FOGO, AGRICULTURA, PECUÁRIA, INTRODUÇÃO DE ESPÉCIES INVASORAS E MINERAÇÃO: AS MUITAS FACES DA QUESTÃO AMBIENTAL NA AUSTRÁLIA

Coala

O continente australiano vem sofrendo, há mais de 250 anos, com a introdução maciça de espécies animais e vegetais em suas terras. Isolada do resto do mundo por dezenas de milhões de anos, a Austrália desenvolveu uma flora e fauna absolutamente exclusiva e diferente daquela de outras partes do mundo. Essa exclusividade, entretanto, se transformou numa espécie de “calcanhar de Aquiles” da vida natural do país. Com a chegada de animais e plantas exóticas, as espécies nativas começaram a perder espaço, com algumas espécies, inclusive, entrando em extinção ou sofrendo expressivas diminuições em suas populações. 

A introdução de espécies invasoras não é o único problema enfrentado pela Austrália – assim como ocorre há vários séculos em países de colonização relativamente recente como é o caso do Brasil, o continente australiano também sofre com a derrubada de florestas para a criação de campos agricultáveis e criação de gado, além de abrigar grandes projetos de mineração. 

Cerca de 80% do território da Austrália é formado por terrenos semiáridos e desérticos, onde as opções de produção agrícola e pecuária são bastante limitadas. Com solos pobres, clima extremamente árido e com baixa disponibilidade de água, essas extensas regiões possuem uma densidade populacional das mais baixas do país. As áreas cobertas por florestas se concentram numa pequena faixa no Norte do país e, principalmente, numa longa faixa de terras que abrange as regiões Sul, Sudeste e Leste do continente. Com clima ameno e boa disponibilidade de água, essa região meridional da Austrália concentra a grande maioria da população e as principais atividades econômicas do país: a agricultura, a pecuária e, mais recentemente, a indústria. 

Notícias sobre uma grande terra localizada nos mares do Sul circulavam na Europa desde o início da Era Cristã. Os primeiros navegadores europeus que atingiram o mítico continente no século XVII foram portugueses e holandeses, que aportaram nas costas áridas do Noroeste australiano, sem demonstrar maiores interesses pelas novas terras. Em 1770, James Cook desembarcou nas verdejantes costas do Leste da Austrália, batizadas com o nome de Nova Gales do Sul, reivindicando as terras em nome da Coroa da Inglaterra. A primeira leva de colonos ingleses chegou a Austrália em 1788, naquela que entrou para a história com o nome de First Fleet (Primeira Frota). Esses colonos desembarcam em Botany Bay, nas proximidades da atual cidade de Sydney

Desde aqueles primeiros anos da colonização, as densas florestas de eucaliptos do Leste e Sul da Austrália vem cedendo espaços para a criação de campos para a agricultura e pastagens para a criação de gado bovino e ovelhas. O país é atualmente o 6º maior produtor de carne bovina e o maior produtor mundial de lã. A Austrália produz cerca de 100 milhões de toneladas de alimentos a cada ano, principalmente, trigo, aveia, cevada, cana-de-açúcar, bananas e frutas cítricas. O país também é um grande produtor de algodão e tabaco

Esses são números impressionantes para um país que dispõe de apenas 2% de terras próprias para agropecuária em seu território. É justamente aqui onde “mora o perigo” – existe uma enorme pressão para expansão de campos agrícolas e pastagens, o que tem levado a uma intensa derrubada de matas nativas. 

De acordo com informações do WWF – World Wide Fund for Nature, uma das maiores organizações ambientalistas do mundo, cerca de 395 mil hectares de matas nativas do Estado de Queensland foram devastadas entre 2015 e 2018 com o objetivo de ampliar a produção agrícola e pecuária. De acordo com a organização, cerca de 45 milhões de animais que viviam nessas matas morreram, incluindo-se na lista coalas, répteis, mamíferos e pássaros

Os coalas, mamíferos marsupiais exclusivos da Austrália, acabaram transformados em uma espécie de símbolo da devastação ambiental no país. Esses animais vivem nas matas de eucalipto e se alimentam exclusivamente das folhas dessas árvores (vide foto). Nos incêndios que vêm devastando as matas australianas nesses últimos meses, a imagem do salvamento de coalas das chamas tem comovido pessoas no mundo inteiro. A devastação crescente dessas florestas tem resultado num declínio gradual das populações de coalas – de acordo com projeções da WWF, se nada for feito, os coalas estarão “funcionalmente extintos” em menos de 50 anos. 

Um estudo do grupo de defesa ambiental TWS – The Wilderness Society, publicado em agosto de 2019, fez uma verdadeira radiografia das causas do desmatamento na Austrália. Analisando relatórios dos desmatamentos no país entre 2013 e 2018, período em que a Austrália perdeu 1,6 milhão de hectares de florestas, o grupo descobriu que 73% dessa perda florestal teve como objetivo o aumento das áreas de pastagens para a criação de gado. Na faixa Leste do país, onde se localiza a Grande Barreira de Coral, o maior sistema de corais do mundo, essa perda foi ainda maior – 94% dos desmatamentos foram relacionados com o aumento das áreas de pastagens para a criação de bovinos e ovelhas

À toda essa perda recente de cobertura vegetal precisam ser somados os mais de 6 milhões de hectares de florestas que já foram destruídos pelos incêndios que vem assolando grandes regiões do país desde o último mês de setembro. Serão necessários vários meses, quiçá anos, para se ter uma noção exata dos impactos de todas essas perdas na biodiversidade do país e, especialmente, no abastecimento de água de grandes cidades

Outro setor da economia que produz importantes impactos ao meio ambiente e que não podemos deixar de citar é a mineração. A Austrália é uma grande produtora de minério de ferro, carvão, bauxita, chumbo, prata, níquel, cobre, urânio e ouro. Recentemente, a Suprema Corte da Austrália suspendeu a implantação de um grande projeto de mineração no Estado de Queensland. O projeto, batizado de Mina Carmichael, previa a produção de 60 milhões de toneladas de carvão térmico por ano, a construção de uma ferrovia com 189 km, além da ampliação de um porto de carvão em Abbot Point.

Em um país sem grandes rios e dependente da energia elétrica gerada em centrais térmicas movidas a carvão, essa produção do insumo seria de grande importância estratégica e econômica. Havia também a expectativa de criação de 10 mil empregos diretos e indiretos. Apesar desses números vistosos, esse projeto de mineração ficaria localizado as margens de importantes rios com foz no litoral Leste do país e implicava em graves riscos ambientais para a Grande Barreira de Coral, motivo mais que suficiente para que a Justiça proibisse a sua implantação. 

Segundo a opinião de muitos especialistas em meio ambiente, clima e em florestas da Austrália, a grande intensidade dos incêndios florestais nesta última temporada está diretamente associada aos desmatamentos no país. Com o corte acentuado de árvores e a fragmentação cada vez maior das florestas, a vegetação está ficando mais seca e, portanto, mais susceptível a incêndios mais intensos. Incêndios florestais naturais fazem parte da ecologia australiana há milhares de anos e plantas e animais estão adaptados a esses eventos, algo muito parecido com o que ocorre no Cerrado brasileiro. O que vem se observando, entretanto, é que a capacidade das plantas em resistir ao fogo intenso está diminuindo, o que resulta na destruição completa de muitos habitats. 

Notícias sobre a destruição e queimadas na Amazônia ocupam importantes espaços nos jornais e redes sociais de todo o mundo, colocando o Brasil na lista dos grandes “vilões” da ecologia mundial. Já a Austrália, um país considerado desenvolvido, membro do Commonwealth (comunidade dos países britânicos) e nação bastante amiga das grandes potências mundiais, raramente é lembrada quando se fala em graves agressões ao meio ambiente, que infelizmente são muitas no país. 

Alguma coisa está muito errada, não acham? 

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