FOSSAS SÉPTICAS E O PRÉ TRATAMENTO DOS ESGOTOS

Fossa séptica

O historiador francês Marc Bloch (1886-1944) afirmava que “nada melhor para um historiador do que uma fossa honesta.” Usadas desde o início da civilização, as fossas eram uma ótima alternativa para a eliminação dos esgotos de uma residência. Para um historiador ou um arqueólogo, a “leitura” das diferentes camadas de resíduos possibilita visualizar como era a vida dos antigos moradores – a análise química dos sedimentos permite que se identifique os padrões de alimentação ao longo de cada uma das gerações que ali viveram, os tipos de doenças que afetavam as pessoas, períodos de fome e de carência de alimentos; essas informações íntimas das famílias, associadas a relatos escritos e aos vestígios arqueológicos permitem que se reescreva o passado de diferentes povos.

As fossas sanitárias, conforme comentado no post anterior, podem ser dividas em dois grupos básicos: as fossas negras, que nada mais são do que um poço cavado no solo e que serve para filtrar os dejetos sólidos dos esgoto – os efluentes líquidos infiltram livremente no solo; o segundo grupo são as fossas sépticas – essas instalações são mais complexas e tem como importante diferencial a capacidade de tratar grande parte dos esgotos sanitários. Vamos entender melhor isso.

A fossa séptica é construída na forma de um tanque com fundo e paredes impermeáveis, tampa lacrada e com capacidade para armazenar o volume de esgotos de um dia de uma residência. Só para relembrarmos, considerando o consumo diário de água por pessoa entre 150 e 200 litros ao dia, uma família com cinco pessoas vai gerar até 1.000 litros de esgotos por dia. Os esgotos lançados entram por uma tubulação em uma das laterais do tanque, se misturando com os efluentes que já estão acumulados . O material sólido presente nos esgotos vai se depositar no fundo do tanque e passa a ser consumido pelas bactérias anaeróbicas; essas bactérias não dependem do ar atmosférico para respirar – retiram oxigênio a partir dos processos de decomposição da matéria orgânica. Tratar esgotos domésticos é, em essência, convidar as bactérias decompositoras para o jantar – essas bactérias consomem toda a matéria orgânica presente nos efluentes, transformando-a no chamado lodo sanitário, que nada mais é que um composto de materiais inertes que vão se depositando no fundo do tanque.

Uma fossa séptica bem projetada e bem construída realiza o chamado tratamento primário dos esgotos. Esse tratamento permite a remoção dos sólidos em suspensão entre 50 e 70%, eliminação entre 40 e 60% dos bacilos e bactérias e a redução entre 70 a 90% das gorduras presentes nos efluentes – isso representa uma redução muito significativa da carga poluidora e contaminante dos esgotos. É importante observar que esse processo de tratamento dos esgotos é totalmente natural e não requer a adição de nenhum tipo de produto químico ou uso de energia.

No topo do tanque da fossa é instalado uma tubulação para drenar gradativamente o excesso de efluentes à medida que novos volumes de esgotos são lançados a partir do imóvel. Nos modelos mais simples de fossa séptica esse efluente, com a carga de poluentes já bastante reduzida, é lançado dentro de um tanque menor com fundo permeável para a infiltração da água no solo. Modelos mais sofisticados de fossa possuem de 2 a 3 tanques sépticos em sequência, onde o processo de tratamento é repetido, conseguindo-se assim uma redução ainda maior dos níveis de matéria orgânica e contaminantes dos esgotos; a água que vai ser lançada no solo terá um nível de contaminantes muito reduzido, apresentando um risco menor de contaminação das águas do lençol freático.

Um dos inconvenientes das fossas sépticas é a necessidade de limpeza periódica para a remoção do lodo sanitário que foi se acumulando ao longo do período de uso. Essa limpeza é feita através de um caminhão limpa-fossa, que faz a sucção do lodo através de uma bomba e de mangueiras – por esta razão, as fossas sépticas devem ficar em um local acessível para a entrada deste caminhão.

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