A CAMBALEANTE INDÚSTRIA PETROLÍFERA DA VENEZUELA 

A Venezuela, país que faz fronteira com a Região Norte do Brasil possui as maiores reservas confirmadas de petróleo do mundo. De acordo com algumas estimativas, o país sul-americano concentra cerca de 17,5% de todas as reservas de petróleo conhecidas do mundo. Em números mais precisos falamos de algo na cada dos 308 bilhões de barris, um volume que poderia abastecer todo o consumo mundial por 8,4 anos. 

Entretanto, conforme comentamos na postagem anterior, uma coisa é ter grandes volumes de petróleo acumulados sob os seus pés – outra coisa bastante diferente é ter capacidade para extrair, transportar e ganhar muito dinheiro com esse petróleo. No caso da Venezuela, a produção entrou em colapso há muitos anos. 

De acordo com dados da OPEP – Organização dos Países Produtores e Exportadores de Petróleo, a Venezuela detinha uma produção de 3,18 milhões de barris/dia de petróleo até 1998, ano em que Hugo Chaves assumiu a presidência do país. 

Chaves instituiu na Venezuela um confuso regime de governo chamado de Bolivarianismo, um tipo de socialismo sul-americano bastante piorado. Desde então, a produção de petróleo no país começou a cair progressivamente. Nos últimos dois anos, com ajuda de técnicos e de capital do Irã, o país conseguiu melhorar um pouco os níveis de produção, estando bem longe dos volumes de duas décadas atrás. 

Um dos grandes problemas da produção petrolífera venezuelana foi a “companheirização” da PDVSA, a companhia petrolífera estatal da Venezuela. Diretores e gerentes da companhia passaram a garantir suas nomeações em função de cargos que ocupavam nos partidos políticos que apoiam o Governo ou, simplesmente, por laços de amizade com altas autoridades do país. 

Com essa “estrutura de comando”, a PDVSA passou a sofrer com a perda de eficiência em suas operações, além de vivenciar um forte e progressivo sucateamento de suas instalações, tanto de exploração quanto de refino de petróleo. Cerca de 20 anos após o início do regime Bolivariano, a produção de petróleo da Venezuela caiu para pouco mais de 500 mil barris/dia. 

De acordo com fontes do Governo do país, a produção de petróleo na Venezuela voltou a crescer e está oscilando entre 800 mil e 1 milhão de barris/dia. Para analistas internacionais, entretanto, essa produção deve estar na casa dos 600 mil barris/dia. 

Entre as razões das dificuldades para um crescimento mais acentuado da produção de petróleo no país destacam-se as péssimas condições da maioria dos poços de petróleo na Venezuela. Com a incompetente administração da PDVSA, muitos equipamentos das plataformas no Lago Maracaibo e também nos poços em terra quebraram e os sítios foram abandonados. Motores elétricos, fios e cabos, tubulações e tudo mais que tinha algum valor foi roubado e vendido como sucata pela população empobrecida. 

Outra dificuldade do país é a falta de nafta, um derivado de petróleo que é usado como solvente. As reservas de petróleo da Venezuela são formadas por um óleo extremamente denso e quase “sólido”. A nafta precisa ser injetada nos poços para diluir o petróleo e permitir o bombeamento até a superfície. 

O maior fornecedor de nafta para a Venezuela eram os Estados Unidos, país que também figurava como o maior comprador internacional do produto. Elevado a posição de grande inimigo da Venezuela pelo regime Bolivariano, os Estados Unidos deixaram de fornecer nafta para os venezuelanos e muito pior, criaram uma série de sanções internacionais contra a venda de petróleo pelo país. 

De acordo com analistas internacionais, a Venezuela tem conseguido importar nafta, condensados e óleo bruto leve do Irã “por baixo dos panos”. Esses produtos estão sendo injetados nos poucos poços produtivos que restarem no país e, uma vez misturados ao óleo pesado, tem permitido a extração de maiores volumes de petróleo. 

Todas essas operações de transporte e comercialização de produtos entre o Irã e a Venezuela estão sendo feitas de forma clandestina e fora do controle das grandes potencias internacionais. Navios de transporte, citando um único exemplo, fazem as rotas marítimas com os transponders desligados. Esse equipamento, de uso obrigatório na navegação aérea e marítima, permite o rastreamento e o acompanhamento dos veículos via satélite pelas autoridades. 

Um exemplo dos problemas criados por essas operações de transporte clandestino de petróleo e seus derivados foram as grandes manchas de óleo que surgiram ao longo de uma extensa faixa do litoral do Nordeste Brasileiro em 2019. Conforme apresentamos em postagens anteriores, essas manchas se espalharam entre o litoral do Maranhão e o Sul da Bahia. 

Testes de laboratório feitos em amostras colhidas em diferentes praias mostraram que a origem desse óleo eram poços da Venezuela (a composição química do petróleo permite a identificação do “DNA” da região onde ele foi extraído). Investigações da Marinha do Brasil identificaram um navio de bandeira gregacomo o responsável pelo transporte desse petróleo. Nenhuma empresa ou autoridade dos países envolvidos sofreu qualquer tipo de condenação até o momento. 

Um dos lados mais dramáticos da crise vivida pela indústria petrolífera da Venezuela pode ser visto no Lago de Maracaibo, um dos antigos grandes centros de produção do país. Esse lago fica na região Noroeste da Venezuela e ocupa uma área de 13,2 mil km² ou o equivalente a metade do território do Estado de Alagoas. 

Tecnicamente falando, o Lago de Maracaibo é uma grande baía interna de água salobra, conectada ao Golfo da Venezuela através de um canal com 55 km de extensão, o Estreito Tablazo. As águas protegidas do Lago de Maracaibo transformaram a região num dos mais importantes biomas da Venezuela.  

Com o colapso da produção petrolífera no país, a maioria das plataformas de perfuração no Lago de Maracaibo foi abandonada. Com a falta de manutenção adequada ou simplesmente por causa do roubo de peças e de equipamentos, muitas dessas plataformas apresentam vazamentos generalizados de óleo em tubulações, oleodutos subaquáticos, bombas e tanques.  

As poucas operações de carregamento que ainda ocorrem na região envolvem antigos navios petroleiros “piratas” e com tripulações com baixo treinamento, o que tem levado a inúmeros derramamentos de óleo nas águas. As antigas águas azuis e calmas do Lago de Maracaibo hoje estão tomadas por manchas de óleo, o que está destruindo a fauna aquática e afetando as populações que dependem da pesca. 

Moral da história – não basta ter grandes reservas de petróleo para se tornar rico como um Qatar, uma Arábia Saudita ou os Emirados Árabes Unidos. É preciso ter competência para explorar adequadamente os recursos e ganhar muito dinheiro com ele. 

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