A COLONIZAÇÃO E OS DESMATAMENTOS EM SANTA CATARINA

Na última postagem falamos dos avanços da exploração madeireira contra as Matas das Araucárias, também chamada de Floresta Ombrófila Mista, no Estado do Paraná. Esse tipo de formação florestal é um dos muitos subsistemas da Mata Atlântica e tem sua ocorrência nos planaltos de clima subtropical do Sul do Brasil. Também tem presença pontual em regiões serranas de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, além de matas no Sul do Mato Grosso do Sul. 

Além das araucárias, árvore que fornece uma excelente madeira de pinho, essas matas eram ricas em madeiras nobres e de alto valor comercial como a imbuia, a peroba, o marfim, o cedro e a canela. Em pouco mais de um século de exploração intensa, a Mata das Araucárias praticamente desapareceu do Paraná. 

No Estado de Santa Catarina, onde as araucárias formavam cerca de 30% da cobertura florestal original, a história não foi muito diferente. Até o século XIX, a Mata Atlântica com seus diversos sistemas florestais, estava praticamente intocada e cobria cerca de 65% do território catarinense. De lá para cá foram realizados diversos esforços de colonização e de ocupação do território, o que resultou em uma drástica redução da cobertura florestal. 

O Extremo Sul teve uma história de colonização um pouco diferente do restante do Brasil. De acordo com o Tratado de Tordesilhas, assinado entre as Coroas de Portugal e Espanha em 1494, somente a faixa Leste do atual território catarinense pertencia a Portugal – o meridiano de Tordesilhas, que dividia o território brasileiro, passava nas proximidades da Ilha do Marajó ao Norte e da Ilha de Santa Catarina ao Sul. O Rio Grande do Sul ficava inteiramente dentro do território espanhol. 

A primeira expedição oficial a navegar pelo litoral de Santa Catarina data de 1515 e estava sob o comando de Juan Dias Solis, um castelhano a serviço de Portugal. A expedição espanhola comandada pelo italiano Sebastião Caboto em 1526, foi a primeira a realizar um mapeamento completo do litoral. Em um mapa mundi publicado em 1529, apareceu pela primeira vez o nome Santa Catarina. Existem divergências quanto a escolha do nome – pode ter sido uma homenagem a Santa Catarina de Alexandria ou a Catarina Medrano, esposa de Sebastião Caboto. 

A colonização portuguesa começou em 1637, quando bandeirantes paulistas começaram a ocupar a região onde seria fundada a vila de Nossa Senhora do Desterro, atual Florianópolis. Em 1660 seria fundada a vila de Nossa Senhora da Graça, atual São Francisco do Sul. Em 1714 seria fundado Santo Antônio dos Anjos da Laguna, mais conhecida como Laguna. Todas essas ocupações ficavam na faixa Leste de Santa Catarina, território da Coroa de Portugal que estava dentro dos seus limites do Meridiano de Tordesilhas. 

Oficialmente, a maior parte do território de Santa Catarina e a totalidade do território do Rio Grande do Sul só passariam a fazer parte do Brasil a partir da assinatura dos Tratados de Madrid (1770) e de Santo Ildefonso (1777). Entretanto, como todos sabemos, bandeirantes paulistas nunca respeitaram qualquer acordo oficial e desde o século XVII faziam incursões por territórios espanhóis procurando ouro e pedras preciosas, além de atacar aldeias para capturar e escravizar indígenas.

Um dos alvos frequentes das bandeiras paulistas eram as Missões dos Jesuítas espanhóis, principalmente nas margens do rio Paraná e também no Rio Grande do Sul. Neste último se encontrava a região dos chamados Sete Povos das Missões, onde era possível capturar indígenas já “domesticados” e catequizados. 

Em decorrências dos ataques de bandeirantes e de outros aventureiros às Missões, muitas das reduções jesuíticas acabaram sendo completamente destruídas. Os rebanhos bovinos que eram criados nas missões acabaram se dispersando pelos campos sulinos e passarando a viver praticamente como animais selvagens.

Esses grandes rebanhos passariam a ser alvo de novas levas de paulistas que, de tempos em tempos, se dirigiam para a região dos Pampas para capturar os animais e conduzi-los para São Paulo. Ao longo dos caminhos seguidos pelos paulistas, surgiriam diversas sítios e vilas para apoio logístico das expedições. Muitas cidades catarinenses surgiriam a partir daí. 

Preocupada em ocupar a faixa litorânea de Santa Catarina, que àquela altura era muito frequentada por piratas e outros aventureiros, a Coroa de Portugal fez um esforço para assentar colonos trazidos do Arquipélago dos Açores. Essa colonização foi bastante intensa entre os anos de 1748 e 1756, ficando mais concentrada na Ilha de Santa Catarina e regiões próximas no continente. 

Durante muito tempo, a faixa Leste de Santa Catarina foi o limite mais meridional das possessões portuguesas na América e o Extremo Sul sempre foi alvo de embates entre portugueses e espanhóis. Em 1777, inclusive, tropas da Espanha invadiram a Ilha de Santa Catarina e expulsaram todas as autoridades e tropas portuguesas – essa questão só foi resolvida com a assinatura do Tratado de Santo Ildefonso, quando os espanhóis se retiraram. 

A cobiça dos castelhanos pelo Extremo Sul nunca foi totalmente resolvida e as autoridades, primeiro as portuguesas e depois as brasileiras, tiveram de se ocupar em promover o povoamento e a colonização da região. Ao longo de todo o século XIX, diversas levas de imigrantes europeus, sobretudo alemães e italianos, foram chegando à Província e ocupando regiões por toda a faixa Leste, sobretudo ao longo das margens do rio Itajaí. 

Os imigrantes alemães começaram a chegar em Santa Catarina a partir de 1829. A primeira colônia alemã da Província foi instalada em São Pedro de Alcântara e era formada por 523 colonos católicos naturais da cidade de Bremen. Em 1850 foi fundada a colônia de Blumenau, que tinha como líder Hermann Blumenau. Os imigrantes italianos começariam a chegar em grande número a partir de 1877. 

O modelo de colonização das terras catarinenses foi baseado na pequena propriedade, algo bem diferente do sistema de grandes latifúndios adotado na maior parte do Brasil. Esse modelo de colonização teve reflexos na maneira como os desmatamentos se processaram na região – ao invés de grandes extensões de matas derrubadas de uma única vez para a formação de grandes campos agrícolas de cana de açúcar e de café, nessas pequenas propriedades os desmatamentos eram pequenos e feitos gradativamente.  

A faixa Leste de Santa Catarina era coberta pela Floresta Ombrófila Densa, a formação florestal da Mata Atlântica típica da faixa litorânea do país. A Mata foi sendo gradativamente retalhada e transformada em pequenos campos agrícolas. Ou seja, ao invés de um ataque voraz de gafanhotos como aconteceu com o trecho nordestino da Mata Atlântica, os desmatamentos em Santa Catarina se pareceram mais com o ataque de inúmeras formigas saúvas, que foram abrindo sucessivas clareiras no meio da mata. 

A concentração da população na faixa Leste de Santa Catarina só mudaria a partir da Guerra do Contestado, um conflito armado entre posseiros e pequenos proprietários de terra no Oeste dos Estados do Paraná e de Santa Catarina (vide foto).  A construção de uma estrada de ferro entre São Paulo e o Rio Grande do Sul levou à desapropriação de uma faixa de terras de 30 km (15 km de cada lado dos trilhos) ao longo da ferrovia, o que desagradou muita gente.

De acordo com os termos da concessão da ferrovia, a empresa teria direitos exclusivos para a exploração da madeira nessa faixa de terras, deixando de fora os antigos proprietários das terras. Os conflitos, que se estenderam entre 1912 e 1916, ocorreram numa região onde os limites entre Santa Catarina e o Paraná não eram claros – essa região era conhecida como Contestado

Terminado o conflito, o Governo catarinense passou a investir em políticas para o povoamento do interior do Estado, reduzindo assim o imenso vazio populacional de uma extensa área. Esse novo ciclo de colonização daria início a uma intensa fase de derrubada de matas, principalmente de araucárias. 

Falaremos disso na próxima postagem. 

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