OS PROBLEMAS DE ABASTECIMENTO DE ÁGUA NO TRECHO CAPIXABA DO RIO DOCE

Foz do Rio Doce

A partir do rompimento da barragem de rejeitos de mineração da Samarco em Mariana, no dia 5 de novembro de 2015, uma mancha de lama e metais pesados começou a se espalhar pela calha do rio Doce e, como uma doença contagiosa, passou a destruir ecossistemas e a matar todo o tipo de ser vivo encontrado nas águas; cidades e comunidades, num processo que lembra uma fila de peças de dominó caindo em sequência, sistematicamente suspenderam os serviços de captação de água do rio até que se entendesse, com alguma clareza, o que estava acontecendo.

Começando em regiões do Estado de Minas Gerais, onde se concentra a maior parte da bacia hidrográfica do rio Doce, a temida mancha de lama levou alguns dias para atingir o Espírito Santo, onde os males provocados pela contaminação das águas também foram terríveis para as populações, que dependiam das águas para seus próprios usos. Um total de 317 mil pessoas nas cidades de Baixo Guandu, Colatina e Linhares passaram a sentir na pele as incertezas já vividas pelas populações de regiões do trecho mineiro do rio Doce.

A primeira cidade capixaba atingida pela mancha de lama e de rejeitos foi Baixo Guandu, no dia 16 de novembro. A captação de água do rio Doce foi imediatamente interrompida e 31 mil moradores passaram a depender do abastecimento através de uma frota de 13 carros-pipa, entre unidades da própria Prefeitura e unidades enviadas pela Samarco. De acordo com informações divulgadas, 170 mil litros de água foram distribuídos diariamente, priorizando-se o abastecimento das populações e a dessedentação de animais – os agricultores foram instruídos a não utilizar a água do rio Doce para irrigação das plantações. Também foi iniciada a distribuição de garrafas de água mineral para a população.

Como a infraestrutura do município de Baixo Guandu era totalmente dependente da captação de águas do rio Doce para o abastecimento da população, foi necessária a construção emergencial de três adutoras, permitindo a captação e o transporte de água do rio Guandu às Estações de Tratamento de Água do município. O rio Guandu (que não tem qualquer ligação com o rio Guandu fluminense) tem aproximadamente 150 km de extensão, com nascentes na região serrana do Espírito Santo.

Em Colatina, cidade com mais de 120 mil habitantes, os problemas foram bem maiores. Com a chegada da lama, a captação de água foi imediatamente interrompida e a população ficou sem o serviço de abastecimento de água por cinco dias. Uma frota de 168 carros-pipa passou a realizar o atendimento emergencial da população, sendo que aproximadamente 100 destas unidades passaram a captar água bruta da Lagoa do Limão. Devido ao tamanho da população de Colatina, que estava habituada a um consumo diário de 30 milhões de litros, o abastecimento emergencial de água pelos carros-pipa só conseguia atender a 20% da população, o que causou muitos problemas. Após este período crítico, o SANEAR – Serviço Colatinense de Meio Ambiente e Saneamento Ambiental, retomou a captação de água do rio Doce. Da mesma forma que aconteceu em Governador Valadares, o SANEAR realizou testes laboratoriais e passou a utilizar o polímero da acácia-negra que, conforme já comentado, é um polímero natural com alto poder de aglutinação e floculação de resíduos em suspensão na água, permitindo a retomada dos serviços de abastecimento da população a partir de 23 de novembro.

Como aconteceu em outras cidades que tinham o rio Doce como seu principal manancial de abastecimento, a Fundação Renova, entidade criada pela mineradora Samarco, passou a implementar um projeto para a construção de um sistema de três adutoras, sistema que tem como finalidade permitir a captação e o transporte de água dos rios Santa Maria, Pancas e da Lagoa do Limão para as ETA’s – Estações de Tratamento de Água do município. Essas obras, que representam uma parte da compensação pelos danos ambientais provocados, garantirão o fornecimento de metade da água necessária ao abastecimento local, reduzindo assim a total dependência das águas do rio Doce. Além das adutoras, cinco poços artesianos foram escavados e suas água passaram a ser misturadas com as águas captadas do rio Doce, uma manobra que permite diluir as partículas em suspensão e facilitar o tratamento nas ETA’s.

Das cidades capixabas afetadas pela mancha de lama tóxica, o município de Linhares foi o que teve menos problemas nos serviços de abastecimento de água. O SAEE – Serviço Autônomo de Águas e Esgotos, de Linhares não teve problemas para manter o serviço de abastecimento de água devido à captação ser feita no rio Pequeno, um afluente do rio Doce. Uma das primeiras providências do SAEE foi a construção emergencial de uma barragem na foz do rio Pequeno, como garantia contra uma eventual contaminação pela lama tóxica carreada pelo rio Doce.

Como parte das compensações ambientais devidas pela mineradora Samarco ao município de Linhares, a Fundação Renova realizou trabalhos para a construção de uma adutora para a captação e o transporte de água da Lagoa Nova para a ETA da cidade, aumentando a oferta de água e reduzindo a dependência da captação do rio Pequeno, sistema que continuará em uso. As compensações também incluem a construção de uma adutora para o transporte de água entre a área urbana de Linhares e o distrito de Regência e a instalação de uma Estação de Tratamento de Água móvel neste distrito, onde fica a foz do rio Doce, garantindo o fornecimento de água para a população local durante os trabalhos de reforma da ETA distrital, uma outra compensação por danos ambientais negociada com a Fundação Renova.

Essa rápida exposição mostra os problemas criados pela contaminação do rio Doce no Estado do Espírito Santo e as providências emergenciais que tiveram de ser tomadas. E olhem que não falamos dos problemas criados para a agricultura, para a pesca (registros do INCAPER – Instituto Capixaba de Assistência Técnica e Extensão Rural, mostram que 1.438 pescadores cadastrados em associações e colônias de pesca foram afetados no Estado) e para o turismo local. Também mostra como o grau de dependência de uma única fonte de abastecimento de água é problemática. Com a ocorrência de um desastre como o da barragem de Mariana, populações inteiras podem ficar sem acesso aos serviços de abastecimento de água de uma hora para outra.

Continuaremos na próxima postagem.

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