O COMPLEXO LAGUNAR GUAÍBA / LAGOA DOS PATOS

Junqueiro do bico reto

Quando olhamos a região das planícies úmidas onde está inserida a Lagoa do Patos e o Lago Guaíba a partir de uma certa altitude – imagine que você está usando um software como o Google Earth, percebemos claramente que a região inteira forma um grande mosaico de ecossistemas interdependentes, com rios, arroios, lagos, banhados, campos e dunas. Sob este ponto de vista, você irá verificar que os poluídos rios dos Sinos, Gravataí e Caí, além do importante rio Jacuí, são os grandes fornecedores de água do sistema. Uma enorme mancha urbana na porção Norte da área representará a Região Metropolitana de Porto Alegre. Observando com um pouco mais de atenção, você vai verificar que a área onde fica o município de Porto Alegre forma uma espécie de “ilha”, cercada pelas águas do Guaíba, Delta do Jacuí, rio Gravataí e áreas úmidas no trecho que segue em direção ao Oceano Atlântico – minha última postagem, quando falei da perda de biodiversidade no Lago Guaíba, se concentrou nesta área. Os problemas de perda de biodiversidade, infelizmente, são muito maiores e ocorrem em toda essa macrorregião lagunar. As alterações observadas nas populações de aves da região sintomatizam os problemas.

O Estado do Rio Grande do Sul possui um total de 661 espécies de aves catalogadas, sendo que, desse total, cerca de 130 estão ameaçadas de extinção. As causas do desaparecimento das espécies se devem, especialmente, à destruição dos habitats pelo desmatamento e avanço das fronteiras agrícolas, poluição das águas e impactos de todos os tipos em antigos refúgios naturais como as planícies úmidas entre o Lago Guaíba, a Lagoa dos Patos e os campos e dunas ao longo do litoral – nesta extensa região, há registros de mais de 250 espécies de aves.

Numa rápida consulta a Lista das Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção no Rio Grande do Sul, encontramos diversas espécies que tem habitat fixo ou temporário (no caso das espécies migratórias), na região das planícies úmidas: maçarico-acanelado (Calidris subruficollis) – migratória, Gaivota-de-rabo-preto (Larus atlanticus), curiango-do-banhado (Hydropsalis anômala), Junqueiro-de-bico-reto (Limnornis rectirostris), Boininha (Spartonoica maluroides), Estalador (Corythopis delalandi), noivinha-de-rabo-preto (Xolmis dominicanus), coleiro-do-brejo (Sporophila collaris), veste-amarela (Xanthopsar flavus), albatroz-de-tristão (Diomedea dabbenena), albatroz-errante (Diomedea exulans) – migratória, albatroz-de-nariz-amarelo (Thalassarche chlororhynchos) – migratória, Petrel-gigante-do-sul (Macronectes giganteus) – migratória, pardela-preta (Procellaria aequinoctialis), pardela-de-óculos (Procellaria conspicillata), gavião-cinza (Circus cinereus), entre outras.

Além dos problemas associados à poluição das águas, com todos os impactos na vida das criaturas aquáticas, tema que já tratamos em sucessivas postagens, as ameaças a avifauna tem outros componentes – a destruição e redução de habitats é uma das principais. Dois exemplos:

– O Mexilhão Dourado (Limnoperna fortunei), sobre o qual já falamos em postagens anteriores, é um molusco originário de rios do sudeste asiático e que chegou na América do Sul na década de 1990, muito provavelmente na água de lastro de cargueiros lançadas nas águas do rio da Prata. A espécie invasora rapidamente colonizou os rios Uruguai, Paraná, Paraguai, Grande e Parnaíba, além de invadir a Lagoa dos Patos e o Lago Guaíba – já existem registros do mexilhão dourado nas ilhas do Delta do Jacuí.

Uma característica do mexilhão dourado é a sua preferência pelas raízes das plantas aquáticas, onde se fixa e passa a se alimentar de plâncton e fitoplanton que filtra das águas. A presença do molusco nas raízes enfraquece as plantas, que sucumbem à força dos ventos e das ondas. Um exemplo são os juncos, encontrados em grande quantidade nas margens dos corpos d’água e áreas úmidas. Com a redução das áreas de juncos, várias espécies de aves perdem suas áreas de nidificação e alimentação – um exemplo é o Junqueiro-de-bico-reto (Limnornis rectirostris – vide foto).

– Um outro problema que vem causando forte impacto neste complexo ecossistema é a perda contínua de áreas para a agricultura. Vou citar como exemplo a Reserva Ecológica do Taim, localizada entre a Lagoa Mirim e o Oceano Atlântica. A área ocupada pela reserva é de 10.938 hectares – a área original do banhado já foi 10 vezes maior e sucumbiu diante do avanço dos cultivos de arroz.

O avanço do mexilhão dourado e a destruição dos juncais lembra um caso parecido – a caça indiscriminada da lontra marinha (Enhydra lutris), prima da nossa lontra (Lontra longicaudis), no Nordeste do Oceano Pacífico e a morte das florestas de kelps, uma espécie de alga gigante. A espessa pele da lontra marinha era muito cobiçada em épocas passadas e o animal foi caçado entre 1741 e 1911 até beirar a extinção. Com o desaparecimento das lontras, os ouriços-do-mar, um dos alimentos preferidos das lontras, começaram a se multiplicar sem controle – o animal passou a comer as raízes dos kelps, o que reduziu imensamente as suas florestas. Os kelps eram áreas de abrigo e reprodução de peixes e crustáceos, que simplesmente desapareceram da região, com fortíssimos impactos na pesca regional. Quando a caça à lontra foi proibida, a espécie se recuperou e voltou a manter os ouriços-do-mar sob controle – as florestas de kelps voltaram a se expandir, para a alegria de milhares de pescadores. Observem que houve uma verdadeira “reação em cadeia” de ida e volta. É exatamente isto que está acontecendo com diversas espécies de aves nas regiões lacustres do Rio do Grande do Sul com o avanço do mexilhão dourado e a destruição dos juncais, sem que tenhamos descoberto uma forma de controlar a expansão do molusco.

O controle das fontes de poluição das águas e impedimento do avanço da agricultura nas áreas úmidas representam uma parte importante para solução dos problemas da avifauna nas planícies úmidas do extremo Sul. Já o controle do avanço do mexilhão dourado ainda não é possível, justamente pela falta de um predador natural como as lontras marinhas comedoras dos ouriços.

Faço votos que, enquanto escrevo está postagem, em algum lugar nas margens do Guaíba, uma lontra gordinha e dentuça descubra um jeito de dar uma “coelhada” para quebrar a casca de um mexilhão dourado e que goste do petisco. Como não há, acredito eu, uma Universidade das Lontras, essa técnica de caça será passada apenas para os descentes desta lontra, que ao longo de muitas gerações poderá até formar uma nova espécie – a Lontra monicaes (estou, é claro, fazendo referência neste comentário à impagável Mônica do desenhista Maurício de Sousa). Quando algo parecido com isso acontecer, o descontrole das populações do mexilhão dourado estará com seus dias contados.

Já existem muitas iniciativas para a preservação da região: o Parque Estadual de Itapuã, no encontro das águas do Guaíba com a Lagoa dos Patos é uma delas. O Parque apresenta ambientes de morros, praias, dunas, lagoas e banhados dentro da Região Metropolitana de Porto Alegre. Entre as espécies protegidas estão o bugio-ruivo (Aloutatta guariba), ameaçado de extinção, a nossa lontra (Lontra longicaudis), o gato-maracajá (Leopardus wiedii), e também aves migratórias como o maçarico-acanelado (Tryngites subruficollis) e o suiriri (Tyrannus melancholicus). Outro exemplo é a Reserva Biológica do Lami. Localizada a cerca de 50km da área central Porto Alegre, a Reserva margeia o Guaíba e protege uma área de transição entre a Mata Atlântica e os Campos Sulinos. Entre algumas raridades destaca-se a Ephedra, uma planta que foi a motivação inicial para criação da reserva na década de 1970.

Que surjam muitas outras iniciativas como essas enquanto a nossa Lontra monicaes não desponta…

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