O BOM E VELHO POÇO

Cemitério Nova Orleans

Você deve ter estranhado imensamente a foto que ilustra este post: um cemitério alagado quando o tema proposto são os poços. Explico: a imagem apresentada é de um cemitério da cidade de Nova Orleans, sul dos Estados Unidos. A famosa capital do jazz, fundada por cadiens (imigrantes franco-canadenses) às margens do Rio Mississipi em 1764, sempre foi sujeita a inundações e seus habitantes adaptaram suas vidas a esse fenômeno: entre outras particularidades da cidade, os túmulos dos cemitérios são elevados para evitar que as águas das cheias anuais atinjam os caixões dos mortos. Pela mesma razão, os poços dos cajuns (anglicização moderna para a palavra cadiens) possuem altas muretas aos redor da abertura.

A gigantesca Bacia Amazônica compartilha muitas similaridades com a do Rio Mississipi, inclusive no tocante às cheias anuais. Na época do inverno amazônico, as fortes chuvas também elevam muito o nível do lençol freático (águas acumuladas próximas a superfície do solo e acima da camada impermeável de rochas do subsolo) – cavando-se uns poucos centímetros na terra, se encontrará água. A referência que fiz aos cemitérios de Nova Orleans tem uma fortíssima razão – no período em que morei na região amazônica ouvi mais de uma vez relatos de moradores que, ao acompanharem enterros no período das chuvas, viram os caixões sendo mergulhados nas águas do lençol freático, que inundaram rapidamente a cova.

Citei esse caso dramático para chamar a atenção para o problema de contaminação do lençol freático – a possibilidade de um eflúvio contaminante vindo de um destes cemitérios chegar até um poço é bastante pequena; porém, há uma possibilidade muito grande de contaminação cruzada: no mesmo terreno que um desses “amazônidas” cava um poço, ele também cava uma fossa – na época das cheias há uma troca de fluídos entre as duas escavações com grande possibilidade de contaminação da água do poço, essencial para o abastecimento das famílias.

Falar de abastecimento com água de poços é fundamental uma vez que 30 milhões de brasileiros residem em locais sem redes de abastecimento; em muitas localidades onde existem redes instaladas, o fornecimento de água é irregular e as famílias costumam manter poços ativos nos terrenos para uso nos dias de falta de água.

Em geologia, considera-se um poço a obra de captação de água subterrânea feita com o emprego de perfuratriz ou através de escavação manual em furo vertical. Em algumas regiões do nordeste do Brasil, quando cavado na rocha ou originado das cheias dos rios, denomina-se cacimba; na Amazônia costuma-se chamar de cacimbão e em São Paulo chamamos de poço caipira. As instalações são conhecidas tecnicamente como poço semi artesiano, que são aqueles onde a água utilizada vem do lençol freático. Poços mais profundos e muito mais seguros no quesito qualidade da água são chamados de poços artesianos – esse poços captam a água de profundidades maiores, abaixo da camada impermeável de rochas do subsolo.

Apesar da larga utilização, a água de poços usada no abastecimento requer cuidados, uma vez que os riscos de contaminação são muito grandes. Descarte irregular de lixo doméstico e, especialmente, industrial podem gerar efluentes como o chorume, poderoso contaminante das águas do subsolo e causador de problemas de saúde nas populações que consomem a água dos poços. Na cidade de São Paulo, por exemplo, o lençol freático é altamente contaminado por chorume, esgotos, produtos químicos de aterros clandestinos e, inclusive, com gasolina e outros combustíveis que vazam de tanques sem manutenção dos postos de abastecimento – de quando em vez reportagens mostram moradores incendiando a água retirada de poços.

Caso a sua residência seja abastecida com água vinda de um poço semi artesiano, preste muita atenção em qualquer fonte de contaminação nas redondezas. Filtre ou ferva sempre a água, além de desinfetar com hipoclorito de sódio Continuaremos no próximo post.

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