A PERDA DE COBERTURA FLORESTAL, A AGRICULTURA E A CRISE DA ÁGUA EM SÃO PAULO. ALGUMA LIGAÇÃO?

O Estado de São Paulo, com seus férteis solos, sempre foi um grande celeiro agrícola dentro do Brasil. 

Essa afirmação vem, em princípio, de encontro com os temas tratados nas últimas postagens aqui do blog – a chegada da cultura do café a São Paulo através do Vale do rio Paraíba do Sul e sua posterior irradiação para o Oeste Paulista com seus fabulosos solos de terra roxa. Isto é correto apenas em parte.  

Na verdade, a agricultura e a produção de alimentos são destaques em São Paulo desde meados do século XVI, época da chegada dos primeiros padres jesuítas e fundação de diversas vilas no chamado Planalto de Piratininga. Essa região era formada por uma grande mancha de vegetação de Cerrado, cercada por uma densa cobertura florestal de Mata Atlântica e Mata das Araucárias. O quadro era completado por centenas de córregos e muitos rios de maior porte, que formavam grandes planícies alagáveis e férteis. 

Na obra História da cidade de São Paulo, Affonso de Escragnolle de Taunay (1876-1958) conta que autoridades civis e religiosas que visitaram a paupérrima Vila de São Paulo de Piratininga, ainda nos primeiros anos do século XVII, ficaram espantadas com a grande disponibilidade de alimentos para a população. Havia muito feijão, milho, mandioca, frutas, legumes e verduras, além de diversos tipos de carnes. Mais surpreendente ainda era a produção local de trigo e a grande fartura de vinhos produzidos por religiosos. 

O grande médico e escritor Josué de Castro (1908-1973), autor do clássico Geografia da Fome, afirmava que a Província de São Paulo sempre foi uma exceção no Brasil quando o assunto era fome e desnutrição. As autoridades coloniais priorizavam a produção de açúcar para exportação; depois, a prioridade passou a ser o ouro. Sempre houve descaso com a segurança alimentar da população – produzir alimentos era uma atividade acessória, reservada apenas para os poucos dias de folga. 

Josué de Castro especulava que a grande vitalidade dos bandeirantes paulistas poderia ser o resultado de uma boa alimentação. Um grande exemplo, na opinião do médico, foi Fernão Dias Paes, o grande líder paulista que partiu para a sua última bandeira com mais de 66 anos, o que era uma idade muito avançada há época.  

Dias Paes morreu de “febre” aos 73 anos. Sob o comando de seu genro – Manuel Borba Gato, sua bandeira descobriu alguns anos mais tarde, as lendárias minas de ouro na Serra do Sabarabuçu no coração das Geraes

Foi justamente após a descoberta das minas de ouro nas Geraes e do grande afluxo de aventureiros para os trabalhos de prospecção e garimpo, que São Paulo assumiu uma posição de destaque na produção e exportação de alimentos.  

Grandes tropas de mulas, carregadas com carnes salgadas, farinhas, cereais, rapaduras, compotas (destaco aqui uma marmelada local que fazia muito sucesso entre os mineiros), ferramentas, chapéus, botas e artigos de couro, tecidos grosseiros de algodão, entre outros produtos.  

Os paulistas também vendiam indígenas escravizados, muito “mais em conta” que os “negros da Guiné” e que se mostravam muito úteis para os trabalhos domésticos e serviços mais leves. Bandeiras formadas por aventureiros paulistas costumavam se dirigir aos sertões em busca de riquezas minerais e, frequentemente, atacavam aldeias e capturavam os indígenas.  

As missões dos padres jesuítas espanhóis, com seus índios já catequisados, eram um alvo preferencial dessas bandeiras, algo que gerava muitas reclamações, inclusive junto ao Papa em Roma, por parte dos religiosos do Reino de Espanha. 

Um outro produto tipicamente paulista que fazia sucesso era a aguardente – as famosas “caninhas paulistas”. Algumas vilas do interior da Província como Piracicaba, Pirassununga e Itu se destacavam nessa produção. Os tropeiros paulistas vendiam tudo com altíssimos lucros, inclusive as mulas usadas para o transporte das mercadorias. 

Quando o café chegou em São Paulo no século XIX, a Província já tinha uma longa tradição em agricultura e na derrubada de matas para a formação de campos agrícolas. A expansão da cultura cafeeira durou até o final de década de 1920, quando ocorreu a quebra da Bolsa de Valores de Nova York e teve início o período da Grande Depressão Econômica. A expansão agrícola no Estado continuou com outras culturas como milho, cana de açúcar, feijão, soja e laranja, além de atividades ligadas a pecuária e exploração madeireira. 

O resultado desse multissecular conjunto de atividades agrícolas, extrativistas e agropastoris foi uma enorme devastação da cobertura vegetal na maior parte do território paulista. A Mata Atlântica, que chegou a cobrir 69% do Estado de São Paulo, hoje está reduzida a pouco mais de 13% do território e está concentrada ao longo da Serra do Mar, no Vale do rio Ribeira de Iguape e no Pontal do Paranapanema no Extremo Oeste do território.  

Outro bioma importante do Estado de São Paulo – o Cerrado, que ocupava originalmente cerca de 14% do território paulista, praticamente desapareceu e hoje ocupa uma área de meros 0,8% do território. O mesmo fim foi dado a extensas áreas de transição entre esses biomas

Uma das consequências ambientais mais visíveis dessa intensa e histórica destruição de áreas florestais no Estado de São Paulo pode ser observada na redução dos caudais de importantes rios locais. Vou citar um exemplo: o folclórico rio Piracicaba, tema de inúmeras “modas de viola” do cancioneiro caipira paulista. 

O Piracicaba não é um rio grande – tem apenas 115 km de extensão. Apesar de pequeno, ele sempre foi um rio caudaloso e já foi considerado o mais volumoso afluente do rio Tietê. Era tanta água que permitia a navegação por um bom trecho, inclusive por embarcações movidas a vapor. Essa navegação se estenderia até o final do século XIX.

Como consequência direta da grande produção cafeeira dentro de sua bacia hidrográfica no passado e de grandes canaviais em décadas mais recentes, o rio Piracicaba apresenta caudais cada vez menores. Em anos recentes, o rio ficou muito próximo de secar completamente (vide foto).

Essa queda nos volumes de água é extremamente preocupante – o rio Piracicaba é um dos principais mananciais de abastecimento da Região Metropolitana de Campinas, onde vivem mais de 3 milhões de pessoas. Os antigos degraus de pedra, que deram origem ao nome do rio em língua tupi – “lugar onde os peixes param” ou “degraus para os peixes”, e que eram visíveis apenas nas épocas da seca, agora podem ser vistos em grande parte do ano. 

Apesar da aparente abundância, as verdejantes paisagens do Estado de São Paulo escondem uma disponibilidade de água por habitante menor que a da Região Nordeste e sua famosa Região do Semiárido – a situação só não é pior por que o clima paulista é bem mais ameno que o nordestino e as perdas de água por evaporação são bem menores. Outra “vantagem” são os solos paulistas, que impedem uma infiltração maior das águas das chuvas. Como essa água também é muito bem distribuída, não existem “pontos secos” no Estado.  

Muitas cidades paulistas sofrem com a baixa disponibilidade de água, especialmente nos meses de seca. Cito como exemplo a histórica cidade de Itu, que fica a pouco mais de 100 km de distância da cidade de São Paulo. Há alguns anos atrás eu fiz alguns trabalhos para a empresa de águas e esgotos da cidade e lembro de ter ficado assustado com os baixíssimos níveis dos reservatórios de água. A situação só não descambou para o mais completo caos por que a empresa perfurou dezenas de poços artesianos e passou a captar grandes volumes de água de um aquífero. 

Uma antiga e conhecida moda caipira contava que “o rio de Piracicaba vai botar água prá fora, quando chegar as águas dos olhos de alguém que chora!” Se as coisas não mudaram, nós paulistas teremos de nos abraçar e chorar muito para compensar os caudais perdidos pelos rios por causa dos desmatamentos… 

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