A CHEGADA DOS CAFEZAIS AO NORTE DO PARANÁ

Cafezais e trilhos de trens sempre andaram juntos durante o pujante ciclo do café na Província de São Paulo. Conforme comentado em postagem anterior, os fazendeiros primeiro adquiriam grandes glebas de terras com matas virgens e as transformavam em grandes cafezais. Com o início da produção dos grãos, os ramais ferroviários eram construídos de forma a garantir o escoamento da grande produção. Essa facilidade de transporte também permitia a chegada de novos habitantes, o que consolidava ou levava à criação de novas cidades. 

Essa dinâmica se repetiu em grande parte do chamado Oeste Paulista e não foi diferente na região de Ourinhos, na divisa entre São Paulo e Paraná. A estação ferroviária da cidade foi inaugurada no final de 1908, consolidando toda a região de entorno como uma grande produtora de café. Meus avós moravam em uma cidade próxima – Assis, e eu lembro bem dos grandes cafezais que ainda existiam por lá no início da década de 1970. 

A grande facilidade logística criada para o escoamento da produção de café das fazendas paulistas da região também se refletiria na outra margem do rio Paranapanema, já em terras do Paraná. Desde meados do século XIX, agricultores paulistas e mineiros passaram a ocupar essa extensa região. A grande distância em relação aos grandes centros urbanos e as dificuldades para o transporte da produção limitaram, por várias décadas, um crescimento maior da região. A chegada da ferrovia e, sobretudo, o início da cafeicultura, mudariam para sempre os rumos do Norte do Paraná. 

O Norte do Paraná tinha exatamente as mesmas características físicas do Oeste Paulista – uma densa cobertura de florestas de Mata Atlântica, profundos solos de terra roxa, além de condições de pluviometria bem parecidas. A diferença mais marcante, por estar localizado mais ao Sul, era uma incidência maior de geadas, uma característica climática que não combina muito com os cafezais. Conforme já comentado, o café é uma planta que não tolera extremos climáticos, tanto o calor quanto o frio. Apesar disso, o café se deu muito bem nessa região. 

Antes da chegada dos primeiros colonizadores “brancos”, toda a região que se estendia entre os rios Paranapanema, Itarajé e Tibaji formava o grande território dos índios Guarani e Kaigang. Esses indígenas abriam pequenas clareiras no meio da densa floresta de Mata Atlântica, onde praticavam uma agricultura de subsistência e de baixo impacto ambiental.  

Conforme a colonização começou a avançar na região e as matas passaram a ser derrubadas para a criação de campos agrícolas, essas populações indígenas passaram a ser “empurradas’ na direção das margens do rio Paraná. Essa “desindianização”, me valendo aqui de um termo muito usado pelo antropólogo Darcy Ribeiro, não foi pacífica e ocorreram inúmeros embates entre colonos e índios. Esses mesmos problemas, aliás, já haviam ocorrido em terras do Oeste Paulista. 

Os municípios pioneiros em terras Norte-paranaenses foram São José da Boa Vista, Colônia Mineira – atual Siqueira Campos, Ribeirão Claro, Jaboticabal – atual Carlópolis, Águas da Prata – atual Jacarezinho, e Água do Lambari – atual Cambará. Como era usual há época, a estrutura de produção era formada por grandes latifúndios, onde imperava o patriarcalismo e todo o trabalho dependia da mão de obra escrava. 

Os cafezais começaram a se multiplicar na região no final do século XIX, especialmente nas cidades de Ribeirão Claro e Jacarezinho. Como era usual há época, a produção precisava ser transportada por tropas de mulas até os terminais ferroviários, onde então seriam embarcadas em vagões e transportadas até o Porto de Santos. Antes da construção do ramal que chegou até Ourinhos, o último terminal ferroviário ficava na região de Botucatu, distante quase 200 km e que nos dá uma ideia das dificuldades para o transporte das sacas de café no lombo dos animais. 

Com a valorização cada vez maior das terras no Oeste da Província de São Paulo nos primeiros anos do século XX, o Norte do Paraná passou a receber um número cada vez maior de agricultores paulistas, que buscavam na região terras com preços mais acessíveis. Entre esses recém chegados, houve um grande destaque – Barbosa Ferraz, um fazendeiro paulista que plantou 1 milhão de pés de café entre Ourinhos e Cambará. Graças a toda essa pujança, a produção cafeeira do Paraná suplantaria a de São Paulo em 1924. 

Essa fase inicial, conhecida por muitos como Ciclo do Café no Norte Velho do Paraná, se estenderá entre os anos de 1903 e 1929, período em que as regiões produtoras se concentravam nas proximidades do território paulista e no entorno da Estrada de Ferro Sorocabana. Durante grande parte desse período, a produção do café concorreria com a da erva-mate, considerada então a grande riqueza do Paraná

No início da década de 1930, o Governo do Paraná passou a criar uma série de incentivos para ampliar a colonização na sua região Norte. Foi construída uma extensão ferroviária até a cidade de Londrina e os produtores locais passaram a contar com uma isenção tributária ao exportar sua produção de café através do Porto de Paranaguá. O principal objetivo dessa política era acabar com o predomínio do Porto de Santos como grande exportador de café do Brasil. 

O Governo local também começou a distribuir lotes de terras para pequenos colonos, onde era possível o plantio de 3 a 4 mil pés de café. Esses produtores recebiam uma ajuda financeiro por um período de até 5 anos, prazo necessário para as plantas começarem a produzir. Um grande número de imigrantes, japoneses e italianos principalmente, conseguiu adquirir suas terras através desse projeto. Essa expansão, conhecida como Ciclo do Café no Norte Novo do Paraná, se estenderá até 1945. 

Após o final da II Guerra Mundial (1939-1945), os preços do café no mercado internacional começaram a subir, um movimento que estimulou uma nova onda de avanço dos cafezais em terras paranaenses. Esse ciclo é conhecido como Café no Norte Novíssimo do Paraná e representa o auge da cultura no Estado. A expansão dos cafezais seguiu cada vez mais na direção do rio Paraná, com uma derrubada de matas que pode ser classificada como “eufórica” – entre as décadas de 1950 e 1960, o Paraná foi o Estado brasileiro campeão em desmatamentos

O final desse ciclo, no início da década de 1970, foi marcado por uma fortíssima geada negra, responsável pela destruição de grande parte dos cafezais do Norte do Paraná. A partir desse traumático evento, a diversificação da produção agrícola em toda a região foi ampliada e os produtores passaram a investir cada vez mais em grãos como o trigo e a soja, além da criação de gado.  O reinado do café no Paraná chegou ao fim.

Nas áreas Central e Sul do Paraná, onde predominavam as Matas de Araucárias – um dos muitos subsistemas florestais da Mata Atlântica, a história foi diferente e os desmatamentos foram motivados pela grande exploração de madeiras. Os resultados para o meio ambiente, infelizmente, foram os mesmos. 

Falaremos disso na próxima postagem. 

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