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Posts de ferdinandodesousa

Escritor, jornalista, gestor e educador ambiental. Especialista em projetos de comunicação social e de educação ambiental.

VEM AÍ O VERÃO E AS SUAS FORTES CHUVAS

Na próxima quarta-feira, dia 21 de dezembro, às 18h48 começa oficialmente o verão no Brasil. A estação mais quente e chuvosa do ano tem início no momento em que ocorre o solstício de verão, evento astronômico que marca o momento em que a inclinação da Terra no Hemisfério Sul atinge a marca de 23,5º na direção do sol, fazendo com que essa parte do planeta receba mais raios solares. 

Na Região Centro Sul do país, que engloba parte do Centro-Oeste, a maior parte da Região Sudeste e toda a Região Sul, o verão é o período onde ocorrem as mais fortes chuvas do ano. A temporada de chuvas se estenderá até o mês de março e, como sempre costumamos lembrar aqui em nossas postagens, esse é um período de enchentes e problemas em muitas cidades. 

De acordo com as previsões do INMET – Instituto Nacional de Meteorologia, o verão 2022/2023 deverá ter chuvas dentro ou um pouco acima da média nas regiões Norte, Sudeste e Centro-Oeste do país. Na região Sul e em algumas regiões do Centro Sul as chuvas deverão ficar abaixo da média. 

Dentro das previsões do INMET, oito estados brasileiros serão mais fortemente afetados pelas chuvas deste verão: Bahia, Espírito Santo, Minas Gerais, Paraná, Rio de Janeiro, Sergipe, Santa Catarina e São Paulo. As temperaturas deverão ficar dentro da média em todo o país. 

O verão está começando sob influência do fenômeno climático La Niña. Quando esse fenômeno é observado no Oceano Pacífico, as águas superficiais de uma extensa região apresentam uma redução média entre 2 e 3° C na sua temperatura, uma mudança que altera o clima em diferentes partes do mundo. 

Aqui no Brasil, La Niña costuma provocar um aumento das chuvas entre os meses de dezembro e fevereiro na Região Nordeste e temperaturas abaixo da média na Região Sudeste. O fenômeno também provoca um aumento do frio na costa Oeste dos Estados Unidos e no Japão, além de aumento das chuvas na costa Oeste da Ásia.   

Entre os meses de junho e agosto, a presença de La Niña costuma produzir um inverno mais seco nas regiões Sul e Sudeste do Brasil. Também pode interferir na temperatura da costa Oeste da América do Sul, reduzindo as temperaturas. Na região do Caribe, La Niña provoca uma redução na temperatura e uma aumento das chuvas. No Leste da Ásia se observa um aumento das temperaturas.  

A ocorrência do fenômeno La Niña varia muito. Sua frequência ocorre em intervalos de 2 a 7 anos, com uma duração de 9 a 12 meses – em alguns casos, pode ter uma duração de até 2 anos. Esse será o terceiro ano consecutivo de La Niña, sinal que as mudanças climáticas globais estão interferindo na ocorrência desse fenômeno. 

Entretanto, com ou sem La Niña, a chegada da temporada das chuvas de verão deve acender todas as luzes de alerta. Nossas cidades não estão preparadas para lidar com grandes volumes de chuvas e grandes enchentes, desmoronamentos de encostas, bloqueios de rodovias, entre muitos outros problemas, que são mais do que esperados. 

Salvo condições climáticas bastante anormais como a passagem de um furacão, cidades não costumam enfrentar grandes enchentes de uma hora para outra – elas costumam ocorrer depois de um longo processo de degradação das condições ambientais locais. 

Vou citar como exemplo a minha cidade – São Paulo, que é uma espécie de “capital” das grandes enchentes do Brasil. A cidade foi fundada em 1554 e só sofreria a sua primeira grande enchente em 1929. Foram necessários mais de três séculos de história e de muita degradação para criar todas as condições necessárias para a ocorrência dessa grande enchente. 

Até a década de 1860, São Paulo não passava de uma cidadezinha perdida no alto da Serra do Mar. Somados todos os muitos núcleos urbanos da cidade há época, a população total mal superava a marca dos 30 mil habitantes. A história da cidade mudaria radicalmente após o início do Ciclo do Café, momento em que a pequena cidade se transformou num importante entreposto comercial. 

Na virada do século XX, São Paulo já tinha cerca de 240 mil habitantes e chegaria aos 900 mil habitantes em 1930. Para acomodar tanta gente, a cidade precisou passar por uma série de intervenções urbanísticas e ambientais – áreas de matas foram derrubadas, várzeas de rios foram aterradas e ocupadas por construções, rios e córregos foram canalizados e transformados em grandes avenidas, entre outras mudanças. 

A primeira fatura “acumulada” de mais de três séculos de história da cidade veio em fevereiro de 1929, ano em que São Paulo viveu a maior enchente de todos os tempos. Segundo reportagens da época, o nível do rio Tietê subiu cerca de 3,45 metros, deixando toda a parte central da cidade debaixo d’água. 

Além do Centro, os bairros mais atingidos foram a Casa Verde, Canindé, Ponte Pequena, Barra Funda, Lapa, Villa Maria e Vila Anastácio. Na Freguesia do Ó e no Bairro do Limão, segundo crônicas publicadas nos jornais, os moradores precisaram se valer de barcos para se locomover, uma vez que grande parte das ruas ficaram submersas ao longo de vários dias (vide foto). 

Muitas outras grandes enchentes voltariam a se abater sobre São Paulo ao longo dos anos seguintes, mas, felizmente, uma tragédia dessa magnitude nunca mais voltaria a acontecer. E, lamentavelmente, a cidade não aprendeu a lição e continuou repetindo os mesmos erros que criaram as condições para a ocorrência dessas tragédias. 

São Paulo não está sozinha nessa sina – outras grandes e médias cidades, sem contar com uma infinidade de cidades pequenas, também criaram todas as condições necessárias para a ocorrência de enchentes e outras tragédias provocadas pelas fortes chuvas, especialmente no período do verão. 

Notícias sobre essas enchentes, desgraçadamente, serão tema de postagens aqui do blog nos próximos meses. 

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OS GRANDES PREJUÍZOS CAUSADOS PELAS CHUVAS EM CAMPINAS NOS ÚLTIMOS DIAS

Na nossa última postagem falamos da chegada oficial do verão e das inevitáveis e problemáticas chuvas de verão, que entra ano e sai ano continuam causando imensos problemas para muita gente. 

Grande parte dos transtornos decorrentes dessas fortes chuvas estão ligados diretamente ao crescimento desordenado das cidades. Áreas de matas foram derrubadas para a criação de bairros; córregos foram retificados e/ou canalizados para a construção de avenidas de fundo de vale. Sistemas básicos para o controle de águas pluviais foram deixados em um segundo plano.

Por outro lado, populações mais pobres, que não conseguem ter acesso a programas de financiamento de moradias populares, tomaram terrenos em áreas de várzea e de encostas de morros para construírem ali suas precárias moradias. Em resumo, essa é a receita para a ocorrência de todos os tipos de tragédias na época das fortes chuvas. 

Para ser mais didático, gostaria de citar o exemplo de Campinas, a terceira maior cidade do Estado de São Paulo e a maior cidade do interior paulista. Eu tenho uma ligação bastante forte com essa cidade – em meu primeiro emprego como office boy entre os anos de 1978 e 1979, precisava ir até Campinas quase que toda semana para realizar trabalhos em bancos e cartórios por lá. 

Já naqueles tempos, Campinas era uma cidade já bem grande – eram pouco mais de 400 mil habitantes na área urbana, que engloba a cidade e vários distritos, e talvez uns 100 mil habitantes na área rural. Haviam poucos edifícios e a imensa maioria dos bairros da cidade era formada por casas térreas e sobrados, distribuídos em ruas e avenidas bem arborizadas. 

Passaram-se pouco mais de 40 anos e a cidade hoje conta com uma população de 1,2 milhão de habitantes. Assim como aconteceu com a minha cidade, São Paulo, a maior parte desse crescimento se deu nas áreas periféricas da cidade, onde surgiram bairros “do dia para a noite”. São os chamados loteamentos populares (muitos ilegais, inclusive). 

Esses loteamentos não costumam seguir as melhores práticas de urbanismo ou de respeito ao relevo – o que vale é conseguir demarcar a maior quantidade possível de lotes. Como resultado, esses empreendimentos já nascem com graves problemas para o escoamento das águas pluviais, além de não contarem com sistemas de abastecimento de água ou redes coletoras de esgotos – quase tudo é feito no improviso. 

Para o abastecimento de água é comum a escavação de poços semiartesianos ou caipiras, como se costuma chamar no interior paulista. Para os esgotos são duas as opções – ou se jogam diretamente nas ruas ou, na melhor das hipóteses, se escava uma fossa dentro do quintal. Os compradores desses lotes sempre acreditam que a Prefeitura fará todas as obras de infraestrutura geral – instalação de guias e sarjetas, redes de água e esgotos, asfaltamento de ruas, etc, dentro de pouco tempo. 

Além dos problemas locais dessa cidade, existem problemas similares nas cidades vizinhas, que hoje estão reunidas na Região Metropolitana de Campinas. Aqui também ocorre um problema bastante conhecido no entorno da cidade de São Paulo – a conurbação, ou seja, as cidades crescem e se encontram, formando uma única massa urbana cheia de problemas comuns. 

A Região Metropolitana de Campinas reúne hoje 21 municípios, onde vive uma população total de 3,3 milhões de habitantes. Além da cidade de Campinas destacam-se Paulínia, Hortolândia, Sumaré, Valinhos, Indaiatuba e Americana. A região abriga um importante polo industrial, comercial e de serviços. 

Falando especificamente de Campinas, foram registradas 307 ocorrências de danos associados às chuvas apenas na primeira quinzena de dezembro. Nesta conta se incluem 45 quedas de árvores e galhos, 49 alagamentos de imóveis, 15 deslizamentos de encostas e 34 imóveis colocados em risco. Isso sem contar em inúmeros alagamentos de ruas e avenidas. Aliás, a Prefeitura está instalando placas de alerta em ruas e avenidas que alagam frequentemente. 

Durante os quinze primeiros dias do mês de dezembro a cidade esteve em estado de atenção em seis, o que mostra como é crítica a questão das chuvas na cidade. Vale a pena lembrar que o período de chuvas está apenas começando e muitos outros dias em estado de atenção ainda serão declarados na cidade. 

Quando falamos em problemas de drenagem de águas pluviais, ou seja, como escoar com rapidez e eficiência as águas das chuvas, sobram muito poucas opções além da execução de obras de construção de diferentes dispositivos de drenagem. Aqui começamos com sistemas de guias e sarjetas bem feitos até a instalação de grandes tubulações para o escoamento dessas águas. 

Além desses dispositivos principais, existem uma infinidade de outros que ajudam a diminuir a velocidade do escoamento das águas, dando tempo ao sistema para escoar os maiores volumes possíveis de água. Entre outros podemos citar as áreas verdes, calçamentos permeáveis, bacias de detenção abertas, jardins de chuva, piscinões, entre outros. 

É aqui que começam os problemas – todos esses dispositivos dependem de grandes volumes de dinheiro para saírem do papel e virarem realidade. Além dos investimentos em obras civis, são necessários enormes volumes financeiros para a desapropriação dos terrenos e realocação dos moradores. Muito mais do isso – é preciso muita vontade e força política para tocar esse tipo de obras. 

Eu trabalhei por vários em obras desse tipo, mais especificamente na construção de sistemas de coleta e tratamento de esgotos. Confesso que nunca senti muita empolgação dos políticos na realização desse tipo de obra. Na minha opinião, que é compartilhada por muita gente, políticos não gostam de “enterrar dinheiro”. 

Obras de esgotos e de drenagem de águas pluviais são, em sua grande maioria, subterrâneas. Diferente de uma ponte, viaduto ou uma escola (falo da estrutura física), onde é possível fazer uma cerimônia de inauguração e descerrar uma placa com um nome (normalmente um parente do Prefeito ou alguma outra autoridade local), sistemas de tubulações subterrâneas permanecerão anônimos sob o solo. 

Se essas obras não aparecem e não “servem” para angariar votos numa próxima eleição, para que é que Prefeitos vão gastar verdadeiras fortunas nelas? 

Enquanto isso, a temporada das chuvas sempre vai acabar chegando e causando todo o tipo de tragédias. Quando um deslizamento grande soterra um monte de casas e faz algumas vítimas fatais, a desculpa esfarrapada de sempre é que foi “um acidente ou uma catástrofe natural”…. 

Lamentável! 

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OS JARDINS DE CHUVA DA CIDADE DE SÃO PAULO 

Estamos a poucos dias do início oficial do verão na Região Centro Sul do Brasil. No imaginário popular verão é tempo de férias, praia, muita cerveja gelada e um bocado de ócio. Por outro lado, esse é o período do ano em que mais chove em uma grande parte do país. 

A temporada das chuvas, desgraçadamente, é também sinônimo de enchentes, alagamentos e deslizamentos de encostas, especialmente nas regiões urbanas. Conforme já comentamos em inúmeras postagens, vivemos em um país de climas predominantemente equatorial e tropical, sujeitos a fortes temporadas chuvas, porém, com cidades que não estão preparadas para fortes precipitações. 

Ao longo dos últimos anos, as postagens que publicamos aqui no blog nesses períodos costumam estar repletas de notícias falando de tragédias provocadas por fortes chuvas, desmoronamentos de casas, bloqueios de rodovias, entre outros problemas. 

Fico feliz em dizer que, pelo menos aqui na minha cidade, alguns projetos simples e baratos para o controle das águas pluviais estão saindo do papel. Ainda são bastante tímidos para revolver uma série de problemas que vem se acumulando há vários séculos aqui no Planalto de Piratininga, mas já nos dão alguma esperança de um futuro melhor. 

Um dos projetos mais interessantes é o que foi batizado de jardins de chuva, uma ideia bastante simples e funcional. Trata-se da criação de áreas bastante permeáveis em pequenas praças, baixios de viadutos, sarjetas ou até mesmo em trechos das ruas destinados ao estacionamento de veículos. A foto que ilustra essa postagem mostra bem um desses casos. 

A técnica de construção é ridiculamente simples – o terreno é escavado e transformado em um fosso profundo. Esse fosso é preenchido com pedras do tipo rachão, mesmo tipo utilizado para fazer a sub base de rodovias. Essas pedras são grandes e bastante irregulares, criando assim grandes espaços vazios entre elas. 

Para finalizar, as pedras são cobertas com uma manta de drenagem, sobre a qual é colocada uma camada de solo fértil onde será feito o plantio de arbustos, flores e até mesmo de árvores. Qualquer um dos leitores que goste de jardinagem já percebeu que o processo é idêntico ao usado na preparação de vasos para plantas. 

Agora vamos ao ovo de colombo – os jardins de chuva, estão conectados às sarjetas e outras áreas de drenagem através de canaletas, de modo que as águas das chuvas possam correr na sua direção e serem absorvidas rapidamente pelo solo poroso. 

De acordo com informações da Subprefeitura da Sé, região central da Cidade de São Paulo onde o projeto foi iniciado, essas estruturas de drenagem permitem captar as águas dos primeiros 15 minutos da chuva, o chamado fisrt flush. Essa é uma água suja, repleta de sedimentos e resíduos de poluição. Somente depois que a área do jardim de chuva fica saturada de água é que o fluxo pluvial passa a escoar para as galerias de drenagem e outros sistemas de controle de águas pluviais

O princípio básico de funcionamento dos jardins de chuva é o mesmo dos grandes piscinões já implantados na cidade. A diferença está na capacidade de armazenamento de água e, principalmente no custo, infinitamente menor. Com a simplicidade de construção e o baixo custo, a ideia da Prefeitura de São Paulo é encher a cidade com centenas desses jardins. 

De acordo com informações da Prefeitura, a cidade de São Paulo já conta com mais de 230 jardins de chuva entre outros dispositivos de retenção como calçadas e escadarias verdes, sarjetas permeáveis, bosques de conservação urbana, vagas verdes, entre outros. A meta é atingir a marca de 400 jardins de chuva até o ano de 2024. O projeto foi iniciado em 2019. 

O projeto paulistano vem colecionando prêmios, com destaque para o Certificado de Mérito no World Green City Awards, uma premiação bianual que reconhece iniciativas que recorrem a um maior uso de plantas e da natureza para ambientes urbanos. Segundo os organizadores da premiação, o projeto se destaca pela inovação e pelo potencial para ser replicado em outras grandes cidades do mundo. 

São Paulo e outras grandes e médias cidades sofreram de um mal comum – um crescimento desordenado que resultou na destruição de áreas verdes e de uma intensa impermeabilização dos solos. Sempre que chega a temporada das chuvas, as populações dessas cidades passam a conviver com alagamentos de ruas e avenidas, além de sofrer com o risco do desmoronamento de encostas. 

No caso de São Paulo, um dos maiores crimes ambientais cometidos foi um avanço desmedido contra as importantes áreas de várzea dos grandes rios da cidade como o Tietê, Pinheiros e Tamanduateí. Essas áreas alagáveis acomodavam com folga todos os excedentes de água das chuvas, se transformando em ambientes muitos parecidos com os chamados pantanais. 

Com o rápido crescimento que a cidade experimentou a partir da década de 1860 com o Ciclo do Café, importantes áreas de várzea na região central da cidade passaram a ser aterradas e transformadas em lotes para a expansão imobiliária. Um desses casos foi o da Várzea do Carmo, que margeava o rio Tamanduateí e que despareceu para abrir espaços para a construção de trechos dos bairros do Cambuci, do Brás e do Parque Dom Pedro. 

Nas primeiras décadas do século XX foi a vez de se transformar muitas dessas várzeas em “avenidas de fundo de vale”. Muitas das grandes avenidas de São Paulo foram construídas sobre córregos canalizados e/ou ao largo de suas margens. Exemplos são a Avenida do Estado, dos Bandeirantes, 23 de Maio, Tiradentes, Pacaembu, Anhaia Melo, as Marginais Tietê e Pinheiros, entre muitas outras. 

E não foram só os grandes rios e córregos que sofreram com esse avanço – pequenos córregos por toda a cidade foram canalizados e depois aterrados, sumindo para sempre sob casas, galpões e edifícios. De vez em quando, durante alguma reforma ou construção de novos imóveis, trechos desses antigos cursos d’água são redescobertos.  

Outro caso que precisamos citar foi a construção da Represa Billings a partir do final da década de 1920. Para alimentar a represa com as águas da bacia hidrográfica do rio Tietê, o rio Pinheiros passou por um intenso processo de retificação do seu curso, que antes era extremamente sinuoso e passou a ser retilíneo. O rio recebeu duas estações de traição ou de bombeamento, que passaram a desviar parte das águas da calha do rio Tietê para a Represa Billings. 

A retificação do leito do rio Pinheiros “secou” grandes áreas de várzea, que depois foram transformadas em bairros. Esses são casos dos elegantes bairros do Alto de Pinheiros e do Jardim Paulistano, dois dos endereços mais caros de São Paulo. 

O somatório de todos esses avanços da cidade sobre seus rios e córregos está na origem das sucessivas mega enchentes que, ano após ano, tomam conta da cidade nos meses de verão. A ideia dos jardins de chuva e de outros sistemas de drenagem localizados vão ajudar a minimizar esses impactos. 

É claro que ainda é muito pouco para uma cidade gigantesca como São Paulo, mas é um bom caminho a ser seguido. 

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A EXPLORAÇÃO DE PETRÓLEO E GÁS PELO MÉTODO HYDRAULIC FRACKING 

Nas nossas últimas postagens fizemos um rápido apanhado sobre os grandes problemas ambientais criados pela exploração e uso de combustíveis fósseis derivados do petróleo e também do carvão. Esses são os mais importantes combustíveis usados em todo o planeta, não sendo exagero afirmar que são eles que movimentam o mundo. 

Tanto o petróleo quanto o carvão são ricos em hidrocarbonetos, compostos formados a partir da combinação de átomos de hidrogênio e de carbono, além de quantidades menores de oxigênio, nitrogênio e compostos metálicos. A queima desses combustíveis libera grandes quantidades de carbono (na forma de CO2 – dióxido de carbono), um dos principais gases de efeito estufa. 

Além dos sistemas de extração tradicionais em terra e em mar, as empresas petrolíferas passaram a investir em anos mais recentes na técnica de extração por fratura hidráulica, mais conhecida pelo nome em inglês – hydraulic fracking. Apesar dos ótimos resultados econômicos, essa é uma técnica bastante polêmica devido aos enormes riscos de contaminação das reservas subterrâneas e superficiais de água. As áreas mais propensas a esse tipo de exploração são os solos ricos em xisto. 

Xisto é um nome genérico que se dá a vários tipos de rochas metamórficas fortemente laminadas. Essas rochas têm uma enorme importância econômica por serem uma fonte de combustíveis fósseis. Quando rochas como o xisto betuminoso são submetidas a altas pressões elas liberam o chamado petróleo de xisto, um óleo mineral semelhante ao petróleo convencional. Utilizando-se diversos tipos de processos de beneficiamento, o petróleo de xisto produz nafta, óleo combustível, gás liquefeito de petróleo (GLP), óleo diesel e gasolina. As maiores reservas mundiais de xisto estão nos Estados Unidos, Brasil, China e na Argentina.  

A técnica de exploração pelo sistema de fracking consiste na injeção sob alta pressão de uma mistura de água, propante (areia ou outro material similar) e solventes químicos nos substratos rochosos. Essa mistura pressurizada provoca um aumento controlado das fraturas e fissuras nas rochas, locais onde o petróleo de xisto e o gás natural estão encerrados, trazendo-os na direção da superfície. De acordo com estimativas feitas no ano de 2010, cerca de 60% dos poços em atividade no mundo usavam essa técnica de extração.  

O uso intensivo da técnica do fraturamento hidráulico por empresas de petróleo e gás nos Estados Unidos vêm produzindo efeitos econômicos impressionantes nos últimos anos: a produção de gás aumentou perto de 50% e a de petróleo em 11%. O aumento de produção desses “óleos não convencionais” e do gás criou cerca de 3,3 milhões de empregos e injetou cerca de US$ 468 bilhões na economia dos Estados Unidos até 2020. Um dos pontos mais comemorados dessa nova fase da exploração dos combustíveis fósseis no país foi a redução na dependência da importação de petróleo, um problema que sempre foi classificado como o “calcanhar de Aquiles” dos Estados Unidos.  

Deixando de lado toda a euforia e os ganhos econômicos e políticos do “Tio Sam”, é preciso mostrar toda uma série de problemas e de riscos ambientais criados pelo fraturamento hidráulico, a começar pela poluição dos grandes volumes de água utilizados no processo. A água é injetada sob alta pressão nos substratos rochosos e fica rapidamente saturada com o petróleo e o gás de xisto, que por serem mais leves que a água, rapidamente são transportados para a superfície e são separados mecanicamente.   

A água usada no processo fica completamente poluída com resíduos de hidrocarbonetos, metais presentes nas rochas e também com os resíduos dos produtos químicos usados como solventes. Caso haja um erro na operação e essa água altamente poluída vaze para o meio ambiente, há sérios riscos de uma forte contaminação das fontes superficiais de água na região – algo parecido com os acidentes do rio Doce, em Mariana, e no rio Paraopeba, em Brumadinho.  

Vazamentos dessas águas residuárias são apontados como a causa da poluição de diversos rios no Estado do Kentucky próximos das áreas de exploração do xisto, locais onde foram observadas mortes de diversas espécies animais e vegetais aquáticos. Estudos realizados pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos e pelo Serviço de Pesca e de Vida Silvestre comprovaram que os poluentes presentes nessas águas residuárias causam lesões nas guelras, no fígado e no baço dos peixes. 

Um outro problema, este muito mais sério, é a contaminação direta dos depósitos subterrâneos de água. Caso os solos ao redor da área onde a exploração do xisto está sendo feita sejam constituídos de rochas permeáveis como os arenitos, é possível que parte dessa água pressurizada e dos gases liberados pelo processo se propaguem através das rochas (processo de percolação) e contaminem as reservas de água do subsolo da região.  

Estudos realizados pela Universidade Duke, na Carolina do Sul, comprovaram a ocorrência desse problema de contaminação das águas subterrâneas na Bacia de Gás de Xisto de Marcellus, situada entre o Nordeste da Pensilvânia e o Sul do Estado de Nova York. Os pesquisadores encontraram altos níveis de metano e etano em mais de 100 poços de abastecimento de água espalhados por toda a região.  

As medições mostraram que a concentração de metano dissolvido na água “potável” de poços situados a menos de 1 km dos locais de perfuração eram, em média, 6 vezes maiores do que em poços mais distantes. No caso do etano, essas concentrações eram 23 vezes maiores. O metano, caso seja inalado, é altamente prejudicial à saúde humana e o etano é um gás altamente inflamável.  

A injeção de água pressurizada nos poços de xisto também pode estar relacionada com o aumento de pequenos terremotos nas regiões Central e Leste dos Estados Unidos, conforme estudos do Serviço Geológico do país. Entre os anos de 2010 e 2012, foram registrados mais de 300 terremotos com magnitude acima de 3,0 graus na Escala Richter. Entre os anos de 1967 e 2000, a média de eventos dessa magnitude era de apenas 21 ocorrências por ano.  

Estudos realizados pelo Earth Observatory da Universidade de Columbia, em Nova York, indicaram que cerca de metade dos terremotos com magnitude superior a 4,5 graus na Escala Richter observados no interior dos Estados Unidos na última década ocorreram em regiões de exploração por fraturamento hidráulico.  

Outro problema sério dessa técnica de exploração são as grandes quantidades de gás metano que são liberadas na atmosfera. O metano, só para relembrar, é 20 vezes mais potente que o CO2 (dióxido de carbono) na formação do Efeito Estufa, o grande vilão do aquecimento global. 

Os ganhos econômicos de curto prazo com a produção de petróleo e gás de xisto estão fazendo a alegria de muitas empresas e Governos; já a conta com os prejuízos ambientais que virão a longo prazo, como sempre, será paga por toda a população do mundo. 

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A EXPLORAÇÃO DE PETRÓLEO NA GROENLÂNDIA

Na nossa última postagem falamos das fabulosas reservas de petróleo que já foram identificados no continente gelado da Antártida e do desejo velado de muitos países para explorar toda essa riqueza. Felizmente, essa exploração foi proibida pelo Tratado da Antártida, um pacto internacional assinado em 1959. 

Uma espécie de trailer do que poderá acontecer na Antártida em um futuro distante é o que está ocorrendo atualmente na Groenlândia, a grande ilha autônoma da Dinamarca que fica localizada ao largo da costa Leste do Canadá. Foram descobertas grandes jazidas de petróleo e gás na ilha, com diversas companhias petrolíferas internacionais tentando iniciar a exploração. 

A Groenlândia possui um território com cerca de 2,1 milhões de km², sendo considerada a maior ilha do mundo. De uma forma geral, os mapas apresentam a ilha com um território imenso, maior inclusive que o Brasil. Essa é uma distorção provocada pela técnica usada na confecção desses mapas – a projeção de Mercator. Na realidade, a Groenlândia tem uma área equivalente à da Arábia Saudita.  

Falando bem a “grosso modo”, podemos afirmar que a Groenlândia é uma espécie de Antártida em miniatura. Cerca de 80% do território da Groenlândia é recoberto por um manto de gelo e as condições climáticas são bastante similares. Só que, ao contrário da Antártida, a Groenlândia não é tão isolada do resto do mundo, abrigando populações humanas há milhares de anos, além de possuir uma fauna e uma flora ártica muito mais diversificada. 

Um estudo científico publicado há poucos dias atrás exemplifica bastante isso – cientistas ingleses e dinamarqueses conseguiram extrair e identificar o DNA de um mamute da Era do Gelo a partir de restos de ossos encontrados na Formação København, um depósito de sedimentos de quase 100 metros de espessura, no norte da Groenlândia. O material foi datado em 2 milhões de anos e a espécie de mamute identificada era originária da Sibéria. 

Quanto as populações humanas, os registros arqueológicos afirmam que a ilha começou a ser povoada por seres humanos há cerca de 4.500 anos. Eram caçadores/coletores também originários da Sibéria que chegaram na América do Norte através do Estreito de Bering. 

Assim como aconteceu com a Antártida, o clima da Groenlândia passou por inúmeras mudanças ao longo das eras alternando climas diferentes. Até cerca de 500 mil anos atrás, citando só um exemplo, a ilha era coberta por florestas e tinha um clima bem mais ameno.  

De acordo com dados do United States Geological Survey, a região Nordeste da Groenlândia possui reservas estimadas de petróleo da ordem de 31,4 bilhões de barris, além de outros 17 bilhões de barris sob o leito do mar entre a ilha e o Canadá. As reservas totais podem ser bem maiores. 

Desde 2010, diversas companhias petrolíferas internacionais como Statoil, Royal Dutch Shell e Maersk passaram a mostrar interesse pela exploração dessas reservas de petróleo e muitas dessas empresas conseguiram autorização do Governo para realizar estudos de prospecção. 

Várias dessas empresas já haviam feito tentativas de prospecção de petróleo na Groenlândia décadas atrás, porém, sem conseguir áreas com produção viável economicamente. Com o aumento das temperaturas em todo o Ártico e com a diminuição da capa de gelo nos últimos anos, essa prospecção ficou bem mais fácil e muitas empresas informaram que conseguiram desenvolver poços economicamente viáveis. 

Essa corrida, entretanto, foi encerrada em meados de 2021, quando um novo Governo de viés preservacionista assumiu o comando da ilha e proibiu a prospecção de petróleo (com aval e/ou pressão da Dinamarca, é claro). A Groenlândia pertence à Dinamarca e, desde 1979, passou a gozar de uma relativa autonomia e a eleger um Governo próprio a partir de 2009. A ilha ainda continua dependendo economicamente da Dinamarca. 

Para muitos groenlandeses, o desenvolvimento da indústria petrolífera seria a garantia de uma independência financeira e de um futuro mais promissor para a sua população de mais de 50 mil habitantes. A ilha vive basicamente dos ganhos com a pesca, sendo que a produção de camarões responde por cerca de metade das suas rendas. 

Para grande parte dos locais, entretanto, a preservação do meio ambiente vem em primeiro lugar. A ilha já vem sofrendo em demasia com o aumento das temperaturas sendo uma das regiões do planeta onde perda da capa de gelo está acontecendo de forma mais acelerada. Em uma postagem recente falamos sobre os cães de trenó da ilha que estão ficando desempregados por causa da falta de gelo.  

A trégua das companhias petrolíferas, infelizmente, pode ser temporária. Governos democráticos, como é o caso da Groenlândia, vão e vem, sobrando sempre algum espaço para a volta de grupos políticos apoiados por essas empresas. Os volumes de petróleo e gás natural escondidos sob o sol da ilha são imensos e representam lucros multibilionários para os empreendedores. Dinheiro, como todos sabem, tem força para mover montanhas e governos…

A própria geografia da Groenlândia favorece essa pressão pela exploração – a ilha fica a meio caminho entre a América do Norte e a Europa, dois grandes mercados para o petróleo e o gás. Em tempos de crise energética – especialmente com a falta de gás natural na Europa, é bem possível que muita gente “graúda” olhe para o outro lado e finja que essas atividades de exploração e produção de combustíveis fósseis não criará nenhum problema para a ilha. 

No filme de ficção científica “O dia depois de amanhã”, grande sucesso de bilheteria de 2004 e sobre o qual já fizemos diversas referências em nossas postagens, o derretimento acelerado do manto de gelo da Groenlândia provocou uma grande mudança nas correntes marítimas do Oceano Atlântico Norte, levando o mundo a uma nova e catastrófica Era do Gelo. 

Não sei se a exploração de petróleo e gás na Groenlândia teria potencial para provocar problemas ambientais de tamanha magnitude como na ficção, mas é certo que muitos danos – especialmente para o oceano, sairão daí… 

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ANTÁRTIDA: A ÚLTIMA FRONTEIRA PARA A EXPLORAÇÃO DO PETRÓLEO? 

A Antártida ocupa uma área total com cerca de 14 milhões de km² e é considerado o continente mais gelado do nosso planeta. Pode até não parecer, mas, há cerca de 65 milhões de anos a Antártida, a Austrália e a Nova Guiné formavam um único bloco de terras e possuía um clima entre o tropical e o subtropical. Também existiu por muito tempo uma ponte de terra que fazia a ligação com a América do Sul. 

Só para relembrar, a América do Sul, a Antártida, a África, a Ilha de Madagascar, a Índia, a Austrália, a Nova Zelândia e Papua Nova Guiné, entre outras ilhas menores, formavam um único supercontinente – Gondwana. Há cerca de 160 milhões de anos Gondwana começou a se fragmentar e os seus “pedaços” começaram a ser espalhados pelos quatro cantos do mundo por conta de forças tectônicas (pesquise Tectônica Global). 

Essa extensa região formada pela Antártida e a Austrália era coberta por densas florestas, com muitos lagos e rios, abrigando uma diversificada flora e fauna, especialmente de marsupiais. Essa situação começou a mudar há cerca de 40 milhões de anos quando a área correspondente a Antártida se separou do resto do bloco e passou a conviver com o gelo. 

Por volta de 23 milhões de anos atrás surgiu a Passagem de Drake, um trecho de oceano que separa a América do Sul da Antártida. Essa mudança levou ao aparecimento da Corrente Circumpolar Antártica, que passou a bloquear as correntes de água quente que vinham das áreas tropicais e levou o continente a ficar com 98% de sua superfície coberta por um grosso manto de gelo. 

Como resultado dessa longa e tumultuada história geológica e biológica, a Antártida possui enormes reservas de petróleo em seu subsolo. Para ser mais preciso, especialistas estimam a existência de um volume de 200 bilhões de barris de petróleo “perdidos” por lá. Muita gente gostaria de explorar todo esse óleo.  

Para a felicidade geral de todos essa exploração de petróleo no bioma Antártico, juntamente com a mineração, foi proibida pelo Tratado da Antártida, um acordo internacional assinado em 1959 pelos países que reclamavam a posse de partes continentais da região. Pelo acordo, o território só pode ser usado para pesquisas científicas. 

Conforme já tratamos em outras postagens, a exploração do petróleo é uma atividade altamente complexa e que envolve enormes riscos ao meio ambiente. Um exemplo desse tipo de risco que é sempre lembrado é o acidente com o navio petroleiro Exxon Valdez no Alasca em 1989

O Alasca é o maior Estado norte-americano e tem a maior parte do seu território dentro do Círculo Polar Ártico, uma região com características muito similares a Antártida. Apesar da grande pressão internacional, o norte-americanos vem mantendo a exploração de petróleo em áreas não protegidas no Alasca há várias décadas. 

A polêmica começou no final da década de 1960, quando foi descoberta a maior reserva de petróleo dos Estados Unidos no Extremo Norte do Alasca. Desde então, as grandes companhias petrolíferas dos Estados Unidos começaram a encontrar brechas na legislação a fim de explorar todo esse óleo. Até o momento, áreas protegidas e parques nacionais tem conseguido ficar livre dessa exploração 

Um dos principais terminais para o escoamento da produção petrolífera do Alasca era o Porto de Valdez, localizado no Sul do Estado. Foi dali que partiu o petroleiro Exxon Valdez no dia 24 de março de 1989. Após ser carregado com mais de 400 mil toneladas de petróleo, O Exxon Valdez saiu do Porto e se dirigiu para as águas abertas do Oceano Pacífico através do complicado Golfo do Alasca. 

Passavam poucos minutos da meia noite quando a embarcação atingiu um bloco de recifes submersos, o que rasgou o casco simples do petroleiro (os atuais navios petroleiros são construídos com um casco “duplo”) e teve início um grande vazamento de óleo nas águas oceânicas. Ao longo das oito semanas seguintes ao acidente, uma grande mancha de óleo foi espalhada pelas fortes correntes oceânicas através de mais de 750 km, afetando aproximadamente 2 mil km da costa irregular do Sul do Alasca. Algumas das praias atingidas ficaram cobertas com uma grossa camada de piche com até 90 cm de espessura.     

A empresa Exxon, uma das maiores companhias petrolíferas do mundo e dona da embarcação, foi obrigada a mobilizar um verdadeiro exército para a contenção do vazamento e limpeza ambiental. Foram 11 mil homens, 1.400 embarcações, 85 aviões e milhares de máquinas e equipamentos para uso na sucção do óleo e lavagem de rochas. Os trabalhos se estenderiam até 1992, com um custo total na casa de US$ 2 bilhões.  

Entre as mais tristes lembranças desse acidente ficaram as imagens de animais cobertos de óleo sendo resgatados pelas equipes de limpeza. Esses animais eram lavados com solventes para a remoção do óleo e eram encaminhados para centros de tratamento intensivo e recuperação, coordenados por médicos veterinários e biólogos.  

Apesar de todos os cuidados médicos, os índices de mortalidade eram altíssimos.  De acordo com estimativas oficiais, a tragédia provocou a morte de mais de 260 mil aves marinhas, 2.800 lontras-marinhas, 250 águias e 22 orcas, além de dezenas de milhares de peixes, crustáceos e moluscos marinhos. 

Esse único exemplo mostra o tamanho dos riscos envolvidos numa eventual liberação da exploração de petróleo na Antártida. E os problemas não param por aí – o continente também é rico em reservas minerais além de carvão. 

Talvez algum dos leitores esteja se perguntando qual seria um país que se arriscaria numa eventual aventura de iniciar a mineração e a exploração de petróleo em uma terra tão inóspita. Eu posso dar a minha opinião sobre um provável candidato – a Argentina. 

O país reivindica ainda hoje uma grande área do continente Antártico, uma demanda que foi apenas “congelada” após a assinatura do Tratado da Antártida. Se qualquer um consultar um mapa da Argentina vai constatar que uma extensa área triangular do continente gelado aparece com a indicação de Antártida Argentina. 

Dificuldades técnicas para fazer esse tipo de exploração sob condições climáticas tão extremas poderiam ser resolvidas em poucos anos com pesados investimentos em novas tecnologias e materiais. Também já existem navios construídos especialmente para navegar nas águas geladas da região. Portanto, bastaria apenas uma brecha no Tratado para essa exploração ser iniciada. 

Em tempos de grandes preocupações com o aquecimento global e com a destruição de florestas tropicais, é importante que se lembre da preservação do inigualável continente Antártico. 

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OS GRAVES ACIDENTES COM PLATAFORMAS DE EXPLORAÇÃO DE PETRÓLEO NO MAR

Quando falamos de exploração do petróleo costumamos lembrar, quase que imediatamente, de imagens de enormes torres de perfuração e equipamentos de bombeamento do óleo em áreas desérticas de países do Oriente Médio e do Norte da África, regiões que foram as pioneiras nesse tipo de exploração. 

Ao longo de todo o século XX, a exploração de petróleo e do gás natural avançou por diferentes regiões do planeta. Atualmente, o petróleo e o gás são explorados na tundra ártica do Alasca, nas estepes intermináveis da Rússia, no meio de florestas como a Amazônica e também em plataformas marítimas como as do Mar do Norte, Golfo do México ou ainda no Pré-Sal do litoral do Brasil. 

Assim como acontece com alguma frequência em áreas de exploração em terra, grandes acidentes com derramamentos de óleo também costumam ocorrer nas plataformas marítimas. Pelas características muito peculiares desse tipo de instalação, esses acidentes costumam fazer muitas vítimas, além de provocar grandes vazamentos de óleo no mar. 

Aqui no Brasil, onde a maior parte da produção de petróleo é offshore, ou seja, é feita em plataformas marítimas, já tivemos alguns acidentes bastante graves. Só para esclarecer, 93,75% da produção brasileira de petróleo vem de plataformas marítimas, sendo 72,25% da camada pré-sal e 21,5% da camada pós-sal. 

O acidente mais grave em termos de perdas de vidas humanas em uma plataforma de exploração de petróleo no mar aqui no Brasil ocorreu em agosto de 1984, quando morreram 37 trabalhadores da plataforma Anchova da Petrobras, que operava na Bacia de Campos, litoral do Estado do Rio de Janeiro. 

No dia do acidente cerca de 50 trabalhadores estavam de plantão na plataforma quando ouve uma explosão seguida de um incêndio. Seguindo os procedimentos de evacuação de emergência, esses trabalhadores se dirigiram rapidamente para as baleeiras, um tipo de embarcação usada nessas operações. 

Devido a uma falha no sistema de liberação dos cabos, uma das baleeiras despencou de uma altura de 18 metros, se chocando com muita velocidade contra a água. O saldo dessa queda foram 37 trabalhadores mortos e 23 feridos, sendo que esse é considerado até hoje o maior acidente de trabalho da Petrobrás. O incêndio na plataforma levou 16 horas para ser debelado. 

Outro acidente do tipo aconteceu em julho de 2001, levando ao naufrágio da plataforma P-36 que também operava na Bacia de Campos. Aconteceram duas explosões, uma num tanque de óleo e outra num tanque de gás, num momento em que 175 trabalhadores estavam a bordo.  

A plataforma sofreu danos graves e adernou cerca de 16 graus devido ao alagamento de parte de suas estruturas (vide foto). Equipes de emergência trabalharam durante 5 dias tentando salvar a plataforma, que acabou não podendo ser salva e naufragou – 11 membros da equipe de emergência acabaram morrendo. 

Além das irreparáveis perdas de vidas humanas e de um prejuízo de quase US$ 1 bilhão (em valores atualizados), a P-36 levou para o fundo do oceano um reservatório com cerca de 1500 toneladas de petróleo, que acabou vazando para o mar. 

Um acidente muito parecido com o da P-36 levou ao naufrágio a plataforma norueguesa Alexander Kielland em 1980, no Mar do Norte. A origem do problema, entretanto, foi o colapso estrutural de um dos braços de sustentação da plataforma. Outros setores da estrutura acabaram se rompendo, levando a plataforma a adernar cerca de 35 graus. Além dos enormes vazamentos de petróleo que se sucederam, falhas no comando de evacuação resultaram na morte de 123 dos 212 trabalhadores que estavam a bordo. 

Um dos maiores acidentes já registrados em uma plataforma marítima de petróleo ocorreu no Golfo do México em 2010, quando a plataforma Deepwater Horizon da empresa BP British Petroleum explodiu e afundou. A tragédia deixou 22 trabalhadores feridos e 11 mortos. 

Com o naufrágio da plataforma, três dutos de óleo localizados a uma profundidade de 1.525 metros começaram a vazar, lançando cerca de 800 mil litros de petróleo por dia nas águas do Golfo do México. Esse vazamento durou 87 dias e lançou uma mancha de óleo que se espalhou por 1.500 km do litoral Sul dos Estados Unidos.  

A plataforma Deepwater Horizon operava a cerca de 80 km da costa do Estado da Lousiana, a região atingida com maior intensidade pelo vazamento. A mancha contínua de óleo que se formou após o acidente cobriu uma área equivalente a onze vezes o tamanho da cidade do Rio de Janeiro.  

Diferente do vazamento de um navio tanque, que transporta um volume finito de petróleo, o vazamento que se seguiu ao colapso dessa plataforma era contínuo, com o óleo jorrando diretamente dos poços abertos no fundo oceânico.  

A importante região do Delta do rio Mississipi foi uma das áreas mais impactadas por esse grande vazamento de petróleo. Essa região é formada por pântanos com vegetação densa, conhecidos localmente como Bayou, e abriga cerca de 40% dos pântanos e manguezais dos Estados Unidos, número que nos dá uma ideia da sua importância ambiental para a flora e a fauna locais.   

Uma espécie local que foi seriamente ameaçada pelas manchas de óleo foi pelicano-marrom, ave ameaçada de extinção e símbolo do Estado da Louisiana. Essas aves precisam mergulhar para capturar os peixes e crustáceos que formam a sua dieta e acabavam ficando com as penas cobertas de óleo, o que as impede de regular a temperatura corporal, podendo resultar na morte dos animais por hipotermia.   

Como fica bem fácil de notar, esse tipo de acidente costuma ser fatal tanto para os trabalhadores quanto para o meio ambiente. 

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A EXPLORAÇÃO DO PETRÓLEO E AS FLORESTAS

Nas últimas postagens estamos falando dos combustíveis fósseis, especialmente do petróleo e seus derivados, além do carvão mineral. Esses são os combustíveis mais utilizados em todo o mundo e respondem por grande parte das emissões de GEE – Gases de Efeito Estufa. 

Em uma recente pesquisa internacional feita pela Climate Action Against Disinformation ou Ação Contra Desinformação Climática, para distribuição junto aos organizadores da COP27 – Conferência das Partes das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, descobriu-se que grande parte da população mundial acredita que esses combustíveis fósseis são renováveis, algo que está muito longe da verdade. 

Conforme já comentamos em diversas postagens, os combustíveis fósseis começam a criar problemas para o meio ambiente no momento de sua exploração. Gostaria de fazer alguns comentários sobre esses impactos em áreas de floresta. 

Vou começar falando dos graves e recorrentes vazamentos de petróleo no trecho equatoriano da Floresta Amazônica. De acordo com dados do Ministério do Meio Ambiente do Equador e que foram analisados pela Amazon Frontlines, um grupo internacional que luta na defesa dos direitos dos povos indígenas, ocorreram 1.169 vazamentos de petróleo no país entre 2005 e 2015. Cerca de 81% desses vazamentos ocorreram na Floresta Amazônica, onde foram perdidos cerca de 350 mil barris de petróleo.   

A Floresta Amazônica possui aproximadamente 120 mil km2 de área no Equador, o que corresponde a quase metade do território do país. As agressões ambientais no bioma incluem o “pacote clássico”: desmatamentos de áreas para implantação de campos agrícolas, queimadas, retirada de madeira – destaque aqui para a madeira de balsa, extração mineral e garimpos ilegais, além do plantio e produção de narcóticos como a cocaína, a exemplo do que ocorre em áreas da Amazônia em outros países Andinos.  

O país, entretanto, tem um grande diferencial quando se fala em agressões ambientais ao bioma Amazônico – o Equador é um grande produtor de petróleo. A extração comercial de petróleo na Amazônia equatoriana começou na década de 1960, apresentando um forte crescimento na década de 1970, quando grandes petrolíferas internacionais como a Shell e a Texaco começaram a operar no país. Cerca de 68% da área da Amazônia equatoriana está sob concessão para a exploração petrolífera e se estimam em mais de 4 mil poços de petróleo na região.  

Um exemplo dos muitos acidentes com petróleo na região foi o que ocorreu em abril de 2020, quando uma tubulação do SOTE – Sistema Oleoduto Transequatoriano, foi atingida por um deslizamento de terra e provocou o vazamento de um volume entre 4 mil e 15 mil barris de petróleo (existem divergências nas fontes de informação). 

Esse vazamento ocorreu entre as províncias de Sucumbios Napo, e a mancha de óleo atingiu os rios Cocal Napo. Esse foi considerado o maior vazamento de petróleo no Equador nos últimos 15 anos. Ao menos 2 mil famílias indígenas e outros 120 mil ribeirinhos ficaram sem acesso a fontes de água potável, além de sofrerem com a restrição à pesca, uma das principais fontes de proteína dessas populações.  

O oleoduto SOTE tem cerca de 500 km de extensão e está em operação desde 1972. Esse sistema permite o transporte do óleo cru desde as áreas de produção na Floresta Amazônica até os portos localizados no Oceano Pacífico, atravessando a Cordilheira dos Andes. Essa é uma região com forte atividade sísmica, o que resulta em frequentes acidentes e danos nas tubulações. 

Um outro país onde a exploração do petróleo causa enormes problemas em áreas florestais é a Nigéria, o país mais populoso da África e o segundo maior produtor de petróleo do continente. De acordo com informações da OPEP – Organização dos Países Produtores de Petróleo, o país produz aproximadamente 1,8 milhões de barris de petróleo/dia 

A Nigéria é a maior economia da África e tem uma população com cerca de 190 milhões de habitantes. O país é habitado por mais de 250 grupos étnicos, divididos em dois grandes blocos religiosos – muçulmanos ao Norte e cristãos ao Sul, além de diversas minorias praticantes de religiões tradicionais africanas como jgbo (ou Ibo) e iorubá. Esses diferentes grupos religiosos vivem em um estado de tensão permanente, o que é agravado pela extrema pobreza em que vive a grande maioria dos nigerianos.   

As atividades de exploração, refino e exportação de petróleo respondem atualmente por 40% do PIB – Produto Interno Bruto, da Nigéria e pela geração de cerca de 80% das arrecadações de impostos do Governo local. Pode-se afirmar, sem sombra de dúvidas, que essa grande nação africana é movida, literalmente, a base do petróleo.   

Se, por um lado, a indústria petrolífera é tão importante para o país, ela é, ao mesmo tempo, a principal responsável pela degradação de importantes recursos naturais da Nigéria. Vazamentos de petróleo ocorrem sistematicamente no país há mais de 50 anos, com uma relativa conivência e falta de providencias das autoridades locais.  

De acordo com cálculos de organizações ambientalistas, cerca de 10 milhões de barris de petróleo vazaram de dutos e de unidades de processamento de petróleo do país nas últimas décadas, atingindo e contaminando matas, rios e cursos d’água do território – a importante região do Delta do Rio Niger é uma das áreas mais atingidas.   

Outro problema gravíssimo no país e que responde por parte expressiva dos vazamentos é o roubo de petróleo, uma das atividades criminosas que mais crescem na Nigéria. As autoridades locais calculam que cerca de 10% da produção local de petróleo é roubada por esses grupos, que se valem de desvios (os famosos “gatos”) feitos nas tubulações dos oleodutos.   

Além de gerar enormes riscos para as populações que vivem em áreas próximas dos grandes reservatórios e sistemas de oleodutos, o que já provocou inúmeros vazamentos e incêndios com dezenas de vítimas fatais, esses roubos desencadeiam uma série de problemas ambientais. O petróleo roubado é “refinado” em estruturas improvisadas no meio das matas, sem os mínimos procedimentos de segurança.  

Além dos inevitáveis vazamentos e incêndios, subprodutos mais densos do refino do petróleo como o óleo combustível e piche são descartados no meio ambiente por falta de mercado – os produtos mais interessantes para esses grupos são a gasolina, o óleo diesel e o querosene, que são vendidos clandestinamente por todos os cantos do país. 

Esses são apenas dois exemplos dos males criados pela exploração do petróleo para áreas de florestas – existem inúmeros outros casos por todos os cantos do mundo, problemas que parecem não encontrar eco entre as autoridades desses países. 

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A CAMBALEANTE INDÚSTRIA PETROLÍFERA DA VENEZUELA 

A Venezuela, país que faz fronteira com a Região Norte do Brasil possui as maiores reservas confirmadas de petróleo do mundo. De acordo com algumas estimativas, o país sul-americano concentra cerca de 17,5% de todas as reservas de petróleo conhecidas do mundo. Em números mais precisos falamos de algo na cada dos 308 bilhões de barris, um volume que poderia abastecer todo o consumo mundial por 8,4 anos. 

Entretanto, conforme comentamos na postagem anterior, uma coisa é ter grandes volumes de petróleo acumulados sob os seus pés – outra coisa bastante diferente é ter capacidade para extrair, transportar e ganhar muito dinheiro com esse petróleo. No caso da Venezuela, a produção entrou em colapso há muitos anos. 

De acordo com dados da OPEP – Organização dos Países Produtores e Exportadores de Petróleo, a Venezuela detinha uma produção de 3,18 milhões de barris/dia de petróleo até 1998, ano em que Hugo Chaves assumiu a presidência do país. 

Chaves instituiu na Venezuela um confuso regime de governo chamado de Bolivarianismo, um tipo de socialismo sul-americano bastante piorado. Desde então, a produção de petróleo no país começou a cair progressivamente. Nos últimos dois anos, com ajuda de técnicos e de capital do Irã, o país conseguiu melhorar um pouco os níveis de produção, estando bem longe dos volumes de duas décadas atrás. 

Um dos grandes problemas da produção petrolífera venezuelana foi a “companheirização” da PDVSA, a companhia petrolífera estatal da Venezuela. Diretores e gerentes da companhia passaram a garantir suas nomeações em função de cargos que ocupavam nos partidos políticos que apoiam o Governo ou, simplesmente, por laços de amizade com altas autoridades do país. 

Com essa “estrutura de comando”, a PDVSA passou a sofrer com a perda de eficiência em suas operações, além de vivenciar um forte e progressivo sucateamento de suas instalações, tanto de exploração quanto de refino de petróleo. Cerca de 20 anos após o início do regime Bolivariano, a produção de petróleo da Venezuela caiu para pouco mais de 500 mil barris/dia. 

De acordo com fontes do Governo do país, a produção de petróleo na Venezuela voltou a crescer e está oscilando entre 800 mil e 1 milhão de barris/dia. Para analistas internacionais, entretanto, essa produção deve estar na casa dos 600 mil barris/dia. 

Entre as razões das dificuldades para um crescimento mais acentuado da produção de petróleo no país destacam-se as péssimas condições da maioria dos poços de petróleo na Venezuela. Com a incompetente administração da PDVSA, muitos equipamentos das plataformas no Lago Maracaibo e também nos poços em terra quebraram e os sítios foram abandonados. Motores elétricos, fios e cabos, tubulações e tudo mais que tinha algum valor foi roubado e vendido como sucata pela população empobrecida. 

Outra dificuldade do país é a falta de nafta, um derivado de petróleo que é usado como solvente. As reservas de petróleo da Venezuela são formadas por um óleo extremamente denso e quase “sólido”. A nafta precisa ser injetada nos poços para diluir o petróleo e permitir o bombeamento até a superfície. 

O maior fornecedor de nafta para a Venezuela eram os Estados Unidos, país que também figurava como o maior comprador internacional do produto. Elevado a posição de grande inimigo da Venezuela pelo regime Bolivariano, os Estados Unidos deixaram de fornecer nafta para os venezuelanos e muito pior, criaram uma série de sanções internacionais contra a venda de petróleo pelo país. 

De acordo com analistas internacionais, a Venezuela tem conseguido importar nafta, condensados e óleo bruto leve do Irã “por baixo dos panos”. Esses produtos estão sendo injetados nos poucos poços produtivos que restarem no país e, uma vez misturados ao óleo pesado, tem permitido a extração de maiores volumes de petróleo. 

Todas essas operações de transporte e comercialização de produtos entre o Irã e a Venezuela estão sendo feitas de forma clandestina e fora do controle das grandes potencias internacionais. Navios de transporte, citando um único exemplo, fazem as rotas marítimas com os transponders desligados. Esse equipamento, de uso obrigatório na navegação aérea e marítima, permite o rastreamento e o acompanhamento dos veículos via satélite pelas autoridades. 

Um exemplo dos problemas criados por essas operações de transporte clandestino de petróleo e seus derivados foram as grandes manchas de óleo que surgiram ao longo de uma extensa faixa do litoral do Nordeste Brasileiro em 2019. Conforme apresentamos em postagens anteriores, essas manchas se espalharam entre o litoral do Maranhão e o Sul da Bahia. 

Testes de laboratório feitos em amostras colhidas em diferentes praias mostraram que a origem desse óleo eram poços da Venezuela (a composição química do petróleo permite a identificação do “DNA” da região onde ele foi extraído). Investigações da Marinha do Brasil identificaram um navio de bandeira gregacomo o responsável pelo transporte desse petróleo. Nenhuma empresa ou autoridade dos países envolvidos sofreu qualquer tipo de condenação até o momento. 

Um dos lados mais dramáticos da crise vivida pela indústria petrolífera da Venezuela pode ser visto no Lago de Maracaibo, um dos antigos grandes centros de produção do país. Esse lago fica na região Noroeste da Venezuela e ocupa uma área de 13,2 mil km² ou o equivalente a metade do território do Estado de Alagoas. 

Tecnicamente falando, o Lago de Maracaibo é uma grande baía interna de água salobra, conectada ao Golfo da Venezuela através de um canal com 55 km de extensão, o Estreito Tablazo. As águas protegidas do Lago de Maracaibo transformaram a região num dos mais importantes biomas da Venezuela.  

Com o colapso da produção petrolífera no país, a maioria das plataformas de perfuração no Lago de Maracaibo foi abandonada. Com a falta de manutenção adequada ou simplesmente por causa do roubo de peças e de equipamentos, muitas dessas plataformas apresentam vazamentos generalizados de óleo em tubulações, oleodutos subaquáticos, bombas e tanques.  

As poucas operações de carregamento que ainda ocorrem na região envolvem antigos navios petroleiros “piratas” e com tripulações com baixo treinamento, o que tem levado a inúmeros derramamentos de óleo nas águas. As antigas águas azuis e calmas do Lago de Maracaibo hoje estão tomadas por manchas de óleo, o que está destruindo a fauna aquática e afetando as populações que dependem da pesca. 

Moral da história – não basta ter grandes reservas de petróleo para se tornar rico como um Qatar, uma Arábia Saudita ou os Emirados Árabes Unidos. É preciso ter competência para explorar adequadamente os recursos e ganhar muito dinheiro com ele. 

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OS GRANDES E RICOS PAÍSES PRODUTORES DE PETRÓLEO E A VENEZUELA

O petróleo, conforme comentamos em postagens anteriores, é um dos combustíveis fósseis mais consumidos do mundo, seguido bem de perto pelo carvão mineral. Estimativas afirmam que o mundo consome cerca de 100 milhões de barris de petróleo a cada dia. Considerando-se que cada barril equivale a aproximadamente 159 litros, são 15,9 bilhões de litros de petróleo a cada dia. 

Especialistas afirmam que cerca de 1,4 bilhão de automóveis, veículos comerciais leves e caminhões estão em circulação nos quatro cantos do mundo. Esse total não inclui motocicletas, tratores e máquinas agrícolas, sistemas de geração de energia elétrica, aviões, locomotivas e outros equipamentos com motores de combustão interna. Todas essas “máquinas” são ávidas consumidoras de combustíveis fósseis derivados do petróleo.

Além das suas inúmeras aplicações como combustíveis, o petróleo tem outras importantes aplicações. Um exemplo são as matérias primas utilizadas na fabricação dos mais diferentes tipos de compostos plásticos. Dê uma rápida olhada na sua geladeira e nos armários de sua casa para conferir a enorme quantidade de embalagens plásticas que você tem por aí. 

Se existe mercado para um produto é certo que surgirão inúmeras pessoas, empresas e países interessados em vender esse produto. Falo aqui de produtos prontos como eletrodomésticos, carros, alimentos, roupas, entre muitos outros. Também temos as matérias primas ou commodities como grãos, minérios e combustíveis. 

O maior produtor mundial de petróleo atualmente são os Estados Unidos, país que responde por cerca de 18% da produção mundial. Na segunda posição vem a Arábia Saudita, com uma produção de cerca de 12,5% da produção mundial e a Rússia com uma participação de 12,1%. O Brasil responde por cerca de 3,4% da produção mundial. A lista dos grandes produtores de petróleo também inclui a China, o Canadá, o Iraque, o Kuwait, os Emirados Árabes Unidos, entre muitas outras nações que ganham muito dinheiro com esse produto. 

Em termos de reservas confirmadas de petróleo a Venezuela é o grande destaque. O país conta com algo da ordem de 303,8 bilhões de barris ou 17,5% das reservas mundiais. A Arábia Saudita vem colada na segunda posição, com cerca de 297,5 bilhões de barris ou 17,2% das reservas mundiais. As similaridades, entretanto, param por aí. 

Ser dono de grandes reservas de petróleo é uma coisa – conseguir extrair esse petróleo e ganhar muito dinheiro com isso é outra coisa. Essa é justamente a situação da Venezuela, país que durante várias décadas foi o mais rico da América do Sul e que vive atualmente em uma profunda crise econômica e social. 

A história de sucesso da antiga Venezuela começou no início do século XX, quando foram descobertas as primeiras reservas de petróleo no país. A exploração comercial do petróleo começou em 1922 e a atividade acabou se transformando na espinha dorsal da economia do país. Os estudos geológicos que se seguiram comprovaram que a Venezuela era dona das maiores reservas de petróleo e gás do mundo. Essas reservas se concentram na região do Lago Maracaibo e na bacia hidrográfica do rio Orinoco (ou Orenoco).  

Durante várias décadas, a exploração do petróleo na Venezuela foi feita exclusivamente por empresas estrangeiras, onde os lucros com as vendas do produto eram desproporcionalmente divididos com o Governo do país. Em 1973, uma votação determinou a nacionalização da indústria petrolífera e em 1976 foi criada a PDVSA – Petróleos de Venezuela, estatal que passou a comandar a exploração, refino e as exportações do petróleo e seus derivados.   

PDVSA cresceu rápido e em poucos anos se transformou em uma das maiores empresas petrolíferas do mundo, se tornando cada vez mais independente do Governo. Na década de 1990, a empresa iniciou um processo de abertura do capital e atração de investidores estrangeiros, como forma de aumentar consolidar o seu crescimento e sua posição no mercado mundial.   

Em 1999, com a eleição de Hugo Chávez para a Presidência da República, a PDVSA inverteu sua curva de crescimento e iniciou um forte e gradual processo de declínio. Chávez, que em 1992 comandou um frustrado golpe de estado, implantou o chamado Bolivarianismo na Venezuela, uma espécie de socialismo sul-americano piorado. Entre outras medidas populistas, o Governo passou a limitar os investimentos e a participação de grupos estrangeiros na PDVSA a partir de 2001, além de criar todos os tipos de empecilhos para a atuação de empresas estrangeiras no país.    

Apesar do forte processo de desindustrialização e da necessidade cada vez maior de importação de alimentos e bens de consumo de todos os tipos, os altos preços do petróleo no mercado internacional permitiam a prática de fortes políticas para a redução da pobreza e de intervenção do Estado na economia do país. O Governo da Venezuela “surfou nessa onda” enquanto pode. O barril de petróleo, que no ano de 2008 chegou a valer perto de US$ 160.00, despencou bruscamente para pouco mais de US$ 40.00 em 2009. Sem essas receitas externas do petróleo que irrigavam e nutriam a economia, a Venezuela iniciou sua caminhada rumo ao colapso atual.   

Além da queda nos preços internacionais, a Venezuela já vinha sofrendo uma redução sistemática da produção de petróleo, onde o problema estava na má gestão da PDVSA, que passou a ser comandada por “companheiros” Bolivarianos. No início da década de 2000, a Venezuela apresentava uma produção diária de mais de 3 milhões de barris de petróleo – em 2020, a produção mal superou a marca de 500 mil barris/dia e, atualmente, a produção do país oscila entre 800 mil e 1 milhão de barris/dia segundo informações pouco confiáveis do Governo local   

As unidades de extração e produção de petróleo também vêm diminuindo gradativamente – no início de 2016, o país dispunha de 70 plataformas de exploração de petróleo e, hoje, são pouco mais de 20 unidades. Essa queda brusca da produção e exportação do petróleo e seus derivados está ligada diretamente às sanções econômicas internacionais enfrentadas pela Venezuela.   

Sem os recursos gerados pela venda do petróleo, a economia da Venezuela entrou numa espécie de espiral decrescente. A população do país começou a sofrer com o desemprego e com a falta dos produtos mais essenciais – faltam desde alimentos até papel higiênico nos mercados. Mais de 4 milhões de venezuelanos já fugiram do país em busca das mínimas condições de vida – centenas de milhares desses refugiados vieram para o Brasil. O Regime Bolivariano do país, é claro, passou a jogar a culpa da crise no colo das “grandes nações imperialistas do mundo”, em especial os Estados Unidos.  

Além de afetar a vida de toda a população, essa crise econômica também passou a representar dificuldades para a importação da nafta pela Venezuela, um produto químico essencial para a produção local de petróleo. O petróleo bruto venezuelano é muito denso, apresentando uma consistência quase sólida. Para tornar o produto viscoso e fluído para o bombeamento em tubulações e oleodutos, o petróleo venezuelano precisa receber a adição de diluentes químicos como a nafta. O maior fornecedor de nafta para a Venezuela eram os Estados Unidos, país que também ocupava a posição de maior comprador de petróleo da Venezuela e que acabou alçado à condição de grande inimigo do país pelo regime Bolivariano.   

São os altos e baixos, ou melhor, os ricos e os pobres do mundo do petróleo. 

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