OS VAZAMENTOS DE PETRÓLEO NO LAGO DE MARACAIBO NA VENEZUELA

Lago Maracaibo

Há pouco mais de seis meses, misteriosas manchas de óleo começaram a aparecer em várias praias da região Nordeste do Brasil. Essas manchas apareceram primeiro em praias da Paraíba. Com o passar das semanas, as manchas de óleo se espalharam por uma área de costa com mais de 2 mil km, atingindo os Estados de Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe. Resíduos de óleo também chegaram ao Espírito Santo, já na Região Sudeste, e no Pará, na Região Norte. 

Passados todos esses meses, as autoridades brasileiras ainda não conseguiram descobrir exatamente qual foi a origem ou origens desses derramamentos de óleo – existem várias hipóteses, mas ainda nenhuma certeza. Uma das poucas evidências científicas já comprovadas é a origem do óleo – a Venezuela. Diversos testes feitos em laboratórios da Petrobrás e de Universidades comprovaram o “DNA” venezuelano desse óleo

Apesar de todas as negativas do Governo da Venezuela, essa suspeita chamou a atenção para o estado precário das instalações petrolíferas do país, que sofrem com a falta de recursos para a manutenção. Vários jornalistas internacionais conseguiram “driblar” as regras de censura do Regime Bolivariano e passaram a aparecer diversas reportagens em jornais internacionais mostrando a precariedade da indústria petrolífera da Venezuela. O Lago de Maracaibo, que já foi um dos maiores centros de produção de petróleo do país, é um retrato da crítica situação ambiental na Venezuela. 

O Lago de Maracaibo fica na região Noroeste da Venezuela e ocupa uma área total de 13,2 mil km², o que equivale a cerca da metade do território do Estado de Alagoas. Tecnicamente falando, o Lago é uma grande baía interna de água salobra, conectada ao Golfo da Venezuela através de um canal com 55 km de extensão, o Estreito Tablazo

As águas protegidas do Lago de Maracaibo transformaram a região num dos mais importantes biomas da Venezuela. A presença de diversas espécies de peixes, crustáceos e moluscos, algumas endêmicas, transformou o Lago em uma importante zona pesqueira do país. Mamíferos aquáticos como botos e peixes-boi marinhos sempre buscaram as águas verdes e tranquilas do Lago. As áreas de entorno também sempre foram refúgios para inúmeras espécies de aves, répteis e muitos mamíferos. 

A condição de paraíso da biodiversidade da região sofreu inúmeros impactos a partir do início do século XX, quando foram feitas as primeiras descobertas de reservas de petróleo e gás na Venezuela. O Lago de Maracaibo passou a responder por cerca de um terço da produção total de petróleo no país, produção que superou a marca de 3 milhões de barris/dia no início da década de 2000. A indústria petrolífera foi transformada na espinha dorsal da economia da Venezuela. 

Conforme comentamos na postagem anterior, a Venezuela entrou numa espiral de decadência econômica nos últimos anos, onde a origem do problema é de ordem política. O país passou a ser governado pelo chamado Regime Bolivariano, uma variação sul-americana piorada do socialismo, onde o Governo era o responsável por uma série de programas sociais voltados ao atendimento das populações mais pobres do país. O financiamento de todos esses programas sociais era lastreado pelos altos preços do petróleo no mercado internacional. Até 2008, quando o barril do petróleo chegou a valer US$ 160.00, havia dinheiro sobrando no país para a manutenção desses gastos – porém, já em 2009, quando o preço do barril de petróleo caiu para menos de US$ 40.00, a fonte, literalmente, secou

A brusca redução na entrada de recursos econômicos externos na Venezuela, que não voltou mais aos patamares anteriores, colocou o país numa longa e desesperadora crise econômica. Imagens de prateleiras de supermercados completamente vazias, de longas filas para a compra de produtos básicos como pão e carne, e também a imagem de pessoas revirando latas de lixo em busca de comida, passaram a representar a situação do país em todo o mundo. Mais de 4 milhões de venezuelanos já deixaram o país na condição de refugiados, sendo que aproximadamente 130 mil desses se encontram no Brasil. 

A PDVSA – Petróleos de Venezuela, que já vinha apresentando problemas de gestão há vários anos, entrou em colapso. A produção de petróleo no país caiu de 3 milhões de barris dia para pouco mais de 1 milhão. Na região do Lago de Maracaibo, essa produção caiu de pouco mais de 1 milhão de barris dia para cerca de 160 mil barris. Além dos inúmeros problemas operacionais na exploração e produção de petróleo e derivados, a situação política da Venezuela, que é comandada por um regime ditatorial e onde opositores do regime são perseguidos, levou a uma série de sanções internacionais e a proibição de venda do petróleo venezuelano no mercado internacional. 

A combinação de queda no preço do petróleo, com a grande redução na produção e com sanções internacionais, comprometeu gravemente as operações da PDVSA. Uma das áreas mais críticas, a manutenção de equipamentos e instalações, simplesmente foi abandonada. Diversas plataformas de perfuração de petróleo no Lago de Maracaibo foram abandonadas e muitas das unidades em operação apresentam vazamentos generalizados de óleo em tubulações, oleodutos subaquáticos, bombas e tanques. As poucas operações de carregamento envolvem antigos navios petroleiros “piratas” e com tripulações com baixo treinamento, o que tem levado a inúmeros derramamentos de óleo nas águas. 

De acordo com informações de empresas de consultoria do ramo petrolífero da Venezuela, a produção de petróleo no Lago de Maracaibo atingiu seu auge em 2001, com um pico de produção de 1,55 milhão de barris/dia. Nessa época, mais de 5 mil poços de petróleo estavam em operação no Maracaibo. Em 2018, a produção despencou para 250 mil barris diários e, segundo o sindicato local dos trabalhadores, menos de 400 poços estavam em operação. Toda essa infraestrutura abandonada já apresentava graves sinais de corrosão de tubulações e de depredação – grande parte dos equipamentos foram roubados. Muitos desses poços apresentam grandes vazamentos de óleo.

As antigas águas verdes do Lago de Maracaibo estão tomadas por grandes manchas de óleo (vide foto); praias e costões rochosos estão cobertos com uma grossa camada de petróleo. De acordo com relatos de muitos pescadores, o volume de peixes, crustáceos e moluscos capturados atualmente nas águas e manguezais representa apenas uma fração de anos passados. Além do pouco volume de produção, a qualidade das presas é lamentável – os animais têm os corpos cobertos por óleo e, muito pior: quando preparados para servir como alimento, cheiram a petróleo. Além de não conseguirem mais vender os seus produtos, os pescadores não têm conseguido alimentar suas próprias famílias. 

Lago de Maracaibo 2

Um sintoma da situação crítica das populações do Lago de Maracaibo pode ser verificado pelo aumento da caça de botos, peixes-boi e de outros animais para a obtenção de carne para alimentação. Essas espécies, que já fazem parte de listas de espécies altamente vulneráveis, correm o risco de desaparecimento na região do Maracaibo, seja pela contaminação das águas por resíduos de petróleo, seja pela caça predatória. 

A dramática situação do Lago de Maracaibo e de suas populações humanas e animais, infelizmente, não apresenta qualquer perspectiva de melhoria no curto e no médio prazo, podendo inclusive piorar ainda mais. Sem mudanças na estrutura política do país, o caos econômico na Venezuela vai continuar e, com ele, a solução dos vazamentos de petróleo no Lago de Maracaibo, no rio Orinoco e em outros biomas do país não vai ser possível.

Pescador Lago de Maracaibo

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