OS DEJETOS SUÍNOS E A POLUIÇÃO DAS ÁGUAS EM SANTA CATARINA, OU A VINGANÇA DOS PORCOS CONTINUA

Na última postagem falamos de um grave problema ambiental que tomou conta da região Oeste de Santa Catarina no início da década de 2000. O forte crescimento da suinocultura nas pequenas propriedades rurais, sem sistemas adequados para o tratamento dos dejetos produzidos pelos animais, resultou na contaminação dos corpos d’água e numa crise sem precedentes no abastecimento de água das populações. 

A suinocultura sempre foi uma atividade tradicional em Santa Catarina, Estado que foi formado em grande parte por colonizadores de origem alemã, tradicionais apreciadores dessa carne. A partir da década de 1940, a criação tradicional dos animais passou a evoluir para uma escala comercial. Até a década de 1970, os produtores conseguiam lidar com os volumes de dejetos produzidos pelos animais e os problemas ambientais não eram tão grandes. 

Com um aumento cada vez maior no número de animais nas propriedades e com uma expansão cada vez maior das empresas e cooperativas de processamento de carne suína no Estado, os tradicionais sistemas de contenção de dejetos suínos nas propriedades rurais não conseguiam mais suportar os volumes de efluentes, que passaram a escorrer na direção dos corpos d’água e/ou infiltrar no lençol freático. Foi aí que começaram os grandes problemas de contaminação dos corpos d’água de uma extensa região com dejetos suínos. 

Conforme comentamos na postagem anterior, a suinocultura é classificada pelos órgãos ambientais como uma atividade poluidora do meio ambiente – cada suíno pode gerar diariamente um volume de 5% a 8% do seu peso em dejetos. A atividade também requer grandes volumes de água para a limpeza dos viveiros – somando-se os dejetos com a água consumida na limpeza são mais de 10 litros de esgotos a cada dia por animal

No ano 2000, quando esse problema começou a fugir do controle, Santa Catarina contava com um rebanho de mais de 4 milhões de porcos. Naquele ano a produção de carnes e frios atingiu a marca de 665 mil toneladas. O Estado respondia há época por 80% das exportações brasileiras de carne suína e seus derivados, com um faturamento de US$ 231 milhões. 

Para atender a toda essa demanda, cerca de 18 mil propriedades rurais se dedicavam à produção de suínos par venda industrial. A atividade era responsável por 18% do valor bruto da produção agrícola estadual. Esses números mostram a importância da atividade para a população local e justificam a pressão ecológica da suinocultura no Oeste catarinense. 

Se qualquer um dos leitores verificar na gondola de congelados de um supermercado, vai observar que os grandes frigoríficos que trabalham com carnes e produtos de origem suína ficam no Estado de Santa Catarina. Esses grandes grupos praticamente monopolizam a compra dos animais produzidos nas pequenas propriedades, ditando o preço a ser pago ao produtor. Sempre que situações de monopólio acontecem, um lado sempre sai perdendo – nesse caso, como se pode notar, são os pequenos produtores que ficam sujeitos às “regras” do mercado. 

A baixa rentabilidade dos produtores acaba impedindo que estes façam os investimentos necessários em infraestrutura para o tratamento dos dejetos suínos em suas propriedades. Grandes volumes de dejetos vão necessitar de instalações adequadas para o tratamento: uma ótima solução são os biodigestores e as lagoas facultativas com aeradores, que vão permitir a separação dos resíduos sólidos e tratamento dos efluentes antes do lançamento num corpo d’água, além de permitir uma destinação adequada ao lodo sanitário gerado.  

Os dejetos suínos são ricos em fósforo, potássio e nitrato, elementos essenciais para o enriquento de solos para uso agrícola. Ou seja, se devidamente processados e utilizados, esses dejetos deixam de ser um grave problema ambiental e se transformam em um importante insumo agrícola. A separação desses resíduos sólidos (lodo sanitário) dos efluentes líquidos é o primeiro passo para seu aproveitamento.

Relatórios da época mostravam que 75% das propriedades estavam em desacordo com a legislação ambiental. A maioria das propriedades rurais pesquisadas utilizava tanques de decantação para a separação dos efluentes líquidos dos sólidos (vide foto). Esse processo garante um pré-tratamento dos dejetos e uma grande redução da carga orgânica dos poluentes. Porém, verificou-se que a maioria desses tanques não possuía um revestimento no fundo, levando à infiltração de efluentes no solo e à contaminação das águas do lençol freático.  

Para o tratamento final dos efluentes, seria necessário utilizar, pelo menos, um tanque ou lagoa aerada para uma redução ainda maior da carga orgânica, o que poucas propriedades possuíam – os efluentes ainda com grande carga de poluentes eram lançados nos corpos d’água, levando ao já citado colapso do abastecimento das cidades. 

Apesar do custo proibitivo para a maioria dos pequenos produtores rurais, o tratamento dos dejetos de suínos através de biodigestores teria condições de resolver, ao mesmo tempo, o controle sanitário dos efluentes, a reciclagem orgânica dos resíduos para uso como fertilizante e também permitir o aproveitamento do gás gerado pela biodigestão anaeróbia dos resíduos.  

Esse biogás (gás metano) pode ser usado na produção de energia elétrica através de queima em uma turbina geradora a gás, garantindo a autossuficiência elétrica das propriedades e possibilitando a venda dos excedentes de produção para as distribuidoras de eletricidade da região, gerando uma renda extra para a complementação do orçamento das famílias. Já existem alguns projetos pilotos em andamento, porém em escala muito pequena para o tamanho dos problemas na região. 

Ao longo dos últimos anos diversas medidas foram e vem sendo tomadas com vistas ao controle da poluição gerada pelos dejetos suínos no Oeste catarinense, com bons resultados no combate à poluição dos mananciais. As autoridades ambientais passaram a visitar as propriedades rurais com maior regularidade, avaliando as medidas e infraestruturas que estão sendo usadas para o controle dos dejetos. Na grande maioria dos casos, bastaram a execução de pequenas obras civis para se atender os requisitos mínimos exigidos pela legislação. 

Com um controle maior nos despejos dos efluentes, houve uma melhora significativa na qualidade da água dos rios da região e a captação de água para as estações de tratamento pode ser regularizada. O abastecimento das populações, ao menos por enquanto, está garantido. 

Muita coisa ainda precisará ser feita ao longo dos próximos anos de forma a garantir que todos tenham direito ao acesso a água, tanto nas propriedades rurais quanto nas cidades. Além do controle cada vez mais rígido das fontes de poluição, serão necessários investimentos no reflorestamento e na recomposição de áreas que sofreram forte desmatamentos nas últimas décadas. Quanto maior a cobertura florestal de uma região, maior será a produção de água nas nascentes e fontes de água. 

Com a natureza é assim: as agressões ambientais têm um custo – mais cedo ou mais tarde a “fatura” acaba chegando… 

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