A REPÚBLICA DO ACRE

Luis Gálvez

Um capítulo interessante da história da Amazônia e que não costuma ocupar espaços relevantes nos currículos escolares é a Independência do Acre em 1899. Esse movimento surgiu a partir da ocupação de uma extensa região rica em seringais no Sudoeste da Amazônia e que pertencia originalmente à Bolívia. A partir de meados do século XIX, quando começaram a surgir as mais diversas aplicações industriais para a borracha vulcanizada, o látex se transformou no verdadeiro “ouro branco da Amazônia”. Aventureiros de todos os cantos do Brasil e do mundo começaram a se embrenhar na Floresta Amazônica em busca das seringueiras (Hevea brasilinesis), as árvores produtoras do látex. Um desses aventureiros foi João Gabriel de Carvalho e Melo, fundador do primeiro seringal do Acre e sobre o qual falamos na última postagem

A saga de João Gabriel no Acre teve início em 1878, quando ele funda o seringal Anajás na foz do rio Acre. Cerca de vinte anos depois, o território já contava com cerca de 400 seringais, em sua maioria pertencentes a brasileiros e tocados por seringueiros brasileiros. O problema é que essa região pertencia à Bolívia, país que estava muito incomodado com essa invasão de seu território por estrangeiros. Detentora de uma área substancial da Floresta Amazônica e de seringueiras nativas, a Bolívia também queria auferir altos ganhos com a comercialização do valioso látex e não poderia aceitar esse verdadeiro roubo da matéria-prima do seu território. 

Com a assinatura dos Tratados Madrid, em 1770, e de Santo Ildefonso, em 1777, Portugal e Espanha repactuaram a divisão dos seus territórios na América do Sul. Os termos do antigo Tratado de Tordesilhas de 1494 não estavam sendo respeitados há muito tempo. De acordo com esse tratado, o território onde se encontra o Acre pertenceria à Bolívia. A consolidação das fronteiras do Brasil à época de sua independência em 1822 seguiu os termos desses Tratados. Em 1867, o Brasil e a Bolívia assinaram o Tratado de Ayacucho, onde foram estabelecidas as bases para a futura demarcação da fronteira entre os dois países, o que ficaria vinculado à criação de uma comissão de demarcação binacional, o que não foi feito. Os seringalistas brasileiros se aproveitaram dessa falha e continuaram se estabelecendo sistematicamente e dominando toda a região. 

Pequenas guarnições militares da Bolívia faziam investidas regulares contra os seringais dos brasileiros, mas sempre acabavam sendo repelidos pelo fogo dos seringueiros, grupo formado em sua maior parte por sertanejos nordestinos habituados à “guerra de tocaia”. Sem conseguir obter êxito na expulsão dos brasileiros de seu território, em janeiro de 1899 a Bolívia resolveu instalar um posto alfandegário em Porto Alonso, conhecido atualmente como Porto Acre, na divisa com o Estado do Amazonas. Se não era possível expulsar os seringueiros do seu território, a Bolívia passaria então a taxar o látex “exportado”. Aqui é importante lembrar que o rio Purus era, há época, a via de escoamento de toda a produção do látex do Acre na direção de Manaus. 

Inconformados com essa medida do Governo boliviano, os colonos brasileiros se revoltaram e, sob o comando do advogado José de Carvalho, expulsaram todos os bolivianos da região no dia 30 de abril de 1899. Com o apoio do Governador do Estado do Amazonas, José Cardoso Ramalho Júnior, foram mandadas tropas formadas por aventureiros brasileiros e mercenários cubanos, sob o comando do espanhol Luís Gálvez Rodriguez de Arias (vide foto), que servira como embaixador da Bolívia em Belém. As tropas de Gálvez chegaram ao Acre no início do mês de julho – no dia 14 foi proclamada a República do Acre, um Estado independente do Brasil e da Bolívia. 

Gálvez assumiu o governo provisório, sendo chamado por muitos de “Imperador do Acre”. Cerca de seis meses depois, Gálvez sofreu um “golpe de Estado”, sendo substituído no governo provisório pelo seringalista cearense Antônio de Sousa Braga. Pouco mais de dois meses depois, Gálvez reassumiu o governo provisório. Em 15 de março de 1900, uma flotilha de guerra do Brasil chegou ao Acre, onde destituiu e prendeu Gálvez, devolvendo o território do Acre para a Bolívia, um ato que desagradou toda a população brasileira do território. 

Uma nova convulsão social tomou conta do Acre em novembro de 1900, quando uma força composta por brasileiros foi organizada com o objetivo de criar novamente uma república independente. Contando mais uma vez com o discreto apoio do Governador do Amazonas, essa expedição, que ficou conhecida como a Expedição dos Poetas e também como Expedição Floriano Peixoto, foi comandada pelo jornalista Orlando Correa Ferreira. O Governo do Amazonas tinha informações que davam conta de um suposto acordo entre a Bolívia e os Estados Unidos para a exploração do látex no território do Acre, algo que prejudicaria, e muito, os seringalistas brasileiros. 

A base de operação dos revoltosos foi o vapor Solimões que operava na rota do rio Purus até Manaus. Os revoltosos tomaram um vapor boliviano, o Alonso, que foi renomeado como Rui Barbosa. Esse grupo de revoltosos, que contava com cerca de 200 homens, um canhão leve e uma metralhadora, atacou Puerto Alonso no Natal daquele ano, sendo derrotado pelas tropas bolivianas e perdendo a maior parte dos seus armamentos. Terminava sem começar a chamada “Segunda República do Acre”. 

Uma “Terceira República do Acre” chegou a ser proclamada sob o comando de Plácido de Castro, um militar gaúcho que foi contrato pelos seringalistas acreanos em 1902 para treinar e liderar uma tropa de 2 mil seringueiros. Em 6 de agosto de 1902, Plácido de Castro liderou um grupo de 32 homens, subindo o rio Acre e atacando a intendência da Bolívia na cidade de Xapuri, onde aprisionou todos os militares bolivianos. Tropas bolivianas contra-atacaram em 18 de setembro, forçando Plácido de Castro a uma retirada estratégica, quando perdeu mais da metade dos seus comandados. Voltando a se reunir com suas tropas, Plácido de Castro iniciou uma campanha contínua contra diversas cidades do território, vencendo a maior parte dos confrontos contra as forças da Bolívia. Em 27 de janeiro de 1903, foi proclamada a Terceira República do Acre, onde foi estabelecido um governo militar sob comando do General Olímpio da Silveira. 

Essa nova “República” contava com o apoio do Presidente do Brasil há época, Rodrigues Alves, e do Ministro do Exterior, o Barão do Rio Branco. A situação da ocupação desse território boliviano por brasileiros passou a ser considerada irreversível e o Governo brasileiro resolveu partir para uma negociação diplomática junto ao Governo da Bolívia. Em 21 de março de 1903, o Brasil e a Bolívia assinaram um acordo preliminar, que posteriormente foi retificado pelo Tratado de Petrópolis em 17 de novembro de 1903, a partir do qual o Acre passou a ser território brasileiro

Pelos termos do Tratado de Petrópolis, a Bolívia abriria mão de todo o território do Acre. Em troca, o Brasil pagaria uma indenização de 2 milhões de libras esterlinas, além de transferir para a Bolívia faixas fronteiriças de terras no Estado de Mato Grosso. O Brasil também assumiu o compromisso de construir uma ferrovia ligando o rio Mamoré, que marca a fronteira entre o Brasil e a Bolívia, com o trecho navegável do rio Madeira, a partir da cidade de Porto Velho, no atual Estado de Rondônia. Essa ligação, batizada como Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, possibilitaria o escoamento da produção de látex da Bolívia através dos rios da Bacia Amazônica e marcaria um outro importante capítulo da ocupação e história da Amazônia. 

Falaremos disso em nossa próxima postagem. 

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