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Posts de ferdinandodesousa

Escritor, jornalista, gestor e educador ambiental. Especialista em projetos de comunicação social e de educação ambiental.

FORTES CHUVAS CAUSAM MORTES E MUITA DESTRUIÇÃO NA BAIXADA SANTISTA, LITORAL DE SÃO PAULO

Chuvas na Baixada Santista

Entre o início da noite dessa segunda-feira, dia 02 de março, até o início da tarde de hoje, a região da Baixada Santista, no litoral do estado de São Paulo, foi castigada com fortíssimas chuvas. 

O volume de chuvas acumulado em um período de 12 horas foi de 282 mm no Guarujá, 218 mm em Santos, 170 mm em Praia Grande, 169 mm na Praia Grande, 160 mm em Mongaguá, 132 mm em Cubatão e de 110 mm em Itanhaém e Bertioga. Esses volumes de chuvas correspondem, em alguns casos, a todo o volume esperado para todo o mês de março. 

As cidades que mais sofreram com as chuvas foram Santos, Guarujá e São Vicente – desmoronamentos de encostas nessas cidades já deixaram 13 pessoas mortas e 45 seguem desaparecidas. Equipes do Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo estão realizando buscas em oito locais diferentes, sendo quatro em Santos, dois no Guarujá e dois em São Vicente. 

Entre as vítimas já confirmadas estão dois bombeiros que trabalhavam no Morro do Macaco, no Guarujá, que foram soterrados enquanto trabalhavam nas buscas. Os bombeiros tentavam resgatar uma criança e a mãe atingidos por um deslizamento, que também morreram quando uma parte da encosta desmoronou. 

Além dos estragos nas áreas urbanas, as fortes chuvas também causaram a queda de barreiras na Via Anchieta, uma das rodovias que faz a ligação entre a Baixada Santista e o Planalto de Piratininga. Dois trechos da rodovia estão bloqueados em Cubatão. 

MADAGASCAR E SEUS INÚMEROS PROBLEMAS AMBIENTAIS

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Algumas semanas atrás, nós publicamos uma postagem falando sobre os graves problemas ambientais da Austrália, que naquele momento ainda sofria com grandes incêndios florestais. Ao contrário do papel de “vítima” dos incêndios, posição que foi amplamente divulgada e defendida nos meios de comunicação de todo o mundo, nós afirmamos que a Austrália é sim uma das principais responsáveis pelos incêndios descontrolados que atingiram áreas com remanescentes florestais do país.  

A mineração, a agricultura e a pecuária no país têm avançado ferozmente contra o que restou das antigas florestas nativas, que sofrem com grandes desmatamentos. Essa intensa supressão vegetal tem criado inúmeros fragmentos florestais mais secos e, portanto, mais susceptíveis aos incêndios naturais, que nesse ano foram turbinados pelas mudanças climáticas globais. 

A Austrália, infelizmente, faz parte de um grande grupo de países com uma péssima postura no respeito ao meio ambiente e onde a destruição da natureza parece estar completamente fora de controle. Vamos começar falando da gravíssima situação da Ilha de Madagascar. 

A Ilha de Madagascar fica no Oceano Índico, na costa Sudeste da África, ao largo de Moçambique. É considerada a quarta maior ilha do mundo e surgiu em consequência da fragmentação do antigo supercontinente de Gondwana. Até cerca de 165 milhões de anos atrás, a América do Sul, África, Antártica, Ilha de Madagascar, Índia (o famoso subcontinente indiano), Austrália, Nova Zelândia, Nova Caledônia e algumas outras ilhas, formavam um único bloco contínuo de terras. Com o início da movimentação das placas tectônicas e de um forte ciclo de erupções vulcânicas, esse grande bloco continental se fragmentou e as “peças” começaram a se movimentar sobre o globo terrestre, formando assim a atual configuração continental do planeta. 

Durante um longo período geológico, a Ilha de Madagascar se manteve ligada com o bloco que viria a formar o subcontinente indiano. Cerca de 88 milhões de anos atrás, Madagascar e a Índia se separaram – Madagascar se manteve como uma grande ilha isolada e o bloco que formaria o subcontinente indiano continuou sua viagem de milhões de anos até se chocar com o Sul da Ásia. 

Assim como aconteceu com outros grandes blocos de terra que se mantiveram isolados de outros continentes como a Austrália e a Nova Zelândia, a Ilha de Madagascar também acabou desenvolvendo uma fauna única, diferente de qualquer outra parte do mundo. Cerca de 90% das espécies da ilha são endêmicas. Dois exemplos das formas animais únicas de Madagascar são os lêmures, uma classe de primatas autóctone da Ilha, e as fossas, um mamífero carnívoro que se assemelha fisicamente aos grandes felinos, mas que, na realidade, é aparentado com as fuinhas europeias

Originalmente, 90% do território malgaxe era coberto por florestas tropicais – atualmente, restam entre 10 e 15% das florestas. Segundo estimativas de Alexandre Georget, Ministro do Meio Ambiente do país, “caso a destruição continue nesse ritmo, daqui a 40 anos Madagascar terá o seu território completamente desmatado“. 

Com uma população na casa dos 24 milhões de habitantes, Madagascar é um dos países mais pobres do mundo e, não por acaso, é uma das ex-colônias da França na África. A pressão econômica da população contra as florestas está na raiz da devastação ambiental da Ilha. As queimadas para a abertura de campos para agricultura de subsistência, a extração de madeiras para exportação e a produção de carvão vegetal são as atividades que lideram os desmatamentos. 

Um dos principais produtos agrícolas de Madagascar é o arroz, que é plantado em pequenos lotes com menos de 2 hectares. Esses lotes têm sua cobertura vegetal derrubada e queimada, numa prática conhecida pelos malgaxes como “tavy”, muito parecida com a nossa coivara. Esses lotes produzem no máximo por um período de 2 anos, quando então são abandonados para um período de “descanso” entre 4 e 6 anos. Passado esse período, o lote volta a ser plantado. Esse ciclo de uso da terra dos lotes pode ser repetido de 2 a 3 vezes, quando então a terra é abandonada por absoluta falta de fertilidade e novos trechos de matas nativas serão transformados em lotes agrícolas. 

Além do arroz, o país tem uma importante produção de café, item que responde pela maior fatia das exportações da Ilha. Também são destaques a produção de cana-de-açúcar, mandioca e de frutas como bananas, laranjas, maçãs e abacaxis. Também são comuns as criações de ovelhas, cabras, galinhas e porcos. No campo da mineração, uma atividade que costuma ser devastadora para o meio ambiente, Madagascar só dispõe de algumas reservas de tungstênio. 

Outra fonte importante de desmatamentos em Madagascar é a exploração madeireira, que muitas vezes é feita dentro das poucas áreas de florestas protegidas. Algumas das madeiras nativas de Madagascar como o ébano e o rosewood possuem um altíssimo valor no mercado internacional, com preços chegando à casa do US$ 2 mil por tonelada. Contando com uma legislação ambiental fraca e com uma rede de autoridades facilmente corrompíveis, o contrabando de madeiras “corre solto” na Ilha. 

Por fim, e não menos devastadora, a produção de carvão vegetal e lenha avança sobre as árvores que não têm um grande valor comercial, especialmente as árvores das chamadas “florestas espinhentas” formadas por árvores da espécie Allauadia. A lenha e o carvão são vendidos livremente na beira das estradas e são usados como fonte de energia para se cozinhar pelas famílias das vilas e aldeias do país. 

Madagascar é cortada pelo Trópico de Capricórnio e possui um clima predominantemente tropical, caracterizado por uma forte temporada de chuvas nos meses do verão. Como a maior parte da Ilha foi desflorestada, os processos erosivos arrastam, todos os anos, milhões de toneladas do que restou dos solos férteis da ilha, comprometendo cada vez mais a produção agrícola de subsistência das famílias malgaxes. Esses processos também resultam no assoreamento de rios e riachos por toda a Ilha, resultando em enchentes generalizadas em algumas regiões. 

A situação da Ilha de Madagascar pode ser definida como autofágica, palavra de origem grega que significa “comer a si próprio”. A pobreza de muitos e a esperteza de uns poucos está levando toda a Ilha a um ponto de destruição sem volta – dentro de poucos anos não haverá mais solos férteis para a agricultura e criação de animais, além de não existirem mais árvores para exploração madeireira e produção de carvão e de lenha. 

Para finalizar, deixo uma pergunta: quando foi a última vez que você ouviu a ativista teen Greta Thunberg ou o Presidente da França, Emannuel Macron, falando da trágica situação da floresta tropical de Madagascar? 

O ENCALHE DO NAVIO CARGUEIRO STELLAR BANNER NO LITORAL DO MARANHÃO, OU OS PERIGO DA NAVEGAÇÃO NA AMAZÔNIA

Stellar Banner

Na noite da última segunda-feira, dia 24 de fevereiro, o navio cargueiro Stellar Banner, de bandeira sul coreana, encalhou a 100 km da costa do Maranhão. O navio havia acabado de deixar o Terminal Marítimo de Ponta da Madeira, em São Luís, carregado com 280 mil toneladas de minério de ferro que seriam transportadas para a China. 

De acordo com informações preliminares divulgadas pelo comandante da Capitania dos Portos no Maranhão, Alekson Porto, o navio colidiu com algo não identificado, o que causou fissuras no casco da embarcação. Para evitar o naufrágio, o comandante do navio realizou um movimento de varação, que nada mais é do que encalhar o navio em um banco de areia. A Marinha abriu um inquérito para investigar as causas do acidente. No momento, a maior preocupação das autoridades é evitar o desastre ambiental que poderá ocorrer na região caso haja vazamento da carga de minério de ferro ou dos tanques de combustível da embarcação. 

A presença de bancos de areia a mais de 100 km da costa do Maranhão, apesar de surpreendente, não é novidade nessa região que se encontra dentro do raio de influência da foz da Bacia Amazônica. O tráfego de navios cargueiros cada vez maiores e com cargas cada vez mais pesadas nessa região é muito preocupante. O risco de acidentes como o que ocorreu com o Stellar Banner tende a ser cada vez mais frequente. 

A Bacia Amazônica possui a maior rede hidrográfica do mundo – há época das chuvas, o famoso inverno amazônico, perto de um quarto de toda a água doce do planeta circula nos rios dessa região. Ocupando aproximadamente 7 milhões de km², a Bacia Amazônica possui mais de 1.000 rios tributários – alguns destes rios, como o Negro e o Madeira, entram na lista dos 10 maiores rios do mundo.  

A cada segundo, a foz do rio Amazonas despeja até 180 mil metros cúbicos de água no Oceano Atlântico. Esse imenso volume forma uma pluma de água doce com uma espessura com até 25 metros e que se estende num raio de 400 km. Esse imenso volume de águas carreia cerca de 31 toneladas de sedimentos a cada segundo, formando ilhas, como aconteceu com o Arquipélago de Marajó no passado, e inúmeros bancos de areia, como aquele que pode ter sido o responsável pelo acidente com o Stellar Banner

A navegação fluvial é o principal meio de transporte de pessoas e de cargas na Bacia Amazônica. De acordo com informações da Capitania Fluvial da Amazônia Ocidental (CFAOC), região que abrange os Estados do Amazonas, Roraima, Acre e Rondônia, mais de 33 mil embarcações estavam cadastradas e em circulação pelos rios da região em 2017. As autoridades não têm ideia da quantidade de embarcações clandestinas que navegam pelos rios da região. A cada ano, cerca de 1.800 novas embarcações são cadastradas apenas no Estado do Amazonas.  

Essa imensa “frota fluvial” é responsável pelo transporte de centenas de milhares de pessoas todos os dias; pelo abastecimento das pequenas cidades ribeirinhas com alimentos, produtos de consumo e combustíveis; transporte de estudantes e de doentes, entre outros. Sem existir estradas de rodagem na maior parte da região Amazônica, embarcações de todos os tipos são utilizadas em substituição ao uso de carros, ônibus e caminhões, veículos usados para o transporte em outras regiões do país.  

Esse uso intenso de embarcações, muitas das quais em péssimas condições de conservação, sem cadastro nos órgãos oficias e conduzidas por pessoal não habilitado, tem seu preço: 60% das mortes com acidentes em embarcações ocorrem na região Norte do Brasil. Somente nos quatro primeiros meses de 2018, o 9° Distrito Naval da Marinha em Manaus registrou 30 acidentes com embarcações, onde 12 pessoas morreram. Esses números, muito provavelmente, são bem maiores: muitas ocorrências, especialmente nos casos das embarcações clandestinas, não são notificadas. Colisões entre embarcações, choques com troncos de árvores flutuando nas águas, naufrágio devido aos excessos de carga e má conservação das embarcações, incêndios e panes em motores, e, principalmente, em encalhes em bancos de areia, estão entre os acidentes mais comuns. 

Conforme já comentamos em diversas postagens anteriores, o clima da Amazônia possui apenas duas estações – o verão, que é quente e seco, e o inverno, que é quente e chuvoso. O nível dos rios de toda a região varia muito ao longo do ano. Cito como exemplo o rio Madeira, que tem variações de nível de até 20 metros entre a época das cheias e a vazante. Conforme os rios vão perdendo água durante a época da vazante, bancos de areia e afloramentos rochosos começam a aparecer ao longo de suas calhas, aumentando muito os riscos de acidentes com embarcações. 

Diferente dos grandes cargueiros oceânicos, que são dotados da mais moderna tecnologia de navegação, sistemas de radar e de GPS (e ainda assim se envolvem em acidentes), a navegação pelos rios da Bacia Amazônica é feita, basicamente, através dos olhos e ouvidos dos capitães nativos da região. Certa vez eu ouvi o capitão de uma embarcação que fazia o trajeto Porto Velho-Manaus falando de sua técnica para a navegação noturna – ele se guiava pela diferença entre o brilho da água e o escuro da mata nas margens em suas viagens. Para os troncos flutuantes e bancos de areia, se dependia puramente da sorte durante as noites – mesmo durante a luz do dia, nem sempre se consegue enxergar esses obstáculos submersos nas águas. 

Incêndios em embarcações também são assustadoramente frequentes nos rios da Amazônia. Embarcações construídas predominantemente com madeira, dotadas de cozinha e transportando, entre outras, cargas infláveis como gás engarrafado e combustíveis, podem se transformar em um braseiro flutuante em poucos minutos. Outra causa importante de incêndios nas embarcações são as operações de abastecimento. É comum a venda clandestina de gasolina e óleo diesel por embarcações, que funcionam como uma espécie de “postos de gasolina flutuantes”.  

Essas transferências de combustíveis de uma embarcação para outra são feitas sem a observância dos requisitos mínimos de segurança, muitas vezes com pessoas fumando, e sem a presença de equipamentos de segurança como extintores de incêndio. Basta um leve descuido para as embarcações arderem em chamas e fazerem inúmeras vítimas. 

Na última sexta-feira, dia 29 de fevereiro, um barco com cerca de 60 passageiros naufragou no rio Jari no Amapá. De acordo com as últimas informações, a tragédia deixou pelo menos dois mortos. Segundo o relato preliminar do comandante da embarcação, a causa do naufrágio foi um forte vendaval que adernou o barco. Talvez pelo impacto com o acidente com o navio cargueiro Stellar Banner no Maranhão, essa notícia acabou sendo veiculada em rede nacional. Em condições “normais”, só a população do Amapá seria informada dessa tragédia.

Todas as preocupações com os riscos ambientais que podem ser provocados pelo encalhe do Stellar Banner são bem-vindas, mas é preciso prestar mais atenção aos outros milhares de acidentes com embarcações que ocorrem na Região Amazônica e que não são divulgados.

PS: Na segunda-feira, dia 2 de arço, o número de mortos no naufrágio do Amapá foi atualizado para 13 vítimas.

JANEIRO DE 2020 FOI O MÊS MAIS QUENTE DESDE 1880

Janeiro mais quente da história

De acordo com informações divulgadas no último dia 13 de fevereiro pela NOAA – Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos, na sigla em inglês, o mês de janeiro de 2020 foi o mês mais quente já registrado desde 1880, ano em que as medições sistemáticas das temperaturas do planeta começaram a ser registradas.

De acordo com a NOAA, a média das temperaturas terrestres e oceânicas no último mês superaram em 1,14° C a média registrada nos meses de janeiro ao longo do século 20 – essa média era de 12° C. O mês foi ainda o 44° janeiro consecutivo e o 421° mês seguido com temperaturas acima da média registrados desde o século passado.

Em regiões com temperaturas tradicionalmente baixas na Rússia, na Escandinávia e no Leste do Canadá, os termômetros chegaram a marcar temperaturas até 5° C acima das médias. Alguns exemplos da “loucura” climática:

Outras consequências desse aumento da temperatura do planeta estão a nossa volta, sem nos darmos conta do que está acontecendo. Um grande exemplo recente foi a Tempestade Ciara, sobre a qual falamos numa postagem anterior, que causou enormes estragos em toda a Europa e surpreendeu a todos por ocorrer no meio do inverno europeu.

Também podemos citar o volume recorde de chuvas na cidade de São Paulo neste mês de fevereiro. De acordo com dados do INMET – Instituto Nacional de Meteorologia, o volume de chuvas acumulado na cidade em fevereiro chegou a 449 mm, o maior valor já registrado em 77 anos. Não é a toa que São Paulo sofreu, como nunca, com as enchentes deste ano.

Para encerrar, a cidade de Urupema, na Serra Catarinense, amanheceu hoje com temperaturas abaixo de 1° C em pleno verão. Em São Joaquim, cidade próxima que é famosa pelas baixas temperaturas nos meses de inverno, os termômetros amanheceram marcando 5° C.

Por todos os cantos do mundo se notam, em maior ou menor escala, mudanças nos padrões climáticos. Alguns lugares estão mais quentes, enquanto outros estão mais frios. As chuvas aumentaram em algumas regiões e diminuíram em outras. O nível do mar, um verdadeiro indicador das mudanças climáticas, já mostra sinais claros de mudanças – um exemplo é o visível aumento na altura das marés na Baixada Santista, no litoral de São Paulo.

Querendo ou não, todos vamos ter de nos adaptar a essas mudanças e a novos padrões climáticos em nossas vidas. Aquela conversa de primavera, verão, outono e inverno, com características bem definidas, será, cada vez mais, uma lembrança de um passado recente.

Só o tempo dirá o que teremos pela frente!

UMA QUARTA-FEIRA DE CINZAS, RESÍDUOS E MUITO LIXO

Lixo carnavalesco

O Carnaval é época de muita festa, desfiles, bailes e muita alegria. Outra forma de se definir o Carnaval em todo o Brasil é como um período em que a produção e o descarte irregular de lixo e resíduos sólidos explode de Norte a Sul em nosso país. São restos de fantasias, garrafas e latas de cervejas e refrigerantes, embalagens de alimentos, restos de alegorias e de decorações de carros carnavalescos, entre muitos outros. 

De acordo com informações da Prefeitura da Cidade de São Paulo, já foram recolhidas 456 toneladas de “resíduos carnavalescos” desde o chamado período pré-Carnaval, quando centenas de blocos que agregam dezenas de milhares de pessoas começam a tomar conta de ruas da cidade. Somente no Sambódromo do Anhembi (vide foto), endereço oficial dos desfiles do Carnaval paulistanos, foram recolhidas 51,8 toneladas de resíduos. Já foram utilizados quase 500 mil litros de água de reúso e mais de 1.500 litros de desinfetante na lavagem de ruas e avenidas da cidade. 

No Rio de Janeiro, cidade que abriga o maior e mais famoso Carnaval do país, os números são ainda maiores. A COMLURB, empresa municipal de limpeza urbana, já recolheu mais de 700 toneladas de lixo e resíduos por toda a cidade, especialmente nas regiões onde ocorreram desfiles de blocos e escolas de samba. A empresa estima que até o próximo final de semana, quando acontece o Desfile das Campeãs do Carnaval, grandes volumes de lixo ainda serão recolhidos das ruas e avenidas da cidade. 

No quesito “produção de resíduos”, Salvador também não faz feio. De acordo com a LIMPURB, empresa responsável pela limpeza urbana de Salvador, 715,8 toneladas de resíduos já foram retiradas das ruas da cidade. A empresa informou que, no mesmo período do ano passado, foram retiradas 605,28 toneladas de resíduos, o que demonstra um crescimento preocupante na produção de “lixo carnavalesco” na cidade. O principal polo gerador de resíduos é o famoso Circuito Ondina-Barra. 

Na cidade do Recife, os números ainda não foram totalizados, mas o volume “promete” ser surpreendente – a EMLURB, empresa municipal de limpeza urbana da cidade, recolheu 148,4 toneladas de resíduos somente no sábado, dia 22, dia em que acontece o desfile do tradicional Galo da Madrugada. Desse total, apenas 5,4 toneladas de resíduos foram recicladas. 

Pessoas que trabalham duro durante um ano inteiro tem todo o direito de dar uma parada durante o Carnaval para relaxar e se divertir – não há como cobrar civilidade dessas pessoas e exigir que todo o seu lixo e resíduos sejam depositados em lixeiras e conteineres. Aliás, falta muita infraestrutura nos locais onde são “organizados” esses eventos. O grande problema é que o período do Carnaval coincide com o das chuvas de verão e quantidades tão grandes de resíduos largados pelas ruas e avenidas podem resultar nas famosas enchentes e alagamentos, algo que pode estragar a festa de muita gente. 

Algum dia, quem sabe, nossos governantes aprendam a organizar melhor essas festas e lembrem de dotar os locais com uma infraestrutura mais adequada. Quem sabe assim, num futuro próximo, nossos foliões até se animam a descartar seu lixo de forma civilizada. 

UMA MARÉ “EXTREMAMENTE” ALTA NA BAIXADA SANTISTA, EM SÃO PAULO

Maré alta na Baixada Santista

Neste último domingo, dia 23 de fevereiro, municípios da Baixada Santista, litoral do Estado de São Paulo, sofreram com uma forte maré alta, que cobriu toda a faixa de areia de algumas das praias, calçadões, quiosques e chegou a invadir alguns trechos de avenidas ao largo das praias. Os municípios de Santos, Praia Grande e Bertioga foram os mais atingidos. 

No município da Praia Grande, o mar cobriu a faixa de areia entre o Canto do Forte e a Vila Mirim, chegando até no calçadão em alguns trechos. Em Bertioga, a faixa de areia das praias da Riviera de São Lourenço, do Sesc e Guaratuba, ficou encoberta – o mar agitado forçou banhistas e ambulantes a abandonarem as praias. Em municípios como Mongaguá e Itanhaém, a maré não subiu muito, mas o mar muito agitado forçou muitos turistas a voltarem para suas casas. 

O fenômeno não é novo e faz parte de um processo sistemático de aumento gradual do nível do mar observado em vários pontos do litoral brasileiro. Em postagens publicadas em 2018, falamos desse problema na Ponta da Praia (vide foto), na cidade de Santos, em Florianópolis, Santa Catarina e também na Praia da Macumba, na cidade do Rio de Janeiro. 

Um projeto de pesquisa em andamento desde 2013, batizado de Metrópole, está avaliando fenômenos climáticos derivados dos efeitos do aquecimento global e aferindo quais serão os seus impactos ambientais. Os estudos estão sendo feitos na cidade Broward, nos Estados Unidos, e em Selsey, na Inglaterra. A cidade de Santos foi incluída na pesquisa por possuir uma grande base de dados sobre o tema, inclusive com registros fotográficos do avanço do mar ao longo dos anos. O Projeto Metrópole é uma iniciativa internacional com a participação de pesquisadores brasileiros, norte-americanos e ingleses, que vêm desenvolvendo estudos sobre adaptação às mudanças climáticas em áreas costeiras, inclusive contando com apoio da FAPESP – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. 

Os estudos aqui no Brasil estão sendo feitos em dois setores da cidade de Santos, considerados “contrastantes” pelos pesquisadores: a Zona Noroeste, uma área de manguezais ocupada por palafitas e sujeita a inundações frequentes, que inclusive criam diversos problemas para a entrada de veículos na cidade. A outra região é Zona Sudeste da cidade, num trecho que vai do Bairro do Gonzaga até a Ponta da Praia. 

De acordo com as conclusões de alguns trabalhos já finalizados, o nível médio do mar em Santos, quando comparado ao nível médio da década de 2000, deverá ficar até 18 centímetros mais alto em 2025; no ano de 2050, a elevação do nível do mar na cidade poderá chegar até 35 centímetros. Além da visível elevação do nível do mar, a região da Ponta da Praia também sofre há vários anos com fortíssimas ressacas – a faixa de areia neste trecho da orla desapareceu já há um bom tempo. Ressacas frequentes causam enormes transtornos e alagamentos na região, inundando as garagens subterrâneas de vários edifícios da orla e lançando dezenas de toneladas de areia nas calçadas e vias do bairro. 

Como os pesquisadores científicos, de um modo geral, são extremamente cautelosos ao anunciar as conclusões de suas pesquisas, ainda não é possível afirmar “cientificamente” que a recorrência das marés extremamente altas em vários pontos do litoral brasileiro estão diretamente ligadas ao tão propalado aquecimento global. As evidências visíveis das mudanças no padrão do oceano nessas regiões, entretanto, fazem crer que alguma coisa ‘grande” está em andamento. 

Bem diferente do que muitos podem imaginar, as mudanças climáticas não são bruscas e violentas, mas sim graduais e muito sutis. 

A PODEROSA TEMPESTADE CIARA

Tempestade Ciara

No último dia 9 de fevereiro, enquanto noticiávamos aqui no blog os sofrimentos de grandes cidades brasileiras com as enchentes de verão, grande parte da Europa sofria com uma das maiores tempestades do século, comparável somente a uma que caiu em 2013. Além da magnitude e grande área atingida, essa tempestade chamou atenção pela época inusitada de sua ocorrência em pleno inverno no Hemisfério Norte, o que mostra que o grande “relógio” climático do mundo está bem fora de sincronismo

A Tempestade Ciara, nome dado pelos meteorologistas europeus, provocou ventos de até 180 km/h, deixando um rastro de destruição, vítimas fatais e inúmeros problemas em diversos países da Europa: 

  • Em algumas partes da Inglaterra, o volume de chuvas em 24 horas foi o equivalente a um mês e meio. Mais de 180 alertas de inundação foram emitidos apenas no dia 9 – a foto que ilustra esta postagem, tão familiar em cidades brasileiras, mostra uma cena de alagamento numa cidade do país; 
  • Na França, cerca de 130 mil casas no Norte do país ficaram sem o abastecimento de energia elétrica, água e gás. Na região de Paris, estradas e ferrovias foram bloqueados por quedas de árvores. Centenas de voos foram cancelados; 
  • Mais de 600 km de congestionamentos foram registrados em estradas da Holanda. Mais de 220 voos foram cancelados no país; 
  • Na Alemanha, a circulação de trens em importantes ferrovias foi paralisada por falta de segurança. Quedas de árvores causaram inúmeros ferimentos em pedestres por todo o país. Um guindaste em Frankfurt foi derrubado pela força dos ventos, causado danos no teto de uma catedral. Mais de 700 voos foram cancelados em aeroportos de todo o país; 
  • Na Polônia, foram registrados ventos com velocidade acima dos 100 km/h. Uma mulher e filha foram mortas numa calçada após serem atingidas por um telhado de uma casa que foi arrancado pelo vento; 
  • Na República Checa, foram registrados ventos com velocidade de 180 km/h. Árvores foram arrancadas e feriram diversas pessoas – um homem morreu ao bater com seu carro contra uma árvore lançada pelo vento numa rodovia; 
  • Na Eslovênia, um homem morreu esmagado dentro do seu carro após ser atingido por uma árvore. 

Também foram registrados problemas na Suécia, Dinamarca, Luxemburgo, Noruega, Hungria e Ilha da Córsega, o que dá uma ideia da extensa área do continente atingida pela tempestade. Inúmeras cidades ficaram inundadas, com centenas de desabrigados e com diversos problemas nos sistemas de abastecimento de água, eletricidade, gás e transportes. 

Tempestade Ciara

A passagem da Tempestade Ciara chama a atenção pelo grande volume de estragos que provocou em países já preparados para a ocorrência de eventos climáticos extremos. Imaginem algo semelhante ocorrendo aqui no Brasil, onde nossas grandes cidades mal conseguem suportar as fortes chuvas típicas dos nossos verões. 

Eventos climáticos extremos fazem parte do “pacote” que vem junto com as mudanças climáticas globais. Precisamos nos preparar e adaptar a infraestrutura de nossas cidades (que em muitos, muitos casos mal existem) para esses novos e tumultuados tempos modernos.

“CHINA CONVOCA UM EXÉRCITO COM 100 MIL PATOS PARA COMBATER UMA NUVEM COM 400 BILHÕES DE GAFANHOTOS”

Patos x gafanhotos

O título da postagem faz referência a uma notícia divulgada nos últimos dias pelos principais meios de comunicação mundiais. Uma gigantesca nuvem com cerca de 400 bilhões de gafanhotos-do-deserto (Schistocerca gregaria) se encontra atualmente no Paquistão e se aproxima das fronteiras da China e da Índia, o que colocou esses países em estado de alerta máximo. Pode até não parecer, mas esse tipo de evento está associado a graves problemas ambientais. 

Os gafanhotos-do-deserto são encontrados em regiões desérticas e semiáridas da África, Ásia e Oceania. Parte dessa grande nuvem de insetos surgiu no final de 2019 no Leste da África, após uma temporada anormal de fortes chuvas. Conforme apresentamos em postagens anteriores, as mudanças climáticas globais estão aumentando as temperaturas do Oceano Índico, o que, por sua vez, tem provocado mudanças regionais no clima da África e da Ásia – algumas regiões sofrem com fortes secas e outras com fortes chuvas

A praga de gafanhotos começou atacando plantações na Etiópia e na Somália, ameçando também regiões vizinhas no Djibuti, Eritréia, Sudão do Sul e Sudão. De acordo com informações da FAO – Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, cada quilômetro quadrado de uma nuvem de gafanhotos pode conter até 150 milhões de insetos, que podem comer em um único dia o total de alimentos consumidos por 35 mil pessoas ao longo de todo um ano. Os gafanhotos conseguem viajar mais de 150 km a cada dia

Voando sobre o Sul da Península Arábica, essa nuvem de gafanhotos chegou ao Paquistão, distante mais de 3 mil km do Chifre da África, se juntando a uma outra nuvem de insetos vinda do Irã. O Governo do Paquistão, preocupado com os impactos dessa verdadeira “invasão aérea” sobre a produção de alimentos do país, vem bombardeando os gafanhotos com agrotóxicos lançados por aviões agrícolas. Essa medida não tem sido totalmente eficiente e a nuvem de insetos continua a avançar na direção das fronteiras com a China e Índia, dois países com populações gigantescas e que já dependem da importação de grandes quantidades de alimentos. 

Diferente dos seus vizinhos, os chineses optaram por uma estratégia “biológica” para combater a praga dos gafanhotos – o uso de aves domésticas, que comem grandes quantidades de insetos. No ano 2000, os chineses usaram essa mesma “técnica” para combater, com sucesso, uma outra invasão de gafanhotos. Há época, usaram forças “combinadas” de patos e galinhas. De acordo com informações dos chineses, cada uma dessas aves consegue comer até 400 gafanhotos por dia, sem qualquer risco de contaminação ao meio ambiente como nos casos de uso de agrotóxicos

De acordo com informações do Governo Chinês, esses patos foram treinados para perseguir e comer gafanhotos a partir de comandos feito por apitos. Emissoras de televisão da China divulgaram imagens de estradas do Oeste do país, próximas da fronteira com o Paquistão, tomadas por milhares de patos a caminho da “frente de batalha” (vide foto). 

Boa sorte e um bom apetite a todos esses patinhos. 

JARDINS VERTICAIS NA CIDADE DE SÃO PAULO – UMA IDEIA QUE “QUASE” DEU CERTO?

Jardim vertical do Minhocão

A ideia de se construir jardins elevados é bastante antiga – os míticos Jardins Suspensos da Babilônia talvez sejam um dos mais conhecidos e considerados uma das “Sete Maravilhas do mundo antigo”. O historiador romano Flávio Josefo (37-100 d.C), nos deixou descrições bem interessantes sobre esses jardins: 

Neste palácio ele (o rei Nabucodonosor) ergueu calçadas muito altas, sustentadas por pilares de pedra; e plantou o que foi chamado de paraíso suspenso, e encheu-o com todos os tipos de árvores, o que lhe rendeu a perspectiva exata de um país montanhoso. Ele fez isso para satisfazer sua rainha, pois ela havia sido criada em Media, e gostava de locais montanhosos.” 

Em tempos modernos, o pai da “matéria” é o botânico francês Patrick Blanc, que desde a década de 1980 começou a usar as fachadas de antigos edifícios para a criação de jardins verticais. Esses jardins são construídos a partir de uma estrutura metálica fixada na parede do prédio, na qual é fixado um suporte para solos férteis feito em tecido sintético, onde ficam as plantas. Esses solos recebem água e nutrientes através de um sistema por micro gotejamento. O resultado final são grandes painéis com centenas de metros quadrados cobertos por vegetação em meio a toda uma massa de edifícios “cinzas”. Eu tive a chance de conhecer vários exemplares desses jardins verticais em viagens ao exterior. 

O primeiro projeto para a construção de um jardim vertical na cidade de São Paulo foi desenvolvido em 2013 por uma empresa privada, em um edifício ao lado do Elevado Presidente João Goulart, o famoso “Minhocão”. Esse projeto foi financiado com verbas publicitárias de uma empresa do ramo de bebidas e ganhou uma enorme repercussão na mídia. Desde 2007, vigora na cidade de São Paulo a Lei Cidade Limpa, que passou a regulamentar a publicidade de rua na cidade e proibiu a veiculação de cartazes e outdoors nas ruas e avenidas. O uso de verba publicitária de uma empresa para financiar esse projeto foi uma estratégia inteligente para divulgar sua marca em meio às restrições impostas pela lei. 

A região de entorno do Minhocão, conforme apresentamos na postagem anterior, é uma das mais densamente povoadas da área central de São Paulo e também uma das mais deterioradas. Após a inauguração do Elevado em 1971, a poluição do ar e o barulho dos automóveis passou a afugentar os moradores e provocou uma grande desvalorização dos imóveis. Como ocorre em todo o centro de São Paulo, os trechos dos bairros de Vila Buarque, Santa Cecília e Campos Elísios, que são atravessados pelo Minhocão, são extremamente carentes de áreas verdes e sofrem, há muito tempo, com o efeito da Ilha de Calor Urbano

Uma característica arquitetônica dessa região são os edifícios antigos, onde se encontram uma grande quantidade de empenas cegas – paredes laterais sem aberturas como janelas, portas e varandas. De acordo com estudos feitos pela empresa que criou o primeiro jardim vertical na cidade, existem perto de 100 edifícios em condições para a instalação desses jardins na região de entorno do Minhocão, com potencial para abrigar 58 mil m² de áreas verdes

A repercussão altamente positiva criada pelo primeiro jardim vertical da cidade de São Paulo levou a Prefeitura da cidade a publicar o Decreto 55.994, que estendeu a construção e a manutenção dessas áreas verdes como uma forma de compensação ambiental para as empresas que receberam multas da Secretaria de Meio Ambiente. Essas multas normalmente geram um TAC – Termo de Ajuste de Conduta, onde a empresa assume algum mecanismo de compensação ambiental como forma de remediar os danos criados. Esse foi o “pulo do gato” para se financiar diversos projetos de jardins verticais na cidade. Somente na região do Minhocão foram 7 projetos. 

Os bons ventos ambientais continuaram soprando com força na região: em 2016, o então prefeito de São Paulo, Fernando Hadad, anunciou um projeto que transformaria o Elevado Presidente João Goulart em um parque elevado em pleno coração da cidade, a exemplo do High Line de Nova York. Como raramente acontece na política brasileira, o novo Prefeito da cidade, Bruno Covas, comprou a ideia e muito se esforçou para levar adiante o projeto do Parque do Minhocão. Infelizmente, conforme já comentamos anteriormente, a ideia não avançou. 

O projeto dos jardins verticais, que animou muita gente na região, também começou a patinar. O Ministério Público de São Paulo entendeu que o uso dos jardins verticais não poderia ser usado como um mecanismo de compensação ambiental. Empresas de construção civil, citando um exemplo, são obrigadas a cortar árvores em terrenos onde vão construir edifícios. Nesses casos, elas são obrigadas a replantar árvores em locais indicados pelos órgãos públicos como forma de compensação ambiental. No entendimento do Ministério Público, a vegetação plantada nos jardins verticais não substitui as funções das árvores em processos de fotossíntese, sequestro de carbono e evapotranspiração

Um outro problema surgiu nas parcerias entre as empresas construtoras e mantenedoras dos jardins verticais e a Prefeitura da São Paulo. Nos acordos firmados, os edifícios que cederam suas paredes para a instalação dos jardins verticais não arcariam com nenhum custo financeiro – todos as despesas com a instalação, manutenção, energia elétrica e água seriam arcados por uma empresa técnica responsável em parceria com a Prefeitura. Foi justamente aqui que começaram a surgir os problemas – nem a Prefeitura nem a empresa “dita” responsável conseguiu realizar a contento a manutenção dos jardins verticais. Muitos dos edifícios acabaram assumindo os custos com a água e energia elétrica, o que segundo informações de alguns síndicos chega a ter um custo próximo de R$ 20 mil por mês. 

Muitos desses jardins acabaram sendo abandonados e se transformaram em um grande painel vertical de folhas e galhos secos. Muitos moradores dos edifícios passaram a reclamar de invasões de grilos, gafanhotos e outros insetos em seus apartamentos, passando a exigir a remoção imediata dos esqueletos desses jardins verticais. O próprio Corpo de Bombeiros do Estado de São Paulo passou a enxergar essas estruturas abandonadas como uma perigosa fonte de riscos de incêndios para os edifícios. 

Desde meados de 2019, diversos condomínios entraram com ações na Justiça pedindo o cancelamento dos convênios assinados com a Prefeitura de São Paulo e exigindo a remoção do que sobrou dos jardins verticais das paredes de seus edifícios. Esse trágico desfecho da história dos jardins verticais na região do Minhocão se junta a outra página da mesma história – a Prefeitura da cidade de São Paulo, acuada por uma série de problemas jurídicos, também resolveu engavetar, por tempo indeterminado, o projeto de criação do Parque Elevado do Minhocão. 

Os problemas ambientais são encontrados por todos os lados em cidades grandes como São Paulo, onde destacamos os resíduos sólidos e os entulhos criados pela construção civil, as enchentes, a ocupação de encostas de morros, as Ilhas de Calor Urbanos, entre muitos outros. Sempre que alguém surge com uma nova ideia que tem potencial para resolver algum desses problemas, aplaudimos com muita alegria. 

Infelizmente, nem sempre essas boas ideias se mostram efetivamente tão boas como imaginávamos. Uma grande pena.

PARQUE ELEVADO DO MINHOCÃO, UMA DOCE UTOPIA PAULISTANA

Minhocão

O renascimento do rio Cheonggyecheon e a criação de um fantástico parque linear no centro da cidade de Seul, na Coreia, foi tema de uma postagem recente e um exemplo do que pode ser feito para melhorar uma área urbana altamente degradada e poluída. Para a realização dessa complexa obra, a Prefeitura de Seul primeiro teve de trabalhar para desmontar e remover uma imensa via elevada com perto de 5 km de extensão, Só depois desse trabalho monumental é que foi possível reverter a canalização do rio Cheonggyecheon e construir o parque linear. 

A semelhança de Seul, o centro da cidade de São Paulo também possui uma problemática via elevada – o Elevado Presidente João Goulart, mais conhecido entre os paulistanos como “Minhocão”. Na falta de espaço no meio urbano para construir uma avenida convencional, os planejadores urbanos de então optaram por construir um elevado com 3,5 km de extensão através de uma área predominantemente residencial. Essa via foi inaugurada em 1971 e passou a funcionar como um eixo de ligação entre as Zonas Leste e Oeste da cidade.  

Com a chegada do Minhocão e de seus milhares de automóveis circulando incessantemente 24 horas por dia, a então elegante região que englobava partes da Vila Buarque, Santa Cecília e Campos Elísios, iniciou um lento e gradual processo de desvalorização imobiliária e de decadência urbana. A certa altura, a Prefeitura de São Paulo chegou a proibir o tráfego de veículos na pista elevada entre as 10 horas da noite e as 6 horas da manhã, numa tentativa de frear a decadência da região, mas já era tarde demais. 

Há poucos anos atrás, enfim, surgiu uma boa notícia para a região do entorno do Minhocão – um ramal da rede de trens urbanos que cruza a região central de São Paulo, num percurso quase paralelo ao do Minhocão, seria desativado e os terrenos poderiam ser usados na construção de uma avenida de ligação Leste-Oeste. Com essa nova avenida, os carros que hoje circulam através do Minhocão poderiam ser desviados e o desastroso viaduto poderia, enfim, ser desativado. 

Começaram então as discussões sobre qual seria o melhor fim a se dar para o grande “esqueleto de dinossauro” em pleno centro de São Paulo. Uma das alternativas – a demolição total do viaduto, foi defendida por muita gente. Porém, ela esbarra em um grande problema logístico: o transporte de milhares de toneladas de resíduos sólidos. No caso de Seul, a demolição do viaduto gerou cerca de 620 mil toneladas de resíduos, onde perto de 75% foram reciclados e reutilizados na construção do parque linear do Cheonggyecheon 

No caso do minhocão, a Prefeitura não prevê a construção de nenhuma grande obra no lugar, onde parte dos resíduos poderiam ser reutilizados. Restaria então a necessidade de transportar todo o material gerado pela demolição para uma área de descarte. Lembro que há época das primeiras discussões sobre essa possibilidade, as estimativas falavam de custos de transporte entre R$ 150 e R$ 200 milhões. Isso sem contar os custos de demolição do viaduto. 

Uma outra ideia bem interessante que surgiu ao longo das discussões foi a de se manter o Minhocão em pé, transformando o seu leito em um grande parque linear elevado. A ideia foi inspirada no High Line, um parque elevado de Nova York que foi construído em um antigo viaduto desativado da cidade. Esse parque ocupa uma área total de 3,75 km², sendo que o trecho do elevado tem uma extensão de 2,5 km. O parque foi inaugurado em 2009 e é um sucesso de crítica e público. 

Maquetes virtuais, reportagens e muitas ilustrações mostrando a “nova cara” do Minhocão rapidamente começaram a circular pelos noticiários e redes sociais, o que deu um novo ânimo para muitos dos moradores que ainda insistiam em continuar vivendo nas áreas do entorno. Aqui é importante citar que já há muitos anos, o Minhocão é fechado durante os finais de semana e transformado em uma área de lazer. Paulistanos de todas as idades se dirigem para as pistas fechadas com skates, bicicletas, patinetes e até mesmo a pé para curtir o espaço (vide foto). Surgiram bares e restaurantes ao lado das rampas de acesso justamente para atender esse “novo público”

Um dos espaços mais interessantes criados por esse novo uso esporádico do Minhocão aos finais de semana é um teatro que foi montado num apartamento no terceiro andar de um edifício com a fachada voltada para a via elevada. Nas janelas desse apartamento, grupos de atores realizam performances gratuitas para o público. Para esse grupo de usuários do Minhocão, a construção de um parque elevado seria a “8° maravilha do mundo paulistano”. 

Infelizmente, no caminho desse sonho da população existem inúmeros interesses de comerciantes, empresários e até mesmo de moradores da região, os quais acreditam que a remoção da pista elevada vai reduzir o número de veículos em circulação na região central da cidade e, consequentemente, diminuirá o número de clientes de suas respectivas empresas. Inúmeras ações contra a desativação do viaduto e construção do parque elevado passaram a ser protocoladas na Justiça. A Prefeitura da cidade de São Paulo, que em 2016 havia anunciado a construção do parque e em fevereiro de 2019 já pretendia fechar um trecho de 900 metros do viaduto, foi obrigada a anunciar em novembro de 2019 a suspensão do projeto. 

O principal estopim para se chegar a essa decisão foi um pedido do Procurador-geral da Justiça do Estado de São Paulo, que ingressou com uma ação judicial pedindo a inconstitucionalidade da lei que criou o parque suspenso. Entre os principais motivos alegados houve “falta de um estudo urbanístico capaz de prever os impactos da medida no conjunto da cidade”. É bastante difícil de se prever quais serão os rumos desse projeto daqui para a frente, mas sabemos com toda a certeza que se levarão alguns anos para se chegar a uma conclusão. 

O imbrólio criado para a transformação do caótico Minhocão em um parque elevado nos dá uma ideia cristalina das dificuldades criadas para se tentar resolver qualquer tipo de problema que afeta a população. Uma obra importante, bonita e com grande aceitação pela população não pode avançar por causa de burocracia. Para que todos tenham uma ideia do significado desta obra – o autor da ideia foi Fernando Hadad, ex-prefeito da cidade que é do PT – Partido dos Trabalhadores; quem está tentando viabilizar o projeto é Bruno Covas, que é do PSDB. Se é possível que dois partidos políticos que se odeiam consigam chegar a um entendimento sobre um projeto urbano, por que não o resto?

A construção maciça de edificações e a impermeabilização em grande escala dos solos das cidades está provocando o efeito das Ilhas de Calor Urbano em grandes cidades de todo o mundo. Entre outros problemas, as Ilhas de Calor tendem a provocar fortes chuvas nas áreas centrais de grandes cidades em regiões de clima Tropical e Subtropical. Em cidades de regiões frias, o efeito se dá na formação de invernos menos frios. A área central da cidade de São Paulo é, frequentemente, assolada por fortes tempestades nos meses de verão, sofrendo muito com enchentes e alagamentos. 

Conforme comentamos em postagem anterior, o centro paulistano chega a ter temperaturas até 10° C maiores que as encontradas nos extremos da Zona Sul, onde fica a Serra do Mar, e da Zona Norte, onde encontramos a Serra da Cantareira. Um outro problema grave é geração do ozônio, um gás altamente tóxico, que se dá por reações químicas entre os diferentes gases liberados por escapamentos de veículos e fábricas. A criação desse parque suspenso traria uma animadora contribuição para a suavização desses problemas, além de contribuir na retenção temporária de parte das águas pluviais

Paulistanos, porém, são criaturas que se adaptam facilmente às situações mais adversas. Enquanto o parque elevado do Minhocão não vem, começaram a surgir diversos jardins verticais nas fachadas de muitos edifícios da região de entorno da pista elevada. Além de tornar a região mais bonita, esses jardins dão sua pequena contribuição para a melhoria do clima local. 

Falaremos disso na próxima postagem.