AS VIOLENTAS ENCHENTES EM FLORIANÓPOLIS

Enchentes em Florianópolis

Nas últimas postagens aqui do blog falamos dos problemas de contaminação de algumas das praias mais conhecidas por lançamentos irregulares de esgotos e das consequências que isto pode acarretar para a saúde dos moradores locais e dos turistas, que nas temporadas de Verão correm aos milhões na direção do litoral brasileiro.

Mas as questões ligadas aos esgotos não são as únicas preocupações do saneamento básico: existem também os problemas de abastecimento de água potável para as populações, o controle das águas pluviais e o gerenciamento dos resíduos sólidos, onde se incluem tanto os serviços de coleta e destinação final do lixo e dos resíduos quanto os serviços de limpeza e varrição das vias e áreas públicas. De forma transversal entre todos estes serviços, existe o problema de controle dos vetores: baratas mosquitos, ratos, pulgas, carrapatos, entre outros. Em resumo: o saneamento básico pode ser definido como o conjunto de serviços que garante as condições de higiene e saúde da população ou série de medidas que tornam uma área sadia, limpa, habitável, oferecendo condições adequadas de vida para uma população ou para a agricultura.

Feita estas considerações, vamos falar das gravíssimas enchentes que se abateram sobre a belíssima cidade de Florianópolis, uma das estrelas do turismo brasileiro nestes últimos anos. As fortes chuvas que estão atingindo toda a cidade e grande parte do litoral de Santa Catarina nos últimos dias estão causando enchentes, quedas de árvores e muros, desabamentos de casas e deslizamentos de encostas. Desde a última segunda-feira (dia 8 de janeiro) , o volume de chuvas na cidade já chegou à impressionante marca de 400 milímetrossomente nesta última quarta-feira, o volume de chuvas que caiu na cidade já superou a marca dos 100 milímetros – isto equivale a 50% do volume de chuvas que era esperado para todo o mês de janeiro. Grande parte dos bairros da cidade amanheceu com ruas e avenidas inundadas, cobertas com muita lama, resíduos e lixo. De acordo com declarações de autoridades locais, divulgadas pelos meios de comunicação, as fortes chuvas de Verão, como sempre, são as culpadas pelas muitas tragédias. Posso até estar enganado, mas não lembro de ter ouvido qualquer uma destas autoridades assumir que a falta de uma adequada infraestrutura de drenagem de águas pluviais também contribuiu para a tragédia. Deixem-me explicar meu ponto de vista:

A primeira vez que estive em Florianópolis foi em 1980, quando participei de um grande camporee (também conhecido como jamboree), um acampamento que reúne um grande número de clubes de escoteiros de uma região. Esse acampamento foi montado em uma grande área verde nas margens da Lagoa da Conceição. Lembro que nesta época existiam grandes praias praticamente desabitadas por toda a Ilha de Santa Catarina e a cidade de Florianópolis era bem menor e mais tranquila. Nos últimos anos, a cidade se transformou num importante polo de tecnologia e de turismo, atraindo novos moradores (15 mil a cada ano) e praticamente triplicando de tamanho – nos meses de Verão, com o grande fluxo de turistas, a população da cidade quase chega a duplicar. Algumas fontes afirmam que Florianópolis possui um dos piores transitos do Brasil, o que é só um dos muitos reflexos negativos deste intenso crescimento.

Um crescimento urbano tão intenso e em um espaço de tempo tão curto não se dá sem grandes problemas de infraestrutura. Grandes áreas de matas foram substituídas por condomínios, casas e edifícios comerciais; encostas foram ocupadas por construções e matas de preservação permanente acabaram suprimidas; fragmentos de matas isoladas em partes da Ilha e do continente foram rasgadas para a construção de avenidas e ruas, onde apareceram um sem número de casas pontilhadas nas antigas paisagens. Todas estas alterações num meio físico limitado, por si só, já têm potencial para produzir uma grande alteração no fluxo natural das chuvas – a presença de asfalto e concreto reduz a absorção de água pelos solos e produz um grande aumento no fluxo superficial das águas das chuvas, ou seja, facilitam a formação de grandes enxurradas e alagamentos localizados – daí para a ocorrência de grandes enchentes em dias de chuva mais forte é só um pulo. Mas esse é só o começo dos problemas.

Quanto maior a concentração de pessoas em uma região, maiores serão as pressões pelo aumento do fornecimento de água potável, maior será a geração de esgotos e de resíduos sólidos, além é claro do aumento do consumo de alimentos, produtos de limpeza, materiais de construção, serviços de saúde, combustíveis e sistemas de transporte, etc. Todo esse crescimento precisa ser devidamente planejado e muita infraestrutura urbana e de saneamento básico precisa ser construída para que se atinja o que está sendo chamado atualmente de “desenvolvimento sustentável”. É claro que, como todos sabem, nossas cidades crescem sem maior planejamento e preocupações com o futuro e assistimos a problemas de transporte, habitação, energia, saneamento básico, saúde, segurança e educação “pipocarem por todos os lados”. Florianópolis não fugiu a esta regra e o que estamos assistindo hoje são apenas as consequências de todos estes problemas somados – São Pedro e suas importantes chuvas não podem ser acusados injustamente.

Florianópolis já estava frequentando os telejornais há algum tempo, com notícias sobre a redução da faixa de areia em algumas das suas praias mais famosas, o que já estava trazendo receios para os moradores locais e turistas, preocupados com a temporada de Verão que estava chegando. É um pouco prematuro fazer qualquer tipo de diagnóstico sobre a origem deste fenômeno, mas alguns especialistas afirmam que o crescimento da mancha urbana da cidade contribuiu muito neste processo, graças inclusive ao avanço de construções na faixa de areia das praias. Em muitas regiões, é a derrubada de matas para a expansão dos bairros que está interferindo no volume e no fluxo da água dos rios e córregos que chegam até as praias – é essa água quem arrasta a areia gerada a partir do desgaste das montanhas e rochas em áreas interioranas para as praias (o mar não produz areia). O vai e vem das ondas do mar, algumas vezes amplificado pela presença de construções na faixa da praia, retira grandes quantidades de areia, que em condições naturais são respostas pelos volumes carreados pelas águas de rios e córregos – se este ciclo é rompido e os volumes de areia que chegam até as praias diminuem, há uma tendência natural de redução da faixa de areia das praias, exatamente o que parece estar ocorrendo em Florianópolis. É esperar a conclusão dos estudos para se ter certeza absoluta.

Enquanto isso, entre problemas reais e especulações, a temporada de Verão em Floripa não começou nada bem para muita gente…

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