AMAZÔNIA SUSTENTÁVEL: AS DELICIOSAS CASTANHAS-DO-PARÁ

Um produto amazônico dos mais conhecidos no Brasil e no mundo é a castanha-do-pará, que no exterior é designada simplesmente como Brazil nut ou castanha do Brasil. O país produz cerca de 40 mil toneladas de castanhas por ano, sendo que mais de 90% dessa produção é exportada com casca e desidratada, o que é conhecido como castanha dry. Os nossos principais mercados são Europa, Estados Unidos, México, Japão, Argentina e países árabes como Tunísia e Arábia Saudita. 

Ironicamente, o maior produtor e exportador mundial das “castanhas do Brasil” é a Bolívia, país vizinho que tem parte importante do seu território coberto pela Floresta Amazônica. Os bolivianos chamam as castanhas de almendras, nuez amazónica e nuez boliviana. O Estado do Amazonas é o maior produtor brasileiro de castanhas, respondendo por cerca de 37% da produção, sendo seguido pelo Acre e pelo Pará.

A castanheira (Bertholletia excelsa) é uma das maiores árvores da Floresta Amazônica, com uma altura média superior aos 30 metros e com diâmetro de tronco entre 1 e 2 metros. Há notícias de exemplares da árvore com mais de 50 metros de altura e com diâmetro de tronco de 5 metros. O fruto da castanheira é uma espécie de coco ou ouriço, com casca muito dura e onde se encontram de 8 a 24 sementes, que são as castanhas. A castanheira é uma das árvores mais longevas da Floresta Amazônica – pesquisadores já identificaram espécimes com idade de mais de 800 anos. 

A árvore é nativa da Floresta Amazônia, sendo encontrada em todos os países amazônicos: Brasil, Bolívia, Equador, Peru, Colômbia, Venezuela, Guiana, Suriname e Guiana Francesa. Atualmente, as maiores concentrações de castanheiras estão na Bolívia e no Suriname. No Brasil, os desmatamentos em grandes trechos da Floresta Amazônica provocaram o rareamento da espécie. 

Além da Bolívia, países como o Peru e o Equador também têm uma produção significativa de castanhas-do-pará. Na lista de países produtores também se incluem a Costa do Marfim, no Oeste da África, e a Indonésia, no Sudeste Asiático. Apesar da boa adaptação das castanheiras ao clima e solos desses países, a produção é bem menor devido à existência de poucas espéceis de insetos polinizadores adaptados às características peculiares da flor da castanheira.

Essas flores são amarelas e possuem uma espécie de capuz, que só um inseto suficientemente forte consegue levantar. O interior dessas flores também apresenta uma complexa estrutura em espiral, o que requer um inseto com uma língua comprida para fazer a polinização. Entre os insetos que aliam estas duas características estão as abelhas dos gêneros Bombus, Centris, Epichans, Eulaema e Xylocopa.  

Muitas espécies de abelhas, como é o caso das abelhas-das-orquídeas, são atraídas para as castanheiras pelo forte cheiro exalado por algumas espécies de orquídeas que vivem no seu caule – essas abelhas também acabam polinizando as flores das árvores. Todos esses insetos precisam de um ambiente florestal bem conservado para sobreviver e sem a sua polinização as castanheiras não produzem sementes. O extrativismo racional da castanha-do-pará, além de sua grande importância como atividade econômica para as populações tradicionais, é fundamental para a preservação da Floresta Amazônica e de todas essas espécies de insetos.

Após a polinização das suas flores, as castanheiras irão precisar entre 12 e 15 meses para desenvolver os ouriços e amadurecer as suas sementes. Quando os ouriços maduros caem no solo da floresta, entram em cena pequenos roedores como as cutias (existem diversas espécies) e esquilos como o caxinguelê (Sciurus aestuans). Esses animais roem a casca dos ouriços para se alimentar das castanhas, atuando assim como dispersores das sementes, que gerarão novas árvores. Quando matas são devastadas, as castanheiras sobreviventes perdem os seus “pequenos sócios” que fazem esse importante trabalho de renovação das árvores. 

A castanha-do-pará é um alimento rico em proteínas vegetais e gorduras, sendo considera por muitos como uma espécie de “carne vegetal”. Entre 12 e 17% de sua composição é formada por proteínas e outros 69% são gorduras, A semente também é rica em vitaminas e sais minerais como o selênio, um elemento associado à prevenção de doenças como o câncer.  

De acordo com estudos na área de tecnologia de alimentos da EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, do Acre, o selênio tem atuação nos chamados radicais livres, atuando na prevenção do envelhecimento precoce. Pesquisadores da USP – Universidade de São Paulo também trabalham com a castanha-do-pará, usando alguns elementos presentes nas sementes para o desenvolvimento de antibióticos. 

Além da produção das castanhas para consumo in natura, as sementes também podem ser processadas e transformadas em farinha, um ingrediente usado na produção de leite, sorvetes, doces e salgados. As castanhas também podem ser prensadas para a extração de um óleo de excelente qualidade e que é utilizado como matéria prima de produtos farmacêuticos e cosméticos como xampus e sabonetes. Esse óleo também tem aplicações na culinária amazônica substituindo o azeite de oliva

A EMBRAPA vem trabalhando em projetos para aumentar a produção e também para estimular o consumo interno da castanha-do-pará e dos seus derivados no mercado brasileiro. As castanhas ainda são consideradas produtos de luxo e caros, sendo consumidas apenas em ocasiões especiais como as festas de fim de ano. No caso do óleo de castanha, questão é mais complexa – o produto estraga rapidamente caso não seja guardado em uma embalagem opaca e bem vedada, um problema que ainda exigirá muitos estudos para ser solucionado. 

A colheita dos ouriços da castanha-do-pará é feita no período da seca, o chamado verão amazônico. Os ouriços maduros costumam cair das árvores nos meses de janeiro e fevereiro. Devido à casca dura dos ouriços, as sementes podem levar até 15 meses para começar a germinar. Os extrativistas entram nas matas carregando um grande cesto feito de fibras naturais preso às costas e usam um bastão com pontas múltiplas para “agarrar’ os ouriços (vide foto). 

Nas cooperativas, os ouriços são abertos a golpe de fação ou de machadinha. Conforme a demanda, as castanhas com casca serão embaladas e preparadas para a venda ou serão descascadas para a produção da farinha e do óleo. Os ganhos obtidos pelas cooperativas são divididos proporcionalmente entre os associados em função dos volumes individuais de produção. 

De acordo com informações de pesquisadores do Museu Paraense Emílio de Goeldi, as castanheiras amazônicas se adaptam facilmente a climas diferenciados, resistindo bem a períodos de frio, calor, seca e umidade. Um exemplo disso foi o início da produção de castanhas-do-pará no Estado de Minas Gerais em 2019, num experimento realizado pela Universidade de Lavras. O plantio das castanheiras no campo experimental da universidade começou em 1996. 

Ainda segundo as informações do Museu Paraense Emílio de Goeldi, as castanheiras têm um crescimento rápido e podem ser uma ótima alternativa para a recuperação de áreas degradadas pela mineração, pela agricultura e também pela pecuária. Atuando como espécie pioneira, as castanheiras fornecem uma sombra que permite o crescimento de outras espécies de árvores de desenvolvimento mais lento, criando assim condições para a recuperação de grandes áreas florestais. As árvores também geram grandes volumes de folhas mortas e galhos, que caindo sobre o solo gerarão nutrientes para outras plantas. 

Áreas desmatadas e degradadas não faltam na Amazônia – existem estimativas que falam de 20 milhões de hectares de terras nessa situação. Essa é mais uma ótima alternativa para uma produção cada vez mais sustentável na Amazônia

AMAZÔNIA SUSTENTÁVEL: OS BÚFALOS ”QUASE NATIVOS” DA FLORESTA AMAZÔNICA

Búfalos e bois pertencem a uma mesma subfamília de animais – a dos bovinos ou bovinae, nome científico em latim, onde se incluem cerca de 24 espécies agrupadas em 9 gêneros. Apesar das grandes semelhanças entre as diferentes espécies de bovinos, os especialistas ainda não têm certeza sobre as razões evolutivas que levaram a uma diversificação tão grande da “família”. 

Uma das diferenças mais marcantes entre bois e búfalos está ligada ao ambiente onde os animais costumam viver. Enquanto bois preferem solos secos, os búfalos se sentem à vontade em terrenos úmidos e brejosos, onde se valem dos seus cascos largos e espalmados, que permitem que caminhem com mais facilidade e sem afundar na lama. 

Um dos casos mais interessantes da convivência dessas duas espécies de animais é a Índia, país que possui enormes rebanhos de bovinos e de bubalinos. Por razões que não fazem muito sentido para nós estrangeiros, os indianos hinduístas consideram bois, vacas e touros animais sagrados. Já os pobres búfalos são animais usados no transporte de cargas e em outros serviços pesados. Também são os búfalos os provedores de carne para algumas populações e, especialmente, para exportação pelo país.  

A Índia é, ironicamente, a maior exportadora de carne vermelha do mundo, predominantemente carne de búfalos. Essas exportações, inclusive, superam a de países como o Brasil e a Austrália, grandes produtores de carne. Os frigoríficos ficam localizados nos Estados do Sul do país, onde a imensa maioria da população segue outras religiões. 

Os búfalos (Bubalus bubalis) são originários da Ásia e ainda hoje podem ser encontrados em estado selvagem em áreas pantanosas da Índia, Nepal, Butão e países do Sudeste Asiático como Tailândia, Indonésia, Malásia e Myanmar. Também existem búfalos selvagens na Austrália, onde a espécie foi introduzida no século XIX. O animal pode superar o peso de 1,2 tonelada e atingir um comprimento de 3 metros. 

Registros históricos falam da domesticação dos búfalos há mais de 5 mil anos atrás, quando ele se tornou uma importante fonte de carne, leite e couro. Os búfalos também se prestam a trabalhos como animal de carga, de montaria, de tração para arados agrícolas entre outras funções. 

O sabor e a aparência da carne dos búfalos são quase idênticos à dos bovinos, porém, possui 40% menos colesterol, 12 vezes menos gordura, 55% menos calorias, 11% mais proteínas e 10% mais minerais. Esses são apelos muito fortes para aqueles consumidores que buscam uma vida mais saudável a partir de uma boa alimentação. 

Ao longo da história, os búfalos foram levados da Ásia para a África, Austrália, Europa e, bem mais recentemente, para as Américas. De acordo com a tradição popular da Amazônia, principalmente da ilha do Marajó no Pará, os búfalos chegaram na região depois do naufrágio de uma embarcação de transporte de animais que havia acabado de zarpar da Guiana Francesa. Os animais teriam nadado na direção das praias das ilhas do Arquipélago de Marajó e acabaram “colonizando” todo o seu território. 

De acordo com a EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, a história real é um pouco destoante dessa “lenda”. Os animais foram na verdade importados por um criador local de nome Vicente Chermont de Miranda. O primeiro lote de de animais da raça Mediterrânea foi trazido diretamente da Itália em 1895.  

Com mais de 40 mil km², a Ilha do Marajó é a principal do arquipélago e tem o tamanho do Estado do Rio de Janeiro, sendo considera a maior ilha fluviomarítima do mundo. Formada ao longo das eras pelo acúmulo de sedimentos carreados pelas águas do rio Amazonas, a Ilha do Marajó apresenta uma espécie de mosaico com todos os subsistemas florestais do bioma amazônico com áreas de várzeas, campos, matas, manguezais, restingas, entre outros. Esses ambientes são quase idênticos aos encontrados nas florestas do Sul e Sudeste da Ásia, o que fez os búfalos se sentirem praticamente em sua terra natal. 

Existem cerca de 600 mil búfalos vivendo na Ilha do Marajó, o que supera em número a população de marajoaras, estimada em 533 mil habitantes. A criação dos animais é uma das principais atividades econômica da ilha. Apesar do grande rebanho de animais, os impactos ambientais provocados pelos búfalos na Ilha do Marajó foram muito pequenos nesses quase 130 anos da introdução da espécie na região. 

Ao contrário dos rebanhos bovinos, que necessitam de pastagens e espaços abertos, os bubalinos vivem perfeitamente nos ambientes naturais das várzeas e dos campos amazônicos. Por ser uma espécie adaptada a ambientes aquáticos, os búfalos não sentem os impactos do período das cheias como os bovinos, que precisam ser transferidos para terras mais altas e secas a exemplo do que acontece na região do Pantanal Mato-grossense

Além da Ilha do Marajó, a Amazônia possui grandes áreas de várzeas inundáveis com grande potencial para a exploração pecuária de búfalos. Um exemplo são grandes trechos do Médio e Baixo rio Amazonas, onde ocorre uma diferença de mais de 5 metros no nível das águas entre a época mais seca do ano, que vai de novembro a dezembro, e a mais chuvosa, que vai de maio a junho. Quando as águas baixam, os solos são cobertos por uma abundante vegetação de plantas forrageiras de alto valor nutritivo. 

Entre as plantas forrageiras que abundam nessas áreas alagáveis, a EMBRAPA destaca as gramíneas dos gêneros Echinochloa, Hymenachne, Leersia, Luziola, Paspalum, Oryza, Panicum, Eriochla e Paratheria. Além de nutritivas, essas plantas são consideradas “anfíbias” por sobreviverem flutuando ou mesmo submersas sob as águas na época das cheias, o que garante que os búfalos tenham uma boa disponibilidade de alimentos durante todo o ano. Os animais também buscam seus alimentos nas áreas de campos naturais, ambiente que também é encontrado em toda a Amazônia. 

Dos cerca de 58 milhões de hectares desmatados na região da Floresta Amazônica em décadas recentes, perto de 15 milhões de hectares tinham como finalidade a criação de grandes fazendas para a criação de gado. Uma das áreas mais afetadas por esses desmatamentos foram as faixas Leste e Sudeste do Pará. Muitos desses empreendimentos não conseguiram prosperar devido à baixa fertilidade dos solos da Amazônia, um problema que afeta cerca de 92% dos solos da região. 

Estudos indicam que existem cerca de 20 milhões de hectares de terras abandonadas ou degradadas em toda a Amazônia justamente por causa dos problemas de baixa fertilidade dos solos. Sem conseguir produzir forração em quantidade suficiente para a alimentação do gado ou para a produção agrícola, essas áreas foram simplesmente abandonadas e largadas à própria sorte. Lembro aqui que a partir da década de 1960, os sucessivos Governos distribuíram terras na Amazônia com o objetivo de estimular a migração e ocupação da região. Eram tempos em que governantes e militares temiam ideias de internacionalização da Amazônia.

Pelas suas características de grande adaptação aos diferentes biomas da Amazônia e onde não existe a necessidade da derrubada de matas para a formação de pastagens, a bubalina cultura é uma excelente opção de atividade econômica sustentável para a região. Falta é claro melhorar as condições de infraestrutura para o transporte dos animais até os frigoríficos e centros consumidores, o que pode ser feito através da fabulosa rede de vias hidroviária, desenvolver bons mecanimos para a divulgação e venda da produção, entre outros problemas operacionais. 

A EMBRAPA possui excelentes trabalhos com novas técnicas para a criação de búfalos em sistemas de rotação de pastagens, o que aumenta grandemente a produtividade e a lucratividade da atividade. Também existe a possibilidade da criação dos búfalos em consórcio com a psicultura, o que garante um retorno financeiro ainda maior e sem causar maiores impactos ambientais. 

Existem inúmeras atividades econômicas que podem ser desenvolvidas em toda a Amazônia com impactos ambientais extremamente baixos e ecologicamente sustentáveis – a criação de búfalos é uma delas. 

AMAZÔNIA SUSTENTÁVEL: A CRIAÇÃO DE PIRARUCUS EM CATIVEIRO E OS BÚFALOS DA AMAZÔNIA

Na última postagem falamos do pirarucu (Arapaima gigas), o maior peixe de escamas do Brasil e um dos maiores do mundo. Pirarucus adultos podem chegar a um comprimento de até 3,5 metros e a um peso de 250 kg, porém, devido à superexploração da pesca da espécie, animais desse porte são cada vez mais raros nos rios da Bacia Amazônica. 

O pirarucu é chamado de “bacalhau da Amazônia”. A origem dessa denominação tem suas raízes nos tempos do Brasil Colônia, quando as fazendas dos sacerdotes Jesuítas da Amazônia preparavam e salgavam os pirarucus, que acabavam sendo exportados para Portugal e lá eram vendidos como se fosse um autêntico bacalhau português. Esse tipo de engodo também era feito com ervas nativas e temperos da Floresta Amazônica e de outros biomas brasileiros, que eram processados e vendidos na Europa como “legítimas especiarias do oriente”. O próprio pau-brasil (Paubrasilia echinata, chamada antigamente de Caesalpina echinata), que foi explorado até praticamente o seu esgotamento na Mata Atlântica, é um “genérico” da espécie nativa do Sul e Sudeste da Ásia, o pau-brasil-da-Índia (Caesalpina sappam).

Os mais de mil rios que formam a gigantesca Bacia Amazônica concentram, segundo algumas estimativas, perto de 20% de toda a água doce do planeta e, é claro, abrigam uma fabulosa fauna aquática – mais de 2.100 espécies de peixes amazônicos já foram catalogadas pelos pesquisadores e há a certeza que ainda existem muitas espécies mais a serem descobertas. Esse ambiente de matas e águas da Floresta Amazônica apresenta todas as condições para a criação de peixes de alto valor comercial em cativeiro e em grandes quantidades. O pirarucu é uma das espécies que já vêm sendo criadas em cativeiro e com muito sucesso. 

O pirarucu é onívoro e come qualquer coisa que apareça na sua frente: peixes, crustáceos, vermes, insetos, anfíbios, cobras, filhotes de tartaruga, entre outras presas. O peixe também é um grande apreciador de frutas e castanhas que eventualmente apareçam boiando nas águas. Na época das chuvas – o famoso “inverno amazônico”, quando os grandes rios transbordam e avançam quilômetros floresta adentro, os pirarucus dão verdadeiros saltos acrobáticos para pegar frutas e castanhas que estejam acima das águas. 

Quando ainda está nas fases de alevino ou é jovem, o pirarucu se alimenta basicamente de plâncton, plantas e animais microscópicos nas comunidades bentônicas do leito dos rios ou que vivem livres nas águas, passando depois a comer pequenos peixes. É aqui que pode entrar na “equação” um outro animal tipicamente amazônico – o búfalo. 

Segundo algumas lendas correntes entre as populações ribeirinhas, especialmente da Ilha do Marajó, os búfalos chegaram à região devido ao naufrágio de um navio de transporte de animais que havia recém zarpado da Guiana Francesa. Para a EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, o responsável pela introdução dos animais na Amazônia brasileira tem nome e sobrenome: Vicente Chermont de Miranda, um criador que importou animais da raça Mediterrânea da Itália. Os primeiros búfalos desembarcaram na Ilha do Marajó em 1895. 

O búfalo doméstico (Bubalus bubalis) é originário das florestas tropicais do Sul e Sudeste da Ásia, onde as condições ambientais são muito parecidas com aquelas encontradas na Floresta Amazônica. De lá, a espécie foi introduzida na África, na Europa e depois nas Américas. Em uma outra postagem vamos falar especificamente sobre os búfalos da Amazônia. 

Na Ilha do Marajó e em outras localidades da Amazônia, os búfalos passaram a se sentir praticamente dentro do seu ambiente natural, encontrando fartura de alimentos e excelentes condições de vida. Segundo dados do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o rebanho de bubalinos no Brasil tem cerca de 1,6 milhão de cabeças, sendo que o Estado do Pará detém perto de 1 milhão de animais. Existem fontes que falam de um rebanho bem maior, na casa dos 3 milhões de cabeças. A maior parte desses rebanhos estão concentrado nas várzeas, campos naturais e em pastagens cultivadas em terra firme da ilha de Marajó e também no Baixo e Médio Amazonas,

De acordo com estudos aa EMBRAPA, a criação consorciada de búfalos e de pirarucus pode ser bastante interessante do ponto de vista econômico. Os dejetos dos búfalos lançados nas águas dos rios atuam como fertilizante para micro algas, alimento consumido por pequenos crustáceos, vermes, insetos e plâncton. Essas criaturas formam a base da cadeia alimentar dos rios, alimentando pequenos peixes, que por sua vez serão predados pelos pirarucus. Ou seja – os criadores não terão despesas com a alimentação dos pirarucus, bastando introduzir espécies de peixes sem valor comercial nos tanques de criação. 

Diferente de seus primos bovinos, que exigem pastos de boa qualidade em áreas secas durante todo o ano, os búfalos vivem “confortavelmente” nas áreas de várzea, consumindo a vegetação que encontra nesses locais. Há época da cheia dos rios, o ideal é que existam áreas mais altas com algum tipo de pastagem para que os animais mantenham o ritmo de engorda – algumas espécies de búfalo podem atingir o peso de 1,2 tonelada. 

Os bubalinos produzem carne e leite de ótima qualidade, consumidos principalmente na Região Norte do país. Porém, quando criados dentro das técnicas tradicionais em sistemas extensivos, ganham peso em um tempo bem maior que os bovinos. Um búfalo demora até 3 anos para atingir o peso ideal para o abate, que fica entre os 300 e os 350 kg – em bovinos esse peso é alcançado em apenas 2 anos. Os criadores amazônicos também sofrem com a falta de infraestrutura de transportes, o que encarece a produção e reduz as margens de lucro. 

Os pesquisadores da EMBRAPA já desenvolveram estudos para a produção intensiva de búfalos com sistemas de pastagens rotacionadas, conseguindo que os animais atinjam um peso de até 500 kg em apenas 18 meses, um feito que torna a criação de bubalinos até 4,5 vezes mais rentável que a criação de bovinos. Combinar essas técnicas modernas de manejo dos búfalos consorciada com a criação de pirarucus ou outras espécies de peixes amazônicos produziria enormes ganhos econômicos para os criadores e garantiria a sustentabilidade ambiental da produção. 

Além dos pirarucus, existe toda uma infinidade de espécies de peixes de alto valor comercial que são encontradas facilmente nos mercados da Região Amazônica e que, com toda a certeza, poderiam agradar o paladar de consumidores de todo o Brasil e do mundo. Muitas dessas espécies já são criadas em cativeiro. Vejam alguns poucos exemplos: 

Matrinxã (Brycon cephalus): Pode atingir até 80 cm de comprimento e um peso de 5 kg. Existem estudos para o seu uso como uma alternativa às sardinhas. É parente muito próximo das espécies piraputanga, pirapitinga, piracanjuba e piabanha;

Tambaqui (Colossoma macropomum): Peixe com uma carne saborosa e muito apreciado na culinária amazônica, que pode atingir até 40 kg de peso;  

Tucunaré (Cichla sp): Uma espécie que se reproduz facilmente em cativeiro e que atinge um peso entre 4 e 6 kg;  

Curimbatá ou curimatã (Prochilodus sp): É outra espécie que possui uma carne muito saborosa e que se adapta facilmente à produção em cativeiro. Encontrado também em outras bacias hidrográficas do Brasil; 

Piraíba, piratinga ou pirananbu (Brachyplatystoma filamentosum): Espécie que pode atingir até 2,5 metros de comprimento e peso de até 300 kg. Os espécimes mais jovens são chamados popularmente de “filhotes”. Na foto abaixo, eu apareço ao lado de um desses “filhotes” no Mercado Ver-o-Peso em Belém do Pará; 

Pirarara (Phractocephalus hemioliopterus): Espécie que pode atingir até 1,5 metro de comprimento e 60 kg de peso. Como os pirarucus, essa espécie é onívora e come qualquer coisa que cruzar o seu caminho. 

A piscicultura comercial em grande escala pode ser mais uma excelente alternativa econômica para o desenvolvimento sustentável da Amazônia. Como exemplo, gostaria de citar o caso da criação de salmões em cativeiro no Sul do Chile. Apesar dessa produção apresentar uma série de problemas ambientais devido principalmente a altíssima densidade de peixes nos tanques ou cercados de criação, as exportações de salmão já ocupam a terceira posição na pauta de exportações do Chile, só ficando atrás do cobre e das frutas. 

Precisamos estimular cada vez mais as pesquisas nessa área, buscando sempre o equilíbrio entre o meio ambiente, a economia e o desenvolvimento social das populações da nossa Amazônia

AMAZÔNIA SUSTENTÁVEL: PIRARUCU, O BACALHAU “GENÉRICO” DA BACIA AMAZÔNICA

A Amazônia é um mundo de matas e águas! 

A Floresta Amazônica tem uma área total de 5,4 milhões de km², ocupando terras na Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Suriname, Guiana e Guiana Francesa – mais de 60% da Floresta fica dentro do território brasileiro. A Bacia Amazônica ocupa uma área total de mais de 7 milhões de km², contando com mais de mil rios. Alguns desses rios, como o Madeira e o Negro, entram na lista dos 10 maiores rios do mundo. 

Especialistas calculam que 1/3 de todas as espécies vivas do planeta, animais e vegetais, vivam nesse imenso bioma. Se falando apenas em peixes, já se conhecem mais de 2.100 espécies na bacia hidrográfica e a descoberta de novas espécies é só uma questão de tempo. Entre esses peixes gostaria de destacar uma espécie em particular – o pirarucu, o maior peixe de escamas dos rios brasileiros e um dos maiores do mundo. 

O pirarucu (Arapaima gigas), também conhecido como arapaima ou peixe pirosca, pode atingir até 3,5 metros de comprimento e um peso de até 250 kg. O animal é um grande predador onívoro dos rios da Bacia Amazônica, se alimentando de peixes, caramujos, crustáceos, anfíbios, cágados e cobras, entre outros, de uma enorme lista de presas. Quando jovem, o pirarucu se alimenta basicamente de plâncton, plantas e animais microscópicos que vivem livres nas águas dos rios, passando depois a comer pequenos peixes e crustáceos. O peixe pode viver até 18 anos. 

Entre as muitas histórias que envolvem o pirarucu, uma das mais interessantes vem dos tempos do Brasil Colônia, quando os “piedosos” sacerdotes Jesuítas possuíam inúmeras fazendas na Região Amazônica e, entre muitos outros produtos, preparavam o pirarucu salgado. Até aí, nada de mais – em tempos quando não existiam equipamentos para a refrigeração dos alimentos, a salga era uma das melhores técnicas para a conservação de carnes e peixes. A questão é que os religiosos vendiam o pirarucu salgado nos mercados de Portugal como se fosse bacalhau. 

Relembrando rapidamente a história, a Amazônia fazia parte dos territórios da Coroa de Espanha segundo o Tratado de Tordesilhas, assinado em 1494. Os conquistadores espanhóis organizaram duas grandes expedições ao Grande Amazonas saindo do Peru com o objetivo de encontrar a lendária El Dorado, a cidade de ouro. A primeira dessas expedições teve início em 1541, sob o comando de Francisco de Orellana; a segunda data de 1559, sob o comando de Pedro de Úrsua. As duas expedições foram verdadeiros desastres e os espanhóis acabaram por desistir da Amazônia. Siga os links indicados no texto para ler os detalhes dessas sagas. 

Essa verdadeira “terra de ninguém” passou a ser invadida por franceses, holandeses, ingleses e alemães, entre outros povos, que buscavam conquistar o seu quinhão nas Américas. Após a unificação das Coroas de Portugal e Espanha a partir de 1580, os portugueses receberam um pedido dos espanhóis para que “cuidassem” da sua Amazônia. Tropas coloniais portuguesas começaram esse trabalho em 1615, expulsando os franceses que haviam se instalado no Maranhão e no Pará. Em 1616 foi fundado o Forte Presépio, embrião da cidade de Belém do Pará. No início da década de 1630, toda a região da foz do rio Amazonas, porta de entrada para o grande território Amazõnico, estava sob controle dos portugueses. 

Os primeiros sacerdotes Jesuítas chegaram na Amazônia junto com esses contingentes militares, com a missão de fazer o contato e a catequização dos indígenas. A estratégia usada pelos religiosos para a “conversão” dos indígenas em “vassalos úteis ao Reino e em bons cristãos” envolvia complexas mudanças no seu comportamento social, algo que as experiências realizadas em outras regiões do Brasil comprovaram ser impossíveis sem uma mudança para outros territórios. Os indígenas de tribos consideradas “mais dóceis” eram transferidos para aldeias conhecidas como Reduções Jesuíticas. Essas transferências ficaram conhecidas na história do país como descimentos.  

Nas aldeias, o trabalho dos religiosos começava com a eliminação do comportamento nômade dos indígenas, tradicionalmente habituados a mudanças frequentes em busca de novas áreas para a caça e a pesca, além de novas terras para a prática da sua agricultura de subsistência. Num segundo momento, os índios passavam a receber treinamento técnico e profissional para a realização de ofícios manuais úteis ao sistema colonial como carpintaria, construção civil, tecelagem, agricultura, entre outras funções. Por fim e não menos importante, o ensino religioso e a transformação dos antigos “selvagens pagãos” em bons cristãos, criando uma estrutura familiar baseada em novos valores éticos e religiosos. 

Com o passar do tempo, essas missões religiosas dos Jesuítas acabaram sendo transformadas em meros centros comerciais, dos quais a Companhia de Jesus (S. A. – grifo meu) auferia o melhor dos lucros e sobre os quais exercia grande domínio e soberania. As grandes fazendas, que foi no que se transformaram as missões, passaram a ser grandes produtoras de gêneros exportáveis de toda a ordem como açúcar, frutas, peixe salgado, tartarugas, madeiras e móveis.  

Os religiosos também descobriram uma infinidade de plantas amazônicas com características similares às das famosas “especiarias do Oriente”. Essas plantas, conhecidas como “drogas do sertão”, eram processadas e vendidas na Europa como “especiarias genéricas” legítimas. 

O saboroso pirarucu, é claro, não poderia ficar de fora dessa falcatrua. Grandes flotilhas de canoas com hábeis índios pescadores vasculhavam os rios da Amazônia em busca dos grandes peixes. Os pirarucus capturados eram então levados para as fazendas, onde eram limpos, cortados e salgados de forma a parecerem ao máximo com os bacalhaus vendidos nas cidades portuguesas. As peças de “bacalhau” eram embaladas em caixa de madeira e exportadas diretamente da Amazônia para Portugal.  

Existe ainda um pequeno detalhe nessa história – os jesuítas eram totalmente isentos do pagamento de impostos ou de qualquer taxa para a exportação dos seus produtos. Essas isenções fiscais dos religiosos passaram a criar atritos crescentes com os demais colonizadores. Em 1759, o Marquês de Pombal – Sebastião José de Carvalho e Mello, que era uma espécie de primeiro ministro de Portugal, determinou a expulsão dos Jesuítas de todos os territórios portugueses

Mesmo com o fim das fazendas dos Jesuítas, a captura dos pirarucus e a produção do “bacalhau” continuou aumentando, tornando o produto cada vez mais popular junto à crescente população da Amazônia. A superexploração do pirarucu tornou a espécie vulnerável e em risco de extinção em vários rios da Bacia Amazônica. Pirarucus de grande porte são cada vez mais raros na natureza. 

Felizmente, a criação de pirarucus em cativeiro na Amazônia vem crescendo, uma iniciativa que poderá ajudar a espécie a sair da lista de animais em risco. Com o aumento dessa produção, a antiga pesca predatória será gradativamente abandonada e a produção dos peixes poderá se tornar uma atividade sustentável, com grande potencial para a geração de trabalho e renda à população local. É possível que, dentro em breve, poderemos estar exportando o “legítimo bacalhau sustentável da Amazônia” para Portugal e outros países, desta vez, porém, sem qualquer tipo de enganação.

Na próxima postagem vamos falar da criação de pirarucus e de outras espécies de peixes amazônicos em cativeiro, e também das grandes oportunidades para a psicultura nos rios da bacia Amazônica. 

AMAZÔNIA SUSTENTÁVEL: AS SURPREENDENTES FRUTAS NATIVAS DA FLORESTA AMAZÔNICA

A Estação das Docas é uma das muitas atrações turísticas da cidade de Belém do Pará. Inaugurado no ano 2000, o complexo turístico ocupou velhos armazéns do antigo porto da cidade. A Estação das Docas possui uma área total com mais de 32 mil m² com diversas opções de gastronomia, lojas de artesanato e moda, além de espaços para eventos. 

Na primeira vez que visitei o local, há cerca de dez anos, fiquei intrigado com uma placa em um restaurante que anunciava um tal de “bacuribeer”. Conversando com um dos garçons, descobri tratar-se de uma cerveja artesanal local onde se acrescenta o suco do bacuri, uma fruta da região. Apesar de ser um fiel seguidor da Reinheitsgebot ou Lei da Pureza da Cerveja, uma antiga norma alemã de 1516 que determinou que a bebida só poderia ser preparada com água, malte de cevada e lúpulo, resolvi arriscar. A bebida paraense é uma delícia. 

O bacuri é apenas uma entre dezenas de frutas (incluo na aqui os frutos) tipicamente amazônicas encontradas nos mercados da região e que são usadas na preparo de pratos, sucos, geleias e doces. São os sabores únicos dessas frutas que, muitas vezes, dão aquele toque especial e genuíno à gastronomia da Amazônia. 

De acordo com informações da EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias, existem mais de 500 espécies de frutas no Brasil, sendo que mais de 40% são encontradas na Região Amazônica. Estudos já realizados mencionam mais de 220 plantas produtoras de frutas e frutos na região, porém, são poucas as espécies já “domesticadas”, ou seja, plantas que foram selecionadas artificialmente para produzir frutas e frutos mais saborosos, maiores ou em maior quantidade. Considerando-se o tamanho da Floresta Amazônica e a quantidade de estudos que ainda precisam ser feitos, devem existir muitos mais frutas e frutos a serem descobertas. 

Segundo a EMBRAPA, o Brasil é o segundo lugar do mundo em quantidade de frutas, só perdendo para o Sudeste Asiático. Os estudos na Região Amazônica foram iniciados em 1939 com a criação do IAN – Instituto Agronômico do Norte, com sede em Belém do Pará, instituição que deu origem à EMBRAPA Amazônia Oriental. Posteriormente, foi criada a EMBRAPA Amazônia Ocidental com sede em Manaus, no Estado do Amazonas. 

Os pesquisadores da instituição afirmam que a Floresta Amazônica é um dos últimos redutos do mundo com plantas potenciais à espera de domesticação e ressaltam a importância da preservação do bioma. A derrubada das matas para a extração de madeira pode acabar com diversas espécies de frutas e frutos. Dois exemplos de frutos que eram muitos comuns nos mercados da região, mas estão se tornando cada vez mais raros e caros são o já citado bacuri (Platonia insignis Mart.) e o pequiá (Caryocar villosum). A explicação é simples: a madeira das árvores produtoras desses frutos é de ótima qualidade e de grande valor comercial. 

Especula-se que a humanidade começou a domesticar frutas e frutos há cerca de 10 mil anos, praticamente na mesma época em que teve início a agricultura. Durante esse processo, os agricultores buscavam as plantas que davam frutos mais saborosos, maiores e em maior quantidade, criando assim uma seleção artificial. Com o passar do tempo, foram desenvolvidas as técnicas de enxerto, o que permitiu combinar as características de duas plantas diferentes e possibilitou o desenvolvimento de novas variedades. Frutas comuns em nosso dia a dia como maçãs, laranjas e bananas, vêm passando por esses processos há milhares de anos.  

Na Amazônia, o processo de domesticação de plantas começou quando a região começou a ser ocupada por diferentes povos vindos das Américas Central e do Norte. Essa domesticação de plantas era essencial para a sobrevivência desses povos e tinha em seu bojo conhecimentos anteriores de trabalhos feitos com plantas em outras regiões. 

Um exemplo da importância de novos conhecimentos sobre as frutas e frutos da Amazônia é o açaí, um dos alimentos mais importantes da Amazônia e que vem conquistando mercados em todo o Brasil e em muitos países do mundo. Também podemos citar outras frutas e frutos que tem suas raízes na Amazônia e que muita gente não sabe: abacaxi (Ananas comosus), cacau (Theobroma cacao), caju (Anacardium occidentale) e maracujá (Passiflora edulis Sims). Quantas outras espécies ainda desconhecidas possuem grandes potenciais econômicos para produção e exportação? 

Para não ficarmos só na conversa, preparei uma pequena lista com alguns frutos e frutas da Amazônia: 

Abiu (Pouteria torta): Quando maduro tem a casca amarelada. Ao abrir, o fruto libera um leite viscoso e branco que adere aos lábios. A semente é envolta em uma polpa adocicada e branca. É rico em vitamina B1, B2, B5 e C e sais minerais como cálcio, fósforo e ferro, além de fibras.   

Pepino do mato (Ambelania acida): De coloração branca, textura consistente, o fruto é leitoso e pegajoso. Para consumo é necessário a extração do látex, que pode ser feito batendo no fruto ou deixando-o na geladeira por 12 horas.   

Araçá-boi ou araçá-do-sertão (Eugenia stipitata): É um fruto arredondado e de cor amarelada, aparentado com a goiaba. Tem polpa consistente e envolvida por várias sementes, tem cheiro característico e é azedo.   

Bacaba (Oenocarpus bacaba Mart.): Um fruto parecido com o açaí, no entanto mais oleoso. Comumente encontrado nas feiras das principais cidades amazônicas, onde é consumido da mesma forma que o açaí.

Camu-camu (Myrciaria dubia): É um fruto de alto valor nutritivo e com concentração de vitamina C superior à da acerola. É usado pelos ribeirinhos como tira-gosto e como isca para peixes. O fruto é arredondado e tem a coloração roxa escura quando está maduro.   

Cupuaçu (Theobroma grandiflorum): Fruto aparentado com o cacau, rico em vitaminas A, B1, B2 e C, além de sais minerais. É muito usado na fabricação de sucos, doces, sorvetes, vinhos e licores. Sua gordura tem aplicações na indústria cosmética. 

Cubiu (Solanum sessiliflorum): Também conhecido como maná-cubiu ou tomate-de-índio. O fruto do cubiu pode ser consumido ao natural, ou principalmente como tira gosto de bebidas, e também usado na preparação de sucos, doces, geleias e compotas. Pode ainda ser utilizado no preparo de caldeiradas de peixe ou como tempero de pratos à base de carne e frango.   

Inajá (Attalea maripa): Palmeira que produz um fruto com polpa suculenta e comestível. A amêndoa desse fruto é rica em óleo.  

Mari-mari ou umari (Poraqueiba sericea Tul): É o fruto mostrado na foto que ilustra esta postagem. Tem sabor e aroma forte. É rico em vitamina A, fibras, carboidratos, óleos e proteínas. A população da Amazônia costuma consumir esse fruto com farinha d’água. 

Muruci ou murici (Byrsonima crassifolia): Um fruto pequeno com sabor e cheiro intensos e característicos. Pode ser usada na fabricação de sucos, doces, licores, geleias e sorvetes. 

Pajurá (Couepia bracteosa Benth): Fruto com cheiro forte e de cor alaranjada com a polpa doce, espessa e oleosa.  Pode ser consumido ao natural ou usado na preparação de doces e sucos. 

Patauá (Oenocarpus bataua ou Jessenia bataua): O fruto dessa palmeira produz um óleo de alta qualidade conhecido como “azeite da Amazônia”, com larga aplicação na culinária e na indústria cosmética. 

Taperebá ou cajá (Spondias mombin ou Spondias lutea): Fruta ácida normalmente usada na preparação de sucos, sorvetes, geleias, vinhos e licores. As folhas, raízes e sementes tem inúmeros usos na medicina popular. 

Tucumã-do-Amazonas (Astrocaryum tucuma Martius): Os frutos dessa palmeira são usados para fazer uma espécie de vinho. A planta também produz um ótimo palmito. 

Eu morei por quase dois anos na Amazônia e não conheço a maioria das frutas dessa lista. A razão para isso é simples: essas frutas são nativas de partes diferentes da Amazônia – a maior parte dos transportes na região é feito por via fluvial e se gastam dias ou semanas para chegar ao destino final. As frutas estragam nesse meio tempo. Outro problema – as vezes você até está na região certa, mas não é época da fruta. Existem enormes potenciais de mercado para as frutas e frutos da Amazônia, porém, serão necessários investimentos em logística, sistemas de refrigeração e embalagens especiais, marketing e comunicação, além de bons planos de comercialização. 

Seria muito “educativo” colocar algumas dessas frutas e frutos no mercado internacional, especialmente na Europa, com um selo de “Produto Ecológico da Amazônia”. Também seria muito divertido observar como os estrangeiros vão pronunciar alguns de seus nomes de origem indígena. 

AMAZÔNIA SUSTENTÁVEL: AS MISTERIOSAS “TERRAS PRETAS DE ÍNDIO”

Um dos maiores temores dos “defensores” europeus da Floresta Amazônica é o avanço das plantações de soja e dos rebanhos bovinos em direção à grande floresta sul americana. Muitos acham que, dentro de poucos anos, a região será transformada em um mar sem fim de campos de soja e de pastagens para animais. 

Lamento informar a todas essas pessoas tão bem “intencionadas” que é bastante difícil ver algo semelhante acontecer. E falo isso sem querer afirmar que todos os brasileiros e os cidadãos de outras nações amazônicas estão 100% preocupados com a preservação do bioma, mas sim por que a maioria dos solos da região é de baixíssima fertilidade e inadequados para a agricultura e pecuária. 

De acordo com informações da UFPA – Universidade Federal do Pará, 92% dos solos da Região Amazônica apresentam uma baixa fertilidade natural, enquanto que apenas 8% são de elevada fertilidade. O estudo também informa que existem perto de 20 milhões de hectares de terras abandonadas na Amazônia brasileira que foram originalmente desmatadas e transformadas em pastagem para o gado.  

Até cerca de 160 milhões de anos atrás, quando a América do Sul ainda formava parte do Supercontinente de Gondwana, a região onde se encontra a Floresta Amazônica era um grande deserto de areias móveis. Com a fragmentação de Gondwana e o início do processo de separação dos continentes (pesquise sobre Deriva Continental), a região foi se transformando gradativamente ora em um mar raso ora em uma grande planície frequentemente invadida pelas águas do mar. 

O destino da Amazônia começou a mudar há cerca de 40 milhões de anos atrás quando o choque das duas grandes placas tectônicas da região, a Placa Sul-americana e a Placa de Nazca, iniciou o processo de soerguimento dos terrenos que formariam a Cordilheira dos Andes. Esse fabuloso processo geológico conformou os limites da Bacia Amazônica e criou as condições para a formação da Floresta Amazônica. 

Naqueles primeiros tempos, a vegetação dependia quase que exclusivamente dos nutrientes minerais que eram carreados pelas águas desde os terrenos altos dos Andes. Com o passar do tempo, a própria floresta começou a reciclar os seus nutrientes, formando uma grossa camada de húmus sobre os solos. Troncos caídos, galhos, folhas, frutos, carcaças de animais – tudo que cai sobre os solos da Floresta Amazônica é rapidamente transformando em nutrientes para a própria floresta. 

Quando uma área é desmatada, essa camada de húmus acaba ficando exposta aos elementos – a chuva por exemplo, e se perde rapidamente. A experiência de inúmeros pioneiros na colonização da Amazônia deixou isso muito claro – em poucos anos, as terras desmatadas apresentaram uma redução brutal na fertilidade e não se conseguia boas colheitas. Até mesmo as gramíneas para a pastagem de animais ficaram escassas e muitos colonos acabaram abandonando as suas terras. 

Em meio a tantos problemas de baixa fertilidade dos solos, surgem notícias de manchas de terra preta e de alta fertilidade espalhadas por todos os lados da floresta. As primeiras descobertas desse tipo especial de terras datam da década de 1870, quando exploradores e naturalistas passaram a observar a existência desses solos intrigantes. Estudos posteriores demonstraram que esses solos foram criados artificialmente por antigas populações da Amazônia e eles passaram a ser conhecidos como “terra preta de índio”. 

De acordo com algumas hipóteses formuladas a partir de achados arqueológicos, a Floresta Amazônica abrigava grandes populações há cerca de 4 mil anos atrás. Para sustentar tanta gente, era necessário melhorar as condições de fertilidade dos solos. Grandes extensões de matas foram derrubadas e queimadas para a formação de grandes clareiras onde se criaram campos agrícolas. Os solos passaram por um processo ainda não totalmente conhecido de fertilização artificial. 

Estudos feitos em laboratório com amostras desses solos encontraram altos teores de carbono, muito mais altos que os valores médios de outros solos – cerca de 150 gramas de carbono para cada kg de solo, enquanto a média fica entre 20 e 30 gramas. Esses solos também se destacam pelos altos teores de fósforo, cálcio, zinco, nitrogênio e manganês, além grandes quantidades de carvão, restos de cerâmica e resíduos de ossos. 

Até onde os pesquisadores já conseguiram entender, o carbono foi fixado nos solos através da queima de materiais orgânicos na presença de pouco oxigênio. O carbono em alta concentrações melhora a absorção da água, o que facilita a penetração das raízes no solo e gera plantas mais resistentes. As características do carvão encontrado nas terras pretas de índio permitem uma longa retenção do carbono no solo, exatamente o contrário do que deveria acontecer na região Amazônica – essa retenção pode durar centenas ou milhares de anos. Os pesquisadores calculam que algo entre 1% e 10% dos solos da Amazônia sejam constituídos por esses solos artificiais. 

Nos últimos anos, esses solos escuros da Amazônia têm despertado um interesse cada vez maior da comunidade científica e as mais importantes revistas da área no mundo como a Nature e a Science têm publicado diversos artigos sobre esse assunto. Em 2006, citando um exemplo, a Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS, na sigla em inglês), dedicou um simpósio a esse assunto: Amazonian Dark Earths: New Discoveries (Terras Pretas da Amazônia: Novas Descobertas).

Essas antigas populações desapareceram sem deixar rastros ou maiores informações sobre o processo usado para criar esses solos artificiais. Os novos grupos indígenas que chegaram na região encontraram essas terras pretas já “prontas para o uso”. Ribeirinhos que têm a sorte de morar perto dessas áreas conseguem uma ótima produção de subsistência. Conseguir recriar os mecanismos de formação dessas terras poderá ser uma excepcional alternativa econômica para regiões de solos pobres em todo o mundo, onde as populações locais se esforçam muito para obter poucos frutos da terra. 

Um exemplo prático da importância dos solos escuros da Amazônia na vida cotidiana das populações indígenas foi observado por Morgan Schimidt, um pesquisador do Museu Paraense Emílio Goeldi, que estudou as terras pretas no território dos índios Kuikuro no Alto Xingu, no Estado de Mato Grosso. O pesquisador observou que os Kuikuro constroem as suas aldeias em áreas próximas dessas manchas de solo escuro, que podem estar até 20 km de distância. As terras são utilizadas para a prática agrícola, especialmente na produção do milho.  

O pesquisador também observou que os índios, nas suas atividades diárias, continuam produzindo terra preta: os índios cavam valas no solo para usar no descarte de resíduos de alimentos, cinzas, ossos, restos de peixes e de caças, conchas, folhas de palmeiras, serragem e restos de madeira, dejetos humanos e outros detritos. Esse composto, que muitas é incendiado, é a base para a formação das terras pretas. 

Desvendar os segredos da criação das “terras pretas de índio” e usar esses conhecimentos para recuperar grandes extensões de solos já degradados da Amazônia pode ser uma das grandes alternativas para o desenvolvimento sustentável da região. O cacau por exemplo, uma planta nativa da região e que precisa da sombra das grandes árvores para se desenvolver, poderá ser plantado nesses solos recuperados, produzindo suas sementes de forma totalmente orgânica e sustentável. 

A Floresta Amazônica ainda guarda muitos mistérios e ainda temos muito o que aprender com ela. Uma certeza, entretanto, já temos – suas possibilidades para a geração de riqueza e renda para o nosso país são quase que ilimitadas. 

AMAZÔNIA SUSTENTÁVEL: OS CACAUEIROS DA FLORESTA AMAZÔNICA

Quando os exploradores espanhóis iniciaram sua saga de conquista da América Central nas primeiras décadas do século XVI, eles foram tomados de grande surpresa ao encontrar imponentes civilizações locais como os astecas, que em vários aspectos estavam em um patamar superior ao de seu reino ibérico. 

Eram grandes cidades com arquitetura sofisticada, ruas perfeitamente projetadas, grandes edifícios públicos, além de majestosas pirâmides e templos. Essas civilizações tinham uma escrita própria, profundos conhecimentos de matemática, astronomia e ciências naturais. Para choque dos fanáticos católicos espanhóis, esses povos praticavam uma religião profana, onde os sacrifícios humanos eram parte importante dos rituais, o que moralmente justificaria a guerra de conquista e o massacre de milhões de nativos num futuro próximo. 

Antes desse desfecho trágico, os conquistadores teriam tempo para conhecer uma bebida amarga e considerada sagrada pelas civilizações pré-colombianas, conhecida como chocola’j, chokola’j ou xocolātl. Essa bebida era obtida a partir da maceração das nozes de um fruto local, o kabkajatl, e era de consumo exclusivo da nobreza. Os espanhóis hispanizaram a palavra para cacauatl, e por fim acabou resumida a cacau. Levado inicialmente para a Espanha, o cacau passou a ser consumido como uma bebida quente com leite e açúcar. A partir daí ganhou novas formas de preparo e conquistou o mundo com o nome de chocolate. 

O cacau (Theobroma cacao) é uma planta nativa das regiões tropicais das Américas, encontrada desde a região da Floresta Amazônica até as florestas tropicais do Sul do México. O cacaueiro se desenvolve sob as copas sombreadas das florestas, onde a árvore pode chegar a uma altura de 20 metros. Em plantações comerciais, onde as árvores recebem podas periódicas, essa altura normalmente fica entre 3 e 5 metros, o que facilita muito a colheita dos frutos. 

Uma região brasileira onde a cultura do cacau se transformou em um grande sucesso foi o Sul do Estado da Bahia, onde as primeiras mudas de cacaueiro desembarcaram no início do século XVIII. Essa região foi durante muito tempo território dos ferozes índios botocudos, o que poupou uma extensa faixa da Mata Atlântica da destruição diante do avanço dos canaviais. Sob a sombra das grandes árvores nativas da região, os cacaueiros prosperaram muito. 

A fabulosa Floresta Amazônica, com seu clima quente, grande fartura de água e densa cobertura florestal, além de ser o bioma original da cultura, apresenta todas as condições para se transformar no maior centro de produção de cacau do mundo. Na região de Altamira, no Pará, essa produção cresce a olhas vistos em pequenas e médias propriedades. Conhecida como Rota do Cacau, a região engloba também os municípios de Medicilândia, Vitória do Xingu, Pacajá, Senador José Porfírio, Brasil Novo e Uruará. Juntos, esses municípios respondem por 90% da produção de cacau do Pará, o segundo maior produtor brasileiro. 

Ao contrário da primeira impressão que todos costumamos ter, os solos amazônicos são pobres e de baixa fertilidade. De acordo com informações da UFPA – Universidade Federal do Pará, 92% dos solos da região apresentam uma baixa fertilidade natural, enquanto que em apenas 8% são de elevada fertilidade. Essa porcentagem parece pequena, mas, dada a imensidão da Floresta Amazônica, isso corresponde a totalidade da área agrícola em uso no Brasil

Os solos da região da Rota do Cacau se enquadram dentro dessa pequena minoria de solos férteis e são formados por terras roxas. Essa região começou a ser ocupada a partir do final da década de 1970, época em que Rodovia Transamazônica rasgou a região e criou as melhores expectativas de uma vida melhor para milhares de agricultores sem-terra de todo o país. Muitos desses pequenos agricultores tiveram seu primeiro contato com os cacaueiros nessa época. 

De acordo com informações da CEPLAC – Comissão Executiva do Plano Lavoura Cacaueira do Ministério da Agricultura, essa região concentra cerca de 12 mil produtores, o que corresponde a mais da metade do total de produtores do Pará. As plantações se espalham por uma área com aproximadamente 175 mil hectares e com uma produção de 900 kg de fruto por hectare. No município de Medicilândia alguns produtores conseguem atingir a impressionante marca de 2,5 toneladas por hectare. Para efeito de comparação, o Sul da Bahia tem cerca de 480 mil hectares de área plantada, com uma produção média de 300 kg por hectare. 

Apesar do imenso potencial econômico da cultura e sua grande capacidade de contribuir para a preservação da Floresta Amazônica, os produtores da Rota do Cacau enfrentam enormes dificuldades no seu dia a dia. A logística para o transporte da produção é uma das principais. A promessa da construção de uma grande rodovia para a integração de toda a Amazônia ao restante do país ficou em grande parte dentro do campo das boas intenções. 

Grande parte da Rodovia Transamazônica não passa de um rasgo contínuo no meio da floresta, onde o piso de terra batida é ponteado por precárias pontes de madeira. Para se chegar na região cacaueira é necessário atravessar o rio Xingu através de balsa, um procedimento que pode levar até 3 horas devido à grande fila de carros, ônibus e caminhões que se acumulam nas duas margens. O serviço de travessias é suspenso a noite. 

Na temporada das intensas chuvas do inverno amazônico, grande parte da Rodovia fica intransitável, com sucessivos atoleiros e poças de água. Calcula-se que mais de 90% das populações que foram assentadas em lotes rurais e agrovilas logo após a inauguração da Transamazônica abandonaram suas terras e migraram para as médias e grandes cidades da região Norte. 

Os produtores também enfrentam uma série de entraves criados pela legislação ambiental ao tentar aumentar as suas áreas de produção. Apesar de depender da sombra das grandes árvores para se desenvolver, o plantio dos cacaueiros depende da remoção de árvores menores a fim de liberar espaço. No bioma Amazônia, os produtores podem desflorestar uma área de no máximo 20% das suas propriedades para a criação de terras agrícolas ou pastagens. Por se tratar de uma espécie amazônica e de baixíssimo impacto ambiental, o plantio do cacau deveria ter regras ambientais próprias e mais adequadas à cultura. 

Outra grande fonte de problemas para os produtores locais é de ordem trabalhista, especialmente na questão ligado aos contratos com os meeiros. Formado basicamente por núcleos de produção familiares, onde pais e filhos cuidam da produção, é muito comum na Região Norte a cessão de áreas de produção com meeiros, trabalhadores que recebem metade da produção obtida em uma determinada área. Esses contratos são normalmente verbais e baseados na confiança, uma prática que foge totalmente das práticas defendidas pelo Ministério do Trabalho. 

Também são importantes as questões fundiárias. Grande parte dos produtores está assentada na região há mais de 40 anos e ainda não possui a documentação de posse definitiva da terra. Sem esses títulos, não têm acesso a financiamentos e outros incentivos dados pelos bancos oficias, o que limita a modernização e o incremento da produção. 

Existem cerca de 20 milhões de hectares de terras abandonadas em toda a Amazônia, grande parte concentrada no Estado do Pará. Essas terras foram desmatadas e transformadas em pastagens para a criação de gado ainda nos primeiros tempos da colonização da região. Devido aos problemas de baixa fertilidade dos solos da Amazônia já citados, que dependem quase que exclusivamente do húmus criado pela própria floresta para se manter a sua fertilidade, essas pastagens se degradaram em poucos anos e foram abandonadas. 

Seria uma excelente alternativa ambiental o desenvolvimento de grandes projetos de reflorestamento dessas áreas e de implantação de polos sustentáveis de produção de cacau. Isso aliaria a produção sustentável e orgânica de cacau com a preservação da Floresta Amazônica – algo que soaria como música para os ouvidos de milhões de estrangeiros preocupados com a saúde do planeta Terra. 

Uma dica final: a maior região produtora de cacau do mundo fica no Oeste da África, na chamada Costa do Ouro, se espalhando por países como Gana, Costa do Marfim, Nigéria e Camarões. Entre outros inúmeros problemas, a produção local do cacau é famosa por utilizar largamente mão de obra infantil e escrava. Grandes empresas de alimentos internacionais sofrem grande pressão dos seus consumidores para não comprar cacau dessa região. Isso demonstra o potencial de produção de cacau sustentável na Amazônia! 

AMAZÔNIA SUSTENTÁVEL: O AÇAÍ E O PALMITO DO AÇAIZEIRO

Há bem pouco tempo atrás, assistindo uma série de comédia norte-americana num canal de streaming, fiquei surpreso com uma cena: dentro de uma suposta base militar da força espacial americana nos confins do Estado do Colorado, alguns militares seguem até um quiosque de lanches para tomar açaí. 

Como eu estava assistindo o filme com dublagem em português, eu fiz questão de voltar a imagem para ouvir o diálogo no áudio original em inglês – e não é que os “gringos” estavam falando de açaí mesmo! Um dos atores, identificado nos diálogos como um caipira do Alabama, pronunciava “eçaí”. Em sequência, a imagem mostrava duas mulheres da base se deliciando e elogiando o sabor da iguaria – a cor escura da massa não deixava qualquer dúvida em se tratar do típico fruto amazônico. 

Não muito tempo depois, desta vez vasculhando aleatoriamente um canal de divulgação de vídeos, encontrei a postagem de um alemão que estava dando dicas de onde comprar açaí nos supermercados de Munique e também de como servir à “moda dos brasileiros”. 

Esse sucesso do açaí para além das fronteiras da Região Amazônica também pode ser facilmente confirmado em cidades por todo o Brasil, onde têm se tornado cada vez mais comum a presença de lanchonetes que servem o produto. Até uns vinte anos atrás eram raros os lugares onde se podia apreciar o sabor surpreendente do açaí fora de cidades como Belém, Porto Velho e Manaus. 

De acordo com dados do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a produção de açaí em 2016 foi da ordem de 215 mil toneladas; em 2000, esse volume havia sido de 121 mil toneladas. O Estado do Pará, maior produtor brasileiro de açaí, exportou cerca de 2,3 milhões de toneladas em 2018 para países como Estados Unidos, União Europeia e Japão – os norte-americanos, aliás, consomem 40% das exportações de açaí do Pará. Para efeito de comparação, o pequeno Estado de Israel, com um território de parcos 20 mil km², dos quais 60% são desertos e terrenos semiáridos, exporta 1,5 milhão de toneladas de frutas por ano. Nós temos espaço de sobra para aumentar a nossa produção e ampliar drasticamente os volumes de exportação. 

O açaí (Euterpe oleracea) é o fruto de uma palmeira muito comum em toda a Região Amazônica, a palmeira-açaí ou açaizeiro. A planta costuma se desenvolver nas áreas de várzea, um ambiente dos mais comuns na grande floresta equatorial. Os frutos maduros caem diretamente nos rios ou são arrastados pelas chuvas, mecanismo que garante a dispersão das sementes e a colonização de novas áreas com as plantas. As palmeiras crescem em moitas, onde se desenvolvem de 3 a 25 troncos com diâmetro médio de 14 cm e altura de mais de 12 metros. 

Estudos científicos indicam que o açaí é um dos frutos mais ricos e nutritivos da Amazônia. É fonte de minerais como o manganês, bromo, cobre e cromo, além de vitamina E, sendo considerado tão energético quanto o leite. Além de sua extensa distribuição pela Amazônia brasileira, especialmente nos Estados do Pará, Amapá, Maranhão, Amazonas e Acre, a palmeira-açaí também é encontrada na Venezuela, Equador, Colômbia e nas Guianas. 

Existem evidências arqueológicas que indicam o consumo do açaí por populações indígenas da Amazônia há milhares de anos. Esse hábito foi absorvido pelas populações ribeirinhas que se assentaram na região com a colonização do Brasil, transformando o açaí num dos mais importantes alimentos da Região Norte. 

No preparo tradicional dos ribeirinhos, os frutos maduros são despolpados manualmente depois de ficar por um período de molho em água. A polpa é misturada com água até formar um suco grosso conhecido como vinho de açaí. Entre as populações da Amazônia essa polpa é consumida normalmente misturada com farinha de mandioca ou tapioca. Também é comum o preparo de um pirão com farinha, usado como acompanhamento de peixes e camarões. Mais recentemente, o açaí passou a ser consumido na região em forma de suco batido com açúcar. 

Muitos ribeirinhos sobrevivem colhendo e transportando açaí para venda em mercados nas grandes cidades da Amazônia. Certa feita, eu acompanhei a chegada de dezenas de pequenas embarcações carregadas com açaí no famoso mercado Ver-o-Peso em Belém. Os ribeirinhos desembarcavam grandes balaios com os frutos. No local existem dezenas de quiosques que preparam o açaí para o consumo no local e muitos outros que vendem o fruto in natura para se levar para casa. 

Os coletores de açaí nas áreas de matas e várzeas usam uma antiga técnica indígena para escalar as palmeiras e cortar os grandes cachos com os frutos – a peconha. Trata-se de uma pequena corda feita com fibras vegetais trançadas, que é presa aos pés para facilitar a subida pelos troncos. Usualmente, os frutos são removidos dos cachos e colocados em grandes cestos feitos com fibras vegetais, facilitando assim o embarque e transporte nas canoas. Algumas vezes, os frutos são carregadas em cachos até os mercados. 

Além do fruto, a palmeira-açaí também produz um palmito de excelente qualidade, que vem fazendo muito sucesso em todo o Brasil e em muitos países do mundo. Diferente do palmito extraído da palmeira-jussara (Euterpe edulis Mart.), muito comum no bioma Mata Atlântica e onde é preciso matar a planta para a extração da iguaria, o açaizeiro permite o corte de um ou mais troncos sem prejudicar a planta. Novos troncos voltarão a brotar depois de algum tempo. 

Além dessa produção altamente sustentável e ambientalmente correta dos frutos e do palmito, o açaizeiro também tem outros diversos usos para as populações da floresta – suas folhas são usadas para a cobertura de casas. As fibras do tronco são usadas na fabricação de chapéus, esteiras e cestas. A madeira dos troncos é usada na construção de casas e pontes. Os cachos secos são usados como vassouras ou podem ser transformados em adubo orgânico. Além disso, a fumaça da queima desses cachos funciona com um bom repelente de insetos. 

Juntos, o açaí e o palmito do açaizeiro formam uma excelente dupla de “garotos-propaganda” do uso sustentável dos recursos naturais da Floresta Amazônica. É preciso estimular e apoiar cada vez mais as populações tradicionais e as empresas locais que processam e exportam esses produtos para todo o Brasil e o mundo, mostrando assim o valor real que nós brasileiros damos à Floresta Amazônica

AMAZÔNIA SUSTENTÁVEL: OS EMBATES ENTRE A AGRICULTURA “TRADICIONAL” E A FLORESTA

A “invenção” da agricultura foi um dos maiores feitos da humanidade. O renomado escritor, pensador e futurólogo norte-americano Alvin Toffler (1928-2016) chamou esse grande evento, ocorrido entre 12 mil e 10 mil anos atrás, de “Primeira Onda”. Para que todos tenham uma ideia da intensidade e dos impactos provocados pela agricultura na humanidade, a “Segunda Onda”, denominação que foi dada à Revolução Industrial, só se desenrolaria a partir de meados do século XVIII. 

Até o início da produção de alimentos em grande escala nos campos agrícolas, a humanidade vivia num nomadismo interminável, buscando o alimento de cada dia muitas vezes sob risco de vida e sem qualquer certeza de encontrá-lo no dia seguinte. Foi então que, pouco a pouco, populações foram percebendo que era possível cultivar a terra e produzir os preciosos alimentos.  

Ao que tudo indica, essa “invenção” foi fruto do trabalho coletivo de inúmeras gerações de homens e mulheres de regiões como a Mesopotâmia, na Ásia Central, dos Vales dos rios Indus e Ganges, no Subcontinente Indiano, além de grandes rios da China e do Sudeste Asiático. Ao redor dessas áreas de produção agrícola surgiram os primeiros assentamentos humanos permanentes e as primeiras atividades pastoris. 

Há uma característica comum em todos esses locais onde a prática agrícola surgiu e que é fundamental para entendermos a questão da sustentabilidade ambiental na Amazônia – essas eram terras alagáveis, cobertas predominantemente por vegetação arbustiva e com poucas árvores. Sem me prender muito a detalhes, as práticas agrícolas tradicionais dependem de solos livres de árvores e expostos a uma forte luz solar, ou, falando de um jeito mais direto, a agricultura é uma destruidora de florestas

Um sítio histórico importante onde percebemos claramente um dos primeiros grandes embates entre florestas e agricultura foi o antigo Egito, um dos grandes celeiros do mundo antigo. A exemplo das grandes várzeas entre os rios Tigre e Eufrates na Mesopotâmia, o rio Nilo sofria grandes enchentes anuais, que cobriam e fertilizavam grandes extensões de terras ao largo das margens. Quando as águas baixavam, os solos se encontravam cobertos por uma densa camada de sedimentos nutritivos e humus, que passavam a ser trabalhados imediatamente por um grande “exército” de homens e mulheres. 

Na região do Delta do Nilo junto ao Mar Mediterrâneo, porém, havia um grande complicador. Nessas férteis terras entre os inúmeros canais do rio Nilo, os solos estavam cobertos por uma densa floresta com aproximadamente 30 mil km², um grave empecilho para a agricultura. O que fazer então? Muito simples – derrubam-se as árvores, cujas madeiras tinham um bom uso na construção civil e na produção de móveis, carroças e embarcações, liberando assim as terras para a implantação de grandes campos agricultáveis. 

Problemas semelhantes foram surgindo em terras da África, da Europa e da Ásia, onde a expansão das práticas agrícolas se deparou com extensas áreas cobertas por florestas. Foi aí que a força dos machados e o poder do fogo se tornaram os grandes aliados dos primitivos agricultores. Todas essas práticas passaram a ser vistas como normais, essenciais e justificáveis para o avanço da humanidade. 

Dando um enorme salto na história e no tempo, veremos exatamente essas mesmas práticas ao longo da colonização do nosso país. O mais importante produto colonial produzido no Brasil durante quase três séculos foi o açúcar. As melhores terras para o cultivo da cana naqueles tempos eram os “gordos” solos de massapê da faixa litorânea do Nordeste, entre o Sul da Bahia e o Rio Grande do Norte. 

Cobertos originalmente pelos densos sistemas florestais da Mata Atlântica, esses solos foram sistematicamente desmatados e transformados em campos agrícolas para o plantio da cana. A indústria colonial também precisava de energia para transformar as caldas doces em açúcar, o que era conseguido a partir da queima de grandes volumes de lenha – para se produzir um quilograma de açúcar, perto de vinte quilogramas de lenha precisavam arder nas fornalhas dos engenhos. 

A indústria açucareira praticamente dizimou a Mata Atlântica nesse trecho no litoral nordestino. Novas culturas agrícolas desembarcariam em terras brasileiros ao longo do tempo, levando essa destruição das matas cada vez mais rumo ao Sul e ao interior do território brasileiro. Falo aqui do café, do milho, do feijão, das laranjas, da soja e de muitas outras culturas agrícolas que necessitavam de solos livres das incômodas e inúteis árvores. Mais de 80% do bioma Mata Atlântica já desapareceu diante do avanço da agricultura e da pecuária

A mesma lógica de devastação de biomas naturais para a implantação de áreas agrícolas e de pastagens para a criação de gado seria seguida em diferentes momentos na Caatinga Nordestina, nos Pampas Sulinos e no extenso Cerrado Brasileiro. Falando apenas em destruição de cobertura florestal original, esses biomas já perderam, respectivamente, 60%, 54% e 50%

Chegamos agora na Amazônia, uma espécie de “fronteira final” para a agricultura. Milhares de agricultores de outras regiões do Brasil, especialmente do Sul, foram estimulados a migrar para a Região Norte nas décadas de 1960 a 1980, sob a promessa de cessão de grandes extensões de terra para trabalhar. Criados dentro do tradicional sistema de produção agropecuária com liberação de terras mediante a derrubada das matas, esses trabalhadores começaram o processo de destruição da Floresta Amazônica. 

Porém, diferentemente do que vinha acontecendo há talvez 12 mil anos, a humanidade não aceita mais esse processo e, provavelmente por termos a última grande floresta praticamente intacta do mundo, passamos a sofrer enormes pressões internacionais em defesa da Amazônia. Por mais hipócrita que essas pressões sejam, afinal de contas quem nos critica já devastou as suas florestas há muito tempo, essa é a nova regra do jogo mundial e vamos precisar “jogar” de acordo. 

Me apropriando de palavras do grande antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997), não faz o menor sentido devastarmos a maior e mais rica floresta equatorial do mundo, a Amazônia, para plantar soja, um grão que é usado majoritariamente para produzir ração para engorda de porcos em países como a China e a Alemanha, ou para produzir carnes para norte-americanos transformarem em hamburgueres. Precisamos reciclar as nossas ideias e mudar os nossos paradigmas de produção agropecuária. 

E como fazer isso? 

Existem inúmeros “produtos amazônicos” de grande valor comercial e forte apelo ecológico, que podem gerar muito trabalho e renda para as populações locais e empresas processadoras (talvez até mais do que a agricultura e pecuária tradicionais), sem que seja necessária a destruição da maravilhosa Floresta Amazônica. Esses “produtos” carregam em seu DNA um fortíssimo apelo de Marketing: são bons, ecologicamente corretos, socialmente justos (esse é um ponto que ainda precisa ser melhor trabalhado) e quem consome está ajudando a preservar a Floresta Amazônica. Muita gente no exterior vai “comprar” essa ideia e consumir esses produtos.

Na próxima postagem vamos falar de dois deliciosos produtos tipicamente amazônicos, que estão conquistando cada vez mais espaços nos mercados nacional e mundial – o açaí e o palmito do açaizeiro. Até lá! 

FALANDO DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL NA AMAZÔNIA

Estamos começando um novo ano e vamos torcer para que ele seja, pelo menos, um pouco melhor do que foi 2020. O trágico ano que passou vai ficar marcado para sempre na história e na nossa memória pela pandemia mundial da Covid-19. Aparentemente surgido na China, o coronavírus se espalhou rapidamente pelos quatro cantos do mundo e, literalmente, fez a humanidade parar. 

Entre inúmeros desdobramentos, a pandemia criou o “fique em casa”, o uso generalizado do álcool gel e de máscaras, suspensão de aulas em todos os níveis do ensino, fechamento de comércios e de indústrias, uma corrida desenfreada de pesquisadores e cientistas na busca por vacinas, entre muitas outros. A epidemia também criou algumas narrativas folclóricas”. Uma delas, que vem sendo divulgada por muitos meios de comunicação internacionais, afirma que a próxima pandemia surgirá no Brasil por causa dos desmatamentos da Amazônia. 

Conforme já tratamos em uma extensa série de postagens anteriores, existem grandes problemas na Floresta Amazônica como os desmatamentos, as queimadas, a extração ilegal de madeiras, os garimpos clandestinos, entre muitos outros. São problemas que se agravaram muito nos últimos sessenta anos a partir de ações governamentais para a abertura de estradas ligando o restante do Brasil à Região Norte e aos diversos programas de estímulo à ocupação e colonização da até então deserta Amazônia brasileira. Foram tempos de grandes slogans: “uma terra sem homens, para homens sem-terra”, “Brasil – ame-o ou deixe-o” e “esse é um país que vai prá frente…” 

Aqui é importante lembrar que problemas muito parecidos aconteceram e continuam acontecendo em outros Países Amazônicos como Bolívia, Peru, Equador, Venezuela e Colômbia. Trechos da grande floresta equatorial nesses países também foram derrubados e queimados, liberando terras para a agricultura, pecuária e mineração, para implantação de cidades e de obras de infraestrutura, entre outras ocupações. Todavia, a opinião pública de muitos países desenvolvidos só vê os brasileiros como os grandes vilões da natureza. 

Felizmente, esse avanço alucinado contra a Floresta Amazônica brasileira arrefeceu muito nos últimos anos e a situação entrou numa fase de “relativa” estabilidade ou de crescimento muito mais lento. É preciso ressaltar que o custo ambiental dessa “saga Amazônica” até agora já foi altíssimo. Porém, precisamos ver o lado positivo da situação – algo entre 85% e 87% da nossa grande floresta continua preservado e o nosso foco daqui para a frente deve ser a manutenção desse grande patrimônio natural

A destruição das florestas tropicais, ao contrário do que muita gente pensa, não acontece somente na Amazônia. Alguns exemplos: cerca de 90% das florestas do Sul do México desapareceram nas últimas décadas. Em El Salvador, a perda está entre 80 e 95% da cobertura florestal conforme a fonte consultada. No Haiti restam apenas 5% das densas florestas de um passado não tão distante. Em Madagascar, mais de 85% da floresta tropical já desapareceu e na Indonésia, uma área de florestas tropicais equivalente ao território da Irlanda foi destruída em apenas 12 anos. A lista de países onde ocorrem grandes agressões às florestas tropicais é enorme.

Mas os problemas de destruição de florestas não param por aí – citemos como exemplo a taiga ou floresta boreal, a maior floresta do mundo, onde se vem batendo recordes de queimadas e de desmatamentos ano após ano. Esse grande sistema florestal se estende ao redor do globo terrestre por uma faixa contínua do Hemisfério Norte entre os paralelos 40 e 70. Isso incluiu terras da Escócia, Noruega, Suécia, Finlândia, Rússia, Cazaquistão, Coreia do Norte e do Japão. A taiga prossegue do outro lado do Estreito de Bering no Alasca, região que pertence aos Estados Unidos, no Canadá e chega até na Groenlândia, ilha autônoma que pertence à Dinamarca.  

A taiga ocupa uma área total de 15 milhões de km², sendo praticamente 3 vezes maior que a Floresta Amazônica. As principais espécies dessa floresta são pinheiros, piceas, bétulas e lariços. No último verão, cerca de 100 mil km² da taiga na região da Sibéria – Rússia, foram destruídos por incêndios florestais. Isso corresponde a 10 vezes o tamanho das áreas de “florestas queimadas” na Amazônia. Os desmatamentos para exploração da madeira, principalmente na Rússia e no Canadá, também são enormes

Um outro ponto importante – segundo levantamento feito pela renomada revista científica Nature e publicado em junho de 2020, os desmatamentos em remanescentes florestais em países da União Europeia aumentaram 69% em 2018. Segundo informações da publicação, esses desmatamentos estão ligados diretamente à exploração das madeiras. Na França, um dos países que mais fortemente acusam o Brasil da devastação na Amazônia, os desmatamentos cresceram cerca de 30%. Em Portugal, esse crescimento foi de 56%. Também é preciso lembrar que países europeus como a França e a Alemanha estão entre os maiores compradores de madeiras extraídas e exportadas ilegalmente da Amazônia. E ninguém fala nada!

Minha pergunta: qual foi a última vez que qualquer um de vocês viu grupos ecológicos protestando contra a destruição acelerada da taiga ou desses desmatamentos na União Europeia? Melhor ainda – o presidente da França, Emmanuel Macron, chegou a ameaçar a poderosa Rússia de Vladimir Putin por causa dessa destruição florestal como fez com o Brasil? Ou a primeira ministra da Alemanha, Angela Merkel, falou alguma coisa sobre a derrubada dessas florestas em seus parceiros França e Portugal?

Deixando toda essa hipocrisia ambiental de lado, vamos dedicar algumas postagens a propostas econômicas ecologicamente sustentáveis para a grande Floresta Amazônica. Essa região abriga uma população de quase 25 milhões de brasileiros, gente essa que precisa de trabalho e renda. Muito além das tradicionais atividades econômicas predatórias como a exploração das madeiras e do garimpo, existem inúmeros produtos locais como frutos, castanhas e peixes que podem gerar riqueza e renda sem destruir a floresta. 

Continuamos na próxima postagem. Até lá!