OS IMPACTOS AMBIENTAIS DA CRISE DA CULTURA CACAUEIRA

Cacau africano

Nesta série de postagens temos mostrado alguns dos impactos da agricultura no consumo de água e na devastação de áreas florestais e de solos. Exemplos disso podem ser constatados na história da cultura da cana-de-açúcar na faixa Leste do litoral da região Nordeste e no efêmero ciclo do café no Vale do Paraíba, Leste do Estado de São Paulo. Felizmente, há casos onde a prática de culturas agrícolas conseguiu conviver em razoável harmonia com o meio ambiente – a cultura do cacau no sul da Bahia foi um desses casos.

Relembrando rapidamente a postagem anterior, as primeiras mudas de cacaueiro foram plantadas nas matas do sul da Bahia a partir de meados do século XVIII. O consumo do cacau na forma de chocolate ganhou imensa popularidade na Europa e nos Estados Unidos ao longo de todo o século XIX e o consumo só fez crescer. O Brasil passou a exportar cacau a partir de meados da década de 1820 e até o início do século XX foi o maior produtor mundial. Assim como aconteceu com a extração do látex das seringueiras, a Hevea brasiliensis, que teve sementes contrabandeadas por ingleses e plantadas em colônias desse país no Sudeste Asiático, superando rapidamente a produção da Amazônia, repetiu-se o mesmo com a produção do cacau em possessões inglesas na África.

Desde fins do século XIX, plantações de cacau começaram a ser formadas na chamada Costa do Ouro, região do Oeste da África, em países como Gana, Costa do Marfim, Nigéria e Camarões. Em 1895, quando se registra a primeira exportação de cacau nessa região, 13 toneladas do produto seguiram em direção da Europa. Dez anos depois, essas exportações atingiram a marca de 5,7 mil toneladas; passada mais uma década, o volume exportado passou à expressiva marca de 78,5 mil toneladas. Ao longo da década de 1920, a Costa do Ouro passou a responder por 40% da produção mundial de cacau – atualmente, a região fornece mais de 70% de todo o cacau consumido no mundo. Denúncias e reportagens recentes mostraram ao mundo que essa produtividade africana não é nenhum milagre – os produtores locais se utilizam fartamente de mão de obra escrava e infantil (vide foto).

A cultura do cacau, que foi um marco da prosperidade no Sul da Bahia, conheceu seu apogeu na década de 1920 e, paulatinamente, viu sua importância declinar, sem deixar, porém, de ser uma atividade econômica importante. Milhares de pequenos produtores mantiveram a produção do cacau ou como atividade principal ou como secundária em suas propriedades, fato que garantiu a sobrevivência de importantes faixas da Mata Atlântica na região. Em 1989, infelizmente, foi confirmada a presença da vassoura-de-bruxa, uma praga agrícola originária da Bacia Amazônica, em cacaueiros das regiões de Ilhéus e Itabuna. A doença afeta os tecidos das plantas e reduz dramaticamente a produtividade.

Os impactos da vassoura-de-bruxa rapidamente foram sentidos na produção do cacau no Sul da Bahia: entre os anos de 1991 e 2000, a produção despencou de 320 mil toneladas/ano para pouco mais de 190 mil toneladas/ano, reduzindo a participação do produto brasileiro no mercado mundial de 14,8% para parcos 4%. Indústrias brasileiras de alimentos se viram forçadas a importar cacau a fim de manterem as suas linhas de produção. Além do fortíssimo impacto econômico dessa perda de produtividade, há um lado social extremamente delicado: cerca de 2,5 milhões de pessoas dependem direta ou indiretamente da produção do cacau. E sem a possibilidade de manter a cultura em suas terras, muita gente acabou sendo forçada a mudar de atividade – um dos resultados dessa brusca mudança no uso da terra foi o início de um processo de derrubada de matas no Sul da Bahia para a formação de campos agrícolas e de pastagens.

Estimativas indicam que, em 1945, a Mata Atlântica cobria uma área superior a 2 milhões de hectares no Sul da Bahia. Conforme comentamos em postagem anterior, essa região era habitada por tribos indígenas das mais agressivas, sendo inclusive antropófagas, o que impediu que a cultura da cana-de-açúcar no período colonial avançasse contra as matas da região. E foi justamente essa preservação ambiental o fator mais importante para o início da cultura do cacau na região, lembrando que o cacaueiro necessita da sombra de outras árvores para se desenvolver. No início dos anos 2000, dados obtidos a partir de imagens de satélite indicavam que restava apenas 7% da antiga cobertura vegetal encontrada em 1945 – 164.825 hectares de matas simplesmente desapareceram.

Esse intenso desmatamento, ocorrido em décadas recentes, se deve basicamente à perda da importância da produção do cacau, cuja produtividade e custos aqui no Brasil não têm conseguido concorrer em pé de igualdade com o produto africano. Outro fator importante, que não pode ser desprezado nessa análise, foram os impactos da vassoura-de-bruxa na destruição dos cacaueiros da região – sem outra alternativa de renda, os pequenos produtores simplesmente passaram a erradicar os cacaueiros e também as matas que os protegiam. Importantes fragmentos florestais que, por séculos, conseguiram resistir ao avanço da agricultura e da pecuária, simplesmente tombaram vencidos pelo “cansaço”. Sem a proteção das matas, solos e nascentes de água da região passaram a assistir aos inevitáveis problemas provocados pela agricultura em todo o mundo: empobrecimento de solos, erosão e destruição de corpos d’água por assoreamento e entulhamento de canais, além da destruição das nascentes de água.

Entidades e órgãos públicos ligados à agricultura tem redobrado esforços para encontrar formas e soluções para o controle e a erradicação da vassoura-de-bruxa do Sul da Bahia. Mudas de cacaueiros trazidas de outras regiões e países produtores, aparentemente resistentes à doença, têm sido plantadas em larga escala, numa tentativa de recuperar a cultura do cacau na região.  Intensos estudos e até o mapeamento genético do fungo causador da vassoura-de-bruxa, o Moniliophtora perniciosa, têm sido feitos por institutos de pesquisa e universidades em busca de um mecanismo de controle, porém, ainda sem maiores resultados.

Enquanto não se encontra uma solução definitiva para essa crise criada pela vassoura-de-bruxa, os últimos fragmentos da Mata Atlântica do Sul da Bahia têm um futuro incerto, tão incerto quando o de outras formações florestais importantes, que sucumbem um pouco a cada dia diante do implacável avanço dos campos agrícolas em nosso país.

 

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