A INSUSTENTÁVEL CRIAÇÃO DE SALMÕES EM CATIVEIRO NA PATAGÔNIA CHILENA

Salmoneras no Chile

Nos últimos dias, as questões ligadas às queimadas e à destruição da Floresta Amazônica ganharam, um tanto que artificialmente, uma visibilidade nunca vista antes. A questão é bastante séria e, frequentemente, tratamos desses temas aqui neste blog. A recente assinatura de um Protocolo de intenções para uma futura associação entre o Mercosul e a União Europeia, algo que assusta produtores agrícolas europeus altamente subsidiados, e problemas políticos internos em países como a França, ajudaram a acentuar as cores dessa tragédia. A partir da próxima postagem, vamos falar disso. 

Antes, gostaria de encerrar essa sequência de postagens, onde tratamos dos diversos impactos ambientais criados pela poluição, construção de barragens, introdução de espécies exóticas, entre outros problemas, e que tem afetado negativamente as espécies da fauna aquática em diversos corpos d’água por todo o mundo. Na última postagem, falamos de um desses casos – a invasão de rios da Patagônia argentina por trutas e salmões exóticos, algo que está destruindo a fauna aquática nativa. Do outro lado da Cordilheira dos Andes, na Patagônia chilena, é a criação de salmões em cativeiro a grande causadora de impactos ambientais. Como esses dois casos têm ligações, vamos falar um pouco sobre isso. 

O Chile é o segundo maior produtor mundial de salmões em cativeiro, atendendo cerca de 1/3 da demanda mundial dessa proteína. A cada ano, cerca de 100 milhões de salmões são exportados pelo país, atendendo principalmente os mercados do Brasil, dos Estados Unidos e do Japão. Essa produção gera receitas da ordem de US$ 5 bilhões, que só ficam atrás das vendas de metais como o cobre e de frutas. A atividade emprega atualmente cerca de 30 mil pessoas no país, mas já chegou a empregar 50 mil pessoas anos atrás.  

A Noruega é a maior produtora mundial de salmões em cativeiro e empresas desse país dominam essa produção no Chile. A indústria “salmonera” (termo em espanhol usado no Chile) se concentra no litoral Sul do país, região que guarda muitas semelhanças físicas e climáticas com a Noruega. Graças a tamanhas similaridades, seria de se esperar grandes semelhanças entre os métodos de criação dos peixes nos dois países, algo que infelizmente não acontece. Enquanto essa produção é considerada sustentável na Noruega, no Chile ela vem sendo um verdadeiro desastre ambiental.

O processo começa com a reprodução dos alevinos em cativeiro. As ovas fertilizadas dos peixes são colocadas em tanques de água doce em depósitos climatizados. Após a eclosão das ovas, os alevinos são transferidos para tanques maiores com água corrente, onde os animais passarão os primeiros meses de suas vidas vivendo numa espécie de primavera artificial, onde a temperatura e a iluminação são rigorosamente controladas, simulando as condições ambientais dos rios onde a espécie se reproduz. No Chile, os problemas começam aqui – depois de usada, a água desses tanques recebe um “tratamento” a base de grandes quantidades de cloro, sendo despejada diretamente no oceano, o que prejudica uma infinidade de espécies da fauna aquática marinha. 

Quando os pequenos salmões atingem a “adolescência”, eles são transferidos para jaulas flutuantes instaladas em fiordes, grandes gargantas estreitas entre montanhas, onde as águas do oceano se espremem como num rio. Na Noruega, essas jaulas atingem uma profundidade de até 30 metros e tem capacidade para abrigar até 100 mil salmões. Atendendo à legislação ambiental norueguesa, essas jaulas são bastante espaçadas e há um limite para o número máximo de salmões criados em um único fiorde. 

No Chile, onde as regras ambientais são bem mais flexíveis do que na Noruega, as jaulas flutuantes podem atingir uma profundidade de até 60 metros, onde chegam a viver mais de 200 mil salmões. Também são comuns as salmoneras onde são criados mais de 1 milhão de peixes em um único trecho de um fiorde. Essas características particulares da produção, associadas aos baixos salários pagos à mão-de-obra local, tornam os custos de produção muito mais baixos no Chile e os lucros para as empresas muito maiores. Os impactos ao meio ambiente, é claro, são gigantescos. 

A fuga de grandes quantidades de salmões desses tanques é um desses problemas. Grandes tempestades que se formam ao longo do litoral, uso de materiais de baixa qualidade para a construção das jaulas e até os ataques de lobos marinhos contra as telas para capturar os salmões, estão entre as principais causas destas fugas. Dados oficias indicam que mais de 3,2 milhões de salmões fugiram desde 2010 e passaram a viver soltos no meio ambiente, competindo com as espécies locais.  

Aqui há um detalhe interessante – um pescador local que capturar qualquer um desses salmões pode ir preso por roubo, uma vez que os peixes são propriedade das salmoneras. Os lobos marinhos que atacam as jaulas também sofrem as consequências – esses animais, que são protegidos pelas leis ambientais do Chile, podem ser abatidos a tiros pelos funcionários das empresas ao atacarem as jaulas. 

Os salmões selvagens, que passam a maior parte de suas vidas nos oceanos, são peixes onívoros que se alimentam de uma enorme gama de peixes, crustáceos e moluscos. Essa dieta incluiu algumas espécies marinhas ricas em betacaroteno, um corante natural que dá a cor rosada na carne dos salmões. Na criação em cativeiro, os salmões recebem uma ração feita a partir da carne e do óleo de peixes, onde é agregada uma tintura artificial, e não muito saudável, que simula o betacaroteno e tinge a carne desses peixes.  

Cerca de 90% de toda a produção pesqueira do Chile é usada para a produção de ração para os salmões criados em cativeiro, numa proporção de 5 kg de peixes para cada 1 kg de salmão produzido. Os mercados do país, que antes apresentavam inúmeras espécies de peixes para a venda à população, agora estão abarrotados de salmões. 

As fezes de toda essa grande quantidade de salmões criados nas jaulas, contaminadas por esses produtos químicos, se amontoam sobre o fundo oceânico e sufocam toda a fauna bentônica, a fonte primária de alimentos das espécies nativas. Uma outra fonte de problemas ambientais são as enormes quantidades de antibióticos que são aplicados nos salmões para combater a bactéria Piscirickettsia salmonis, causadora de doenças nos peixes do Chile e que não é encontrada em outros países produtores. Em 2010 foram utilizadas cerca de 350 toneladas de antibióticos pelas salmoneras, um volume 1.500 vezes maior do que o utilizado na produção de salmões na Noruega

Mesmo com o uso dessas grandes quantidades de antibióticos ainda existem casos de grandes mortandades de peixes por causa dessa doença. De acordo com a legislação ambiental do Chile, os peixes mortos devem ser recolhidos e descartados de forma segura. No documentário Salmonopoly, produzido em 2016 e que trata dos impactos ambientais da produção de salmão em cativeiro no Chile, há uma sequência onde os cinegrafistas seguiram um caminhão carregado com esses peixes mortos e descobriram que o destino final era uma fábrica de rações para os salmões. Questionados, os responsáveis pela fábrica alegaram que o calor usado no processo de produção mata toda e qualquer bactéria.

A criação de salmões em cativeiro no Chile teve início na década de 1980 e, de lá para cá, os pescadores tradicionais do Sul do país assistiram ao desaparecimento de inúmeras espécies marinhas típicas da região. Além dessa visível redução na variedade de espécies, também houve uma grande redução nos estoques pesqueiros. Até mesmo a coleta de mariscos, uma atividade ancestral entre as populações indígenas das ilhas da região, está desaparecendo. As condições de trabalho para quem foi obrigado a abandonar a pesca e ir trabalhar nas salmoneras também não são as melhores: baixos salários, equipamento de segurança de baixa qualidade e a falta de assistência médica em caso de acidentes lideram as reclamações. Mais de 100 mergulhadores, que realizam a manutenção das jaulas, já morreram em acidentes de trabalho nos últimos anos.

Para finalizr – a maior indústria desse segmento no Chile é a norueguesa Marine Harvest, que também é a maior empresa do setor no mundo. Essa empresa, que usa métodos de produção completamente diferentes na Noruega e no Chile, é parceira do WWF – World Wide Fund for Nature, uma das maiores ONGs – Organizações Não Governamentais, ambientais do mundo, num programa de produção sustentável de salmões em cativeiro. A ONG recebe doações de cerca de US$ 100 mil por ano da empresa, que, em troca, tem o direito de usar o logotipo com o panda da WWF nas embalagens dos salmões que comercializa, onde ostenta orgulhosamente a marca de “produto sustentável”. 

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