OS GRANDES PREJUÍZOS CAUSADOS PELAS CHUVAS EM CAMPINAS NOS ÚLTIMOS DIAS

Na nossa última postagem falamos da chegada oficial do verão e das inevitáveis e problemáticas chuvas de verão, que entra ano e sai ano continuam causando imensos problemas para muita gente. 

Grande parte dos transtornos decorrentes dessas fortes chuvas estão ligados diretamente ao crescimento desordenado das cidades. Áreas de matas foram derrubadas para a criação de bairros; córregos foram retificados e/ou canalizados para a construção de avenidas de fundo de vale. Sistemas básicos para o controle de águas pluviais foram deixados em um segundo plano.

Por outro lado, populações mais pobres, que não conseguem ter acesso a programas de financiamento de moradias populares, tomaram terrenos em áreas de várzea e de encostas de morros para construírem ali suas precárias moradias. Em resumo, essa é a receita para a ocorrência de todos os tipos de tragédias na época das fortes chuvas. 

Para ser mais didático, gostaria de citar o exemplo de Campinas, a terceira maior cidade do Estado de São Paulo e a maior cidade do interior paulista. Eu tenho uma ligação bastante forte com essa cidade – em meu primeiro emprego como office boy entre os anos de 1978 e 1979, precisava ir até Campinas quase que toda semana para realizar trabalhos em bancos e cartórios por lá. 

Já naqueles tempos, Campinas era uma cidade já bem grande – eram pouco mais de 400 mil habitantes na área urbana, que engloba a cidade e vários distritos, e talvez uns 100 mil habitantes na área rural. Haviam poucos edifícios e a imensa maioria dos bairros da cidade era formada por casas térreas e sobrados, distribuídos em ruas e avenidas bem arborizadas. 

Passaram-se pouco mais de 40 anos e a cidade hoje conta com uma população de 1,2 milhão de habitantes. Assim como aconteceu com a minha cidade, São Paulo, a maior parte desse crescimento se deu nas áreas periféricas da cidade, onde surgiram bairros “do dia para a noite”. São os chamados loteamentos populares (muitos ilegais, inclusive). 

Esses loteamentos não costumam seguir as melhores práticas de urbanismo ou de respeito ao relevo – o que vale é conseguir demarcar a maior quantidade possível de lotes. Como resultado, esses empreendimentos já nascem com graves problemas para o escoamento das águas pluviais, além de não contarem com sistemas de abastecimento de água ou redes coletoras de esgotos – quase tudo é feito no improviso. 

Para o abastecimento de água é comum a escavação de poços semiartesianos ou caipiras, como se costuma chamar no interior paulista. Para os esgotos são duas as opções – ou se jogam diretamente nas ruas ou, na melhor das hipóteses, se escava uma fossa dentro do quintal. Os compradores desses lotes sempre acreditam que a Prefeitura fará todas as obras de infraestrutura geral – instalação de guias e sarjetas, redes de água e esgotos, asfaltamento de ruas, etc, dentro de pouco tempo. 

Além dos problemas locais dessa cidade, existem problemas similares nas cidades vizinhas, que hoje estão reunidas na Região Metropolitana de Campinas. Aqui também ocorre um problema bastante conhecido no entorno da cidade de São Paulo – a conurbação, ou seja, as cidades crescem e se encontram, formando uma única massa urbana cheia de problemas comuns. 

A Região Metropolitana de Campinas reúne hoje 21 municípios, onde vive uma população total de 3,3 milhões de habitantes. Além da cidade de Campinas destacam-se Paulínia, Hortolândia, Sumaré, Valinhos, Indaiatuba e Americana. A região abriga um importante polo industrial, comercial e de serviços. 

Falando especificamente de Campinas, foram registradas 307 ocorrências de danos associados às chuvas apenas na primeira quinzena de dezembro. Nesta conta se incluem 45 quedas de árvores e galhos, 49 alagamentos de imóveis, 15 deslizamentos de encostas e 34 imóveis colocados em risco. Isso sem contar em inúmeros alagamentos de ruas e avenidas. Aliás, a Prefeitura está instalando placas de alerta em ruas e avenidas que alagam frequentemente. 

Durante os quinze primeiros dias do mês de dezembro a cidade esteve em estado de atenção em seis, o que mostra como é crítica a questão das chuvas na cidade. Vale a pena lembrar que o período de chuvas está apenas começando e muitos outros dias em estado de atenção ainda serão declarados na cidade. 

Quando falamos em problemas de drenagem de águas pluviais, ou seja, como escoar com rapidez e eficiência as águas das chuvas, sobram muito poucas opções além da execução de obras de construção de diferentes dispositivos de drenagem. Aqui começamos com sistemas de guias e sarjetas bem feitos até a instalação de grandes tubulações para o escoamento dessas águas. 

Além desses dispositivos principais, existem uma infinidade de outros que ajudam a diminuir a velocidade do escoamento das águas, dando tempo ao sistema para escoar os maiores volumes possíveis de água. Entre outros podemos citar as áreas verdes, calçamentos permeáveis, bacias de detenção abertas, jardins de chuva, piscinões, entre outros. 

É aqui que começam os problemas – todos esses dispositivos dependem de grandes volumes de dinheiro para saírem do papel e virarem realidade. Além dos investimentos em obras civis, são necessários enormes volumes financeiros para a desapropriação dos terrenos e realocação dos moradores. Muito mais do isso – é preciso muita vontade e força política para tocar esse tipo de obras. 

Eu trabalhei por vários em obras desse tipo, mais especificamente na construção de sistemas de coleta e tratamento de esgotos. Confesso que nunca senti muita empolgação dos políticos na realização desse tipo de obra. Na minha opinião, que é compartilhada por muita gente, políticos não gostam de “enterrar dinheiro”. 

Obras de esgotos e de drenagem de águas pluviais são, em sua grande maioria, subterrâneas. Diferente de uma ponte, viaduto ou uma escola (falo da estrutura física), onde é possível fazer uma cerimônia de inauguração e descerrar uma placa com um nome (normalmente um parente do Prefeito ou alguma outra autoridade local), sistemas de tubulações subterrâneas permanecerão anônimos sob o solo. 

Se essas obras não aparecem e não “servem” para angariar votos numa próxima eleição, para que é que Prefeitos vão gastar verdadeiras fortunas nelas? 

Enquanto isso, a temporada das chuvas sempre vai acabar chegando e causando todo o tipo de tragédias. Quando um deslizamento grande soterra um monte de casas e faz algumas vítimas fatais, a desculpa esfarrapada de sempre é que foi “um acidente ou uma catástrofe natural”…. 

Lamentável! 

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