A EXPULSÃO DOS JESUÍTAS DO BRASIL E A CRISE NA COLONIZAÇÃO DA AMAZÔNIA

Marquês de Pombal

Nas últimas postagens temos falado do lento processo de colonização e incorporação da Região Amazônica ao resto do país. A Região, segundo as cláusulas do Tratado de Tordesilhas, pertenceu inicialmente ao Reino de Castela. Após duas grandes expedições espanholas terem fracassado de maneira estrondosa na busca pelo mítico El Dorado, ao custo de milhares de vidas, os castelhanos desistiram da Amazônia e abriram caminho para a posse da maior parte da Região por Portugal. Conhecer e entender todo esse processo é vital para uma compreensão plena dos problemas das populações da Região e para o estabelecimento de metas para a conservação de toda a floresta e garantir um desenvolvimento sustentável da Amazônia. 

Os Jesuítas foram os principais agentes das primeiras décadas da colonização do Norte brasileiro. Chegando na mesma expedição militar responsável pela fundação do embrião da cidade de Belém do Pará – o Forte Presépio, ainda em 1616, os Jesuítas rapidamente iniciaram o processo de catequização dos indígenas e de criação dos aldeamentos, mais conhecidos como Reduções Jesuíticas

Conforme comentamos na postagem anterior, esses aldeamentos gradativamente acabaram sendo transformados em fazendas mercantis, onde os indígenas tinham a sua mão-de-obra explorada pelos religiosos sem o devido pagamento de salários. Os índios, que além de educação religiosa também receberam treinamento e qualificação nos mais diversos ofícios, produziam móveis, portas e janelas, peixes salgados, embarcações, tecidos, artesanatos, entre outros produtos, que eram exportados pelos religiosos para outras regiões do país e também para Portugal. Os Jesuítas obtinham altíssimos lucros com a venda desses produtos e não precisavam pagar impostos ao Fisco Real, uma regalia que incomodava, e muito, a todos os demais colonos

Os atritos entre colonizadores e Jesuítas foram crescentes. Num segundo momento o desconforto ampliou-se para a esfera Governamental, uma vez que os religiosos detinham um poder político e econômico muito maior do que o Governador local. Essa verdadeira competição comercial somente terminou quando da expulsão dos Jesuítas de todos os territórios portugueses em 1759, por ordem do Marquês de Pombal (vide foto), Sebastião José de Carvalho e Mello (1699-1782), estadista e diplomata, ainda hoje, uma das figuras mais controversas e carismáticas da história de Portugal. 

Para que vocês tenham uma vaga ideia do poder econômico acumulado ao longo de dois séculos pela Companhia de Jesus (S.A. – grifo meu), leiam com atenção essa citação de Darcy Ribeiro: 

“O vulto do patrimônio jesuítico, ao tempo do seu confisco (1760) era enormíssimo. Estendia-se de Norte a Sul do país, na forma de missões e concessões territoriais concedidas pela Coroa, onde instalavam suas cinquenta missões de catequese, cuja base material eram engenhos de açúcar (dezessete), dezenas de criatórios de gado, com rebanho avaliado em 150 mil reses, além de engenhos, serrarias e outros bens. 

A Companhia seria também a maior proprietária urbana, pelo número de casas nas cidades que abrigavam os colégios, os seminários, os hospitais, os noviciados, os retiros, regidos por 649 padres e irmãos leigos. Só na Bahia, eles possuíam 186 casas, no Rio setenta e em São Paulo lhes restavam cerca de seis, e muitas mais no Maranhão, em Recife, em Belém e por toda a parte, das quais fluíam altas rendas de aluguel.” 

Outra fonte de consulta, a ‘História da Companhia de Jesus no Brasil’, escrita pelo mestre Padre Serafim Leite, apresenta números de engenhos de açúcar um pouco diferentes, afirmando que “os Jesuítas chegaram a possuir no Brasil 26 engenhos, assim como 30 engenhocas e alambiques de cana”. 

A expulsão pombalina de 1760, proibindo a presença dos Jesuítas em qualquer dos territórios de Portugal, foi um ato político, pelas razões apresentadas, sem qualquer tipo de conotação religiosa – todas as críticas contra a Companhia de Jesus são de ordem econômica e social. No campo da educação, por exemplo, o trabalho dos Jesuítas foi fabuloso e muito da unidade cultural e linguística do Brasil se deve a este trabalho. 

Sem nos atermos aos detalhes da expulsão dos Jesuítas e a todas as suas consequências, que foram muitas, vamos focar nas suas consequências para as populações indígenas dos aldeamentos, que de uma hora para outra ficaram “orfãs” de pai e mãe. Conforme comentamos anteriormente, a principal estratégia utilizada pelos religiosos para o aculturamento e conversão dos indígenas era a transferências de grandes grupos ou até mesmo de aldeias inteiras para as Reduções Jesuíticas. As tribos consideradas hostis aos colonizadores, que eram muitas, foram atacadas e exterminadas pelos contingentes militares da Coroa de Portugal, em “operações de limpeza” territorial. 

Nos aldeamentos dos Jesuítas, os indígenas passavam inicialmente por um processo para adoção do sedentarismo dos brancos – indígenas eram, tradicionalmente nômades e mudavam frequentemente em busca de novos campos de caça e pesca, além da busca de novas terras para as suas práticas agrícolas. Os indígenas também recebiam treinamento profissional, aprendendo a realizar tarefas “úteis” ao sistema colonial. Ao longo de todo esse processo, recebiam educação religiosa, deixando para trás uma vida pagã e selvagem, transformando-se em bons cristãos. Aqueles que conseguiam sobreviver às doenças trazidas pelos brancos, como a varíola e a gripe, transformavam-se em uma espécie de cidadãos de segunda classe da Colônia. 

Esse processo de aculturamento dos indígenas tinha um alto custo pessoal – todas as suas tradições culturais, religiosas e formas de vida dos seus tempos na floresta eram deixados para trás. Conforme nasciam as novas gerações de indígenas nos aldeamentos, essa antiga forma de vida “natural” ficava cada vez mais distante do seu dia a dia. Com a expulsão dos Jesuítas e com o fim dos aldeamentos, centenas de milhares de indígenas perderam, ao mesmo tempo, seu teto, seu trabalho e sua posição na nascente sociedade colonial da Amazônia. Muitos desses indígenas acabaram sendo aprisionados pelos fazendeiros e passaram a viver como escravos – aliás, a falta de mão-de-obra indígena por causa dos aldeamentos dos Jesuítas era uma das grandes reclamações dos fazendeiros e colonos da Amazônia daqueles tempos. 

Uma grande parte desses indígenas aculturados passou a viver nas margens dos rios da Bacia Amazônica, mesclando conhecimentos tradicionais ancestrais com novos conhecimentos adquiridos dos brancos. A partir de meados do século XIX, quando teve início o chamado Ciclo da Borracha, esses indígenas aculturados se juntaram aos seringueiros, grande parte de origem nordestina – a fusão desses grupos originou o chamado “ribeirinho amazônico”. 

Muitos dos antigos aldeamentos Jesuíticos acabaram transformados em cidades, onde destacamos Cametá, na foz do rio Tocantins; Airão, Carvoeiro, Moura e Barcelos, no rio Negro; Santarém, na foz do rio Tapajós; Faro, na foz do rio Nhamundã; Borba, no rio Madeira; Tefé, São Paulo de Olivença e Coari, no rio Solimões, e Itacoatiara e Silves, no rio Amazonas. 

Dentro de nossa área de interesse, o meio ambiente e os recursos hídricos da Bacia Amazônica, os impactos negativos dessa fase inicial da colonização da Floresta Amazônica foram muito pequenos, concentrando-se na superexploração de algumas espécies como o pirarucu e o peixe-boi

Continuaremos na próxima postagem.

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