O CHOCOLATE QUE COSTUMAVA NASCER EM ÁRVORES

Cacau no Sul da Bahia

Entre muitas outras paixões, o brasileiro adora chocolate.

Estudo realizado em dez grandes cidades brasileiras mostrou que 69% dos entrevistados afirmaram consumir chocolate pelo menos uma vez por semana. O Brasil é atualmente o terceiro maior consumidor de chocolate do mundo, ficando atrás apenas dos Estados Unidos e da Alemanha. O consumo per capita dos brasileiros é de 2,8 kg/ano, valor bem menor do que os 7,5 kg /ano consumido pelos europeus. Vale ressaltar que o consumo do produto aqui no Brasil vem registrando aumentos anuais de 10% em média nos últimos anos. De acordo com as pesquisas, os brasilienses e os recifenses são os maiores chocólatras do Brasil. Muita gente adoraria ter um “pé-de-chocolate” no seu quintal, o que, por mais incrível que pareça para alguns, não está longe da realidade.

O cacaueiro (Theobroma cacao) é uma árvore originária da bacia hidrográfica do rio Amazonas, que produz um fruto chamado cacau – são as castanhas do cacau que dão origem ao nosso chocolate do dia a dia. Foram as grandes civilizações mesoamericanas dos Maias e dos Astecas que desenvolveram as primeiras bebidas preparadas a base do cacau – o kabkajatl. Os conquistadores espanhóis que chegaram ao continente americano a partir do final do século XV e que experimentaram a bebida, tinham muita dificuldade para pronunciar esta palavra nativa, que acabou sendo hispanizada para cacauatl, e por fim acabou resumida a cacau. Levado inicialmente para a Espanha, o cacau passou a ser consumido como uma bebida quente com leite e açúcar; a partir daí, ganhou o mundo com o nome de chocolate.

O cacaueiro se desenvolve sob as copas sombreadas das florestas, onde a árvore pode chegar a uma altura de 20 metros. Em plantações comerciais, onde as árvores recebem podas periódicas, essa altura normalmente fica entre 3 e 5 metros, o que facilita muito a colheita dos frutos. Existem cerca de 60 mil produtores de cacau no Brasil, sendo a região Sul do Estado da Bahia a que concentra o maior número de plantadores. A produção baiana corresponde a 61% da produção brasileira de cacau, seguida pelo Pará, que produz 23% – Roraima, Espírito Santo e Amazonas produzem juntos 15% da produção total do país.

Diferente de outras culturas, o cacau depende da sombra de uma floresta para sobreviver, o que torna o seu cultivo sustentável do ponto de vista ambiental. O sucesso da região Sul da Bahia na produção do cacau se deve à razões históricas importantes: os ferozes índios antropófagos que viviam na região rechaçaram todas as tentativas dos primeiros colonizadores em instalar plantações de cana e engenhos de açúcar; a Mata Atlântica preservada foi fundamental para o início da cultura há mais de 200 anos na região, fornecendo sombra, umidade e proteção contra os ventos. Esse regime de produção em sistema agroflorestal foi fundamental para a conservação de grandes corredores de mata nativa, onde hoje encontramos algumas espécies raras como o jequitibá-rosa (Cariniana legalis), o pau-brasil (Caesalpinea echinata) e a gameleira (Ficus gomelleira), espécies que desapareceram em outras regiões onde a Mata Atlântica foi praticamente dizimada. A existência de uma grande cobertura florestal preservada no Sul da Bahia é uma das grandes responsáveis pelo alto índice pluviométrico da região, cuja média anual até 2014 era de 1570 mm, muito acima da média da região Nordeste.

A forte estiagem que vem assolando grande parte da região Nordeste, infelizmente, vem apresentando reflexos na região Sul da Bahia e causando sucessivas quebras nas safras de cacau desde 2015. A última safra apresentou uma queda de 50% na produção, que atingiu o volume de 120 mil toneladas. Com a baixa produção local, quatro importantes indústrias de chocolate da região se reuniram e importaram, via o porto da cidade de Ilhéus, cerca de 150 mil toneladas de castanhas de cacau produzidas em Gana, país da costa oriental da África. Os países com as maiores produções mundiais de cacau do mundo se encontram hoje na África. Apesar da reconhecida alta qualidade do produto e dos crescentes volumes de produção, as grandes fazendas africanas aparecem de forma recorrente nos noticiários internacionais pelo uso intensivo de mão de obra infantil e escrava – grandes fabricantes europeus, sob forte pressão popular, têm se recusado a comprar matérias-primas produzidas nestes países, com o claro objetivo de forçar a regularização da contratação de trabalhadores dentro das regras trabalhistas internacionais. Quando grandes empresas brasileiras compram cacau destes países, indiretamente podem estar contribuindo com a continuidade do uso desta mão de obra clandestina, o que se mostra como mais um desdobramento lamentável da seca que vem assolando diversas regiões brasileiras.

Os criadores de gado da região também têm enfrentado grandes prejuízos com a estiagem, especialmente nos municípios de Itabuna, Ilhéus, Buerarema, Coaraci, Barro Preto, Canavieiras e Almadina. Com as pastagens reduzidas a uma cobertura de palha seca e com as fontes de água cada vez mais escassas, os animais perdem peso e valor comercial. Os produtores de leite têm enfrentado uma redução de até 60% na produção – uma vaca que produzia, em média, oito litros de leite por dia, raramente tem conseguido produzir 5 litros nos últimos meses. Pequenos produtores de milho da região também vêm sendo fortemente atingidos pela estiagem e perderam a maior parte de suas safras. De acordo com informações Laboratório de Climatologia da UESC – Universidade Estadual de Santa Cruz, a cada 10 ou 12 anos a região costuma enfrentar um período de seca, porém, a intensidade desta seca que vem assolando a região é a mais intensa já observada nos últimos 70 anos e não há consenso científico para explicar as suas causas. De 2015 para cá, o índice pluviométrico da região caiu para a metade da média histórica.

Grandes e pequenas cidades da região como Ilhéus e Itabuna têm enfrentado sérias dificuldades para garantir o abastecimento de suas populações. Com a redução do nível dos principais rios e mananciais, as empresas de saneamento locais têm buscado por fontes alternativas e recorrido à perfuração de poços artesianos para aumentar a produção e o fornecimento de água tratada. Em diversos bairros e comunidades mais distantes das cidades, o abastecimento tem sido feito com caminhões pipa, uma alternativa que, conforme comentamos em postagem anterior, é cheia de problemas. Em diversas localidades abastecidas com estes caminhões, há relatos de moradores que reclamaram da salinidade da água – sempre que um rio com foz no oceano apresenta uma redução na vazão da água, ocorre a chamada intrusão ou língua salina, quando a água do mar consegue avançar continente a dentro e deixa a água salobra; dependendo do local onde é feita a captação da água para o abastecimento da população, água salobra poderá ser captada, especialmente durante a maré alta. Vale lembrar que o tratamento convencional da água em uma ETA – Estação de Tratamento de Água, não consegue retirar os vestígios de sal, o que só é possível com o uso de equipamentos de filtragem especiais conhecidos como dessalinizadores.

A seca, além de todos os problemas e transtornos já conhecidos por todos vocês, tem também o poder de deixar o chocolate nosso de cada dia um pouquinho mais amargo que o normal…

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