AS ROCHAS ORNAMENTAIS DO ESPÍRITO SANTO E SEUS IMPACTOS AO MEIO AMBIENTE

Rochas ornamentais no Espírito Santo

O Brasil é um grande produtor e exportador de rochas ornamentais. De acordo com dados da entidade que representa o setor, o SINDIROCHAS, a produção oficial no ano de 2015 chegou a 9,5 milhões de toneladas, das quais perto de 2,5 milhões toneladas foram exportadas. O consumo interno desses produtos chegou a cerca de 72 milhões de m² – as projeções indicam que em 2020, esse consumo será superior a 100 milhões de m². O grande destaque são os nossos granitos, classificados entre os mais bonitos do mundo. 

Entre os Estados brasileiros, o discreto Espírito Santo é o grande destaque, abrigando o maior parque de empresas especializadas na extração, corte e beneficiamento de rochas ornamentais, com perto de 2 mil unidades registradas. O Estado produz cerca de 4 milhões de toneladas de rochas, sendo campeão absoluto na produção de mármore – 75% da produção nacional. Essa importante indústria extrativista mineral é responsável por 10% do PIB –Produto Interno Bruto, do Espírito Santo

Porém, como acontece em todas as atividades de mineração, a produção de rochas ornamentais causa uma série de problemas ao meio ambiente e, especialmente, aos recursos hídricos locais. Vamos entender isso: 

Os problemas associados à extração das rochas começam com a necessidade de suprimir a vegetação e a camada fértil do solo para se conseguir atingir os veios rochosos do subsolo. Em publicação recente, nós falamos dos impactos dessas atividades na destruição de trechos da Mata Atlântica em Ubatuba, litoral Norte do Estado de São Paulo, durante o ciclo de exploração do granito verde. Além do aspecto estético, a remoção da cobertura vegetal nessas áreas causa uma série de mudanças na dinâmica de escoamento das águas superficiais.  

Durante o período das chuvas, uma parte significativa das águas pluviais é absorvida pelos solos e pela vegetação, reduzindo o volume e a velocidade das enxurradas que chegam aos corpos d’água. Sem essa proteção natural, os fluxos de água que atingem os rios aumentam em volume e violência, com grande potencial para a produção de grandes enchentes e carreamento de grandes volumes de sedimentos para a calha dos corpos d’água. Outro lado desse problema se dá quando as pedreiras são abandonadas e não existe nenhum trabalho para a recuperação dos solos e reflorestamento. 

Outro grave problema ambiental criado pela atividade é o consumo e contaminação de grandes volumes de água, especialmente nas etapas de corte e polimento das chapas. A água é usada para resfriar as ferramentas de corte e polimento – em contato com o pó das pedras, essa água forma uma espécie de lama, que sem os devidos cuidados pode escorrer na direção dos corpos d’água e causar problemas de contaminação. Nas empresas maiores e melhor estruturadas, essa água passa por sistemas de tratamento e de reaproveitamento.  

Após o uso, a água é recolhida em tanques de decantação, onde os sedimentos são acumulados no fundo por força da gravidade. Em unidades mais sofisticadas, a água passa por processos de tratamento similares aos utilizados nas ETAs – Estações de Tratamento de Água, que fornecem água potável para abastecimento de populações. Infelizmente, a maioria das empresas não toma esses cuidados e libera esses efluentes diretamente no meio ambiente. 

A produção excessiva de resíduos é outro grande problema da indústria das rochas artesanais. Entre a produção de sedimentos gerados pelo corte e polimento e as sobras de rochas após o corte, calcula-se que um volume entre 20 e 25% dos blocos de rochas extraídos acabam transformados em resíduos. Os rejeitos minerais estão entre os maiores problemas ambientais e sociais criados pelas atividades mineradoras – o rompimento das barragens de rejeitos em Mariana, em 2015, e, mais recentemente em Brumadinho, causaram a morte de centenas de pessoas e gravíssimos danos ao meio ambiente. 

São frequentes as denúncias de despejos de resíduos da produção de rochas ornamentais em terrenos baldios, margens de rios e córregos, áreas de várzeas, terras públicas e em áreas de conservação. Normalmente, as empresas envolvidas nesses ilícitos são de pequeno e médio porte, que operam às margens da legalidade e sem as respectivas licenças de lavra e ambiental, além de não contar com um plano para a gestão dos resíduos, algo fundamental para se operar nesse setor. 

Os principais gerados são a granalha de cal, a rocha moída e os fragmentos de rochas, materiais com grande potencial de reaproveitamento, especialmente na produção de produtos e insumos para a construção civil. Um experimento interessante que vem sendo feito por algumas associações de proteção ambiental do Espírito Santo como a AAMOL – Associação Ambiental Monte Líbano, é o uso da lama gerada pelo corte e polimento das rochas na produção de blocos estruturais, que podem ser utilizados para a construção de prédios e casas com até 3 andares. Apesar de terem um custo superior ao dos blocos convencionais, esse produto usa um sistema de encaixes e intertravamento, o que resulta numa economia de argamassa e de ferragens estruturais. 

Outro produto interessante que pode ser criado a partir desses resíduos são argamassas para assentamento de blocos, tijolos e reboco de paredes. Os minerais presentes nos rejeitos podem substituir, com vantagem, parte do cimento e da areia usadas na produção convencional das argamassas. A lama seca, resultante dos processos de decantação da água usada nos processos de corte e polimento, passa por um processo de moagem, sendo transformada em um sedimento fino semelhante a cal.  

Os resíduos de rocha também passam por um processo de moagem e são transformados em um sedimento particulado similar à areia. Aqui há uma particularidade – os granitos são ricos em quartzo, uma rocha dura e extremamente resistente, que proporciona excelentes características mecânicas para as argamassas produzidas. Essa argamassa produzida atende todas as normas técnicas da ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas, e já foi testada e aprovada por grandes construtoras capixabas. Além desses usos, os resíduos gerados na produção das rochas ornamentais podem ter outras inúmeras outras aplicações na construção civil – basta ter boa vontade e senso de preservação ambiental. 

Em resumo – a exploração das rochas ornamentais é um grande negócio para muita gente. Falta agora uma conscientização para se transformar os resíduos dessa produção em uma florescente e lucrativa indústria complementar de produtos e insumos para a construção civil. 

 

PS: Hoje é o Dia Internacional das Florestas

FAO

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