A CULTURA DO CAFÉ E A DEGRADAÇÃO DOS SOLOS NA PROVÍNCIA DO RIO DE JANEIRO

Os primeiros cafezais em terras fluminenses começaram a ser plantados nas encostas dos morros que circundam a cidade do Rio de Janeiro nas últimas décadas do século XVIII. As plantações foram seguindo na direção da Serra da Bocaina no Sul fluminense, chegando até Angra dos Reis e Parati. Os cafezais também entraram no Litoral Norte de São Paulo e ocuparam as estreitas encostas da Serra do Mar em Ubatuba, Caraguatatuba e São Sebastião. 

O grande salto na produção cafeeira se deu com a chegada da cultura à região do Médio rio Paraíba do Sul. As altitudes da região se situam entre os 300 e os 900 metros, com encostas protegidas dos ventos e com boa precipitação de chuvas. A região era totalmente coberta com uma densa vegetação de Mata Atlântica e apresentava solos com alta fertilidade. As cidades de Valença, Vassouras, Piraí, Barra do Piraí, Barra Mansa e Cantagalo, entre outras, se tornaram grandes produtoras de café. 

Na sua contínua marcha em busca de terras “virgens”, os cafezais entraram na faixa Leste da Província de Minas Gerais e se espalharam em cidades como Juiz de Fora, Rio Preto, Cataguases, Rio Novo, Muriaé e Carangola. Acompanhando o baixo curso do rio Paraíba do Sul, a cultura do café chegou até o Sul do Espírito Santo. Toda essa extensa área de produção estava nas mãos de grandes fazendeiros da Província do Rio de Janeiro, os Barões, Condes e Viscondes do Café fluminense

Conforme comentamos na postagem anterior, os verdadeiros “rios de dinheiro” que passaram a circular na economia da Província desencadearam numa espécie de “loucura consumista” entre as classes mais abastadas. Verdadeiros palacetes passaram a ser construídos nas sedes das fazendas, apresentando os mais caros e luxuosos artigos de decoração disponíveis há época.  

Artigos de alto luxo como roupas, joias, relógios e alimentos passaram a ser frequentes nas sofisticadas lojas que surgiram nas cidades – os consumidores não tinham limites no orçamento para adquirir esses produtos. As cidades recebiam sucessivos melhoramentos e surgiam escolas de alto padrão, teatros, bibliotecas, ateliês de fotografia e de moda. Professores de música e de línguas se estabeleciam em grande número nessas cidades – não faltavam alunos. 

As principais bases econômicas dessa lucrativa atividade eram os baixos preços das terras e a farta mão de obra, formada basicamente por negros escravizados. A partir de meados do século XIX, a chegada dos trilhos das ferrovias ampliaria ainda mais essa base econômica. Fazendeiros e empreendedores compravam grandes extensões de terra, onde a densa floresta era rapidamente colocada abaixo com a força dos machados e do fogo. Em pouco tempo, milhares de mudas de café com suas folhas verde esperança cobriam os solos até onde a vista podia alcançar. 

O café é uma planta arbustiva, que pode crescer até uma altura de 3 metros ou mais. Diferente da rústica cana de açúcar, o café é uma planta muito delicada. A temperatura ideal para o desenvolvimento das plantas fica na faixa entre os 5 e os 33°. Insolação excessiva e geadas podem destruir as plantas. Requer ainda chuvas regulares e solos com muita fertilidade. Uma outra dificuldade da cultura é tempo necessário para o desenvolvimento das plantas e início da produção dos frutos – entre 4 e 5 anos. Durante esse prazo, a área ao redor das plantas precisa receber limpezas regulares

Era durante esse prazo de desenvolvimento das plantas que começavam os problemas de degradação dos solos. Sem a proteção da densa vegetação das antigas matas, a camada fértil de humus, revestimento formado pela decomposição de matéria orgânica ao longo de milhares de anos e que recobria os solos inertes, passava a ser “lavada” e levada pelas chuvas, sendo arrastada na direção de rios e riachos. Normalmente, bastava um período de apenas 10 anos para a fertilidades desses solos ser completamente perdida. 

A técnica de plantio das mudas de café usadas há época também contribuíram, e muito, para a rápida erosão da camada fértil. As carreiras de pés de café eram plantadas em linha, desde os trechos mais altos até as partes mais baixas dos terrenos, quando o ideal seria o plantio em curvas de nível.

A razão para esse plantio irracional era simples – com a plantas em linhas paralelas, um único capataz montado em um cavalo podia supervisionar um grupo com mais de 100 escravos desde as partes baixas dos terrenos. Caso as plantas seguissem as curvas de nível das encostas, os fazendeiros alegavam que muitos escravos dormiriam escondidos à sombra dos cafezais. 

Quando essas terras perdiam a fertilidade, elas eram rapidamente abandonadas e a produção era retomada em terras novas. O baixo custo para a aquisição de novas terras e o uso de mão de obra escrava tornava muito mais compensador para os fazendeiros o abandono das antigas áreas ao invés de tentar fazer qualquer tipo de trabalho para recuperar a fertilidade dos solos.

Assim, grandes trechos das antigas matas nativas eram derrubados em sequência, deixando em seu rastro extensas faixas de solos degradados. Como não existem recursos naturais infinitos, chegou um momento em que, simplesmente, não haviam novas áreas para se desmatar

Com o esgotamento dos solos em terras fluminenses, a produção de café no Rio de Janeiro, Província que chegou a responder por quase 80% da produção brasileira, rapidamente declinou a partir da década de 1870, sendo substituída pela crescente produção cafeeira no trecho paulista do Vale do rio Paraíba. Devido à proximidade geográfica e da infraestrutura já existente, o café paulista continuaria sendo exportado através do Cais do Porto do Rio de Janeiro.

De acordo com Caio Prado Júnior em sua obra História Econômica do Brasil, a primeira exportação de café fluminense se deu em 1779, quando pouco mais de 79 arrobas (cerca de 1,2 tonelada) seguiu para Lisboa e Cidade do Porto, em Portugal. Em 1796, essa exportação atingiu a marca de 8.495 arrobas e em 1806, 82.245 arrobas. Ao longo das décadas seguintes, esse crescimento seria contínuo e intenso. 

Com o fim dos grandes volumes de dinheiro gerados pelo plantio e exportação do café, a “nobreza” rural fluminense rapidamente entrou em bancarrota. Sem recursos para manter seu padrão de vida de alto luxo e extravagâncias de toda ordem, Barões, Condes e Viscondes caminharam para o obscurantismo da história. As encostas dos morros e os vales que outrora eram cobertos pela densa floresta de Mata Atlântica, agora estavam transformados em pastagens e ralas matas de capoeira. 

Uma figura de linguagem que eu sempre costumo usar para descrever essa destruição de biomas é a de uma grande nuvem de gafanhotos. Esses vorazes e insaciáveis insetos pousam em grandes áreas cobertas por matas e plantações, onde começam a comer, de forma alucinada, qualquer folha, semente, fruto ou ramo de planta. Quando a comida se esgota, a nuvem de gafanhotos levanto voo e sai em busca de novas áreas de alimentação. Para trás, ficam apenas terras devastadas e despidas de qualquer vegetação. 

A cafeicultura fez exatamente isso em terras fluminenses e áreas circunvizinhas no Litoral Norte de São Paulo e do extremo Leste de Minas Gerais. O meio ambiente teve seus recursos sugados até a última gota e, quando nada mais tinha a oferecer, foi largado à própria sorte. A outrora luxuriante Mata Atlântica, só conseguiu resistir nas encostas mais íngremes e nos terrenos mais altos, onde era impraticável o plantio do café. 

O Vale do rio Paraíba na Província de São Paulo seria a próxima “escala” dos cafezais e dos “gafanhotos”. 

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