AMAZÔNIA SUSTENTÁVEL: AS MISTERIOSAS “TERRAS PRETAS DE ÍNDIO”

Um dos maiores temores dos “defensores” europeus da Floresta Amazônica é o avanço das plantações de soja e dos rebanhos bovinos em direção à grande floresta sul americana. Muitos acham que, dentro de poucos anos, a região será transformada em um mar sem fim de campos de soja e de pastagens para animais. 

Lamento informar a todas essas pessoas tão bem “intencionadas” que é bastante difícil ver algo semelhante acontecer. E falo isso sem querer afirmar que todos os brasileiros e os cidadãos de outras nações amazônicas estão 100% preocupados com a preservação do bioma, mas sim por que a maioria dos solos da região é de baixíssima fertilidade e inadequados para a agricultura e pecuária. 

De acordo com informações da UFPA – Universidade Federal do Pará, 92% dos solos da Região Amazônica apresentam uma baixa fertilidade natural, enquanto que apenas 8% são de elevada fertilidade. O estudo também informa que existem perto de 20 milhões de hectares de terras abandonadas na Amazônia brasileira que foram originalmente desmatadas e transformadas em pastagem para o gado.  

Até cerca de 160 milhões de anos atrás, quando a América do Sul ainda formava parte do Supercontinente de Gondwana, a região onde se encontra a Floresta Amazônica era um grande deserto de areias móveis. Com a fragmentação de Gondwana e o início do processo de separação dos continentes (pesquise sobre Deriva Continental), a região foi se transformando gradativamente ora em um mar raso ora em uma grande planície frequentemente invadida pelas águas do mar. 

O destino da Amazônia começou a mudar há cerca de 40 milhões de anos atrás quando o choque das duas grandes placas tectônicas da região, a Placa Sul-americana e a Placa de Nazca, iniciou o processo de soerguimento dos terrenos que formariam a Cordilheira dos Andes. Esse fabuloso processo geológico conformou os limites da Bacia Amazônica e criou as condições para a formação da Floresta Amazônica. 

Naqueles primeiros tempos, a vegetação dependia quase que exclusivamente dos nutrientes minerais que eram carreados pelas águas desde os terrenos altos dos Andes. Com o passar do tempo, a própria floresta começou a reciclar os seus nutrientes, formando uma grossa camada de húmus sobre os solos. Troncos caídos, galhos, folhas, frutos, carcaças de animais – tudo que cai sobre os solos da Floresta Amazônica é rapidamente transformando em nutrientes para a própria floresta. 

Quando uma área é desmatada, essa camada de húmus acaba ficando exposta aos elementos – a chuva por exemplo, e se perde rapidamente. A experiência de inúmeros pioneiros na colonização da Amazônia deixou isso muito claro – em poucos anos, as terras desmatadas apresentaram uma redução brutal na fertilidade e não se conseguia boas colheitas. Até mesmo as gramíneas para a pastagem de animais ficaram escassas e muitos colonos acabaram abandonando as suas terras. 

Em meio a tantos problemas de baixa fertilidade dos solos, surgem notícias de manchas de terra preta e de alta fertilidade espalhadas por todos os lados da floresta. As primeiras descobertas desse tipo especial de terras datam da década de 1870, quando exploradores e naturalistas passaram a observar a existência desses solos intrigantes. Estudos posteriores demonstraram que esses solos foram criados artificialmente por antigas populações da Amazônia e eles passaram a ser conhecidos como “terra preta de índio”. 

De acordo com algumas hipóteses formuladas a partir de achados arqueológicos, a Floresta Amazônica abrigava grandes populações há cerca de 4 mil anos atrás. Para sustentar tanta gente, era necessário melhorar as condições de fertilidade dos solos. Grandes extensões de matas foram derrubadas e queimadas para a formação de grandes clareiras onde se criaram campos agrícolas. Os solos passaram por um processo ainda não totalmente conhecido de fertilização artificial. 

Estudos feitos em laboratório com amostras desses solos encontraram altos teores de carbono, muito mais altos que os valores médios de outros solos – cerca de 150 gramas de carbono para cada kg de solo, enquanto a média fica entre 20 e 30 gramas. Esses solos também se destacam pelos altos teores de fósforo, cálcio, zinco, nitrogênio e manganês, além grandes quantidades de carvão, restos de cerâmica e resíduos de ossos. 

Até onde os pesquisadores já conseguiram entender, o carbono foi fixado nos solos através da queima de materiais orgânicos na presença de pouco oxigênio. O carbono em alta concentrações melhora a absorção da água, o que facilita a penetração das raízes no solo e gera plantas mais resistentes. As características do carvão encontrado nas terras pretas de índio permitem uma longa retenção do carbono no solo, exatamente o contrário do que deveria acontecer na região Amazônica – essa retenção pode durar centenas ou milhares de anos. Os pesquisadores calculam que algo entre 1% e 10% dos solos da Amazônia sejam constituídos por esses solos artificiais. 

Nos últimos anos, esses solos escuros da Amazônia têm despertado um interesse cada vez maior da comunidade científica e as mais importantes revistas da área no mundo como a Nature e a Science têm publicado diversos artigos sobre esse assunto. Em 2006, citando um exemplo, a Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS, na sigla em inglês), dedicou um simpósio a esse assunto: Amazonian Dark Earths: New Discoveries (Terras Pretas da Amazônia: Novas Descobertas).

Essas antigas populações desapareceram sem deixar rastros ou maiores informações sobre o processo usado para criar esses solos artificiais. Os novos grupos indígenas que chegaram na região encontraram essas terras pretas já “prontas para o uso”. Ribeirinhos que têm a sorte de morar perto dessas áreas conseguem uma ótima produção de subsistência. Conseguir recriar os mecanismos de formação dessas terras poderá ser uma excepcional alternativa econômica para regiões de solos pobres em todo o mundo, onde as populações locais se esforçam muito para obter poucos frutos da terra. 

Um exemplo prático da importância dos solos escuros da Amazônia na vida cotidiana das populações indígenas foi observado por Morgan Schimidt, um pesquisador do Museu Paraense Emílio Goeldi, que estudou as terras pretas no território dos índios Kuikuro no Alto Xingu, no Estado de Mato Grosso. O pesquisador observou que os Kuikuro constroem as suas aldeias em áreas próximas dessas manchas de solo escuro, que podem estar até 20 km de distância. As terras são utilizadas para a prática agrícola, especialmente na produção do milho.  

O pesquisador também observou que os índios, nas suas atividades diárias, continuam produzindo terra preta: os índios cavam valas no solo para usar no descarte de resíduos de alimentos, cinzas, ossos, restos de peixes e de caças, conchas, folhas de palmeiras, serragem e restos de madeira, dejetos humanos e outros detritos. Esse composto, que muitas é incendiado, é a base para a formação das terras pretas. 

Desvendar os segredos da criação das “terras pretas de índio” e usar esses conhecimentos para recuperar grandes extensões de solos já degradados da Amazônia pode ser uma das grandes alternativas para o desenvolvimento sustentável da região. O cacau por exemplo, uma planta nativa da região e que precisa da sombra das grandes árvores para se desenvolver, poderá ser plantado nesses solos recuperados, produzindo suas sementes de forma totalmente orgânica e sustentável. 

A Floresta Amazônica ainda guarda muitos mistérios e ainda temos muito o que aprender com ela. Uma certeza, entretanto, já temos – suas possibilidades para a geração de riqueza e renda para o nosso país são quase que ilimitadas. 

One Comment

  1. […] Existem também muitas áreas onde existe uma vegetação de transição, que mistura espécies do Cerrado e da Amazônia, onde os solos tem características mais próximas daquelas encontradas no Cerrado e são mais propícios à pratica da agricultura. De acordo com dados da Universidade Federal do Pará, 92% dos solos da Região Amazônica apresentam uma baixa fertilidade natural, enquanto que apenas 8% são de elevada fertilidade.  […]

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