A CHAPADA DOS GUIMARÃES

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Localizada nos arredores da cidade de Cuiabá, no Estado do Mato Grosso, a Chapada dos Guimarães está localizada no ponto de junção de três formações geológicas diferentes: a Formação Botucatu que, conforme já comentamos em uma postagem anterior, corresponde aos solos de um antigo deserto; a Formação Furnas, que já foi o fundo de um mar interno e a Formação Ponta Grossa, que está ligada à bacia hidrográfica do rio Paraná e onde predominam solos com rochas argilosas (folhelhos) ricas em fósseis. O bioma predominante na região é o Cerrado, mas também se encontram fragmentos da vegetação do Pantanal Mato-Grossense e da Floresta Amazônica.  

Em alguns trechos da Chapada dos Guimarães encontramos formações com árvores de grande porte, com espécies típicas da Mata Atlântica, bioma cujos limites se encontram a mais de mil quilômetros de distância. Alguns estudiosos sugerem que, em tempos mais antigos e com um clima diferente, a Mata Atlântica poderia ter avançado na direção da formação geológica, tendo retrocedido depois para os limites atuais. A formação da Chapada dos Guimarães começou a cerca de 500 milhões de anos, tempo de sobra para testemunhar as mais diferentes mudanças climáticas regionais e mundiais. 

A localização bastante particular da Chapada dos Guimarães se reflete em uma enorme biodiversidade animal e vegetal. Só de aves existem registros de, pelo menos, 400 espécies dos biomas Cerrado, Pantanal e Amazônico. Essa riqueza de espécies se reflete em mamíferos, répteis, anfíbios, peixes, insetos e também em espécies vegetais. Os recursos hídricos são um destaque da formação, que concentra inúmeras nascentes de rios importantes como o Coxipó-açu, o Manso e o Cuiabá, que estão entre os principais formadores do Pantanal Moto-Grossense. 

A água é um dos elementos de destaque entre as paisagens rochosas da Chapada dos Guimarães. Existem centenas de quedas d’água que brotam, literalmente, das rochas – a Cachoeira Véu de Noiva (vide foto), com cerca de 86 metros de altura, é a mais famosa e é um dos cartões postais da formação. Uma das mais conhecidas rotas turísticas da Chapada dos Guimarães é o Circuito das Cachoeiras, onde se encontram seis quedas d’água: das Andorinhas, da Prainha, do Pulo, dos Degraus, 7 de setembro e da Independência. 

Entre as formações rochosas, um dos destaques é o Morro de São Jerônimo, um enorme chapadão no formato de uma mesa, com altitudes que atingem a casa dos 805 metros em relação ao nível do mar. Consta que o nome do morro foi dado pelos primeiros bandeirantes que visitaram a região a partir de 1719, época das primeiras descobertas de ouro na região de Cuiabá. Consta que esses primeiros explorados rogavam a proteção de São Jerônimo ao se aventurar pelo alto dos penhascos e platôs; batizaram o morro com este nome em homenagem ao seu santo protetor. Outro ponto de visitação obrigatória é a Cidade de Pedra, conjunto de formações rochosas que lembram as ruínas de uma cidade antiga. 

Determinado pela Expedição Rondon no início do século XX, o Marco Geodésico é outro ponto turístico muito visitado. A Chapada dos Guimarães está no centro geodésico da América do Sul, alinhada com as cidades de Brasília e de Porto Seguro, além do Lago Titicaca, na divisa entre a Bolívia e o Peru. Os mais místicos acreditam que, graças a essa localização privilegiada, a Chapada dos Guimarães é um grande “centro de energia”. 

Um passeio que muitos turistas classificam como imperdível é a visita à Caverna Aroe Jari, “a morada dos deuses”, que fica a cerca de 45 km da Chapada dos Guimarães, dentro de uma propriedade particular. Trata-se da maior gruta de arenito do Brasil, medindo cerca de 1,5 km de extensão, com vários trechos alagados e paredes com muitas pinturas rupestre, herança das diversas tribos indígenas que viveram na região antes da chegada dos “brancos”. A grande surpresa está no final da gruta, onde se encontra a Lagoa Azul, formada por águas ricas em calcário, com uma grande transparência e uma cor azul impressionante.  

A história da região, conforme já comentamos, está ligada diretamente ao descobrimento das minas de ouro de Cuiabá pela bandeira de Pascoal Moreira Cabral em 1719. Como todos devem recordar, à época das grandes expedições marítimas de Portugal e de Espanha, no final do século XV, foi celebrado o Tratado de Tordesilhas, assinado em 1494 pelo Reino de Portugal e a Coroa de Castela. Pelo Tratado, as terras descobertas a Leste do Meridiano de Tordesilhas pertenceriam à Espanha e a Oeste ficariam com o Portugal.  

O Meridiano de Tordesilhas cruzava o território brasileiro na altura da cidade de Belém do Pará, o que colocava toda a região do antigo Mato Grosso dentro de território espanhol. Desde o início do século XVII, expedições de bandeirantes paulistas invadiam esse território na caça aos índios “mansos”, já catequizados pelos jesuítas espanhóis – foram inúmeros os conflitos armados com as tropas da Espanha na região. As descobertas de ouro em Cuiabá e, poucos anos depois, em Goiás por esses paulistas, levou a uma revisão dos limites territoriais entre Portugal e Espanha, consolidadas pelos Tratados de Madri, em 1750, e de Santo Ildefonso, em 1777.

A preservação ambiental de toda a Chapada dos Guimarães remonta ao início do século XX, quando as autoridades do antigo Estado de Mato Grosso se mostraram preocupadas com o avanço dos desmatamentos na direção da formação geológica, onde se concentram as nascentes do rio Cuiabá. A navegação pelas águas desse rio era fundamental para a cidade e toda a região – qualquer possível ameaça aos seus caudais precisava ser contida. Um decreto de 1910, assinado pelo Vice-Presidente do Estado do Mato Grosso, Coronel Pedro Celestino Corrêa da Costa, transformou em área de utilidade pública (algo que chamaríamos hoje de área de preservação ambiental) todas as terras de uma faixa de 2 km a partir da base das encostas da Chapada dos Guimarães.

Em 1989 foi criado no local o Parque Nacional da Chapada dos Guimarães, que está sob a administração do ICMbio – Instituto Chico Mendes de Preservação da Biodiversidade. O Parque Nacional possui uma área total de 33 mil hectares e está dividido entre os municípios de Chapada dos Guimarães e Cuiabá, município que concentra 65% da área protegida do Parque. A visão da área urbana da cidade de Cuiabá, com seus muitos edifícios e construções, é uma das principais paisagens vistas a partir do alto do Morro de São Jerônimo, o que não deixa de ser algo inusitado em uma grande área de preservação ambiental.

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