PARQUE ELEVADO DO MINHOCÃO, UMA DOCE UTOPIA PAULISTANA

Minhocão

O renascimento do rio Cheonggyecheon e a criação de um fantástico parque linear no centro da cidade de Seul, na Coreia, foi tema de uma postagem recente e um exemplo do que pode ser feito para melhorar uma área urbana altamente degradada e poluída. Para a realização dessa complexa obra, a Prefeitura de Seul primeiro teve de trabalhar para desmontar e remover uma imensa via elevada com perto de 5 km de extensão, Só depois desse trabalho monumental é que foi possível reverter a canalização do rio Cheonggyecheon e construir o parque linear. 

A semelhança de Seul, o centro da cidade de São Paulo também possui uma problemática via elevada – o Elevado Presidente João Goulart, mais conhecido entre os paulistanos como “Minhocão”. Na falta de espaço no meio urbano para construir uma avenida convencional, os planejadores urbanos de então optaram por construir um elevado com 3,5 km de extensão através de uma área predominantemente residencial. Essa via foi inaugurada em 1971 e passou a funcionar como um eixo de ligação entre as Zonas Leste e Oeste da cidade.  

Com a chegada do Minhocão e de seus milhares de automóveis circulando incessantemente 24 horas por dia, a então elegante região que englobava partes da Vila Buarque, Santa Cecília e Campos Elísios, iniciou um lento e gradual processo de desvalorização imobiliária e de decadência urbana. A certa altura, a Prefeitura de São Paulo chegou a proibir o tráfego de veículos na pista elevada entre as 10 horas da noite e as 6 horas da manhã, numa tentativa de frear a decadência da região, mas já era tarde demais. 

Há poucos anos atrás, enfim, surgiu uma boa notícia para a região do entorno do Minhocão – um ramal da rede de trens urbanos que cruza a região central de São Paulo, num percurso quase paralelo ao do Minhocão, seria desativado e os terrenos poderiam ser usados na construção de uma avenida de ligação Leste-Oeste. Com essa nova avenida, os carros que hoje circulam através do Minhocão poderiam ser desviados e o desastroso viaduto poderia, enfim, ser desativado. 

Começaram então as discussões sobre qual seria o melhor fim a se dar para o grande “esqueleto de dinossauro” em pleno centro de São Paulo. Uma das alternativas – a demolição total do viaduto, foi defendida por muita gente. Porém, ela esbarra em um grande problema logístico: o transporte de milhares de toneladas de resíduos sólidos. No caso de Seul, a demolição do viaduto gerou cerca de 620 mil toneladas de resíduos, onde perto de 75% foram reciclados e reutilizados na construção do parque linear do Cheonggyecheon 

No caso do minhocão, a Prefeitura não prevê a construção de nenhuma grande obra no lugar, onde parte dos resíduos poderiam ser reutilizados. Restaria então a necessidade de transportar todo o material gerado pela demolição para uma área de descarte. Lembro que há época das primeiras discussões sobre essa possibilidade, as estimativas falavam de custos de transporte entre R$ 150 e R$ 200 milhões. Isso sem contar os custos de demolição do viaduto. 

Uma outra ideia bem interessante que surgiu ao longo das discussões foi a de se manter o Minhocão em pé, transformando o seu leito em um grande parque linear elevado. A ideia foi inspirada no High Line, um parque elevado de Nova York que foi construído em um antigo viaduto desativado da cidade. Esse parque ocupa uma área total de 3,75 km², sendo que o trecho do elevado tem uma extensão de 2,5 km. O parque foi inaugurado em 2009 e é um sucesso de crítica e público. 

Maquetes virtuais, reportagens e muitas ilustrações mostrando a “nova cara” do Minhocão rapidamente começaram a circular pelos noticiários e redes sociais, o que deu um novo ânimo para muitos dos moradores que ainda insistiam em continuar vivendo nas áreas do entorno. Aqui é importante citar que já há muitos anos, o Minhocão é fechado durante os finais de semana e transformado em uma área de lazer. Paulistanos de todas as idades se dirigem para as pistas fechadas com skates, bicicletas, patinetes e até mesmo a pé para curtir o espaço (vide foto). Surgiram bares e restaurantes ao lado das rampas de acesso justamente para atender esse “novo público”

Um dos espaços mais interessantes criados por esse novo uso esporádico do Minhocão aos finais de semana é um teatro que foi montado num apartamento no terceiro andar de um edifício com a fachada voltada para a via elevada. Nas janelas desse apartamento, grupos de atores realizam performances gratuitas para o público. Para esse grupo de usuários do Minhocão, a construção de um parque elevado seria a “8° maravilha do mundo paulistano”. 

Infelizmente, no caminho desse sonho da população existem inúmeros interesses de comerciantes, empresários e até mesmo de moradores da região, os quais acreditam que a remoção da pista elevada vai reduzir o número de veículos em circulação na região central da cidade e, consequentemente, diminuirá o número de clientes de suas respectivas empresas. Inúmeras ações contra a desativação do viaduto e construção do parque elevado passaram a ser protocoladas na Justiça. A Prefeitura da cidade de São Paulo, que em 2016 havia anunciado a construção do parque e em fevereiro de 2019 já pretendia fechar um trecho de 900 metros do viaduto, foi obrigada a anunciar em novembro de 2019 a suspensão do projeto. 

O principal estopim para se chegar a essa decisão foi um pedido do Procurador-geral da Justiça do Estado de São Paulo, que ingressou com uma ação judicial pedindo a inconstitucionalidade da lei que criou o parque suspenso. Entre os principais motivos alegados houve “falta de um estudo urbanístico capaz de prever os impactos da medida no conjunto da cidade”. É bastante difícil de se prever quais serão os rumos desse projeto daqui para a frente, mas sabemos com toda a certeza que se levarão alguns anos para se chegar a uma conclusão. 

O imbrólio criado para a transformação do caótico Minhocão em um parque elevado nos dá uma ideia cristalina das dificuldades criadas para se tentar resolver qualquer tipo de problema que afeta a população. Uma obra importante, bonita e com grande aceitação pela população não pode avançar por causa de burocracia. Para que todos tenham uma ideia do significado desta obra – o autor da ideia foi Fernando Hadad, ex-prefeito da cidade que é do PT – Partido dos Trabalhadores; quem está tentando viabilizar o projeto é Bruno Covas, que é do PSDB. Se é possível que dois partidos políticos que se odeiam consigam chegar a um entendimento sobre um projeto urbano, por que não o resto?

A construção maciça de edificações e a impermeabilização em grande escala dos solos das cidades está provocando o efeito das Ilhas de Calor Urbano em grandes cidades de todo o mundo. Entre outros problemas, as Ilhas de Calor tendem a provocar fortes chuvas nas áreas centrais de grandes cidades em regiões de clima Tropical e Subtropical. Em cidades de regiões frias, o efeito se dá na formação de invernos menos frios. A área central da cidade de São Paulo é, frequentemente, assolada por fortes tempestades nos meses de verão, sofrendo muito com enchentes e alagamentos. 

Conforme comentamos em postagem anterior, o centro paulistano chega a ter temperaturas até 10° C maiores que as encontradas nos extremos da Zona Sul, onde fica a Serra do Mar, e da Zona Norte, onde encontramos a Serra da Cantareira. Um outro problema grave é geração do ozônio, um gás altamente tóxico, que se dá por reações químicas entre os diferentes gases liberados por escapamentos de veículos e fábricas. A criação desse parque suspenso traria uma animadora contribuição para a suavização desses problemas, além de contribuir na retenção temporária de parte das águas pluviais

Paulistanos, porém, são criaturas que se adaptam facilmente às situações mais adversas. Enquanto o parque elevado do Minhocão não vem, começaram a surgir diversos jardins verticais nas fachadas de muitos edifícios da região de entorno da pista elevada. Além de tornar a região mais bonita, esses jardins dão sua pequena contribuição para a melhoria do clima local. 

Falaremos disso na próxima postagem. 

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