A INVASÃO DO MEXILHÃO DOURADO

Mexilhã-dourado

As comunidades aquáticas dos nossos rios – peixes, crustáceos, vermes, anfíbios, répteis, mamíferos e aves aquáticas, além de plantas de inúmeras espécies, vem sofrendo agressões ambientais por todos os lados. São problemas ligados ao despejo de esgotos domésticos e industriais, ao lançamento de lixo e todos os tipos de resíduos, aos desmatamentos de matas ciliares e fragmentos florestais, com o açoreamento e entulhamento dos canais, com a contaminação por resíduos de agrotóxicos e fertilizantes, por causa da mineração, entre muitas outras agressões. Existe uma outra “linha de frente” dessas agressões que acaba não sendo muito comentada – a invasão dos ecossistemas locais por espécies exóticas. A invasão de muitos dos nossos rios pelo mexilhão-dourado é, atualmente, a principal ameaça “externa” enfrentada pelos nossos rios, lagos e represas. 

O mexilhão-dourado (Limnoperna fortunei) é um molusco bivalve de água doce nativo de regiões da China e do Sudeste Asiático. Esse molusco pertence à família Mytilidae, que é a mesma família dos mexilhões marinhos. Sua concha tem o formato de uma gota, sendo formada por duas laterais chamadas de valves (por isso a denominação bivalve). No ápice dessa concha existem filamentos proteicos (bissos), que permitem ao mexilhão-dourado se alojar sobre os mais diferentes tipos de superfícies como rochas, madeiras, caules de plantas aquáticas, placas de aço de embarcações, carapaças de animais, entre outras superfícies. 

A concha do mexilhão-dourado mede cerca de 4,5 cm de comprimento e possui, normalmente, uma coloração amarelo-dourada. A espécie é classificada como um animal filtrador, se alimentando de plâncton (plantas e animais microscópicos que vivem nas águas) – cada molusco filtra até 350 ml de água a cada hora. As colônias de mexilhões-dourados chegam a concentrar 120 mil animais por metro quadrado, sendo 2/3 dessa população constituída por fêmeas e 1/3 por machos, que em regiões quentes se reproduzem continuamente. Os moluscos atingem a maturidade sexual quando atingem um tamanho a partir de 5,5 mm e liberam seus gametas diretamente na água, onde é feita a fertilização. As larvas (veliger) são levadas pela correnteza ou por vetores até locais mais distantes, onde formarão novas colônias

Dentro do seu ambiente original, onde se encontram grandes bacias hidrográficas como a do rio Mekong, o mexilhão-dourado possui uma série de predadores naturais, que mantém sua população em constante equilíbrio. O problema da espécie em outros ecossistemas pelo mundo afora começou quando larvas do molusco pegaram carona na água de lastro usada por navios cargueiros de passagem pelo Sudeste Asiático e pela China. Esses navios possuem uma série de tanques ao longo de sua estrutura, os chamados tanques de lastro, que são usados para equilibrar as cargas, que apresentam variações de peso ao longo da embarcação. Esse equilíbrio é feito através do enchimento desses tanques com água do mar ou de rios. O grande problema ambiental criado por esses procedimentos é que espécies aquáticas da região acabam sendo sugadas junto com a água e assim são transportadas para regiões diferentes ao redor do mundo. 

Quando esses cargueiros chegam aos portos de destino, que normalmente têm uma profundidade muito limitada, eles descarregam essa água de lastro, liberando assim espécies animais exóticas em novos ambientes. E foi justamente isso o que aconteceu com o mexilhão-dourado, que foi detectado pela primeira vez na América do Sul em 1991, na Praia de Bagliardi, localizada no rio da Prata na Argentina. Durante vários anos, o molusco ficou restrito na região do estuário do rio da Prata e parecia que não criaria maiores problemas ambientais. A partir de 1995, o molusco começou a migrar rapidamente para o Norte, atingindo as bacias hidrográficas dos rios Paraná e Paraguai. 

As primeiras notícias da invasão do mexilhão-dourado em águas de rios brasileiros datam de 1998, quando colônias da espécie foram identificadas, quase que simultaneamente, no rio Paraná em Mato Grosso do Sul, e na região do Complexo Lagunar Guaíba/Lagoa dos Patos. Estudos científicos sugerem que, a partir de 1995, a espécie atingiu uma velocidade de expansão de cerca de 240 km a cada ano. O principal vetor desse preocupante avanço do mexilhão-dourado são as embarcações de transporte de cargas usadas na hidrovia Paraná-Paraguai, além de navios de cabotagem que realizam o transporte de cargas entre o Sul do Brasil e os portos de Montevideo, no Uruguai, e Buenos Aires, na Argentina, ambos localizados no rio da Prata. 

Atualmente, há registros de colônias de mexilhão-dourado nas Regiões Sul, Centro-Oeste e parte do Sudeste. Os limites mais ao Norte dessa invasão da espécie exótica estão hoje na região de Cáceres, no Pantanal do Mato Grosso, e no sul do Estado de Minas Gerais. Além dessas regiões, já foram identificados três focos na bacia hidrográfica do rio São Francisco, na região do Lago de Sobradinho, onde se supõe que larvas do mexilhão-dourado chegaram junto com alevinos de peixes destinados a projetos de piscicultura e, muito provavelmente, com origem na bacia hidrográfica do rio Paraná. É apenas uma questão de tempo até que o mexilhão-dourado invada a Bacia Amazônica e se espalhe por toda a Região Norte do Brasil e países vizinhos. 

A velocidade e a facilidade dessa expansão da espécie em uma extensa região da América do Sul têm uma resposta biológica bem simples – o mexilhão-dourado praticamente não possui predadores naturais no continente. Espécimes do molusco grudam no casco das embarcações e assim são transportados a longas distâncias. A correnteza dos rios, por sua vez, transporta as larvas para os rincões e meandros mais distantes dos rios, formando assim novas colônias. Sem preocupações com predadores naturais, a população da espécie cresce sem qualquer controle, se apropriando dos recursos naturais que seriam consumidos por outras espécies nativas dos habitats. 

Um exemplo dos prejuízos causados pelo mexilhão-dourado pode ser visto nas inúmeras usinas hidrelétricas instaladas nas calhas dos rios infestados pela espécie. Os moluscos invadem as tubulações, formando colônias nas paredes internas e tubulações, prejudicando assim o funcionamento de diversos sistemas. Essas colônias também se formam nas pás dos rotores dos geradores, implicando na paralização frequente das operações de geração de energia elétrica para limpeza das peças, o que é feito com fortes jatos de areia. Estudos feitos por técnicos da Usina Hidrelétrica de Itaipu identificaram uma incrível densidade de mais de 140 mil mexilhões-dourados por metro quadrado em algumas unidades do empreendimento

Na biota das águas, os impactos provocados pela espécie invasora são ainda maiores. Na região do Complexo Lagunar Guaíba/Lagoa dos Patos, os mexilhões-dourados estão destruindo grandes extensões de juncais e de plantas aquáticas, prejudicando assim inúmeras espécies de peixes, crustáceos e aves que usam esses locais para reprodução. Os mexilhões-dourados se prendem ao caule das plantas, que acabam enfraquecendo e se partem com a força dos ventos. Essas vegetações tem um papel similar ao dos manguezais, abrigando larvas de crustáceos e alevinos de peixes, que encontram ali proteção contra os seus predadores. Sem a proteção dessas áreas, várias espécies do Complexo Lagunar estão assistindo uma forte redução das suas populações. 

Os juncais também são usados por diversas espécies de aves, algumas migratórias, para nidificar. Longe das margens, aves e ovos estão relativamente bem protegidas de uma série de predadores terrestres. A proximidade das águas também garantia um fácil acesso aos estoques de alimentos. Com a destruição dessa vegetação, estas aves também tem sua sobrevivência ameaçada. 

E tudo isso é apenas o começo – ainda não se completaram 30 anos da chegada do mexilhão-dourado na América do Sul e ninguém sabe ainda o que o futuro nos reserva. 

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