O CAFÉ AVANÇA PELO SUL DE MINAS GERAIS

A chegada das grandes plantações de café ao Vale do Paraíba e depois à região de Campinas, a partir da segunda metade do século XIX, foi um verdadeiro divisor de águas para a história da Província de São Paulo. Apesar da reconhecida fama dos paulistas em desbravar e conquistar novos territórios, do ponto de vista econômico a situação da Província nunca foi das melhores. 

Um dos grandes exemplos dessa frustração econômica foi a descoberta das minas de ouro na Região das Geraes, façanha conquistada na última década do século XVII pela bandeira de Fernão Dias Paes (que morreu pouco antes da descoberta e foi substituído por seu genro, Manuel Borba Gato). Depois de várias décadas de muito esforço e quase nenhum resultado, os paulistas finalmente foram contemplados pela sorte grande. Entretanto, esses bandeirantes não conseguiram assegurar o direito de exploração das jazidas – as Geraes foram invadidas por aventureiros de toda a Colônia, movidos pela febre do ouro.  

A disputa entre os grupos terminou num confronto armado entre os paulistas e os emboabas, nome em tupi que os paulistas davam aos forasteiros e que significa “os que invadem ou agridem”. A Guerra dos Emboabas se estendeu entre 1707 e 1709, com os paulistas sendo derrotados e perdendo os direitos de exploração das minas. Com a chegada da cultura do café, a tão sonhada riqueza finalmente “sorriria” para os paulistas. 

Conforme comentamos nas postagens anteriores, os cafezais foram se espalhando pelos férteis solos de terra roxa de São Paulo, sendo seguidos de perto pelos trilhos das ferrovias e pelas cidades que iam surgindo e/ou se consolidando. Os cafeeiros fizeram um caminho ao longo através do Vale do Paraíba, chegando depois na região de Campinas. Depois, foram seguindo na direção do Noroeste de São Paulo, para depois “descer” pelas regiões Central e Oeste rumo ao Norte do Paraná. 

Antes de começar a falar da chegada dos cafezais ao Paraná e dos enormes problemas ambientais que surgiram a partir de então, precisamos falar um pouco da entrada da cultura no Sul da Província de Minas Gerais. Esse processo se deu naturalmente, numa extensão dos grandes cafezais da região limítrofe da Alta Mogiana. Lembro aqui que um dos ramais Companhia Mogiana de Estradas de Ferro chegou na cidade de Poços de Caldas, Minas Gerais, ainda em 1886. 

Produção de café em terras mineiras não era nenhuma novidade àquela altura – desde as primeiras décadas do século XIX, fazendeiros fluminenses e mineiros iniciaram a produção de café na região da Zona da Mata, em áreas lindeiras ao Médio Vale do rio Paraíba.  

O rápido esgotamento dos solos em terras fluminenses levou muitos fazendeiros a buscar regiões alternativas para a implantação das plantações, aproveitando grande parte da infraestrutura de transporte já existente e repetindo os mesmos meios danosos de derrubada indiscriminada de matas e uso irresponsável dos solos. O resultado, como não seria diferente, foi um rápido auge seguido por uma lenta decadência na produção do café em grandes fazendas nessa região. 

Uma das primeiras fontes documentais sobre a presença do café no Sul de Minas Gerais é encontrada no Almanach Sul-Mineiro para o ano de 1874. A publicação afirma que a base da produção agrícola na região de Alfenas eram as culturas do milha e da cana, além da criação de bovinos e suínos. Os cafeeiros, como era comum na época, eram encontrados nos quintais das casas e nas fazendas e a bebida era consumida apenas pelas famílias. A mesma fonte também cita a situação da Freguesia de São Sebastião do Areado: 

Trata-se também atualmente da cultura do café, havendo já para cima de 150.000 pés plantados e em prometedor estado.

Entre as décadas de 1890 e 1910, as plantações de café se espalharam pelas regiões de Alfenas, Barranco Alto, Conceição da Boa Vista, São Sebastião do Areado e São Joaquim da Serra Negra. A importância da cultura, que competia com outras produções, foi aumentando gradativamente – inventários desta região no período entre 1887 e 1898 mostram 22 grandes fazendas de café. 

O Censo de 1920 já mostrava uma situação bem diferente: somente em Alfenas e em Areado foram encontradas 254 propriedades especializadas na produção de café, o que corresponde a quase ¼ das propriedades recenseadas. Os números apurados indicam a existência de quase 1,3 milhão e 1 milhão de pés de café em Alfenas e Areado, respectivamente. 

O escoamento da produção de então era feito, incialmente, quase que exclusivamente através dos trilhos do ramal da ferrovia Mogiana, que chegava até a cidade de Poços de Caldas. Tropas de mulas, como era o costume há época, carregavam as sacas de café desde as fazendas até a estação ferroviária. Já na década de 1890, começou a ser implantada a Estrada de Ferro do Muzambinho, que passou a permitir o transporte das cargas até portos fluviais no rio Verde e o seu transporte e integração com ferrovias que faziam a ligação de Minas Gerais com o Rio de Janeiro. 

Assim como aconteceu com outras regiões produtoras de café, as cidades do Sul de Minas Gerais também foram obrigadas a se adaptar à nova realidade da mão de obra depois da abolição da escravatura em 1888. A região recebeu grandes contingentes de imigrantes estrangeiros, especialmente italianos, que predominaram entre os desembarques entre os anos de 1895 e 1898. As cidades da região tiveram um aumento bastante expressivo em suas populações – um grande exemplo é a cidade de Machado, que entre 1872 e 1920 viu sua população aumentar em 45 vezes

Além de Alfenas, os cafeeiros se espalharam com força pelas regiões de Três Pontas, Guaxupé e Machado, transformando-se em uma importante fonte de riqueza. Porém, diferentemente do que aconteceu na Província de São Paulo, onde era praticada uma espécie de monocultura do café pelas grandes fazendas, no Sul de Minas Gerais foi mantida uma produção mais diversificada, onde se incluíam grãos como o milho, o feijão e o arroz, além da produção de cana de açúcar e a criação de gado vacum e suíno

Essa diversificação das culturas foi fundamental para garantir uma razoável estabilidade econômica nessa região durante as diferentes crises enfrentadas pelo comércio do café, especialmente a grande crise que se seguiu à quebra da Bolsa de Valores de Nova York em 1929. Enquanto muitos dos grandes fazendeiros paulistas foram à bancarrota como essa crise econômica sem precedentes até então, os mineiros conseguiram sobreviver e a cultura do café manteve a sua importância na região. 

A partir da década de 1960, a produção do café em Minas Gerais recebeu grandes incentivos governamentais e passou a crescer muito. Em 1970, a produção do Estado já era de 3,6 milhões de sacas anuais – em 1980, saltou para 8,1 milhões de sacas. Em 1985, Minas Gerais assumiu o posto de maior produtor brasileiro de café.  

Na década de 1990, a produção média foi superior a 10 milhões de sacas ao ano e, atualmente, essa produção já está próxima dos 25 milhões de sacas anuais. Nesse mesmo período, os grandes cafezais praticamente desapareceram dos Estados de São Paulo e do Paraná, que passaram a se dedicar a outras culturas como a cana de açúcar e a produção de grãos. 

Os problemas ambientais no Sul de Minas Gerais, é claro, foram os mesmos vistos em outras regiões – a derrubada de grandes extensões de matas – principalmente de Mata Atlântica (atualmente, regiões do Cerrado produzem variedades especiais de café) para a criação dos campos para o cultivo. Nesse quesito, as terras mineiras encontraram um sócio: os carvoeiros.  

Com a necessidade de grandes volumes de lenha e de madeira para a produção do carvão para os altos fornos das siderúrgicas, os carvoeiros deram uma bela ajuda aos cafeicultores fazendo a limpeza dos terrenos. 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s