E O CAFÉ CHEGA NO VALE DO PARAÍBA EM SÃO PAULO

Monteiro Lobato (1882-1948) foi um importante jornalista, escritor e editor de livros, principalmente de obras infantis muito conhecidas como o Sítio do Pica Pau Amarelo e seus inesquecíveis personagens – Narizinho, Pedrinho, Dona Benta, Tia Anastácia e a impagável boneca de pano Emília. Natural da cidade de Taubaté, no Vale do rio Paraíba em São Paulo, Monteiro Lobato foi uma espécie de “testemunha ocular” dos impactos sociais e ambientais deixados pela cafeicultura na região. 

Uma das primeiras e mais marcantes obras de Monteiro Lobato foi o livro de contos Cidades Mortas, onde apresenta a realidade das antigas cidades produtoras de café da região, que viveram um período de esplendor entre as décadas de 1850 e 1870, caindo no mais completo ostracismo após o colapso da produção. Já há época de sua infância, Monteiro Lobato conheceu grandes fazendas com suas antigas sedes-palacetes completamente abandonadas. Nas antigas cidades da região, que tiveram dias dos mais frenéticos no auge da cafeicultura, o que se ouvia agora era apenas um doloroso silêncio. 

“Ali tudo foi, nada é. Não se conjugam verbos no presente. Tudo é pretérito!” 

O Vale do Paraíba, a ligação natural entre São Paulo e Rio de Janeiro, foi a porta de entrada do café no Estado de São Paulo, transformando-se em poucos anos numa extensão natural do trecho fluminense do médio rio Paraíba do Sul, o primeiro grande cenário da cultura cafeeira no Brasil. As condições naturais da região eram esplendidas e muito similares as do interior do Rio de Janeiro: altitudes entre 300 e 900 metros, com temperaturas dentro dos limites ideais para o café e ciclo de chuvas regulares.  

Outro ponto forte da região eram os relevos acidentados das encostas da Serra da Mantiqueira, que proporcionavam proteção contra os ventos, um fator importante para uma planta arbustiva como o café. O Vale do Paraíba em São Paulo, em meados do século XIX, tornou-se um grande centro condensador de população e de riqueza do Brasil, atraindo grandes fazendeiros das já decadentes terras fluminenses.   

Como já havia acontecido em outras regiões tomadas de assalto pela cultura cafeeira, toda esta prosperidade não durou muito tempo. A produção entrou em decadência por volta de 1875 devido ao esgotamento dos recursos naturais da região. Os terrenos locais apresentam forte declividade e não suportaram por muito tempo a supressão da cobertura vegetal e a exposição do solo à ação das intempéries – o trabalho da erosão foi muito rápido.  

Os cafeicultores da região, repetindo os mesmos erros de outras terras, agiram sem o menor cuidado no manuseio dos solos. A mata foi arrasada sem nenhum critério, mesmo nas partes mais altas dos terrenos; plantou-se o café sem outra preocupação senão o lucro imediato. O sistema de cultura implantado distribuiu as plantas em linhas retas, perpendiculares às encostas dos morros, quando a forma ideal de plantio era em curvas de nível. Não poderia ter sido utilizada técnica mais favorável à erosão.   

Conforme já comentamos em outras postagens, esse plantio do café em linhas retas tinha uma forte razão operacional – visibilidade. Um capataz montado em seu cavalo poderia acompanhar o trabalho de um grupo entre 100 e 150 escravos a partir da base do terreno. Se o café fosse plantado acompanhando as curvas de nível das encostas, como manda a boa prática agrícola, os escravos ficariam escondidos atrás das plantas e a “produtividade” seria bem menor.  

Os impactos nessa região, sobretudo nas encostas da Mantiqueira, foram a intensificação dos usos e ocupação das terras antes recobertas pela primitiva Mata Atlântica, deixando como herança o aumento da degradação ambiental, o manejo inadequado dos recursos naturais, o desrespeito à topografia acidentada e a devastação extensiva da cobertura vegetal. A somatória de todos esses problemas promoveu o empobrecimento e a exaustão quase completa dos solos, intensificando os processos erosivos e transformando-os em pastos.  

Bastaram uns poucos decênios para a produção cafeeira apresentar rendimentos aceleradamente decrescentes, com enfraquecimento das plantas e o aparecimento de pragas destruidoras. Nas palavras de Caio Prado Junior, “inicia-se então a decadência com todo seu cortejo sinistro: empobrecimento da população, abandono sucessivo das culturas e rarefação demográfica”.  

Como aconteceu em terras fluminenses, capixabas e mineiras há mesma época, o golpe final contra a cafeicultura foi a Abolição da Escravidão no Brasil, oficializada com a assinatura da Lei Áurea em 1888. As bases econômicas que balizavam a cultura até aquele momento, os baixos custos das terras, a farta mão de obra escrava, e, por fim, a chegada das estradas de ferro, caíram por terra e não voltariam mais a se reestabelecer. 

Desde meados do século XIX, diversos movimentos abolicionistas começaram a surgir por todo o país, exigindo o fim do regime escravocrata no Brasil. A partir da década de 1870, surgiram os primeiros mecanismos legais com o objetivo de enfraquecer o uso de mão de obra escrava. A Lei do Ventre Livre, assinada em 1871, declarava que os filhos de mulheres escravas eram livres. Em 1885, foi promulgada a Lei dos Sexagenários, que tornava automaticamente livres escravos que completavam 60 anos de idade. 

Inebriados pelos rios de dinheiro proporcionados pela produção e exportação do café, a imensa maioria dos grandes produtores preferiu fazer “vista grossa” a todos esses movimentos e continuaram a agir “enlouquecidamente”. Apesar de todas as dificuldades práticas e legais que estavam surgindo, havia um grande “mercado negro” (nenhuma referência aqui a cor da pele dos africanos) para a compra e venda de escravos.  

Como não era usual a emissão de certidões de nascimento para os escravos (as certidões de batismo até valeriam como documento), era muito difícil comprovar se uma criança havia nascido após 1871 ou se um idoso tinha realmente mais de 60 anos de idade. Os vendedores das “peças” alegavam que não dispunham de tais documentos e os compradores, os grandes fazendeiros do café, faziam corpo mole e diziam que fizeram as compras sem ver “os produtos”. Como não é de hoje que “quem detém o poder econômico, detém o poder político”, ficava tudo como estava. 

Muitos fazendeiros paulistas até tentaram fazer acordos de parceria com imigrantes europeus que passavam a chegar em grande quantidade à Província, mas a grande maioria não logrou sucesso. Os imigrantes receberiam um lote de terras para trabalhar e dividiriam os lucros da produção e venda do café com os fazendeiros. Esse sistema não funcionou por duas razões principais – o estado de esgotamento dos solos estava em níveis muito altos e os fazendeiros queriam ficar com a maior parte dos rendimentos.  

O tratamento dado as famílias dos imigrantes, que estava muito próximo daquele dado aos antigos escravos, levava ao abandono das terras e uma busca por novas alternativas. Os grandes fazendeiros tinham uma enorme dificuldade para entender que os imigrantes eram pessoas livres e não “propriedades”, como os escravos, não se submetendo às vontades, mandos e desmandos dos cafeicultores. 

O Oeste Paulista, com seus famosos e férteis solos de terra roxa e relevo muito menos acidentado, acabou se transformando numa alternativa ao Vale do Paraíba. Rapidamente, as grandes plantações de café migraram para essas novas terras, deixando para trás uma “terra devastada”, como já era rotina. A opção econômica que restou ao Vale do Paraíba em São Paulo foi a produção leiteira – as antigas áreas de Mata Atlântica foram transformadas em pastagens para o gado. 

Um fim melancólica para uma das florestas com a maior biodiversidade do mundo.

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