O DRAMÁTICO CICLO DA EXPLORAÇÃO DO OURO NAS MINAS GERAES

Na última postagem apresentamos um breve resumo de como foram os tempos da “febre do ouro” ao longo de todo o século XVIII e das suas graves consequências ao meio ambiente. O chamado “Ciclo do Ouro” marcou o início da decadência da indústria açucareira e teve como uma das suas mais dramáticas consequências uma migração maciça de habitantes da faixa litorânea na direção dos sertões. 

Uma das principais características das regiões de mineração nas Geraes era a mais completa falta de infraestrutura. Eram áreas desertas que não dispunham de vilas ou propriedades rurais que vendessem ou produzissem alimentos e itens básicos como sal, ferramentas, roupas, calçados e pólvora, entre outros. Obcecados com as riquezas minerais, a grande maioria desses aventureiros não tinha tempo a perder com a abertura de clareiras na mata para a criação de roçados e produção de alimentos básicos. A região passou a depender da “importação” de alimentos e de todos os tipos de produtos. 

Os altos custos para aquisição de alimentos, o gênero da mais prioritária necessidade para o ser humano, e nenhum interesse para a produção local, levou a uma consequência óbvia: a fome. Vejam esse comentário de Josué de Castro, autor do antológico livro Geografia da Fome

“Morria-se de inanição ao lado de montes de ouro pelo abandono da cultura e da criação”. 

Os chamados “paulistas”, que viram a indústria açucareira fracassar nas Capitanias de São Vicente e de Santo Amaro, enxergaram na situação caótica das populações que estavam vivendo nas áreas de mineração uma ótima oportunidade para “fazer negócios”. Os paulistas acabaram por se especializar na produção e “exportação” de alimentos e outros produtos para as populações das Geraes, cobrando altos preços por esses serviços.  

Alguns exemplos das margens de lucro obtidas com a venda de alimentos: um alqueire de farinha de mandioca (cerca de 13 litros), que em São Paulo custava 600 réis, era vendido nas minas por módicos 43 mil réis. A libra de açúcar saltava dos 120 para 1,2 mil réis. Uma arroba de carne salgada, que custava 200 réis, era revendida por mais de 6 mil réis. Uma caixa da “famosa” marmelada paulista, que em Piratininga podia ser comprada por 240 réis, nas Geraes não saía por menos de 3,6 mil réis.  

A mineração de ouro na região nas Geraes também provocou um processo de super valorização da mão de obra africana, essencial para os pesados trabalhos nas cavas e nas demais atividades ligadas à mineração. Vejam essa citação de Afonso D’Escrangnolle de Taunay em sua obra História da Cidade de São Paulo

“Um negro que conhecia o ofício da mineração chegava a valer 250$000 réis; pretinhos de 10 meses 8$000 réis; aos 2 anos 30$000 réis; uma negra ladina cozinheira 500$000 réis e uma mulata ‘de partes’ 900$000 réis.” 

Uma segunda importante frente de fornecimento de alimentos para a região das Geraes eram os sertões do Semiárido Nordestino, que há muito passaram a abrigar as boiadas expulsas do litoral açucareiro. Acompanhando o curso do rio São Francisco, os criadores de gado conduziam suas boiadas na direção dos sertões das Minas Geares e as vendiam com grandes margens de lucro. Um boi de corte que podia ser comprado por 2 mil réis nas cidades do litoral do Nordeste chegava a ser vendido por 120 mil réis nas Geraes

Além dos altíssimos gastos com a compra de alimentos e outros produtos, os mineradores eram obrigados a pagar um imposto – o “quinto” ou 20% do ouro extraído, aos cofres da Coroa de Portugal. O Governo Colonial montou uma grande estrutura burocrática na Região das Geraes para fiscalizar e acompanhar todas as operações de lavra e fundição do ouro. O Governo de Portugal estabelecia um volume de ouro que precisava ser arrecadado a cada ano – em 1750, citando um exemplo, o Marquês de Pombal – Sebastião José de Carvalho e Melo, secretário de Estado do Reino de Portugal durante o reinado de Dom José I, estabeleceu a quota mínima anual de 150 arrobas ou 1.500 kg de ouro

Quando essa cota não era atingida, as Autoridades realizavam a “derrama” – um cobrança compulsória de impostos extras para se atingir a cota de arrecadação anual. Essas “derramas” eram uma fonte contínua de protestos entre os mineradores. O Governo Colonial também cobrava impostos sobre alimentos e produtos, na compra e venda de escravos, além de taxas sobre a prestação de serviços por mão de obra livre, entre outras – nada muito diferente da pesadíssima carga tributária atual do Brasil

A “carestia dos alimentos” e os pesados impostos daqueles tempos se abateu sobre a imensa maioria dos aventureiros que se arriscou nas atividades mineradoras. Essa gente trabalhou e sofreu muito para obter algum ouro, mas não conseguiu juntar praticamente nenhum patrimônio – muitos, inclusive, morreram na mais completa miséria. Foram muito poucos os que conseguiram fazer fortuna. 

Para a Coroa de Portugal, os constantes fluxos de cargas de ouro vindos de sua grande Colônia Sul-americana garantiram um longo período de prosperidade econômica. Outra nação que se beneficiou muito do ouro brasileiro foi a Inglaterra, que recebeu grandes volumes do metal a partir de suas transações comerciais com Portugal. Segundo alguns historiadores, foram essas reservas de ouro que ajudaram a financiar as empresas e indústrias na Revolução Industrial inglesa que teve início em meados do século XVIII

A exploração do ouro também marcará o início da decadência da indústria açucareira, que entrou em queda livre em meados do século XVIII, tanto pela fuga de capitais e homens em direção aos sertões do Brasil na busca do ouro quanto pela concorrência dos engenhos de açúcar holandeses, franceses e ingleses na região do Caribe. O golpe final nesta indústria virá com a transferência da capital da Colônia da cidade de Salvador para o Rio de Janeiro em 1763 – os caminhos para a produção e o escoamento do ouro eram mais fáceis a partir das terras fluminenses. 

É interessante como a história repete de tempos em tempos os mesmos eventos: na década de 1980 houve uma corrida do ouro dos tempos modernos em Serra Pelada, no estado do Pará, que rapidamente se transformou no maior garimpo a céu aberto do mundo. Oficialmente, foram retiradas 30 toneladas de ouro, num trabalho que chegou a mobilizar 30.000 garimpeiros.

A grande quantidade de ouro encontrado no local transformou o metal em moeda corrente: tudo era pago em ouro, a preços escorchantes – da cachaça ao almoço, da moradia às prostitutas. Assim como aconteceu no passado, foram muito poucos os que conseguiram ficar milionários com o ouro de Serra Pelada. 

Segundo as estimativas oficiais, as minas de ouro das Geraes produziram perto de mil toneladas de ouro ao longo de todo o século XVIII. Esses volumes, entretanto, podem ter sido bem maiores – foram muitos os descaminhos e os desvios de ouro a fim de fugir do pagamento dos pesados impostos ao Fisco da Coroa. Um dos exemplos mais conhecidos foram os “santos do pau oco”, imagens de santos com compartimentos secretos para o transporte de ouro em pó. Nunca saberemos ao certo o volume total de ouro que foi extraído da região. 

Ao final do século XVIII, as inúmeras cidades que surgiram por toda a região das Minas Geraes entraram em um franco processo de decadência. Sem as riquezas geradas pela mineração do ouro, a agricultura e a pecuária, atividades até então desprezadas, passaram a ganhar importância. A mão de obra especializada na mineração e forja do ouro, gradativamente, passaria a se dedicar a outro metal abundante na região – o ferro, matéria prima do aço, o mais importante metal usado pela humanidade.  

Há aqui um detalhe importante – atividades ligadas à siderúrgia precisam de grandes volumes de carvão para alimentar os altos fornos. Sem contar com reservas de carvão mineral, os mineiros se voltariam contra as suas florestas para obter carvão de origem vegetal. E a Mata Atlântica acabou se transformando na maior fornecedora de madeira para as carvoarias… 

Falaremos disso na próxima postagem.

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