AS COMPLICAÇÕES NO ABASTECIMENTO DE ÁGUA EM GOVERNADOR VALADARES APÓS O ACIDENTE EM MARIANA

Governador Valares

Governador Valadares, cidade com aproximadamente 300 mil habitantes e localizada a 320 km da capital do Estado, é a maior cidade da região Leste de Minas Gerais e a maior cidade do Vale do Rio Doce, mesorregião formada por 102 municípios e que conta com uma população total superior a 1,6 milhão de habitantes. Como muitas outras cidades, Governador Valadares sempre teve o rio Doce como o único manancial de abastecimento e, há muito tempo, já vinha enfrentando problemas na captação de água, especialmente nos períodos de seca, quando o volume do rio Doce diminuiu substancialmente. O acidente com a barragem de Mariana e o despejo de milhões de metros cúbicos de lama contaminada com metais pesados levou esta situação a extremos.

O rio Doce, há muitas décadas, vem apresentando os mesmos problemas já enfrentados por grandes rios brasileiros: desmatamentos em toda a área da sua bacia hidrográfica, resultando em redução da produção de água nas nascentes; sem a proteção da vegetação, os solos expostos ficam sujeitos a ação da erosão pelas chuvas e há riscos de assoreamento das águas com todo o tipo de sedimentos; ocorrem despejos de esgotos domésticos e industriais sem tratamento em toda a região da bacia hidrográfica; existe risco de percolação de águas contaminadas por rejeitos de mineração (a água retida nas barragens pode infiltrar no solo e aflorar em áreas abertas e próximas dos cursos d’água). Em épocas de secas, incêndios em matas destroem a já escassa cobertura vegetal que ainda resiste – no período das chuvas, as fortes enxurradas varrem as encostas sem vegetação e carreiam toneladas de sedimentos para a calha do rio, aumentando ainda mais os problemas de assoreamento, prejudicando a qualidade das águas usadas na captação pelas cidades, além dos problemas de enchentes que afetam as populações que vivem nas partes mais baixas e próximas das margens dos rios O rompimento da barragem em 2015 agravou enormemente muitos problemas que já eram visíveis: o rio Doce não era exatamente o paraíso das águas – mas depois do acidente, se transformou numa espécie de “inferno” de lama tóxica.

Logo após a divulgação da notícia do rompimento da barragem em Mariana, em 5 de novembro de 2015, as cidades ao longo da calha do rio Doce entraram em alerta, esperando a chegada da mancha de poluição.  Sistematicamente, conforme essa mancha de poluição era detectada, as cidades iam suspendendo a captação de águas do rio Doce para o abastecimento. Em cinco dias, as águas do rio já apresentavam sinais de contaminação na foz do rio, em Linhares no Espírito Santo. Durante uma semana, os 300 mil moradores de Governador Valadares tiveram que conviver com a falta de água em suas torneiras, tendo de buscar fontes alternativas para garantir o abastecimento mínimo em suas residências.

Nos primeiros dias após a chegada da mancha de lama à região de Governador Valadares, a turbidez da água do rio atingiu a marca de 131 mil uT (unidade de Turbidez, índice usado para medir a intensidade da turbidez na água). A turbidez mostra a dificuldade de um feixe de luz em atravessar uma certa quantidade de água, conferindo uma aparência turva à mesma, que no caso do rio Doce era provocada pela presença de sedimentos em suspensão na água. Depois de uma semana, o índice de Turbidez baixou para 2.400 uT – o tratamento da água é feito, normalmente, com um índice de Turbidez menor ou igual a 1.000 uT. As análises feitas em amostras de água não encontraram níveis de metais pesados (os principais são mercúrio, chumbo, cádmio, manganês, níquel, ferro, estanho, cromo e arsênico) acima dos níveis permitidos pela legislação. No dia 16 de novembro de 2015, o SAEE – Serviço Autônomo de Águas e Esgotos, da cidade de Governador Valadares retomou a captação de água do rio Doce para o abastecimento da cidade.

Para que se conseguisse separar adequadamente as partículas em suspensão presentes na água captada no rio Doce, as ETA’s – Estações de Tratamento de Água, locais passaram a utilizar o polímero da acácia-negra, um coagulante e floculante natural que separa os resíduos da água. A acácia-negra (Acacia decurrens) pertence a uma família de árvores originárias da Austrália, levada primeiro para a África do Sul e, a partir do início do século XX, passou a ser plantada na região Sul do Brasil e também na Argentina e no Chile. A partir da casca e das sementes da árvore são extraídos corantes para o tingimento natural e substâncias utilizadas no tratamento e curtição de couros. Estudos desenvolvidos para aprimorar a qualidade destes produtos levaram à descoberta de um polímero natural presente na casca desta árvore com alto poder coagulante, com ampla aplicação em Estações de Tratamento de Água.

Numa explicação bem simplificada, a água bruta, nome dado a água em estado natural captada em uma fonte de abastecimento, é bombeada para a Estação de Tratamento, onde passa primeiro por um sistema de gradeamento ou filtragem por telas metálicas, que remove fragmentos maiores e materiais flutuantes como folhas, galhos e lixo; a seguir, a água é enviada para tanques de decantação/desarenação, onde a água permanece em “repouso” para que as partículas mais pesadas de areia e silte se depositem no fundo do tanque. Na saída deste tanque, a água recebe produtos químicos que realizam a coagulação das partículas menores que estão em suspensão. As partículas de resíduos são atraídas pelos produtos químicos, formando flocos maiores, que são filtrados com maior facilidade em etapas seguintes. O polímero da acácia-negra é usado justamente nesta etapa de coagulação e floculação, aumentando a capacidade do sistema na formação dos flocos e limpeza inicial da água.

Apesar desta solução emergencial estar ajudando a garantir o abastecimento na cidade de Governador Valadares, estão sendo tomadas outras medidas para reduzir a dependência do uso exclusivo das águas do rio Doce para o abastecimento local. Falaremos sobre isso no próximo post.

2 Comments

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s