mesma língua, sem constituir uma unidade política. Saint-Hilarie ainda ressalta o aspecto bárbaro da linguagem dos índios: devido ao uso do adereço de madeira no lábio inferior, a fala era áspera, com muitos tons nasais e guturais, produzindo “estrondos de voz que surpreendem quando a eles não se está acostumado“. 

O médico e explorador alemão Robert Christian Barthold Avé-Lallemant, que realizou diversas expedições pelo interior do Brasil com apoio direto do Imperador Dom Pedro II, foi ainda mais longe na descrição dos botocudos. Segundo ele, esses índios eram “simples barrigas, gente cujo organismo, cuja estrutura existe apenas em função do ventre“. Por fim, Avé-Lallemant afirmou estar “chocado com a brilhante descoberta da existência de macacos de duas mãos”. 

Finalizando esse conjunto de registros “científicos” sobre os botucudos, temos o relato de Georg Wilhelm Freyreiss,  um naturalista alemão que acompanhou o Príncipe Maximilian em sua expedição através do rio Doce. Segundo Freyreiss, “o rude selvagem botocudo, habitante aborígene destas paragens, é mais formidável que todas as feras e o terror destas matas impenetráveis“. Em sua opinião, os botocudos, com seu aspecto monstruoso e repugnante, estariam “no limite do humano”. 

A história ambiental do rio Mucuri começaria a mudar em 1847, quando foi criada a Companhia de Navegação e Comércio do Mucuri. Essa empresa passaria a explorar as rotas nos trechos navegáveis do rio e construiria estradas paralelas aos trechos não navegáveis, o que viabilizaria a exploração madeireira e a colonização da região. À frente dessa empresa estava Teófilo Ottoni. 

Trataremos disso na próxima postagem. 

OS MUITOS MALES QUE RECAEM SOBRE O RIO SÃO MATEUS (OU CRICARÉ) NO NORTE DO ESPÍRITO SANTO

Pero de Magalhães Gândavo foi um intelectual de destaque há sua época. Era professor de latim e de português no Norte de Portugal e depois trabalhou como secretário na Torre do Tombo, o Arquivo Geral do Reino de Portugal. Entre cerca de 1558 e 1572 esteve no Brasil, onde trabalhou na Secretaria da Fazenda do Governo Geral da Capitânia em Salvador. 

Em 1576, já tendo retornado para Portugal, Gândavo publicou um dos primeiros relatos detalhados sobre o Brasil – A História da Província de Santa Cruz, a que vulgarmente chamamos Brasil. Esse texto, que você poderá achar facilmente na internet, é uma fonte preciosa de informações sobre os primeiros tempos da colonização do nosso país. Ali existem informações sobre os engenhos de açúcar e as plantações de cana, os primeiros colonos, os indígenas e também sobre a terra. 

Um registro importante sobre a então Capitânia do Espírito Santo informava que possuía “um engenho, tira-se dele o melhor açúcar que há em todo o Brasil“. Infelizmente, a Capitânia também tinha uma enorme área do seu território controlada pelos temíveis índios botocudos. Pero Gândavo, é claro, registrou suas impressões sobre esse povo: 

Chamam-se Aymorés, a língua deles é diferente dos outros índios, ninguém os entende, são eles tão altos e tão largos de corpo que quase parecem gigantes; são muito altos, não parecem com outros índios da Terra.” 

Os botocudos ocupavam um extenso território que englobava todo o Sul da Bahia, o Norte do Espírito Santo e uma faixa entre o Nordeste e o Leste de Minas Gerais. As Capitânias de Ilhéus e de Porto Seguro na Bahia não conseguiram prosperar devido aos furiosos ataques desses índios e foram abandonadas. No Espírito Santo, os ataques foram concentrados na Vila do Espírito Santo, um assentamento criado em 1535. Depois de anos sob ataque dos índios, os colonos mudaram para a Ilha de Santo Antônio, onde fundaram a Vila Nova do Espírito Santo, atual cidade de Vitória. O antigo assentamento passou a ser conhecido como Vila Velha. 

Entre os inúmeros embates entre colonizadores e indígenas no Espírito Santo destaca-se um grande cerco à Ilha de Santo Antônio por diversas tribos em 1557. Em socorro aos locais, o Governador Geral, Mem de Sá, enviou uma grande esquadra com forças militares sob o comando de seu filho, Fernão de Sá. Após derrotar esses indígenas, a esquadra seguiu para o Norte da Capitânia, onde o grosso das forças dos indígenas estava concentrada numa aldeia fortificada às margens do rio Cricaré, conhecido atualmente como rio São Mateus, e em meio a densa floresta da Mata Atlântica

As naus da esquadra entraram pela foz do rio e bombardearam a aldeia com seus canhões. No dia 22 de maio de 1558, após uma sangrenta batalha com pesadas baixas lusitanas e onde o próprio comandante Fernão de Sá foi morto, as forças portuguesas conseguiram vencer. Como lembrança desse grande feito, a Vila Nova do Espírito Santo passaria a ser conhecida como Vitória. Muitos outros embates com esses indígenas ainda se desenrolariam ao longo dos séculos seguintes. 

Os últimos focos de resistência dos botocudos seriam “pacificados” no final do século XIX. A densa vegetação de Mata Atlântica do Norte do Espírito Santo ainda resistiria até meados do século XX, quando foi transformada em fonte de madeira para a construção da cidade de Brasília. Já o caudaloso e imponente rio São Mateus de outrora, que permitia inclusive a entrada de grandes naus no seu baixo curso, hoje é uma pálida sombra do passado e sofre com a poluição, com o forte assoreamento e com a redução dos seus caudais. 

As nascentes do rio São Mateus ficam dentro dos domínios do Semiárido do Norte de Minas Gerais, mais precisamente no município de São Félix de Minas. De lá, o rio faz um percurso bastante sinuoso com aproximadamente 180 km até se encontrar com seu maior afluente, o rio Mariricu, já bem próximo de sua foz no Oceano Atlântico no Norte do Espírito Santo. O nome indígena do rio – cricaré, significa “preguiçoso” e ainda é muito utilizado pelas populações locais. 

Assim como aconteceu com outros rios da região do Semiárido Mineiro, como foi o caso do rio Jequitinhonha, o trecho inicial do rio São Mateus sofreu intensamente com os desmatamentos e a queima de vegetação para a formação de áreas de pastagens para a criação do gado e de campos agrícolas. Esse processo de ocupação territorial, chamado comumente de “colonização baiana”, foi bastante intenso entre as décadas de 1890 e 1930, resultando em enormes danos ambientais aos trechos locais dos biomas Caatinga e Mata Atlântica, e, consequentemente, aos corpos d’água da região. 

Os graves problemas na região das nascentes do rio São Mateus foram ampliados com o processo de devastação das áreas de Mata Atlântica no seu médio e baixo curso. Inúmeras pequenas nascentes e riachos que contribuíam para a formação dos caudais do rio foram desaparecendo junto com as matas. O golpe final veio com a substituição das florestas por áreas de pastagens e por campos agrícolas. A calha do rio São Mateus passou a sofrer intensamente com o carreamento de grandes volumes de sedimentos gerados por processos de erosão de solos agrícolas. O crescimento das cidades resultou no despejo de grandes volumes de esgotos in natura.

A situação do rio São Mateus e das populações que dependem das suas águas para o abastecimento é desesperadora, principalmente nos períodos da seca, quando os caudais diminuem dramaticamente. Com a redução da correnteza do rio, as águas do Oceano Atlântico invadem a calha do rio, transformando grande parte do seu baixo curso num rio de águas salobras. A cidade de São Mateus, que tem aproximadamente 130 mil habitantes e que capta águas do rio para o seu abastecimento, é uma das que mais sofrem com o problema

Essa intrusão de água do mar na calha de um rio, também conhecida como “língua salina”, é um problema que está afetando a região de foz de muitos rios brasileiros a exemplo do rio São Francisco. Além de comprometer a qualidade das águas dos rios, essa salinidade também pode infiltrar nos solos e atingir as reservas subterrâneas de água, um temor que assombra a população de São Mateus. 

Depois de sucessivas secas e dificuldades para o abastecimento da população, o SAAE – Serviço Autônomo de Águas e Esgotos, do município de São Mateus passou a perfurar poços artesianos para garantir a captação das águas usadas no abastecimento da população. Nesses últimos meses, o SAAE tem captado águas exclusivamente nesses poços e a população está reclamando muito da pouca quantidade e da baixa qualidade da água servida, que está muito barrenta. 

Devido à redução da vazão por causa da forte seca em suas nascentes, o nível de salinidade no baixo curso do rio São Mateus atingiu a impressionante marca de 600 ppm (partes por milhão) – o nível máximo recomendado pela OMS – Organização Mundial da Saúde, é de 250 ppm. Em muitos bairros da cidade, o abastecimento da população está sendo feito com caminhões-pipa. 

A recente campanha eleitoral que elegeu o novo prefeito da cidade foi marcada por inúmeras promessas de solução definitiva desse grave problema. Terminado o pleito, o agora prefeito reeleito terá a dura missão de transformar as promessas de campanha em uma realidade, algo que não será nada fácil. A pressão popular será enorme. 

Desgraçadamente, esse é um drama mundial que só tende a piorar ao longo dos próximos anos. Devido aos efeitos do aquecimento global e das mudanças climáticas, o nível dos oceanos tende a aumentar gradativamente. Falamos aqui de alguns poucos centímetros nas próximas décadas, mas para rios que já sofrem com o avanço das águas do mar, como é o caso do rio São Mateus, isso é muito mais problemático. 

Entre as medidas que poderão ser tomadas para ajudar a resolver parte desse problema, podemos citar o reflorestamento e a recuperação de áreas de nascentes. Essas medidas, que só terão efetividade a médio e longo prazo, permitirão que as águas das chuvas infiltrem com mais facilidade nos solos, recarregando os lençóis subterrâneos de água e os aquíferos, aumentando assim os volumes de água que brotam nas nascentes e alimentam o rio. 

Também será preciso gerir melhor os campos agrícolas e as áreas de pastagem, eliminando processos erosivos – a recuperação das matas ciliares é uma ótima alternativa. Por fim e não menos importante, os investimentos em saneamento básico e tratamento dos esgotos das cidades não poderão ficar de fora. 

Se nada disso for feito, é melhor as populações de São Mateus e de outras cidades da região irem logo se acostumando a tomar “café salgado” – o que já está mal poderá ficar ainda pior. 

SURUBIM DO RIO JEQUITINHONHA: UMA ESPÉCIE CRITICAMENTE AMEAÇADA

Ictiofauna, em ecologia e em ciências da pesca, é o conjunto de espécies de peixes, dos menores aos maiores, que existem numa determinada região biogeográfica. Falamos aqui de um trecho de um mar, de um lago ou de um rio ou trecho de rio. A análise dos dados populacionais e a distribuição dessas espécies são ótimos bioindicadores da qualidade ambiental das águas. 

O surubim do Jequitinhonha (Steindachneridion amblyurum) é uma das maiores e mais emblemáticas espécies de peixe da bacia hidrográfica do rio e uma das mais ameaçadas. A carne do peixe é muito saborosa e apreciada pelas populações ribeirinhas, qualidades que transformaram a espécie numa das mais valorizadas para os pescadores. Muitas comunidades ribeirinhas viveram por muito tempo da pesca do surubim.

Porém, está ficando cada vez mais difícil encontrar um exemplar do peixe nas águas do rio. A superexploração da espécie e a degradação das águas estão na raiz do desaparecimento do surubim do Jequitinhonha – o mesmo problema vivido pelos famosos surubins do rio São Francisco, e também de outras espécies do rio. 

A foto que ilustra essa postagem veio do Programa Peixe Vivo da CEMIG – Companhia Energética de Minas Gerais, uma das muitas iniciativas para a recuperação da ictiofauna do rio Jequitinhonha e dos seus afluentes. E um detalhe: o surubim fotografado é bem jovem e ainda vai crescer bastante.

As primeiras observações científicas registradas sobre a ictiofauna do rio Jequitinhonha e dos seus afluentes foram feitas por Johann Baptist Emanuel Pohl, mineralogista e botânico austríaco, e pelo botânico francês Augustin François César Prouvençal de Saint-Hilaire

Pohl chegou ao Brasil em 1817 junto com a Missão Austríaca ao Brasil, mas acabou se desligando do grupo e fez uma expedição de quatro anos por conta própria pelas províncias do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Goiás. Saint-Hilarie participou de diversas expedições científicas no Brasil Colônia entre 1816 e 1822. 

Entre as principais observações desses cientistas destaca-se o uso generalizado e abusivo do pãri, uma técnica de pesca usada por povos de todo o mundo e conhecida pelos indígenas de todas as Américas. Paredes de pedra são construídas em trechos do rio de modo a afunilar as águas – os peixes acabam sendo conduzidos para armadilhas feitas com madeiras ou taquaras.

Essa técnica tem o inconveniente de capturar os peixes sem qualquer critério de tamanho ou espécie, destacando-se aqui as fêmeas em período de desova e reprodução. Saint-Hilarie já previa que o uso constante do pãri seria fatal para o futuro de muitas espécies de peixes do rio Jequitinhonha: 

este gênero de armadilha (…) certamente seria proibido em um país em que fosse possível exercer alguma fiscalização.” 

José de Cortés Duarte, um escritor pernambucano que viveu por muitos anos em Minas Gerais e que nos legou diversos livros com narrativas regionais, observou em 1920 a já desastrosa situação da ictiofauna do rio Jequitinhonha: 

“Na pesca, o crime [de destruição da natureza] ainda foi maior, a imprevidência mais revoltante: matando surubins na desova, deixando mais da metade da pescaria desumana aos urubus – por falta de sal, como se desculpavam – os pescadores do Jequitinhonha conseguiram, em quarenta anos, extinguir a espécie, revelando-se mais bárbaros, imprevidentes e muito mais perniciosos aos vindouros do que os selvagens que limitam suas pescarias às próprias necessidades.” 

Passados mais de 200 anos desde as primeiras observações registradas por Pohl e Saint-Hilarie, ainda existem inúmeras dúvidas e falta de conhecimentos sobre a ictiofauna do rio Jequitinhonha, a começar pela quantidade de espécies. Existem três listas de espécies da bacia hidrográfica: a primeira, feita em 1999, encontrou 42 espécies, sendo que 14 ainda não haviam sido descritas.  

Em 2005, um outro estudo encontrou 50 espécies, sendo que 5 ainda não estavam descritas. A lista mais atualizada possui 53 espécies, sendo que 11 espécies, como o robalo e o xaréu, são marinhas e migram para o rio Jequitinhonha em algumas épocas do ano em busca de alimentos. Além do surubim do Jequinhonha, merecem destaque a piaba (Nematocharax venustus), o bagre (Rhandia jequitinhonha) e a piabanha (Brycon devillei) – todas ameaçadas de extinção.  

Com relação a essa última espécie, existem dúvidas quanto a sua relação com a piabanha do rio Paraíba do Sul (Brycon insignis) – é possível, inclusive, que seja uma população isolada da mesma espécie de peixe. Isso ilustra a quantidade de dúvidas que ainda pairam sobre a ictiofauna do rio Jequitinhonha e dos seus afluentes. 

Considerando-se o tamanho do rio Jequitinhonha, que têm mais de 1 mil km de extensão e tem uma bacia hidrográfica que abrange uma área de mais de 70 mil km², esse número total de espécies é muito baixo. Um exemplo é o vizinho rio Mucuri, que nasce no Nordeste de Minas Gerais e deságua no Sul da Bahia, que tem apenas 321 km de extensão e apresenta uma quantidade maior de espécies que o rio Jequitinhonha.  

De acordo com as projeções feitas por pesquisadores, onde são comparadas as populações de diversos rios da América do Sul, o rio Jequitinhonha deveria apresentar, pelo menos, 80 espécies endêmicas. Essa projeção levanta duas questões: ou existem 30 espécies de peixes ainda a serem descobertas no rio ou essas espécies já foram extintas por ações humanas

Os estudos sobre a ictiofauna do rio Jequitinhonha ganharam um forte impulso com a construção de barragens para duas usinas hidrelétricas na calha do rio: em 1999 foi concluída a barragem da Usina Hidrelétrica de Itapebi na Bahia e em 2002, a barragem da Usina Hidrelétrica de Irapé, também conhecida como Presidente Juscelino Kubitschek, nos municípios de Grão Mogol e Berilo, em Minas Gerais.

Esses estudos formaram parte importante dos processos de licenciamento ambiental dessas obras. Além de identificar e descrever novas espécies de peixes nativos da bacia hidrográfica, os estudos identificaram 10 espécies invasoras com origens diferentes. No médio rio Jequitinhonha, foram encontradas a pioa (Prochilodus costatus), o trairão (Hoplias lacerdae) e a tilápia (Tilapia sp.).

Além dessas espécies, também foram encontradas no baixo Jequitinhonha uma outra espécie de tilápia (Oreochromis niloticus), o barrigudinho (Poecilia reticulata) e o apaiari (Astronotus ocellatus). Em outros trechos do rio foram encontradas a carpa (Hypophthalmichthys molitrix) e o surubim “ponto e vírgula” (híbrido de Pseudoplatystoma corruscans e Pseudoplatystoma fasciatum).  

Na região da barragem da Hidrelétrica de Irapé foi registrada a pirambeba (Serrasalmus sp.) e o bagre africano (Clarias gariepinus). Em 2002, técnicos da FADETEC – Fundação de Apoio Tecnológico da Escola Agro Técnica Federal de Salinas, encontraram tucunarés (Cichla sp.) numa barragem no rio Salinas. É apenas uma questão de tempo para a fuga e disseminação dessa espécie por toda a calha do rio Jequitinhonha. 

Essas espécies exóticas podem ter chegado à bacia hidrográfica do rio Jequitinhonha a partir da fuga de tanques de criadores e dos chamados pesque-e-pague, por meio de descartes de aquaristas ou ainda podem ter sido introduzidas propositalmente por pescadores. A introdução de espécies exóticas, tanto animais quanto vegetais, pode levar espécies nativas de um bioma à extinção.

Um caso muito conhecido foi a introdução de peixes-mosquito (Gambusia affinis) em rios da Austrália para o controle de populações de mosquitos. Além de comer as pupas dos mosquitos, os peixes também comiam as ovas de peixes nativos, o que colocou inúmeras espécies em risco de extinção. Outro caso que está tendo grande repercussão atualmente é a invasão das carpas asiáticas (Cyprinus carpio) em rios dos Estados Unidos. Aqui no Brasil um grande exemplo é o mexilhão-dourado (Limnoperna fortunei), que está tomando conta das nossas bacias hidrográficas.

Além de todos os problemas criados pela falta de conhecimento e pela introdução de espécies exóticas, a ictiofauna do rio Jequitinhonha também vem sofrendo sérias ameaças pela degradação ambiental da bacia hidrográfica. São desmatamentos, uso inadequado de solos pela agricultura e carreamento de sedimentos por processos erosivos, redução dos caudais, poluição por lançamentos de esgotos e descartes de resíduos sólidos urbanos, carreamentos de resíduos de fertilizantes e pesticidas, construção de barragens, entre outros. 

Recentemente, veterinários da Universidade Federal de Minas Gerais atribuíram a ocorrência de lesões encontradas em peixes capturados no rio Jequitinhonha à má qualidade da água em diversos trechos do rio. Esse problema, que preocupa muitas comunidades ribeirinhas e pescadores profissionais, está ligado ao excesso de matéria orgânica (entenda-se aqui esgotos), a redução do oxigênio dissolvido e a amplitude térmica da água. Estressados, os peixes se ferem em pedras, madeiras e raízes submersas de vegetação, apresentando lesões e feridas por todo o corpo, além de amputação de partes das nadadeiras. 

Parafraseando um antigo ditado popular, o “rio Jequitinhonha não está para os peixes” – nem para as espécies já conhecidas, nem para aquelas ainda a serem descobertas. Sinal que a saúde do rio vai muito mal.